Eduardo Cunha promete barrar impeachment. Parte da direita fica desolada. Eles estão certos em agir assim?

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Às vezes é preciso olhar as tragicomédias da política com certo humor. Já está se tornando engraçado o comportamento de certa parte da direita, que atende a um seguinte padrão:

  1. Um membro de um partido opositor ou ao menos desalinhado com o governo pratica uma concessão
  2. O direitista em questão diz, orgulhoso: “Está vendo? Eu provei que ele não presta e já está vendido ao governo”
  3. Este direitista diz: “Está tudo dominado! Tudo acabado!”

Pois foi este mesmo comportamento que já observei mais de uma vez de alguns direitistas diante da notícia Cunha promete barrar impeachment na Câmara, do Brasil247:

Favorito para presidir a Câmara dos Deputados, o deputado Eduardo Cunha (PMDB) se mostra como um dos maiores adversários do PT, mas promete barrar um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Se depender de mim, arquivo sumário”, diz.

“Tenho uma filosofia: tudo que aconteceu com relação às denúncias que existem hoje aconteceu no mandato passado, encerrou no dia 31 de dezembro. Não vejo como responsabilizar, do ponto de vista político, em nenhuma circunstância, a presidente da República”, acrescenta em entrevista ao Valor.

Ele sinaliza, no entanto, fragilidade na relação com o partido do governo: “O PT se isolou da Casa e a Casa quer se isolar do PT. Essa é a razão do sucesso da minha candidatura”, afirma.

Agora uma pergunta: o que raios isso tem a ver com aceitar o discurso dizendo “tá tudo acabado”? Absolutamente nada.

Foi parte da direita que criou as demandas de impeachment e anulação de eleições. Não o Eduardo Cunha. Não o PMDB. Não o Aécio Neves. Não o PSDB.

A demanda de impeachment ainda não encontra nem de longe um lastro político para ser discutida. Isso pode acontecer, talvez, lá do meio do ano para frente. Isso se não for só em 2016. É preciso do surgimento de provas contundentes mesmo. A Lava Jato está entrando em sua fase mais divertida só agora…

Quem está pedindo “anulação de eleições”, “impeachment já” e até “intervenção militar” não está olhando para as possibilidades do momento. E, verdade seja dita, alguns dos primeiros grupos até conseguiram contribuir para um desgaste do governo aqui e ali.

Mas as batalhas reais não são essas. São sobre o controle de mídia, o financiamento exclusivamente público de campanha e a unificação das polícias. Se o PT conseguir estas demandas, todos os que terão priorizado a luta por “impeachment já” terão perdido tempo, pois, com a mídia controlada, essa possibilidade cairá a zero.

Então me perguntaram: “Luciano, o que você acha disso que Eduardo Cunha disse sobre não colocar impeachment em pauta?”.

Minha resposta: “Excelente. Está na hora de colocar um pouco de foco no pessoal”.

É fato que enquanto o Kassab está criando um partido de apoio ao PT, o PMDB está saindo da base governista. Estes últimos não são burros de continuar apoiando um partido que priorizou tomar o poder totalitário. Até por que sabem que se isso ocorrer eles serão cuspidos.

Resta a nós apoiar Cunha à presidência da Câmara, não para ficar perdendo o foco, mas lutar por demandas reais e que verdadeiramente atinjam o PT, que são barrar a censura de mídia e o financiamento exclusivamente público de campanha.

Mas a demanda desta semana, e que realmente atingiria o PT, seria a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara. Ainda mais que ele foi esperto o suficiente para não adotar o discurso dos derrotados (“impeachment já”), que só serviria para rotulá-lo como golpista.

Mas tem gente que não vai aprender mesmo…

Em tempo: Eu não tenho nada contra quem alimente esperanças de impeachment. Do lado perdedor, este é um sentimento inevitável em muitos. O problema que tratei aqui é a mania de priorizar esta demanda, além de, arrogantemente, exigir que ela seja tão prioritária para os outros quanto para você, quando na verdade trata-se de uma demanda inviável, que no momento só prejudica a você e prejudicaria ao outro.

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15 COMMENTS

  1. Concordo com essa visão descrita no texto. A vitória de Eduardo Cunha e seu fortalecimento poderá causar danos ao projeto de poder do PT. É hora dos direitistas (os minguados que ainda existem) trazer o PMDB para a oposição e desgastar o Planalto no Congresso. Torço não só por uma vitória do Eduardo Cunha, como também torço para que o presidente do Senado seja alguém com o perfil que atrapalhe e infernize o governo. Quem sabe a Dilma não será a “pata manca” da vez?

  2. Luciano, sugiro que realce nas próximas semanas em seu blog o conceito de estratégia, em virtude da confusão que domina o pessoal anti petista. Sature o tema, pois acho que a ansiedade e a ignorância se apodera de parte da direita diante de declarações como a que o deputado disparou.
    (Aliás, acho que é burrice republicana mesmo, pois assim como adiantam o método de intervenção militar e exigem um idealismo em declaração de deputados sobre o impeachment, ninguem, em sã consciência se adianta ao inimigo o que deve se fazer).
    No mais, a vitória de Eduardo Cunha vai dificultar o governo para aprovação do projeto de intervenção econômica dos veículos de comunicação e permitir a criação de CPMI da Petrobras (que parte da direita acha que é inútil) para fustigar esse mesmo governo.
    Não entendem que tem que bater no adversário e detê-lo nas cordas continuamente até cair…
    Parabens pelo blog!

  3. O que me assusta é que Luciano Ayan é o único direitista que eu conheço que raciocina assim, em termos estratégicos. Ainda bem que minha conversão à direita coincidiu com a descoberta deste blog, do contrário eu seria hoje o mais triste membro da “direita depressiva”.

    • Em tempo, o que Cunha falou sobre não responsabilizar Dilma II pelos erros da Dilma I é de uma patetice sem tamanho. Mas ei, é bem possível que Cunha também esteja envolvido com essas falcatruas (vide sua relação com Fernando Baiano, já apontada por Lauro Jardim na Veja), então é bom que ele seja eleito para, na melhor das hipóteses, morrer em chamas abraçado ao PT.

  4. Ou então o discurso de Eduardo Cunha não passa de estratégia para diminuir a resistência da base governista em relação à sua candidatura. O discurso de Eduardo Cunha pode levar alguns adversário a pensarem: “Ele não é tão ruim como eu imaginava”.

  5. Maravilhoso o texto.

    100% pragmático, do jeito que eu gosto.

    Por mais que sejam bem intencionados, esses setores da direita ainda estão aprendendo a falar, quando o assunto é guerra política… Vemos sempre esse mesmo sentimento messiânico. Sério, não sei o que me surpreende mais, a ingenuidade destes, ou como a própria esquerda não consegue ser mais eficiente do que é, em um cenário tão favorável para eles, como o Brasil.

  6. Os próprios caras que pediram impeachment e etc já aprenderam e recuaram. O momento agora é ganhar aquelas pequenas batalhas que dão a vitória maior. O impeachment virá em 2016 com o governo surrado pelo fato de ter ocorrido apagões, o país em recessão e a “presidenta” culpada pelos escândalos do petrolão.

  7. Impeachment significaria que o Temer, presidente do partido dele, assumiria. Essa declaração não é nada mais que a exteriorização da lógica da sua candidatura, pois como presidente ele responde a todos os partidos. Se quisesse o impeachment que ficasse quieto no seu canto e não alçasse vôos mais altos. Todos os objetivos de longo prazo requerem período de maturaçao e oportunismo, coisa que um candidato a presidencia não valoriza, pois se foca mais no ganho imediato e relaçoes pessoais.

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