Até na resposta a João Santana, marqueteiro do PSDB demonstra mediocridade

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paulovasconcelos

Ontem vários jornais publicaram entrevistas com João Santana para divulgação do livro “Um Marqueteiro no Poder”, de Luiz Maklouf Carvalho (que deve estar chegando por aqui em casa na próxima semana, via Amazon).

Nessas entrevistas, João Santana lembrou que na campanha o PSDB “fez uso amador da mediocridade”. Sobre o rival Paulo Vasconcelos (marqueteiro tucano em 2014), Santana disse que não passa de “um marqueteiro de segunda divisão (…) caindo para a terceira”.

Na verdade, as entrevistas de Santana têm despertado sentimentos ambivalentes no eleitorado de direita ou mesmo no eleitorado republicano em geral. Alguns o odeiam por ter jogado o jogo, e outros o admiram, esperando que a oposição passe a jogar as regras do jogo. Obviamente, estou no segundo grupo.

Um leitor mandou um ótimo vídeo resumindo muito bem como agiu a campanha do PSDB diante da campanha do PT:

Achei particularmente interessante ter a música do filme Mortal Kombat como fundo, com a frase “choose your destiny” (“escolha seu destino”) no início. Adaptando para a realidade da política, há quem escolha jogar o jogo político, e há quem prefira o auto-engano de fingir que este jogo não é importante. Escolha o seu destino…

Ao invés de reconhecer que tanto Vasconcelos como o PSDB escolheram seu destino (de perder uma eleição fácil), restou a amargura e o rancor contra quem jogou de acordo com as regras. E o fez muito bem, como Santana.

Em entrevista à Marina Lima, do Globo, Paulo Vasconcelos disse:

O João deu uma surtada! O chá de cogumelo da juventude fez efeito retardado. Deve ser o calor. A  eleição acabou e a disputa foi entre profissionais, entre CNPJs, não entre pessoas. Como ele pode dizer que nossa campanha foi mediocre? Na nossa atividade de marqueteiro, para o bem e para o mal, a eficiência se mede pelos números, pelo quantitativo. Nesse caso específico, quem mais ganhou votos foi o Aécio. Em apenas duas semanas, com ferramentas e tempos iguais, ganhamos 16 milhões de votos, e ele, com Dilma, ganhou 11 milhões de votos.

Tirando a piadinha do início, a análise é catastrófica. Primeiro, por que Aécio já começou o segundo turno herdando votos dos não-petistas, o que o fez estar na largada uns 3 ou 4 pontos à frente de Dilma. Segundo, por que de acordo com eficiência, estando Aécio na primeira posição, concluindo com uma derrota por 3%, isso só pode configurar um desempenho medíocre da campanha tucana mesmo. Terceiro, por que ele mesmo disse que haviam “ferramentas e tempos iguais”, o que demonstra de forma ainda mais cabal sua mediocridade.

Vasconcelos deve até ser um bom profissional. Mas não serve para a política. Talvez ele seja bom para campanhas de sabonete, cerveja e preservativos. Mas para política, é preciso de um outro tipo de habilidade que ele não parece ter.

Antes do segundo turno, nós éramos um time da série B jogando no campo adversário, com um terço do tempo e com a torcida contra. Conseguimos levar esse time da segunda divisão para a final do campeonato e perdemos nos pênaltis.

Não vamos distorcer os fatos. A campanha tucana foi mal desde o início, até antes de começar o primeiro turno. Foi por isso que o tucano foi levado, em determinado momento da campanha, a estar na série B. De novo, isso é demérito de marquetagem tucana, não um mérito.

E a “torcida” estava contra o PT, que tinha altíssimos níveis de rejeição antes do início do certame. Foi a campanha tucana que não soube aproveitar esta rejeição contra o PT e complicou uma eleição que deveria ser fácil para Aécio. Lembremos que o Brasil enfrentava (e ainda enfrenta) um gravíssimo período de crise e denúncias de corrupção em ritmo torrencial.

Alias, o desempenho de Aécio nos debates mostra que ele foi muito, mas muito superior aos marqueteiros do partidos, liderados por Vasconcelos.

Sejamos francos: perder nos pênaltis um jogo que era para ser ganho de goleada é algo para se tirar do currículo.

A única coisa que o marqueteiro não pode fazer é reescrever a História. Eu não quero levar para a minha biografia uma deselegância de responder ao João no mesmo tom. Os números estão aí. Dizer que fizermos uma campanha medíocre é chamar a maioria dos gaúchos e os 70% dos paulista que votaram em Aécio de medíocres. Isso é um desrespeito com o eleitor.

Eu votei em Aécio Neves, assim como toda minha família. E foi doloroso assistir o horário eleitoral do PSDB. Chegava a dar vergonha.

Não é que eu queira me gabar, mas sou um especialista no material de estrategistas da política, especialmente David Horowitz, e precisamente por isso eu assistia o horário eleitoral em agonia. A sensação era: “não é possível que de novo eles não vão disputar posições como ‘aprovado/rejeitado pelos seus’ ou ‘inimigo dos pobres’ ou ‘o adversário tem um Ministro da Fazenda que vocês devem temer'”.

Então, Vasconcelos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma coisa é um eleitor do PSDB (e muitos deles eram apenas não-petistas), outra coisa é a campanha feita pelo partido. E é por causa desta campanha medíocre que o PSDB perdeu uma eleição que poderia ter ganho com um pé nas costas.

Antes da eleição eu dizia: “independentemente dos resultados, estas serão as eleições mais fascinantes da história da política nacional”.

Por que eu disse isso? Por que, enfim, teria ficado muito claro para uma parcela dos eleitores que existem regras a serem seguidas no jogo político. Regras estas que perfazem as ações na guerra política. E ter chance de vencer passa a ser puramente uma questão de escolha. Não há mais mistério. Não há mais direito moral para o lançamento de desculpas esfarrapadas. Há apenas a possibilidade da opção ou não de permitir que o apego à estratégia vença o ego de muitos que ainda preferem o auto-engano de achar que o PSDB mereceu vencer as eleições.

Eu vou além: se o PSDB tivesse vencido as eleições, talvez alguns pudessem achar que a campanha de Vasconcelos foi a correta. Não foi. Foi desastrosa. E era para Dilma ter vencido por uns 55% a 45%. A diferença foi apenas de uns 3% por causa de uma série de meteoros que cairam em cima dos petistas, especialmente as delações de Youssef às vésperas do pleito.

Essa é a grande divisão de nossa era: aqueles do nosso lado que ouvirão as palavras de João Santana e enfim aprenderão uma coisa ou duas (assim como já ocorreu com muitos leitores deste blog). Ou aqueles do nosso lado que rejeitarão qualquer tipo de aprendizado e continuarão achando que Vasconcelos foi algo melhor do que medíocre, optando pela ilusão de achar que a estratégia estava correta. Estes vão continuar nos atrapalhando…

Eu acho até que João Santana foi polido ao tratar da campanha do PSDB. Para mim, a campanha do PSDB foi um crime moral.

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30 COMMENTS

  1. Não concordo, chutar o balde quando a galinha já esta morta é fácil demais, creio deverias mostrar o seu talento profissional ao PSDB para que os mesmos o contratassem, faz parecer que escondes a bola de cristal, já vi mais de uma centena de seus artigos e tens o remédio para tudo, mas não vejo ninguém tomando do mesmo, mesmo que em gotas homeopáticas!

  2. Não nego as lambanças da campanha tucana, mas o gráfico dos votos, vi num artigo, era idêntico ao da eleição da Venezuela, com dilma ultrapassando Aécio aos 49 e meio do segundo tempo, e só com o Toffoli para ver o resultado.
    E com a Smartmatic dando aquela forcinha, ficou mole.
    .
    Como já postei antes, essa eleição foi como se o síndico do prédio pegasse o saquinho com os votos, se trancasse no banheiro da garagem, jogasse os votos na privada, desse a descarga e saísse se anunciando o vencedor da disputa.

  3. Luciano,
    Na sua visão qual seria a tática correta ?
    O que vc definiria como estratégia vencedora para esta eleição dita como fácil?
    Será que mesmo com seus argumentos, o PT deixaria Aécio vencer? O “deixaria” fica por conta das urnas fraudulentas.

  4. Vasconcellos é culpado inapelável por tudo de ruim que acontecer de agora em diante! Imagine um médico que perde um paciente para um resfriado e ainda quer rebater críticas! Só matando!!!

  5. Não concordo com a sua análise. Aécio perdeu porque o jogo do PT foi muito sujo, fazendo o eleitorado menos esclarecido acreditar que Dilma estava com os pobres…’nem que a vaca tussa’. Santana tem como modelo o marqueteiro de Hitler, Goebbels, para quem , como vc sabe, “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Ele conseguiu transformar uma ogra prepotente e grosseira num tia fofinha. A campanha petista foi eivada de mentiras , e isto é mérito de Santana, temos que admitir. Pisar na ética, armar mentiras, tudo isto é mérito dele. Obvio. Quem é minimamente alfabetizado percebe isto. Estamos numa guerra de informações, já prevista por Orwell em “1984”. Cabe a cada um de nós tentar se informar e tirar suas conclusões.

      • Eu entendi, pelas palavras da Dora, que, de fato, ela pensa que, se um lado é extremamente habilidoso em mentir, o outro não pode usar os mesmos artifícios e habilidades para desmascarar, os meios são os mesmos, o uso é que é diferente, está lá, basta exagerar no tom para desmascarar o adversário, coisa que inclusive o PT também fez, quando desmascarou Marina que havia mentido sobre o voto que deu em uma sessão no Plenário.

        Bastava a nós usar a mesma intensidade para desmascarar o inimigo e mostrar exatamente o que está acontecendo agora, e muitos o fizeram, como Luciano e eu, no meu facebook e debates na net, eu falei que Dilma mentia sobre suas ações e que iria fazer exatamente aquilo do que acusava o adversário.

        Se o adversário é ávido para mentir, devemos ser ávidos pra buscar a verdade e extremamente indignados com ela. Acho que isso é o que o Ayan quer mostrar, que não dá pra apenas se indignar ou buscar a verdade, mas buscar a verdade com indignação pela mentira.

      • Exato, Marcelo! E eu ainda diria de outra forma: tem que ser imposto um preço a cada sujeira e cada mentira falada. Mentiu? Processo. Atacaram a reputação do meu futuro ministro? Destrói a reputação da própria Dilma através da equipe que ela MANTEVE NO CARGO apesar da desgraça que essa equipe causou na economia. Tentou fazer alguma baixaria comigo? Jogue as verdades sobre eles na cara, pra todo mundo saber. Pronunciamento mentiroso? Direito de resposta, resultando em perda de tempo de propaganda pra eles. Quando se responde assim, eles são obrigados a recuarem no tom ou perderem. Até porque eles eram justamente os que tinham menos moral pra falar qualquer coisa de alguém, e foram os que mais falaram. Por mais que eu nunca vá admirar nem elogiar esses “gênios do mal” (pra mim são monstros a serem destruídos, não gênios a serem admirados), não dá pra discordar que o PSDB se esforçou muito pra perder, e por isso perdeu.

        Em tempo, aos que dizem que não há genialidade em quem chuta um cachorro morto, se eu desafiasse o Kasparov pra uma partida de xadrez (e apenas num mundo fictício ele se daria ao trabalho de aceitar o desafio), ele jogaria uma partida tutorial (facilitando as coisas pra mim, no intuito de me ensinar a jogar), eu sofreria uma derrota humilhante, e nem por isso a genialidade dele no xadrez seria menor do que é. E seria “chutar um cachorro morto” do mesmo jeito.

  6. O debate entre esses 2 profissionais do Marketing reafirma que o País não leva a escolha de governança a sério por falta de discurso.

    A culpa é nossa e não deles.

    O resultado é o que estamos assistindo: propaganda enganosa. A vender produto de má qualidade a consumidores tolos e impulsivos.

    Continuamos nas mãos dos espertos de plantão.

    Estou com Dora e essa eleição é uma nulidade que merece ser esquecida.

  7. Os números estão aí. Dizer que fizermos uma campanha medíocre é chamar a maioria dos gaúchos e os 70% dos paulista que votaram em Aécio de medíocres.

    O cara realmente acha que Aécio conseguiu 51 milhões de votos por causa da campanha dele? Putz…

  8. Dora, como já foi escrito neste blog, “política é uma briga de rua”. E quem entra numa briga de rua deve estar preparado para bater, ou acabará apanhando.

  9. Não acho que desejar que a oposição tenha uma atuação verdadeiramente assertiva, lançando mão de todas as armas de ataque disponíveis e sem salto alto implique, necessariamente em, ter ou sentir admiração pelo indivíduo que é um dos principais responsáveis diretos por nossa escravidão aos terroristas de 1964 e – queiram os deuses que eu esteja errado – com probabilidade de ainda vir a mergulhar o país numa guerra civil.

    Eu não tenho nenhuma admiração por quem usa o seu talento para promover o mal.

    Desejei muito que o PSDB mudasse o seu comportamento durante toda a campanha presidencial, o que, infelizmente, não só não aconteceu, como o partido, quanto mais o tempo passa, faz questão de mostrar que continua o mesmo, como parece provar o “post” aqui disponibilizado sobre o PSDB aceitar a aproximação com o PT para derrubar o Eduardo Cunha.

    Por outro lado, desejo ardentemente que no novo congresso que começa seu “trabalho” na próxima semana, surja uma verdadeira liderança de Oposição, e que esta seja muito melhor, muito mais agressiva, muito mais corajosa e muito mais transparente do que o partido que foi rotulado como “oposição” na campanha de 2014 jamais o foi.

  10. “E era para Dilma ter vencido por uns 55% a 45%. A diferença foi apenas de uns 3% por causa de uma série de meteoros que cairam em cima dos petistas, especialmente as delações de Youssef às vésperas do pleito.”

    Essas porcentagens citadas no texto são apenas especulação, pelo menos não foram mostrados dados que sustentem a hipótese delas serem verdadeiras. Especificamente sobre a importância das delações do Yousseff, conheço muitas pessoas que não acreditaram muito na reportagem da Veja e as delações que ocorreram antes soavam como especulação, então questiono se as delações foram tão decisivas para os resultados finais.

    Existe uma dúvida sobre a análise feita do marketing do Aécio, a dúvida é se de fato o marqueteiro trabalha apenas com a propaganda da TV. Um trabalho de marketing também poderia envolver trabalhar a imagem do Aécio em debates, participar do agendamento de eventos e por onde o candidato iria passar, pensando nas reações que outros candidatos teriam a sua própria campanha. Se é esse o caso, então poderíamos considerar a campanha razoavelmente bem sucedida no primeiro turno, mas a vantagem adquirida neste primeiro turno se enfraqueceu no segundo. Acredito que o principal problema foi a campanha do Aécio ter falhado em entender a natureza do problema que eles estavam enfrentando. Quando eles vieram com a idéia de “para cada ataque, uma proposta” , eles ignoraram que estavam em uma disputa entre candidatos e trataram como uma disputa de projetos políticos. O que aconteceu foi o Aécio ter tomados os ataques e ter fornecido as idéias que a Dilma usaria ou fingiria usar no seu governo.

    • Acervo,

      Era possível estimar os números, pois a cada posição disputada, o PT conseguia aumentar sua pontuação em 2-3%, e a rejeição do candidato oponente aumentar ainda mais. Como o PT escolheu 4 posições aproximadamente, todas ignoradas pelo PSDB (que não entendeu o conceito de guerra de posição), e essas posições eram bem díspares (“tem um ministro que vai fazer vocÊs sofrerem”, “não aprovado em seu estado”, “intencionalmente do lado dos poderosos”, “agressor de mulheres”) não seria surpreendente se, tudo corresse coma normalidade, que Dilma tivesse uns 10 pontos à frente.

      Abs,

      LH

  11. Eu contrataria fácil o Luciano Ayan e o Alexandre Borges do Reacionaria para montar as campanhas do PSDB caso eu fosse um peso pesado dos tucanos. Tomaria uns 70 a 80 % dos cargos de vereador (que é o primeiro passo para ganhar a presidência da república)…

  12. Ui! Ele ficou ofendidinho porque o João Santana falou o óbvio? Pois é, panacas, na próxima eleição fica botando musiquinha no lugar de bater até doer. Bando de lerdo.

  13. Bom, enquanto a grana estiver rolando, todo mundo vai ficar com o bico fechado. O brasileiro é venal mesmo, e daí? Ao invés de se informar, fica trocando baixaria no whats e quando acordar, já vai estar nas profundas do atoleiro do inferno. Deixa o Carnaval vir e passar, já que é data mais importante nessa bodega.

  14. E o Lula, Marta e Suplicy já estão começando suas campanha, a de oposição a Dilma.
    O PSDB ja deveria deixar de ataca a Dilma e focar no Lula que ainda tem uma imagem de corrupto mais que a cada dia que passa vem mostrando que ele não apoia, não participa de tudo isso, que acha uma vergonha o que a Dilma está fazendo. Se liga PSDB a eleição já começou para o PT.
    Enquanto o Aecio ataca a Dilma, o PT ataca o governo de SP que é onde ele perdeu a eleição para presidente.

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