O marxismo deve ser igualado ao nazismo em termos de criminalização? Como tratar este problema ético?

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Entra ano, sai ano, e surge a discussão sobre se o comunismo deve ser criminalizado tanto quanto se faz atualmente com o nazismo. Alguns dizem que o comunismo deve ser criminalizado. Outros dizem que o melhor é deixar pra lá.

A título de didatismo, vamos definir os dois grupos como criminalizadores e apaziguadores.

Os primeiros usam a lógica mais linear possível: “se o marxismo matou muito mais que o nazismo, logo deve ser criminalizado da mesma forma”. Logicamente, é um raciocínio correto. Politicamente, é desastroso. Já os apaziguadores entendem esse erro político, mas sua própria postura de abandono da questão também é equivocada. Abandonar essa contradição que poderia gerar tanto prejuízo político para a extrema-esquerda é efetivamente um desperdício de oportunidade. (Lembrando que, ao contrário do que alguns pascácios andaram dizendo por aí, o nazismo também é de extrema-esquerda, embora seja rotulado de extrema-direita pelos auto-denominados “representantes da esquerda”, ou seja, os marxistas)

Hoje em dia, com tamanho predomínio da visão ultra-esquerdista nas universidades e meios de comunicação, eles transformariam o pedido por “criminalização de comunismo” em uma arma para chamar seus oponentes de “intolerantes”. Deste ponto em diante, para todos os proponentes da criminalização ficarem na mesma posição defensiva em que Aécio Neves e Jair Bolsonaro se encontraram, respectivamente por dizerem que “Dilma é leviana” e “Maria do Rosário não merece ser estuprada”, é um pulo. Mas não podemos ainda assim admitir o apaziguamento.

Desta feita, como podemos superar ambos os erros políticos?

A solução pode ser encontrada no próprio método marxista de problematização, onde lançamos um problema para discussão, sem respostas prontas, a título de pressão sobre a situação atual. Isso permite que nem a alternativa criminalizadora e nem a apaziguadora sejam levadas adiante, corrigindo os erros políticos de ambas as táticas.

O que devemos fazer, por este método, é já ir lançando um problema para o público, questionando o que levou ao fato do marxismo, um regime muito mais assassino (uma verdadeira máquina de moer carne humana) a ser mais aceito do que o nazismo, quando ambos deveriam ser rejeitados da mesma forma. Essa simples constatação já é suficiente para lançar dúvidas em toda uma estrutura gramsciana, especialmente nas redações de jornais e nas universidades.

O esquerdista, é claro, poderá pedir uma resposta, agindo de forma inquisidora com perguntas como “então devemos criminalizar o comunismo?” ou “então devemos liberar o nazismo?”. Não caia em nenhuma das duas armadilhas. Limite-se a dizer: “o que devemos fazer não é o assunto, pois antes precisamos estudar os motivos que levaram a absolvição de um regime muito mais assassino que o regime nazista”.

Ou seja, mesmo sem você ser colocado na parede, você poderá apontar problemas seríssimos de lógica e moralidade no fato do marxismo ser exonerado de suas culpas de maneira diferente do nazismo. Sua ideia não é baseada na absolvição, mas na condenação de ambos, assim como no estudo dos motivos perversos que tem levado pessoas a aceitar os genocídios de um sistema, mas rejeitar os de outro, quando deveriam rejeitar os dois.

Por esta abordagem de problematização, sempre o marxismo pode ser denunciado, assim como deve ser criticada a recusa pelo tratamento igualitário aos dois sistemas de pensamento mais cruéis já criados pela humanidade. A licença para matar sem contestação, dada a um dos sistemas (o marxismo), é também um seríssimo problema moral.

Essa problematização, enfim, lançaria uma pressão contínua sobre o marxismo, sem colocar o proponente desta problematização na posição de “intolerante contra marxistas” (pois nenhuma solução está sendo proposta, a não ser a problematização) e nem como um apaziguador, a qual é uma posição digna de vergonha alheia.

Assim, a solução para contestar os motivos pelos quais o marxismo não é julgado da mesma forma que o nazismo não está nos pedidos por criminalização do marxismo, nem no apaziguamento dos conflitos, mas na pressão dialética, a partir da problematização, dos motivos para o fornecimento de licença obtida para o marxismo para poder matar sem contestação.

Fica claro que a própria maneira do marxismo poder matar muito mais e não receber a mesma condenação moral (por seus próprios embustes) é um motivo a mais para apontarmos o quão nocivo é este sistema de pensamento.

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31 COMMENTS

  1. Sim, Luciano.Mas aí eu te pergunto:E os meios para difundir este tipo de debate ao maior número possível de incautos? Propor um debate a quem e onde? Enfim, sua análise está correta, mas a execução torna-se mais difícil.

    Não é papo de derrotista, mas sim de adotar a estratégia adequada para atingir o objetivo.

    • Bom, Thiago, nesse caso é onde for possível. Como os debates virtuais de que participei recentemente. Ou mesmo em debates acadêmicos. O que falta (e aí concordo contigo) é uma estratégia para coordenação desses discursos.

  2. Luciano, no início do texto, não seria nazismo no lugar de comunismo?
    “se o marxismo matou muito mais que o comunismo, logo deve ser criminalizado da mesma forma”.
    Quanto a ideia, se entendi, temos que ocultar nossa conclusão ‘pessoal’ de que o marxismo matou muito mais que o nazismo, e partir para a ideia que é melhor questionar(mostrando os fatos) do que acusar, para evitar ser taxado como preconceituosos.

    • Corrigido!

      Quanto a conclusão, não, não precisamos ocultar que o marxismo matou muito mais que o nazismo, mas questionar por que o marxismo, tão mais assassino que o nazismo, é exonerado de culpas, enquanto o nazismo não é, quando o justo seria que ambos fossem igualmente condenados.

      Abs,

      LH

  3. Lembrando que na Polônia: tanto comunismo quanto nazismo são crimes. Também pudera, num país que sofreu MUITO na mão de ambos (e não é a toa que abraçou o capitalismo e já está no mesmo patamar que o Brasil sendo que alguns anos atrás era pior que aqui).

  4. Há algumas semanas atrás, quando o assunto Bolsonaro X Velha do Corsário estava em alta, vi no fb um PETISTA falando “Quem acha que fuzilamento não é necessário para uma revolução, repense melhor”. Ou seja, para o petista desconhecido em questão, fuzilamento no marxismo tem sua explicação didática bonitinha. Coisa de extrema-esquerda, sanguinária. Cambada!

    • Essa seria uma boa para esfregar na cara dos gramscistas que ficam falando que a pena de morte é algo cruel e que só pegaria três Ps da sociedade. De minha parte, sou contrário à pena de morte por ela não ser uma pena reversível em caso de injustiça, como é a prisão perpétua.
      Tem como você colar o link aqui? Se o colar, veja se está escrito no começo HTTPS. Caso esteja, tire o S e veremos a postagem aparecer formatadinha.

      • PS2: Licença pra um comentário a mais, mas, no próprio texto que a atriz compartilhou já tem uma piada: o tal Renato Janine diz que quer petições de cassação a quem defende estupro. Certo, quem DEFENDE estupro merece a cadeia. Só que quem defendeu o estuprador Champinha, logo, defendendo o estupro também, é a Maria do Corsário.
        Quem defendeu estupro foi o professorzinho lá da USP dizendo pra que a Rachel Sheherazade sofresse um.
        Aonde que Bolsonaro DEFENDEU estupro? WTF

  5. Deixemos Joseph Goebbels,ministro da propaganda nazista (vulgo aqui como Duda Mendonça e outros “Goebbels que o PT copia) se expressar. Deixemo-lo com suas próprias palavras às páginas 96-97 d seu livro Kampf Um Berlin :Die Bewegung hatte hier nur einen Lehrmeister: den Marxismus. ” O movimento tem apenas um mestre: o Marxismo”.
    No mais,existe uma excelente explanação sobre Nazismo-Comunismo, dividida em 4 partes pelo autor em que existem divertidos confrontos nos comentários entre o autor e alguns “professores de História”. É muito útil como reforço de conhecimento, mas antes, no documentário The Soviet Story, temos imagens claras de oficiais nazistas e comunistas se confraternizando, brindando juntos e falando sobre o andamento da guerra (antes da operação Barbarossa, a invasão da Rússia), e temos que os dois exércitos se encontraram e se saudaram no centro da Polônia invadida e dividida pelos dois grupos de esquerda, além de relatos da invasão da Noruega, em que Stalin cedeu uma base naval nos arredores de Murmansk, além de uma torre de rádio de Minsk ter guiado os bombardeiros alemães até seus alvos na dita Noruega.
    Eis aqui o link post, vale a pena ler: http://visaopanoramica.net/2013/08/31/o-nazismo-era-mesmo-de-direita/

  6. Luciano, um documento que foi inspirador para mim quanto a equalização do nazismo e do comunismo, e que demonstra que antes de tudo devem ser combatidos por serem totalitarismos, é a Declaração de Praga para a Consciência Europeia e Comunismo, acessível em: praguedeclaration.eu
    Convido todos a lerem e assinarem.

  7. Os comunistas podem se defender por três formas:

    1- negar as mortes provocadas pelo comunismo. Eles dizem que os 100 milhões de mortos são deduzidos do livro negro do comunismo, e que este foi um mero panfleto anticomunista sem valor histórico.

    2- Dizer que o nazismo é condenado devido à sua ideologia antissemita e racista, e não por causa das mortes provocadas.

    3- Dizer que o capitalismo matou 1 bilhão de pessoas

    Todos os argumentos são falaciosos, mas uma pessoa menos atenta pode cair.

    • Objeções interessantes a serem tratadas.

      Mas são os fatos históricos que estão a nosso favor.

      1 – O Livro Negro do Comunismo é uma das fontes, mas essas fontes hoje são muito maiores. Há o The Soviet Story, e diversos outros livros.
      2 – Sim, o antissemitismo e racismo são discursos de ódio, assim como todos os discursos do marxismo.
      3 – Não sei aonde eles arrumam esses números, pois antes existiam sistemas monárquicos, que eram concentração de poder como hoje é o socialismo. Os sistemas de maior miséria são os socialistas, como em vários países da África. Então, ele deve dizer de onde tirou esse número de 1 bilhão. Geralmente ele vai se complicar. Ademais, ele não pode contar com guerras entre países, pois elas surgem tanto a partir de países socialistas como de não-socialistas. Ele não vai achar, porém, uma alta taxa do governo matando SEU PRÓPRIO POVO, o que é o diferencial negativo do socialismo.

      Abs,

      LH

      • Tenho observado nos debates das redes sociais que o esquerdista útil acredita sempre na propaganda e não na história e ai quando o assunto é anti-semitismo eles sempre dizem que a URSS foi a primeira a colocar em sua constituição que era crime anti-semitismo/racismo.

        O curioso é que a prática foi bem diferente dessa propaganda, hoje é notório a diáspora judaica que ocorreu nos territórios sovieticos por conta da perseguição que acontecia em paralelo com o regime nazista e mesmo depois do findar do mesmo… Nesse documentário abaixo é possível ver que mesmo nos dias de hoje o senhor Putin e seu partido pregam algum tipo de slogan “fim aos judeus” ou seja tentam colocar a culpa dos problemas nos judeus mesmo em pleno século XXI. A parte irônica da historia tanto Nazista quanto Soviética durante a segunda guerra é que eles faziam propaganda dizendo que iam atacar os países escandinavos por causa dos seus regimes fascistas… Ou seja os soviéticos não se olhavam no espelho e se usavam do truque: “acuse do que nós fazemos”.

        http://youtu.be/ewY_k-jFlvk

      • Nesse mesmo documentário, mostra uma declaração do presidente Roosevelt que considera a URSS como membro do Eixo antes do ataque da Alemanha a União Soviética.

      • Outra coisa que colaborou para permitir o Comunismo ser aceito no ocidente ao contrário da Polônia é que os Aliados só consideraram crimes de genocídio, aqueles que foram praticados pelos alemães. Nesse mesmo documentário mostra alguns casos de oficiais genocidas soviéticos que fogem de antigos países da URSS para a Inglaterra ou de volta para a Russia, pois sabiam que seriam julgados nessas “colonias soviéticas” por crimes de guerra após a queda da União Soviética.

  8. A História já julgou a URSS e a condenou, porém os socialistas negam até a morte com seu historicismo. Para a esquerda, o passado é contingente, isto é, é reinterpretado pelo desconstrucionismo ideológico, enquanto que a utopia é uma certeza. Assim é a mentalidade revolucionária. Inclusive, há muitos que defendem o modelo soviético, que tinha estreita relação com nazismo (Nacional-Socialismo) e que deu assistência técnica à máquina de guerra nazista antes mesmo do Pacto Molotov-Ribbentrop, mas nem por isso o socialismo foi jogado na lixeira da História. Negar essa evidência, de que comunismo e nazismo têm muito mais em comum, e que já colaboraram um com o outro, é indesculpável. Eles mesmos dizem que a verdade não lhes diz respeito. Sem o comunismo o nazismo não seria. A esquerda não quer o Nacional-Socialismo para chamar de seu. Contudo, eu já flagrei esquerdistas referindo-se a Mussolini como grande homem, além de defenderem Stálin. E até professores relativizando Hitler! Relativizar a barbárie é coisa de esquerdista. Como dizem os poloneses, Precz z komuną! Um leitor lembrou muito bem da Declaração de Praga.

    Saindo um pouco do tópico, David Horowitz discutiu política com Julian Assange e com o histriônico Slavoj Žižek – que mais parece uma cadelinha Lhasa Apso com epilepsia. Segue o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=BDNResrkqmM. O mestre da arte da guerra política lançou um ataque a Žižek logo no começo, que o “imobilizou”: “Você é um apoiador da coisa que temos mais próxima do nazismo [além do comunismo, que foi escroque dos nazistas, que se inspiraram nos Gulags para dar a solução final aos judeus], que foi uma idéia utópica no Oriente Médio. Você apóia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”, disse Horowitz, que acusou o Hamas de ser mal da Palestina. De fato, o movimento palestino teve relações estreitas com o nazismo – vide Al-Husseini com Hitler, e quando muçulmanos erguem cartazes com os dizeres “God Bless Hitler”, ainda mantendo admiração pelo nazismo. A esquerda é anti-semita, e dá mostras inequívocas disso, quando tolos pedem o fim do Estado de Israel. E não quer o Nacional-Socialismo para chamar de seu…

  9. Uma saída que os comunas, esquerdistas e anticapitalistas sempre usam é afirmar que o capitalismo matou muito mais. Portanto ele seria tão cruel quanto os outros e igualando e minimizando a acusação. (ai dão exemplos das guerras que os USA se envolveram, etc)
    Por mais que se tente explicar o caso percebo que os “observadores” tendem a simplesmente aceitar essa afirmação anti-capitalismo e ignorar a comparação nazismo-comunismo.

    Difícil sair dessa situação. Ainda mais quando a maioria das pessoas não tem a mínima noção de história e já foram doutrinadas pela escola e pela sociedade.

    • O detalhe é que pode ser dito que capitalismo é um termo inventado por Marx. Existem vários níveis de capitalismo, desde aqueles controlados pelo estado, como aqueles de livre mercado.

      Nesse caso, o esquerdista pode ser desafiado a dar exemplo das “mortes do capitalismo”. E no caso de capitalismos de estado, a coisa ainda fica pior para os socialistas.

      E o pior: mortes provocadas em guerras entre países é um coisa, mas o governo matar seu próprio povo é outra. E isso é inerente ao marxismo.

      • Ayan, você acertou em cheio, esse é o truque mais picareta da esquerda dizer que o capitalismo também matou milhões, quando na verdade são coisas diferentes.

        Uma coisa é uma ideologia matar do seu próprio povo para se perpetuar no poder (Marxismo/Comunismo/Socialismo) só Pq seus opositores pensam o contrário.

        Já as tais mortes do capitalismo são frutos de guerra entre nações como você bem lembrou e pode envolver regimes de capitalismo de estado (ironicamente isso é o socialismo visto no século XX) como regimes de capitalismo mais abeto.

  10. Estava procurando o texto que você prometeu sobre a discussão com o Paulo Júnior, o Francisco Razzo e o Vinicius da Silva lá no perfil do FR. Pensei que você iria fazer algo mais contundente apontando a questão estratégica e política do uso do rótulo de extrema-direita ao Nazismo. Mas você só fez uma curta referência ao fato e ninguém tocou no assunto nos comentários, então vou ficar no aguardo.

    Ainda acredito que você vá trazer algo, nem que seja em um futuro livro seu.

    Abraço

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