Christopher Hitchens: “É preciso pedir desculpas aos fundamentalistas?”

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No passado, fui um duro crítico do neo-ateísmo, movimento representado por Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens. Aos poucos, porém, esta posição foi se transformando (especialmente após 2011) em uma divergência dialética em relação ao objeto de ataque. Enquanto Dawkins e companhia atacavam a religião, era fácil mostrar que estavam equivocados em vários pontos. Eles deveriam ter atacado a religião política ao invés disso.

Se pudéssemos revisar os livros destes autores na questão (Deus um Delírio, de Richard Dawkins, A Morte da Fé, de Sam Harris, Quebrando o Encanto, de Daniel Dennett, e Deus não é grande, de Christopher Hitchens), substituindo religião tradicional por religião política (o que os tornaria mais abrangentes), e fazendo alguma adição ou substração aqui ou ali, teríamos um material poderoso para prever o comportamento seja dos fundamentalistas islâmicos como dos ultra-esquerdistas. Seja lá como for, é isso que fiz. Quase todo o material destes autores se tornam poderosos se à religião política.

Nada melhor, portanto, que lembrar um ótimo texto de Christopher Hitchens (falecido em 2011), intitulado “É preciso pedir desculpas aos fundamentalistas?”, publicado na Época, em 2010:

Recebi há uns dias um dos documentos mais inacreditavelmente rasos e torpes que já passaram por minha mesa. Trata-se de uma carta de um escritório de advocacia da Arábia Saudita, enviada a um grupo de jornais na Escandinávia. Transcreverei seus principais parágrafos: “Nos últimos meses, meu escritório de advocacia foi contatado por alguns milhares de descendentes do Profeta.

Eles ficaram sabendo que seu jornal republicou o desenho representando seu estimado antepassado como um terrorista suicida com uma bomba em seu turbante. Como descendentes do Profeta, esses indivíduos se sentem pessoalmente insultados, emocionalmente afetados e difamados pela republicação do desenho por seu jornal. Então contrataram meu escritório de advocacia e solicitaram que eu os procurasse (…)”.

Essa é a parte rasa – a ideia de que pessoas que alegam ser descendentes de Maomé querem mover um processo porque seus sentimentos foram feridos. A parte torpe vem alguns parágrafos depois:

“Acredito que o cumprimento por parte de seu jornal das condições mencionadas acima seria visto como um sinal de respeito e compreensão em todo o mundo muçulmano em geral. Seu jornal poderia, assim, ajudar a resolver o grave conflito que sua republicação do desenho criou. Como vocês devem saber, esse conflito ainda afeta os interesses dinamarqueses e árabes, em particular no Oriente Médio, onde certa quantidade de produtos dinamarqueses está sendo boicotada”.

É impossível não notar o elemento de ameaça contido no segundo extrato. Não é difícil fazer os dinamarqueses se lembrarem da campanha organizada de retaliação histérica, variando de ataques contra embaixadas a linchamento de civis, que se seguiram à primeira publicação de algumas caricaturas do profeta Maomé, em 2005. Três anos depois, foi descoberto que uma célula terrorista estava planejando matar os autores dos desenhos. Em solidariedade, um grande número de jornais dinamarqueses reimprimiu os desenhos para expressar seu apoio à liberdade de expressão. No Ano-Novo de 2009, um fundamentalista somali invadiu a casa do cartunista Kurt Westergaard, de 74 anos, que estava com sua neta em casa naquele dia. O agressor quase conseguiu matá-los com um machado. Era de esperar que pedidos de desculpa partissem dos agressores e incitadores, mas não foi o que ocorreu. No fim do mês passado, o jornal Politiken, de Copenhague, concordou em se desculpar publicamente, nos termos ditados pelo escritório saudita.

Celebrando essa decisão, o representante do escritório repetiu sua alegação bizarra de defender nada menos que 94.923 descendentes de Maomé. Novamente, fez afirmações absurdas:

“Todos os ícones de todas as religiões, como a Virgem Maria, Jesus Cristo, Moisés, e outros que são ícones não religiosos, mas contribuíram para a humanidade, como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, o Dalai-Lama e Albert Einstein, todos merecem proteção para não ser ridicularizados e difamados”.

É no mundo material que jornais são publicados e no qual existem leis e Constituições que garantem seu direito de publicar algo sem intimidação. É também no mundo material que as leis protegem vovôs e suas netas de maníacos religiosos homicidas. Vamos abrir mão disso em favor de pessoas que alegam um parentesco distante com uma figura quase mitológica? A coisa seria ridícula se já não tivesse conseguido dobrar um jornal dinamarquês. Não é suficiente que a fé reivindique ser a solução de todos os problemas. Agora se exige que uma reivindicação absurda como essa seja imune a críticas. Isso tem de parar, e já.

É isso aí. O desrespeito à liberdade de expressão tem que parar imediatamente.

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14 COMMENTS

  1. As críticas são bem vindas, porém não as ofensas e ridicularizacao, caso porta dos fundo, liberdade de expressão requer responsabilidade, posso falar aquilo que penso e devo porém devo tomar cuidadoao invés de critica ofender.

    • Então vamos lá…

      Defina ofensa:

      1 – Charge de Maomé. É ofensa?
      2 – Charge de Jesus. É ofensa?
      3 – Charge com a estátua da liberdade. É ofensa?
      4 – Charge com futebol. É ofensa?

      Note que você entra em uma seara perigosa onde não consegue dar um argumento racional para dizer qual ofensa deve ser “acima do limite” ou não.

      Abs,

      LH

      • não gosta? boicote

        qualquer ataque à liberdade de expressão é um apoio (mesmo que parcial) à censura em todas as suas formas: desde à que o PT faz até a mais extrema – assassinato

        se alguém tiver de ser punido pelo que disse ou escreveu, que seja num possível pós-vida.

        Nessa, cada terrorista tem que ser caçado sem nenhum “mas…”

      • Eu não concordo com nenhuma forma de censura!² Certo! Porém acho que o Jefferson esta falando fazendo um distinção de Liberdade de Imprensa com Liberdade de Ofensa! Pode publicar? Pode! Pode vender? Pode! Te ofendeu? ( você que sabe o que te ofende, não é o Jefferson que te dirá! Mas se te ofendeu ( e nesse caso tem que haver material ) tem que haver retratação na justiça! Parece ruim? Lembre-se, quando alguém xinga sua mãe, você não ignora!

    • Jefferson é tanto um direito seu se ofender, quanto é um direito desses veículos que você citou divulgarem o que bem entenderem. Mas você, em seu direito, deve responder ou na mesma moeda, ou boicotando, expondo argumentos falsos que encontrar, ou, em último caso (último mesmo), recorrer a um processo. Mas a liberdade de expressão não pode ser cerceada de forma alguma.

  2. acredito que podem discordar das ideias,mas respeitar é preciso,não sou de acordo com o que o jornal fez coma afigura de Maomé,e muito menos coma atitude dos muçulmanos,até pq no mundo islâmico ser cristão é pena de morte,eles exigem respeito mas não respeitam,e impõe por meio da força e do medo,sim a ridicularização de cristo o qualquer,imagem religiosa irá desrespeitar que segue e acredita nos mesmo agora,isso não é motivo para matar,até pq diferente do islã em toda historia eclesiástica,os cristão sempre foram massacrados,a filosia cristã é contra a violência,se te ferir na face oferece a outra,isso que ensina o cristo,eu não acreditar não me dá autorização para chacotear,zombar ou desfazer,de quem pensa diferente de mim,no entanto quando se fala em radicalismo querem incluir todos,é só olhar os ex estão ai,olhe como são tratados em países que são predominantemente cristão agora olhe o contrario .

  3. Vamos lá, ofensa é tudo aquilo que expõe alguém a ridicularizacao com intuito de rebaixa-la, em nenhum momento eu disse que não se pode fazer charge de jesus, maome ou estátua da liberdade, se vc tiver prestado atenção vai ver que disse que as críticas são bem vindas, o que eu estou argumentando é que as pessoas devem tomar cuidado para não falar, postar ou até desenhar coisas que ofendam as pessoas se não isso vira a bola de neve e passa ser normal as pessoas oferecem outras em nome da liberdade. Não coloquei limite em nada apenas disse que devemos respeitar as outras pessoas, aquilo que me ofende pode não ofender vc e vice versa.

    • Sim. Eu tenho que ter limites. Por exemplo, não dizer “(x) é um pedófilo”, sem provas. Isso é crime e há leis para punir. Há uma VÍTIMA, que teve sua imagem destruída DIRETAMENTE.

      Tirando esse tipo de crime, qual é o limite?

      • Exato. O limite da liberdade de expressão(assim como todas as outras liberdades) é exatamente a liberdade alheia. Fora isso não há liberdade de expressão — não há meia liberdade.

        Por exemplo, na minha opinião, Injuria só deveria ser crime em casos onde o dano pisicológico com a vítima pode ser comprovado (assim como no caso de agressão física deve haver um exame de corpo de delito). Nesse casso, só pessoas que possuem sérios problemas mentais (como a Maria do Rosário >.<) poderiam ser indenizadas haha

        Por mim poderia muito bem haver partidos nazistas (afinal temos partidos comunistas, que é coisa pior), des de que eles não reproduzissem os crimes que Hitler cometeu, tá sussa.

      • Erandur, eu acrescentaria o prejuízo material advindo de danos à reputação da pessoa à sua lista. Tirando isso, não tem como ditar regras ou limites. Por mais que as charges do Charlie Hebdo também tenham me dado nojo e me ofendido, assim como alguns vídeos do Porta dos Fundos, nem por isso eu me posiciono contra a liberdade deles falarem essas merdas, e também acho errado alguém se posicionar. Pelo contrário, acho até bom que falem, porque a gente pode expôr a todos a total falta de respeito dessas pessoas.

      • O problema é o seguinte, o problema é que no Brasil não cabe exceção da verdade no caso de injúria.
        Se você chamar alguém de pedófilo e ele for realmente um pedófilo e ele te processar provavelmente irá ganhar.
        Se você ver uma pessoa roubando outra e chamá-la de bandido e este que roubou ficar ofendido e procurar a justiça, muito provavelmente você será condenado.
        Até mesmo para ofender alguém no Brasil é necessário ter a língua travada, e muito provavelmente porque as nossas leis foram fabricadas por bandidos e são eles que tiram maior proveito disto. Quando ver alguém roubando tem que se controlar para não chamá-lo de bandido e dizer “Ele praticou um roubo” ou ao ver alguém praticando pedofilia dizer “Ele praticou pedofilia”.
        Isto ocorre porque o nosso sistema entende que você não pode atribuir uma qualidade que é circunstancial a uma pessoa. (Antes que você comece a falar como se eu estivesse defendendo isto, quero deixar bem claro que não estou)

        Quanto a liberdade, infelizmente para se tê-la é necessário o ônus de conviver com coisas que vão nos desagradar. Eu, como cristão, vejo estas sátiras e algumas matérias jornalísticas repletas de ignorância.
        O maior problema é que os cristãos não se organizaram para representar diante do judiciário quando estas matérias são apresentadas repletas de falsificações. O sistema legal brasileiro autoriza a indenização e o direito de resposta e não vejo os cristãos se organizando para processar estas empresas jornalísticas. Na hora em que começarem a processar pedindo indenização (tirando o lucro deles) e exigindo o direito de resposta para esclarecimento acho que vai diminuir e muito esta zombaria.

      • Tem que deixar claro que Difamação,injuria e calúnia são crimes.
        Logo, excluindo os casos que se adentram no tipo penal, podemos falar que o resto pode se enquadrar em Liberdade de Expressão.

        PS: Temos a questão da discriminação também(Injuria racial,Preconceito).

  4. Sou completamente a favor da liberdade de expressão, contanto que não sejam praticados injúria, calúnia, difamação, crime de ódio, homofobia, racismo, machismo, preconceito contra minorias (contra ricos pode), piadas ofensivas contra seres humanos, animais e políticos, e, claro!, o melhor deles!, crime contra a honra! Deixa eu ver se não to esquecendo de mais algum…., bem, por enquanto são só esses. E como podem ver, defendo a sua liberdade de falar o que pensa, mas, cuidado!, meça bem as suas palavras porque se eu me ofender, já sabes!

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