Por que na guerra política ficar no ataque sempre é melhor?

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Como um exemplo do que acontece praticamente todos os dias em debates, sejam na Internet ou fora dela, observe abaixo como funciona a interação política entre um bolivariano e um republicano, em muitos casos (embora seja verdade que a coisa já está melhorando):

B: Você quer ajudar a Casa Grande e as seis grandes famílias de mídia, que não querem a evolução da sociedade.

R: Não, eu me posiciono a favor da liberdade de imprensa e este sistema é melhor para nós, pois sem estarem submetidas ao estado, há melhores opções para o público.

B: A elite sempre tenta nos enganar. Você, como representante da elite, quer ver os pobres sofrerem, e por isso não quer uma mídia democrática.

R: Não, não é isso. É que eu defendo o princípio… [e a conversa segue]

Sabe que isso cansa? Depois de algum tempo, já começo a perder a paciência ao ver situações deste tipo. Sob a perspectiva de padrões de linguagem, parece que um lado gosta do padrão “você é (x)”, enquanto o outro gosta do padrão “eu não sou (x)”. Mapeie os padrões e divirta-se.

Um amigo me pediu, por exemplo, uma forma de revidar o seguinte ataque: “Quero ver você falar agora que o Obama é comunista”.

Eu sugeri a resposta básica: “Eu quero ver você parar com essa encenação ridícula. Obama é um socialista. Mas qual é o cretino que te ensinou que relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba igualam os dois países?”.

E não é que funcionou? O bolivariano recuou depois deste ataque.

Agora observe um ponto: em minha “resposta”, onde se encontra um padrão similar a “eu não sou (x)” em qualquer lugar que seja? Em nenhum lugar. Mesmo assim, meu ataque contém embutida minha defesa. Como sempre falo, a prioridade é o ataque.

É difícil fazer as pessoas perderem a maldita mania de usar o padrão “eu não sou (x)” e passarem a usar o padrão “você é (x)” nos debates políticos. Em suma, já passou da hora de deixarmos de tolerar que do nosso lado pessoas não executem o princípio dizendo que na guerra política o agressor geralmente prevalece sem ao menos sofrer um puxão de orelha. Nosso trabalho deve ser didático e paciente, mas também assertivo e às vezes duro.

Para que você entenda o funcionamento deste princípio na prática, basta lembrar-se de dois pontos chave:

  1. Quem sofre um ataque e unicamente se defende (sem atacar) pode não ser capaz de atingir todo o público que assistiu o ataque
  2. O ataque sempre se destaca mais que uma defesa, perante o público, que quer ver “sangue”

Com esses dois pontos em mente, é óbvio que todo aquele que não consegue largar a maldita mania de ficar com “eu não sou (x)” enquanto deveria estar dizendo “você é (x)” sempre ficará em desvantagem.

É evidente que uma defesa é melhor do que nada. Mas qualquer coisa é melhor que nada.

Mas difícil arrumar uma ilustração melhor do que os jogos de futebol. Aí é só lembrar o que fica na mente do público: são os gols (e os ataques) ou as defesas da zaga e do goleiro? É claro que é a primeira opção.

É exatamente o mesmo que ocorre na guerra política. São seus ataques, com base em controle de frame e rotulagem, que permanecerão na mente do público. Assim como ocorre com seu adversário. Quanto às suas defesas? Elas alcançarão bem menos pessoas que, naturalmente, não estão muito interessadas em “defesas”.

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16 COMMENTS

  1. Já usei essa tatica de atacar ao invés de me defender numa discussão sobre o Bolsonaro e realmente faz diferença. A discussão no Facebook começou num comentário que ele postou (e eu respondia atraves do comentario) e depois de tanto apanhar o cara apagou o comentario e meus ataques a ele foram excluidos junto. Mas tenho print de boa parte do embate. Aos poucos estou aprendendo. E o cara usou todas aqueles passos da tatica da falacia. Desmascarei um por um. Fiquei orgulhosa de mim mesma.

    • Isso acontece comigo direto Paula. Toda vez que começam a apanhar eles apagam tudo ou te bloqueam no site. Mas eu vou tirando print de tela e depois junto tudo com um editor de imagens, só pra guardar as boas brigas 🙂

  2. Perfeito Luciano !

    Em uma discussão com um amigo petista, no meio de uma platéia neutra, sobre a regularização da profissão de prostituta, eu disse que era contra. Ele veio com aquele coitadismo típico da esquerda, que elas eram exploradas, etc etc, insinuando que, por ser contra, eu era conivente com essa situação.
    Respondi o seguinte:

    “Sim, em alguns casos elas são exploradas por um cafetão ou dono de puteiro, e você quer fuder (no mal sentido, não no gostoso) ainda mais com elas com um terceiro explorador que suga (idem ao fuder) muito mais que qualquer cafetão, o Estado governado pelo PT. Uma canetada de algum legislador petista não vai melhorar a vida de nenhuma puta. Mas vai piorar a situação de várias delas. Se vc realmente se importasse com elas, e não apenas em se sentir bem consigo mesmo, não apoiaria essa idéia de jeito nenhum”

    Ele levantou, e foi pra outro lugar da casa choramingar pra minha mulher que eu era muito radical. Não pretendia convencer ele de nada, só fiz isso pois tinha uma platéia a ser disputada (ótima dica do Olavo de Carvalho). Se estivéssemos sozinho, mudaria de assunto.

    Só me arrependi de não ter me falado que um petista só ajuda uma prostituta quando paga pelos serviços dela, como o Pallocci, por exemplo. Mas, infelizemente, só pensei nessa tarde demais…..rsrs

    Abraço !

  3. Essa coisa do afirmar “eu não sou X” é deprimente, vide Rachel Sheherazade “Boechat falou que eu sou fascista. Ele sabe o que essa palavra significa. Eu não sou fascista”. WTF? Porra, Rachel! Alguém te chama de fascista e você só responde dizendo que não?
    Graças ao teu site (que até onde sei é o único dedicado a este prisma) está sendo cada vez mais engrossado o exército que dará muita dor de cabeça aos MAVs e seus cafetões petistas… preparem-se.

  4. É ÓTIMO expor as contradições esquerdistas!

    Estava numa discussão com um PSOLista no youtube e toda vez que ele postava algo eu falava:

    -Entre dar o dinheiro para as mães dos pobres colocarem seus filhos nas escolas que quiserem ou deixar o dinheiro na mão do Estado(políticos) em qual você escolhe?

    OS COMUNA PIRA!!!

      • Ceticista, outro dia eu estava jogando na cara de um petista que o socialismo sempre deu merda e está dando de novo é só olhar para a Venezuela e a Argentina. Ele fez aquela carinha de intelectual, se fazendo de indignadinho e falou: “Pro teu governo o socialimos nunca foi implementado, sempre foi deturpado”. Eu respondi: “exatamente, por isso que não presta, um século inteiro em não sei quantos países, esse é justamente o problema, toda vez que essa bosta sai dos livros para a realidade, sempre dá merda, como é que tu garante que o socialismo do PT vai ser diferente? Tu assina cheque em branco ou tu é burro mesmo? “. Saiu todo cocô dizendo que não dava pra dialogar com radicais. Eu só respondi pra platéia: “viram, quando não tem o que dizer fazem outra coisa que eles fazem de melhor, além de mentir, ou seja, se fingirem de vítimas.”

  5. Boa, Luciano! Achei também legal atacar um terceiro para retirar a credibilidade do nosso adversário. a) acusam-me de ser x; b) você é y apoiado por um z(criminoso, desonesto). Neste caso, o adversário precisa se defender a também o terceiro a quem foi associado. Em um debate eleitoral, o Aécio disse ” nós falhamos”, aí eu fiquei muito irritado. Quem erra são os adversários, nunca somos nós. Concordo com o guest, devemos treinar o debate nessas revistas, com críticas ácidas e pesadas, descrevendo condutas concretas, sem que haja espaço para vitimizações.

  6. Durante as eleições desse ano eu senti na pele o quanto é inútil e desgastante ficar só na defensiva.

    Comecei a frequentar um fórum de internet com brasileiros de todo o mundo, e como era período eleitoral, as campanhas políticas viraram o assunto mais corriqueiro. Eis que certos membros daquele fórum começaram a repetir em toda e qualquer discussão política que “a direita” (isto é, os eleitores do Aécio) era todinha preconceituosa, não gostava de pobres, não gostava de nordestinos, não queria que pessoas humildes tivessem mais poder aquisitivo, e etc. Com o tempo, fui notando que toda vez que eu entrava no fórum, assumia uma postura defensiva e “isenta”, como se aquele fórum fosse um antro petista/esquerdista. Não era; o fórum estava dividido mais ou menos na metade entre eleitores da Dilma e eleitores do Aécio, mas como uns poucos dilmistas sempre tomavam a ofensiva quando menos se esperava, o resto deles se sentia confortável para assumir uma postura paz-e-amor (“vamos deixar de ser pessimistas, olhemos adiante, o Brasil não pode parar de avançar”), enquanto que os aecistas se limitavam a apenas negar/ignorar as acusações –– isso quando não aparecia um racista/intervencionista/homofóbico da vida para declarar voto no Aécio e sujar a barra dos outros aecistas ainda mais.

    Logo fui percebendo que argumentar com esse tipo de gente é inútil. E eu não digo isso por achar que eles são todos psicopatas ou histéricos, mas sim porque não há debate possível com gente que pensa que você é a encarnação de todo o mal na Terra. Seria mais ou menos como eu tentando debater com um neo-nazista.

    Após as eleições, decidi deletar minha conta naquele fórum. Saí de lá um pouco envergonhado por ter caído nesse embuste e também por umas besteiras que falei. O outro lado falou muita besteira também, mas eu duvido que eles se envergonhem disso. Mas tudo bem, lição aprendida.

  7. ainda estou criando meu próprio “Jeito Ninja”. Não quero agredir gratuitamente os esquerdistas, alguns que são meus amigos e outros que eu tenho a esperança, utópica, admito, de convencê-los. Então optei por uma alternativa: descarregar todos os meus punhos dialéticos em cima da “esquerda” (a qual eu defino aqui como o escopo conceitual de onde os esquerdistas tiram seus objetivos e argumentos. Ao invés de bater no “esquerdista” eu tenho tentado bater na “esquerda”.

    Chegou uma hora no meu mais recente debate que eu simplesmente aproveitei a brecha que a moça anti-Bolsonaro deu e comecei a atacar a esquerda, dizendo que a mesma não se preocupa com o bem estar das pessoas, mas com a “causa”; citei o caso Liana/Felipe, citei o fato de como a Maria de Rosário estava defendendo-o e citei como a esquerda têm atacado o único cara que se ergue para deter novos “Champinhas” (o JM Bolsonaro).

    A moça passou a ficar na defensiva.

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