A incoerência daqueles direitistas que se posicionam contra a liberdade de expressão

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Os atentados ao Charlie Hebdo parecem ter levantado duas principais bandeiras: a defesa da liberdade de expressão (que tem sido tão ameaçada ultimamente) e a defesa do uso do “mas” após a sentença “liberdade de expressão”, sempre com alguma distinção de emergência.

Neste segundo grupo, encontram-se muitos da esquerda, especialmente da extrema-esquerda (como adeptos de PT, PSOL e PCdoB), mas, curiosamente, um número até razoável de pessoas da direita. Neste caso, a maioria do pessoal possui orientação religiosa. É evidentemente a intenção de manter seus símbolos religiosos protegidos de crítica.  (Atenção: não falo de todos os religiosos, mas daqueles adotando um comportamento específico)

Pois bem. Nada melhor que antes de trazer a incoerência destes últimos, comentar um pouco sobre meu histórico de ceticismo político. (Termo que eu adotei apenas em 2011, embora o praticasse, em suas formas mais rústicas, há quase uma década)

Nos idos entre 2006 e 2010, eu ajudei muitos religiosos a se defenderem de várias fraudes neo-ateístas (muitas delas convertidas em rotinas, hoje disponíveis no site Logos Apologética). Entre as rotinas, existiam aquelas associando a religião inexoravelmente a guerras, ou mesmo aquelas afirmando existirem projetos de teocracia cristã. Enfim, vários exageros, mesmo que amparados por uma boa motivação (luta por um mundo secular, luta por liberdade de expressão).

Atualmente eu reconheço que embora estivesse justificado a mapear aquelas rotinas (hoje sou ateu, antes era um teísta agnóstico, mais para um deísmo do que um catolicismo), estava errado em relação à essência do discurso neo-ateu, que era focado em busca do direito de não-religiosos não verem as políticas públicas determinadas pela religião, assim como na valorização da liberdade de expressão. Claro que o tal “projeto iluminista” (diferente do iluminismo britânico, pura e simplesmente, que sempre defendi e defenderei) sempre foi besteira. E continua sendo.

Estando isso claro, lembro que naquele período eu acompanhei incontáveis casos de religiosos tomando surras homéricas na questão do ativismo judicial. Não ganhavam uma sequer. Pior: nem disputavam. Pareciam se orgulhar de ficar na defensiva. Na época, José Luis Datena disse em um programa que a violência existia por que muita gente “não tinha Deus no coração”. Já imaginaram algum ateu punido por dizer o mesmo de um cristão? Nem pensar.

Enfim, o uso de brechas para violar a liberdade de expressão já existe, mas somente é aproveitado pelos mais hábeis em usar as distinções de emergência, mecanismos essenciais para que as brechas adequadas sejam usadas. Neste jogo, os cristãos, por exemplo, só tem perdido. Na verdade, quase nunca sequer participaram.

Quando vi vários cristãos me dizendo, indignados, que “é errado vilipendiar símbolos religiosos”, só me coube relembrar de como muitos deles se comportam na guerra política em questões judiciais. Com exceção de uma ou outra ação liderada por Silas Malafaia ou Marco Feliciano, o que quase sempre vejo é um comportamento incongruente com o discurso. Raras ações judiciais tem sido lançadas por religiosos cristãos para proteger “seus sentimentos ofendidos” de um ataque opositor.

Isto é, o protesto de alguns cristãos contra o direito de alguém fazer sátiras de suas religiões parece só existir no discurso, sem qualquer reflexo no comportamento. Isso por que na hora de entrar em guerra jurídica contra seus oponentes, via ativismo jurídico, simplesmente não há dispêndio de nenhum esforço. Lembro, por exemplo, que todos os dias (sem exceção) a ATEA publica charges ridicularizando cristãos. Nenhuma é rebatida com ações judiciais.

Interlúdio: eu defendo que lutemos por mais garantias à liberdade de expressão. Essa é minha bandeira. Mas hoje em dia a liberdade de expressão tem sido estuprada continuamente. E sem qualquer reação. Neste cenário então, você tem que partir para a luta política. Ou seja, se um islâmico luta para te silenciar, você tem o direito de fazer o mesmo. Esse direito moral encerra-se quando conseguirmos fazer com que a liberdade de expressão realmente valha de forma isonômica e plena. Não passa do uso dos precedentes no combate jurídico.

Voltando ao caso dos cristãos. Um dos que protestaram contra meus textos chegou a dizer que eu era criminoso por dizer “você pode fazer uma charge da religião dele também”. Ele estava definitivamente com raiva. Mas será que ele estaria disposto a jogar a guerra política contra seus oponentes? Se tiver, enquanto os adversários lançam processos contra religiosos (por pretextos de “se sentirem ofendidos”) ele poderia fazer o mesmo. Mas duvido que o faça.

Isso nos leva a um paradoxo. Aqueles cristãos que tem lutado pelo direito de violar a liberdade de expressão (dizendo que “com religião não se deve mexer”) parecem ser os menos propensos a de fato lutar para que a sua religião seja respeitada pela via da ação judicial. Ao contrário disso, a violação à liberdade de expressão é praticada ininterruptamente por todos os seus adversários políticos. Menos ele.

Quando Jean Wyllys diz que um pastor não pode dizer que é contra gays se casarem, está violando a liberdade de expressão deste pastor. Ou que tal quando Jair Bolsonaro foi cerceado em termos legais por ter feito uma piada sobre Maria do Rosário? Ou que tal lembrar quando Rachel Sheherazade foi tirada do SBT a partir de uma ação judicial impetrada por Jandira Feghali, Jean Wyllys e Ivan Valente? Ação esta que serviu para intimidar o SBT, que ficou com medo de perder verbas estatais. (E olhe que nos dois últimos casos nem falo de questões religiosas, mas de casos onde pessoas de direita, e religiosas, tiveram seu direito de liberdade de expressão cerceado por distinções de emergência)

A situação é absurda neste nível mesmo. Alguns direitistas religiosos, adeptos do “mas” após a liberdade de expressão (pela distinção de emergência), defendem que pessoas sejam punidas por rir de símbolos religiosos. Porém, esse desabafo ocorre apenas temporariamente. Jamais se converte em um esquadrão disposto a lutar a guerra jurídica. A qual é disputada unicamente…. por seus opositores.

Claro que haveria até um atenuante se essas pessoas se dispusessem a lutar a guerra política, a única forma pela qual aproveitariam as brechas causadas pelo “mas” na liberdade de expressão. Mas aprofundar-se em guerra política geralmente é o último item na lista de prioridades de quem defende este discurso.

Sendo assim, mesmo que essa não seja a intenção deles, a luta acaba sendo para a manutenção de brechas em nosso entendimento sobre liberdade de expressão. Estas brechas serão utilizadas quase exclusivamente por ultra-esquerdistas e radicais islâmicos, que morrerão de rir na cara de quem lhes deu essas brechas. Mas eles não agradecerão a oportunidade; em vez disso aproveitarão para destruir quem lhe deu essas brechas.

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7 COMMENTS

  1. Prezado Luciano,

    Concordo e discordo ao mesmo tempo. E antes de parecer um “tucano” em cima do muro, explico-me: sou católico por criação, oscilando hoje entre o deísmo e o teísmo agnóstico. Ainda assim me sinto profundamente inspirado pelo teísmo cristão, pelos ensinamentos filosóficos e morais atribuídos a Jesus, o Cristo. Independente disto, me posiciono, conforme fiz em meu post no meu blog contra os exageros nos ataques humoriísticos feitos pelas charges do Charlie Hebdo. Tanto que em sintonia e concordância com você, postei ali mesmo várias charges do Carlos Latuff criticando outras religiões (católica, pentecostais, etc.)

    Acho toda crítica válida e essencial: é o exercício pleno da democracia e da liberdade de expressão. Se por exemplo eu tenha citado um “mas” (não sei se o fiz e não judiciarei qualquer defesa a respeito!) foi apenas com excessos. Porque todo o excesso é bullying, querendo ou não! Justifica-se o ataque terrorista ao Charlie Hebdo? LÓGICO QUE NÃO! Justifica-se o 11 de setembro? LÓGICO QUE NÃO! Justifica-se o Contragolpe (ou Revolução de 1964)? LÓGICO QUE NÃO! (Isso vindo de um conservador como eu pode soar estranho, mas já me explico). Nenhum desses se justifica pelo EXCESSO empregado.

    O excesso choca. O excesso fere. O excesso mata e as vezes muito. O ser humano não é um ser diplomata como tenta fazer a opinião geral acreditar que é. Mas este é um esforço louvável, ainda que na maioria das vezes resulte inútil. E porque? Porque ainda que neguemos com o último resquicío da nossa tão apregoada racionalidade, somos animais urinando onde queremos para demarcar nosso território, a nossa zona de domínio. Sim, somos territorialistas. Sim, somos competitivos e não admitimos perder. O curioso é que o mesmo discurso que se atribui a esquerda, nas sombras ocultas serve a direita, serve a todos, ainda que ós neguemos.

    Porque, querendo ou não, nós nos dividimos para conquistar. Nós semeamos a discórdia para lucrar com isso, para subjugar com isso, para criarmos mártires, e subindo-se aos crânios destes elevarmos tiranos a quem chamamos de líderes.

    Esse quadro caótico é a raça humana. Então me perdoe, eu seria hipócrita se eu não me posicionasse de forma aparentemente neutra – o que é um ledo engano, na verdade eu não sou a favor de nenhum dos lados, e por mais que possa soar como um ataque de levianismo sociopático, eu me sinto na condição de estar rindo de 2 crianças birrentas, a quem eu teria ímpetos de puxar pelas orelhas e colocar de castigo uma em cada canto, se consigo me fazer entender bem.

    Finalizando o que quero dizer é que com toda essa aparente liberdade de expressão o que a gente mais vê são pessoas querendo impor o seu ponto de vista como o certo (direito que lhes assiste, o de ter um ponto de vista) esquecendo-se que o que é certo e válido para si não o é necessariamente para o outro. O Marcelo Madureira abordou a questão com excelente visão humorista, chamando todos para a mesma briga, ironizando numa única piada judeus, cristãos e islâmicos.

    Quando chegará a hora em que deixaremos de ver esses pombos (as religiões) brigando pelo milho espalhado (as pessoas) pelo mundo enquanto cagam pelos quatro cantos (tendo esses chiliques terroristas e crises de histeria política)? Fica a questão lançada! Aquele abraço!

    Roberto Carlos Teixeira
    Blog Atitude e Reação

  2. A culpa pela violência física é exclusiva dos jihadistas, evidentemente. A questão é outra: os chargistas são tão inocentes quanto os quatro judeus e os policiais que também foram assassinados?

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