Enfim, o pragmatismo político

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Se há um tema que já citei várias vezes e para o qual não fiz ainda um texto detalhando-o é este: o pragmatismo político. Como consequência, já fui mal compreendido diversas vezes. Por isso é hora de tratar o pragmatismo político.

Aqui está uma boa definição, que não tem como pretensão encerrar a discussão: “a ação política orientada principalmente a resultados, ainda que orientada por princípios e valores sólidos”.  Isto é, não significa que o pragmático não tem valores, mas que busca “negociar” em prol de ações que gerem resultados contínuos que, pouco a pouco, vão se encaixando com nossos princípios e valores.

O pragmatismo político seria oposto ao purismo político. E, para esclarecer um ponto essencial (antes que os mais puristas fiquem ofendidos), tanto pragmatismo como purismo são questões de grau. Ninguém é 100% pragmático e ninguém é 100% purista. Mas é muito fácil definir quem tende mais ao pragmatismo que ao purismo, e vice-versa, como diria o ex-atacante Jardel, do Grêmio.

Vejamos um exemplo óbvio. É fácil definir o PT como um partido essencialmente pragmático, especialmente pelas alianças que fez. E isso é respaldado por uma multidão de petistas militantes que também são pragmáticos.

Hoje temos muitos petistas reclamando a torto e a direito da indicação de Kátia Abreu ao Ministério da Agricultura. Mesmo reclamando, quase todos os petistas não abandonarão o partido. Longe disso, eles irão pressionar o PT como se estivessem em uma negociação. Quase que dizendo: “Ok, vocês querem nomear Kátia Abreu. Então queremos (x)”. Tal comportamento é pragmático até a medula.

À medida que víamos petistas reclamando do próprio PT enquanto faziam pressão positiva (e construtiva), era possível observar alguns leitores de direita reclamando de meu apoio ao PSDB, dizendo coisas como:

  • O PSDB não reclamou das urnas eletrônicas, então está mancomunado com o PT
  • O PSDB assinou o Pacto de Princeton, logo é “brother do PT”
  • O PSDB aprovou conselhos soviéticos recentemente em São Paulo
  • Aécio Neves e Aloysio Nunes não votaram contra a Lei do Calote (nota: é claro que não, pois eles estavam obstruindo a votação)
  • O PSDB não quis o apoio de Jair Bolsonaro
  • O PSDB votou pelo Marco Civil

E a lista pode seguir ad aeternum e sempre é preenchida por diversas fontes. As demandas são diversas e até díspares entre elas:

  • Pedidos de desistência dos políticos em geral para pedidos por intervenção militar
  • Pedidos de desistência da democracia por soluções diferentes e “inovadoras”
  • Pedido de desistência do PSDB para votar em Jair Bolsonaro para presidente em 2018
  • Pedido de desistência do PSDB para focar talvez no DEM mas preferencialmente no NOVO
  • Pedido de desistência do PSDB e do DEM para focar no NOVO
  • Pedido de que todos adotem o niilismo político
  • Pedido para que todos fujam do Brasil

Só que isso não é novidade e também existe do lado de lá. Veja o texto Política e Fé, de André Falcão, publicado no Pragmatismo Político (blog petista):

Tenham dó! Política não é profissão de fé, tampouco fé tem alguma coisa a ver com política ou o que mais da vida mundana. No exercício da minha fé em algo que acredito ser Maior — a que, particularmente, chamo Deus —, peço-Lhe, entre outras coisas (sou nada econômico nesse quesito, diga-se), para me dar compaixão, generosidade, saúde, luz, tolerância, humildade, coragem, força, fé. No exercício da luta política, que já é naturalmente outra coisa, esforço-me por um mundo melhor, com as armas que acredito sejam as possíveis e, dentre essas, as melhores. É simples assim.

Vez por outra sou abordado por gente dizendo-se decepcionada porque “acreditava” no PT, e em Lula, até em Dilma (apesar de muitos a terem considerado um poste; poste de muita luz, diria eu), mas que agora estaria estarrecida com a roubalheira que estaria sendo patrocinada por aquele partido, de que é exemplo mais recente a Lava-Jato e, mais famoso, o Mensalão. É, pois, o momento de pelo menos exercitar a tolerância, a compaixão e a humildade concedidas.

Política não é profissão de fé! Quando muito é mera fonte e arcabouço de expectativas. Expectativas não são pra quem quer ter, mas pra quem pode. Expectativas ajudam a viver, mas são terríveis quando frustradas. E elas não raro o são porque a gente não sabe lidar com elas, já que toda expectativa pode trazer em si mesma dolorosa frustração, mais culpa nossa do que dela.

Porém, até pra tolice há limite. Sabe-se que os desvios de dinheiro público — notadamente aqueles para proveito particular — não são privilégio dos governos do PT ou de seus aliados. E você sabe que por mais que existam padres pedófilos, tarados ou predadores da fortuna do Vaticano; empresários corruptores, sonegadores, escravagistas e exploradores da mão-de-obra; milicos assassinos, covardes, torturadores, ladrões; juízes vendedores de sentença e da própria alma, não se pode confundi-los com a Igreja Católica, com o empresariado inteiro, com nossas Forças Armadas, tampouco com o Poder Judiciário. E ao que se saiba, você continua catolicozinho-da-silva…

Você sabe. Então, se por tolice você se diz decepcionado e desacreditado, receba essas palavras e minha compaixão. Depois analise, leia, investigue, acresça outras leituras às suas já costumeiras (e parcialíssimas) fontes de manipulação. Mas se o que você quer mesmo é arranjar um pretexto pra estar do lado do que de pior existe na política, faça “bom” proveito.

Eu não concordo com a ética petista, e sei que as argumentações de defesa do PT, usadas por Falcão, estão mais furadas que tábua de pirulito. Mas a argumentação dele em prol do pragmatismo político está correta. De acordo com o sistema moral dele, é razoável que ele apoie o PT.

Ele definiu suas prioridades, e sabe que há “titãs” na política, que hoje são o PT e o PSDB. De acordo com suas prioridades e objetivos, ele sabe que tratar PT e PSDB “como se fossem farinha do mesmo saco” prejudicaria os seus interesses. Ele é bem claro e até agressivo ao tratar os mais puristas como pessoas querendo “arranjar um pretexto pra estar do lado do que de pior existe na política”.

Para o purista, é muito fácil sentenciar que “não há diferenças entre opções (x) e (y)”, mesmo quando essas duas opções não são viáveis. Porém, quando olhamos planos, consequências, habilidade, alinhamento com coletivos não-eleitos, etc… sempre vemos que não dá para supor essa similaridade de opções.

Ainda que eu não tenha o PSDB como o partido preferido, vejo que a mente purista tende a descartá-los de uma vez por todas. A partir daí, quando perguntarmos quais os próximos passos para as próximas votações, quais as ações de pressões a serem exercidas e qual a carga de esforço na comunicação com os partidos, sempre em direção de irmos obtendo resultados, não vejo respostas concretas, apenas manifestações vagas sem conexão com resultados.

No fim das contas, aquele mais focado no purismo sempre irá arrumar algum motivo para não tomarmos nenhuma opção dentre aquelas mais próximas a nós. Os mais pragmáticos serão muito mais críticos nas alegações tentando igualar duas opções.

Eu, como pragmático, defendo que devemos ter objetivos, e entendo que os próximos objetivos devem ser derrubar os projetos totalitários do PT. Voto pela criação de uma completa rejeição social a esses projetos, conversando com as pessoas a respeito dos danos que isso pode causar. Assim, a derrubada do Decreto 8243, se ocorrer, será uma conquista em relação a esse objetivo maior (salvar a democracia brasileira). O pronunciamento de um deputado do PSDB, do DEM ou mesmo do PMDB ou do PP, contra um projeto de censura de mídia é também um resultado. Ou seja, existem sempre possíveis resultados em direção a objetivos. E adianto para dizer que isso não exclui o fato de que eu acho a possível aprovação do NOVO uma das ideias mais interessantes da política nacional.

Alguém defende outro objetivo? Ok, que o faça. Mas que o apresente à mesa para discussão, sempre pautada em resultados, de preferência que sejam factíveis e rápidos de serem conseguidos. Isso é pensar pragmaticamente. Dessa forma, eu não quero reduzir o pragmatismo às minhas demandas, mas até mesmo abrir a discussão para outras solicitações, diante de outros objetivos (desde que distantes dos objetivos do PT, evidentemente), mas sempre com o foco em resultados.

Foi com esse tipo de foco que, mesmo tendo sido um crítico forte das alternativas escolhidas pelo Revoltados On Line, os elogiei pelos resultados (materializados na pressão lançada sobre o PT e seus aliados, mesmo com a aprovação da Lei do Calote) das manifestações diante do Congresso.

Hoje em dia os petistas são muito mais seletivos no momento de afirmar “tanto faz um quanto faz outro”. Eles sabem que, independente de alguma insatisfação com o PT, eles tem um objetivo, um caminho, e precisam escolher dentre as opções.

O pragmatismo entre os petistas é muito maior do que em qualquer outro partido. Entre os adeptos da social democracia, também há algum pragmatismo. Entre os direitistas, no entanto, é possível notar o ainda emergente interesse por posições mais pragmáticas. Um exemplo foi a manifestação do dia 06/12, com uma agenda muito mais inclusiva do que seria de se esperar de uma direita mais tradicional.

A demanda por um pragmatismo na direita existe. É um fato. Os puristas devem aprender a conviver com isso, pois, dialeticamente, a visão pragmática não exclui os puristas, mas dialoga com eles.

Em tempo: qual o meu partido? Eu não tenho nenhum, mas tenho gostado muito das posturas mais incisivas de Aécio, Aloysio e outros do PSDB, embora esteja muito decepcionado com Alckmin. O pessoal do DEM tem me surpreendido ainda mais. E estou empolgado para ver o surgimento do NOVO, pois é dali que parecem surgir novidades.

Se alguém não concordar, dizendo que o PSDB deve ser “abandonado” em prol de alguma outra coisa, eu, como pragmático, ficarei muito feliz em ouvir alternativas. Pragmaticamente, é claro.

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19 COMMENTS

  1. Ótimo artigo, Luciano.
    Acho que a Direita e a oposição precisa saber principalmente aprender a lançar frames.

    Luciano, você pode fazer uma postagem sobre o duplo padrão moral da esquerda e o apoio massivo da mídia às causas esquerdistas mostrando o caso do assassino no Rio que matava apenas mulheres brancas (escolhia somente brancas) comparando com aquele caso de racismo da torcedora do Grêmio?
    Note que a mídia não deu a devida atenção ao sério caso e os tais “movimentos sociais anti-racismo” não falaram absolutamente nada.

    http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/12/serial-killer-identifica-mais-2-mulheres-que-matou-no-rj-diz-delegado.html

    http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/12/homem-confessa-ter-assassinado-mais-de-40-pessoas-no-rj.html

  2. Quando o sr. Lula se gabou, LITERALMENTE, de haver tentado estuprar um companheiro de cela, a tropa comunopetista em peso correu para dar à confissão escandalosa o sentido de mero gracejo. Já o sr. Bolsonaro diz literalmente que NÃO ESTUPRARIA JAMAIS a sra. Maria do Rosário, e a mesma turma vê nisso uma confissão de crime.

    Será preciso mais para provar que se trata de mentalidades psicopáticas, sem o menor vestígio de consciência moral?

    Pior: o sr. Lula, quando disse o que disse, agiu espontaneamente, por vontade própria, sem nenhuma provocação externa, e o deputado Bolsonaro, com sua declaração, reagiu apenas, com sarcasmo hiperbólico, a uma provocação mortalmente ofensiva que, sem a menor razão, lhe fora dirigida pela sra. Maria do Rosário. Em qual dos dois casos cabe mais apropriadamente falar de “confissão de crime”?

    No caso do deputado Bolsonaro, o sentido sarcástico do que ele disse é auto-evidente. Na declaração do sr. Lula não havia motivo para sarcasmo, já que ele não estava discutindo com ninguém, e a hipótese foi concebida “ex post facto” só para atenuar o vexame. Se um dos dois disse algo que mais se parece com uma confissão de crime do que com um gracejo sarcástico, foi com certeza o sr. Lula.

    https://www.facebook.com/carvalho.olavo/posts/415501045268642

  3. Luciano,acabo de ouvir uma análise da Graça Salgueiro sobre a questão do Foro de São Paulo na Radio Vox.E o que ela disse é assustador,ela afirma que o processo de uma ditadura comunista irá se completar e que isso é irreversível(quero a creditar que não).Citou vários fatos que estão acontecendo em outros países e em encontros da UNASUL,para quem não sabe,a Graça é uma das maiores estudiosas da política do Foro, já vem avisando faz anos as coisas que estão hoje e que irão acontecer.Ela fala faz 10 anos que vem dizendo o que iria acontecer e praticamente tudo aconteceu.Então meus caros,a coisa é muito pior que a gente pensa,e lembrando que o Novo Código Penal já uma nova constituição do PT.

  4. muito bom texto, Ayan!

    o que não faz sentido é masturbar anarco-capitalismo, monarquia e ditadura militar no quarto dos pais – em termos práticos isso pode até atrapalhar…qnd um militarista vem desesperado pedir golpe pelo medo justificado do PT, pragmaticamente é vitória do PTista – e ajuda ao próprio projeto que ele teme.

    qnd um ancap vem defender uma secessão irreal, pragmaticamente é a vitória do PT que pode chamá-los de racistas e ganhar apoio das massas – o que dificulta mais ainda qual quer possibilidade futura de um federalismo ou até msm da secessão que eles queiram.

    qnd um monarquista vem criticar a república e dizer que as massas são levadas pela demagogia (o que até é verdade) – nisso ele pode acabar favorecendo os PTistas com o rótulo de “monarquistas são contra o poder popular e a democracia” e só fortalecem o regime.

    Um esquerdista como o Aécio falando que os congressistas valem 748 mil é melhor aliado pragmaticamente que qualquer um dos três estereótipos citados acima.

    E sim, eu até acho que anarcocapitalismo, monarquia e ditadura militar são melhores que o projeto totalitário de Cubanizar o Brasil dos PTistas, mas nenhum dos três serve pra lutar contra o PT.

    Que seja o PSDB…pra que um dia haja a opção pragmática seja derrubar o PSDB com um DEM ou até um NOVO.

  5. Minha única queixa contra este artigo é que ele deveria ser apenas “para consumo interno” (se isso fosse possível, claro). Explico-me: uma das coisas que mais acomodou o PSDB nos últimos 10 anos foi a certeza de que eles seriam sempre os adversários preferenciais do PT, dado que jamais surgiu uma força prá quebrar essa rivalidade. Enquanto esta força não surge, quanto mais o PSDB tiver noção do pragmatismo da direita, menos se esforçará para se ‘endireitar’. É por isso que a pressão direta, como a feita sobre José Serra para que falasse do Foro de São Paulo, e a pressão indireta, estimulando o surgimento de forças que tirem o PSDB de sua zona de conforto, são mesmo as formas mais eficientes para atingir objetivos caros à direita. Isso é muito melhor do que ficar gritando que o PSDB não presta e fazer campanha aberta para que seja aproveitado.

  6. Luciano, por falar em “Pragmatismo Político”, há um site com esse nome bastante usado por petistas para formarem suas opiniões . Como não poderia ser diferente há nesse site bastante material vigarista, mentiroso, e deturpação , semelhante ao site Brasil171 (opa 247)

  7. Acho que se usa muitos espantalhos de parte à parte. O “purista” não pode atacar indistintamente as posições dos aliados “pragmáticos” e as dos inimigos, como se não houvesse nada que as diferenciasse. Ao mesmo tempo, do lado “pragmático”, é muito fácil atacar arroubos verbais de revolta como “o PSDB não reclamou das urnas, logo está mancomunado com o PT”. Mais difícil é refutar “o PSDB não reclamou das urnas, logo é uma oposição frouxa”.

    Nessa linha, cabe trazer aqui o ponto crucial (para mim pelo menos), que você não colocou na lista: “O PSDB não ataca com a devida assertividade o Foro de São Paulo, logo não é (não inteiramente, pelo menos) a oposição que precisamos”. E não, não estou dizendo que o FSP é a raiz de todos os males nacionais (já vi esse espantalho rondando por aqui várias vezes). Mas há diversas demandas (realizáveis, no seu linguajar) que podem ser feitas concernentes ao FSP: 1) Porque expulsaram a pontapés dois míseros jornalistas da VEJA que tentaram reportar uma das reuniões? Aquilo não é somente uma congregação de líderes da esquerda continental? O que acontece ali que a mídia “inimiga” não pode saber? 2) E os líderes de organizações criminosas que, conforme atestam documentos e fotos, participam das reuniões? Que palhaçada é essa? 3) E de onde sai o dinheiro para bancar a brincadeira toda há mais de 20 anos? Viagens, hospedagem, aluguéis… tem dinheiro das FARC aí no meio?

    Em 2002, antes das eleições, o Olavo disse que ofereceu ao Serra as atas que indicavam a ligação estreita do PT com as FARC. Serra recusou por medo de parecer muito radical. Você percebe que há um limite de oposição que o PSDB jamais irá transpor? Quando recusamos (em parte, não em absoluto) o PSDB, somos levados a isso por essa pusilanimidade proposital deles, não é nenhuma “arrogância injustificada” como você disse num outro post.

  8. Porém, os ditos populares “diga-me com quem andas e te direi quem és”, “cria corvos e eles te picaram os olhos” e aquele causo do escorpião jamais devem ser esquecidos pelos pragmáticos.

  9. Ótimo artigo. A direita precisa pensar estrategicamente, sempre. A alma da política nacional é o pragmatismo, é a conciliação de interesses, é a transação de resultados. Por isso pensa caber espaço a um partido para governo e um para pressão, no estilo PT x PSOL. É preciso lembrar, também, que as necessárias alianças fazem parte da engrenagem de um país em que os partidos têm dificuldade para se manterem “nacionais”, conforme prescreve José Sarney. Veja que ainda hoje o PT, maior partido do Brasil, com militância em várias esferas, ainda não governou três dos seis principais estados (SP, PR e RJ) mediante vitórias eleitorais em cabeça de chapa. Mas usou seus aliados para fazê-lo em dois deles. Necessário lembrar de que permitir o aborto em casos de estupro ainda é algo muito melhor que permiti-lo em todos os casos. É dosar a balança. É me parece que opiniões públicas mais analíticas e ponderadas tendem a chamar mais a atenção dos não convertidos.

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