João Santana é mesmo um monstro? Ou será que o monstro mora nos erros lógicos do outro lado?

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sauron

O discurso já se tornou recursivo depois da entrevista de João Santana no final de janeiro, vista aqui e aqui. Amparados por um maniqueísmo digno do Guiness, muitos direitistas apontaram a vileza de Santana como o fator decisivo para a vitória do PT em outubro de 2014.

Imagine a seguinte situação. Um adversário imoral e completamente despudorado quer usar brechas jurídicas para atacar a empresa de sua família. Enquanto isso você tem a oportunidade de ajudá-los, escolhendo um advogado considerado competente para evitar o dano e ainda punir o delinquente.

Infelizmente, na primeira contenda seus familiares perdem. Mas haverão outras batalhas jurídicas. Mas aí um amigo surge com dicas sobre a fragilidade de seu advogado, e da incapacidade dele em defendê-los. Ao mesmo tempo, esta pessoa de fora identifica o alto potencial do advogado oponente. Há aqui um cenário onde muitas coisas podem ser corrigidas em casa (até a substituição do advogado, ou exigência para melhoria) assim como assimiladas do outro advogado.

Mas eis que seu cérebro entra em colapso. Revoltado, você começa a xingar qualquer um sugerindo uma mudança de curso em sua defesa. No seu julgamento, não há nada a ser copiado dos bons métodos retóricos, na habilidade e no alto nível de percepção da realidade do outro advogado. Motivo: “ele não tem caráter”.

Esta é a situação de muitas pessoas revoltadas diante daquelas declarações de João Santana, optando por xingá-lo ao invés de entender como o alto nível de percepção da realidade demonstrado por ele deveria ser urgentemente copiado por nós.

Qual o crime moral de João Santana? Ele foi contratado por um partido que tinha um senso moral das coisas realmente bizarro. Também tinha com objetivo mostrar-se da melhor forma possível, assim como desconstruir a imagem de seus oponentes. Ciente dessa missão, como qualquer bom advogado faria, João Santana executou seu serviço. E com uma habilidade elogiável. De novo pergunto: qual o crime moral aí?

Para podermos responder esta pergunta, nada melhor que mapear o padrão comportamental de João Santana nessas eleições.

  1. Identificou seu cliente e seu objetivo
  2. Alinhou-se ao sistema moral de seu cliente
  3. Desenhou as melhores estratégias possíveis para atender (1), sempre de acordo com (2)
  4. Executou as estratégias e planos correlatos
  5. Reagiu aos eventos do mundo sem se esquecer dos passos anteriores

Isso é o que o “demônio” João Santana fez nas eleições. Nada que um advogado top não faria.

Aqueles da direita reclamando de João Santana pela campanha mentirosa do PT provavelmente se indignam com o passo (2). Porém, o passo (2) também foi executado pela equipe de marketing do PSDB. Ou seja, ambos se alinharam com os sistemas morais de seus clientes. Então, qual a reclamação?

A reclamação vem do fato de que, tendo tanto Santana como o marqueteiro do PSDB executado os passos (1) e (2), a partir do (3) somente o primeiro continuou agindo. Mas os passos (3), (4) e (5), que é o que decidiram o jogo, não tinham nada de imoral.  Ou seja, atacaram João Santana por fazer o que os tucanos (e todos os seus aliados, de esquerda, centro e até da direita) deveriam ter feito.

Mas eis que, no momento de aprendermos algo com isso, muitos de nós protestam: “ele não tem caráter”. É eliminada com isso qualquer chance de aprendizado. Estes mantras começam a ser repetidos como uma ode ao nosso conhecimento sempre superior. Se perdemos, “é por falta de caráter do outro”. Em um passe de mágica, conseguimos absolvição por nossas falhas, que não precisam ser mais corrigidas.

Habilidades como entendimento das regras do jogo, alto nível de percepção da realidade, mapeamento e disputa de posições, concentração de esforços e pragmatismo se tornam não algo a ser assimilado, mas condenado, pois foram usadas a favor deles, e contra nós. E perdemos. A culpa de nossa derrota, porém, não é nossa, mas da “malignidade dele”.

Não dá mais para negar que há uma parte da direita resistente a discutir suas estratégias políticas. Assimilar os jogos políticos? Nem em sonho. Não há mesmo disposição em discutir “coisas malignas” que “vão contra os nossos princípios”. Para eles, a partir de agora, perceber a realidade, como fez João Santana, é um pecado. Disputar uma posição também. Desconstruir um oponente? Também um pecado.

Será coincidência o fato de que essa direita, que odeia ter que admitir que fomos vítimas de erros antes da oposição do que dos acertos da situação, é a mais propensa a declarar “tudo acabou, está tudo dominado”, desestimulando o maior número de pessoas do nosso lado quanto possível?

A narrativa é bem óbvia. Não há nada a aprender. A campanha tucana fez o que deveria ter feito. Se existiu alguma vantagem do PT, é por uma imoralidade que jamais deve ser copiada (embora não exista nada de imoral na guerra política, diga-se). Mas por que o PSDB perdeu então? Urnas fraudadas, meu caro. As instituições estão acabadas, demolidas. Não há nada mais pelo que lutar. Estamos todos no caminho certo. Mas nossos adversários impedem  que vençamos pois são sujos e nada do que fizeram pode ser copiado.

Bom, eu já fui criticado mais de uma vez por uma suposta imoralidade por trás dos jogos políticos, parte fulcral da guerra política. Já demonstrei aqui que tal argumentação não se sustenta. Se ela se sustentasse, um policial se tornaria imoral apenas por usar uma arma para nos proteger do crime. Lembre-se que armas de fogos são usadas por criminosos.

Mas se eu já fui criticado moralmente (e contra-argumentei), espero que meus amigos da direita que estão indo pelo caminho de ignorar a responsabilidade da oposição para demonizar o marqueteiro do lado adversário não levem a mal o que vou dizer: muito mais imoral que qualquer atitude de João Santana é a citação de malfeitos do lado adversário para justificar a inação.

Em outras palavras, imagine-se como um líder de guerra de uma nação devastada por um outro grupo que gosta de decepar os braços das crianças. Pois imagine agora que, diante do primeiro caso de barbárie do outro lado, você utilize isso como argumento para dizer que não precisa copiar as estratégias (não as abominações morais) do adversário, nem mesmo disputar ferrenhamente as posições contra ele. Este fenômeno é o que defino como busca da validação de sua inação pela citação de monstruosidades morais do outro lado.

Enfim, João Santana é um monstro moral menor do que aquele assombrando este tipo de argumentação (mesmo que algumas pessoas o façam de boa fé, o que não as exonera de erros lógicos). Que sirva como reflexão para todos nós, que não precisamos de nenhuma trava mental que nos impeça de adentrar ao mundo da guerra política.

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15 COMMENTS

  1. Existe uma praga em língua espanhola que diz: entre advogados te vejas. De acordo com o raciocínio do artigo, um bom advogado que conseguisse inocentar o Champinha, por exemplo, mereceria nosso aplauso e admiração, afinal, ele conquistou seu objetivo! Tudo que este advogado teria de fazer seria
    .
    Identificar seu cliente e seu objetivo (a impunidade)
    Alinhar-se ao sistema moral de seu cliente (nenhum)
    Desenhar as melhores estratégias possíveis para atender (1), sempre de acordo com (2)
    Executar as estratégias e planos correlatos
    Reagir aos eventos do mundo sem se esquecer dos passos anteriores

    • Não é isso, Bruno.

      Meu texto focaria em criticar um advogado ADVERSÁRIO a este que você citou, que mesmo com uma BOA CAUSA EM MÃOS, conseguiu perder para o advogado bom de um culpado.

      Mas daí ao invés de criticarmos nosso advogado, que tem o potencial de melhorar seu desempenho para as próximas, usaríamos o raciocínio confortador de “tudo bem”, pois o problema é só no “mau caráter” do advogado alheio.

      Com isso, busca-se justificativas para inação e nenhuma melhoria.

      Era esse o tom de meu texto.

      Abs,

      LH

      • Luciano, acho que o que mais incomoda a todos aqui é como você elogia os monstros, como se eles estivessem certos em sê-lo. Por que isentar o monstro de sua monstruosidade se você pode condenar a ambos? Você frequentemente compara a política a um jogo, e outras vezes a uma guerra. Eu acho a comparação com um jogo péssima, pois um jogo é sempre inofensivo (pelo menos a quem não participa dele). Já guerra não, deixa vítimas para todos os lados, sempre são os inocentes que mais pagam. E a política não é diferente.

        Essa visão nos autoriza ainda mais a atacar os retardados do nosso lado que se deixam vencer pelos monstros, pois deixa claro que a inação e/ou incompetência dele VAI GERAR VÍTIMAS INOCENTES; ao mesmo tempo não permite que nós “admiremos” os inimigos, ou que pensemos ou falemos que o que SE ESPERA DELES é justificável, pois “ele só tá fazendo o papel dele”, “ele tá sendo mais cidadão do que a gente, exigindo posicionamento dos políticos”, como você falou de outro blosteiro outro dia. Ciadão o caralho! O cara é um espoliador dos cofre públicos, comprado pra ludibriar suas vítimas, convencendo-as que elas estão sendo beneficiadas. Um estelionatário profissional, e legitimado pelo governo que o paga com O NOSSO DINHEIRO! Eu acho que não devemos nunca deixar o tom abaixo disso quando nos referirmos a essa corja.

        Note que entendo o que você quer dizer, e acredito que haja pelo menos uma certa concordância na essência do que foi tratado (senão total). Minha crítica é apenas ao tom que se dá. Discordo que devamos admirar estelionatários, embusteiros, ladrões, assassinos (de tabela), etc. simplesmente por eles “jogarem o jogo” (ou lutarem a guerra, melhor dizendo) melhor do que nós. Nós devemos sim aprender com eles e superá-los, admirá-los jamais!

        Abraços.

      • Eu concordo que a campanha de Aécio foi pelo caminho errado, não tenho dúvida disso. Só não acho que vale tudo para ganhar qualquer disputa. Seria o mesmo que um cara ganhar uma luta de boxe com uma pistola. Claro que o outro boxeador poderia entrar no ringue armado também, mas aonde é que isso para?

      • Eu acho que se o outro lado entrar armado com uma pistola, há menos desestímulo para atirar. O que quero dizer é que a campanha do PT foi essa baixaria toda por que foi AUTORIZADO a isso pela campanha péssima do PSDB.

      • Eu penso o seguinte, usando um dos exemplos mais abomináveis do mundo: Hitler. Ele deve sim ser admirado, não pelo que fez, pelas suas ações, mas pelo seu plano de ação, por sua estratégia, ele tinha um objetivo em mente, tinha um sistema moral em mente, ele foi lá e executou o seu plano perfeitamente, enquanto seus opositores ao invés de derrotá-lo, se deixaram vencer por ele. Acho que tomando Hitler como exemplo, temos que adaptar a sua estratégia ao nosso paradigma.

        Mas vamos à outro exemplo, digamos que temos um lado matando inocentes e o outro indignado. O que fazer?

        A – Reclamar da brutalidade
        B – Fazer passeatas pedindo o fim daquilo
        C – Tentar o diálogo
        D – Aniquilar aqueles FDP usando estratégias de guerra

  2. Esses direitistas ressentidos devem raciocinar da seguinte maneira: “A vitória de Aécio estava no papo! Bastava o PT não atacar ninguém nem fazer propaganda em benefício próprio que ele venceria de lavada!”. Mais ou menos como, para ganhar uma corrida, o melhor a fazer é torcer para que todos os seus competidores tropecem. Treinar para quê, né?

  3. Pra quem tem uma moral igual a de Trotsky, João Santana não fez nada de errado. O problema é que na sociedade que vivemos, quase todas as pessoas tem uma moralidade à lá Trotsky

  4. Eu concordo que direitistas tem que saber aprender com quem se opõe a eles. Também acho que devem entender o que de imoral tem nas ações dos opositores, para que este aspecto não seja copiado junto, caso contrário estaríamos jogando a ‘água com o bebê junto’. Parece um pouco isso que voce está sugerindo, ao colocar o marketeiro como se não tivesse nada de moralmente errado na atuação da campanha dele. Cair nesse extremo é ainda pior do que não querer aprende com a oposição, pois é um pouco como se desitisse de fazer oposição verdadeira, para fazer apenas uma oposição ultra-pragmática(um pouco de pragmatismo não faz mal. O problema é flexbilizar até a moral ou valores em função de vitórias eleitorais). Além disso, me lembrou essa coisa do marketeiro do PT alinhar-se à moral do PT é um pouco como a declaração dos nazistas no “a banalidade do mal” da Hanna Arendt , os nazistas de baixo posto aliviavam sua consciência e se justificavam dizendo que apenas estavam seguindo ordens.

    • Mas aí é que está. No único aspecto de moralidade, como mostrei, estamos iguais. Tanto Santana como nós estamos alinhados com os valores morais de quem defendemos. A diferença é que muitos de nós usam as vilezas do outro lado para não copiar nada de boas técnicas.

      Em suma, agimos como se proibíssemos nossos policiais de usarem armas por elas serem imorais, já que são usadas por marginais.

  5. Boa reflexão. Seria igual dizer que o 7×1 ocorreu “só” porque o time da Alemanha era muito forte. Não, cacete: o time do Brasil era uma piada, cambada de perna de pau, sem citar aquela encenação do acidente com o Neymar que não sei como virou um escandâlo sendo que tá na cara que foi uma armação. Ao menos serviu para aquela dePUTAda do Sul desejar a morte do colombiano e a Jandira Fegalinha ficar bem quietinha e constrangida.

  6. Entendi o intuito do texto e concordo com o objetivo. Realmente não dá para deixar de fazer a autocrítica e tentar pensar no que pode ser feito para melhorar, até mesmo copiando técnicas do outro lado que não sejam inerentemente imorais.

    Agora, há o risco desse discurso ser confundido com um alívio a imoralidade de João Santana. Ele trabalhou para um grupo totalitário e usou e abusou de métodos sujos. Isso é imoral sim. Todas as técnicas a atitudes deles são imorais e não devem ser copiadas? Não é bem assim, mas é verdade que ele também usou de mentiras, trapaças e calúnias para atingir seu objetivo. Isso o torna sim imoral e cúmplice de um processo de destruição da democracia, e não creio que a sua responsabilidade por isso deva ser diminuída só porque podemos aprender um truque ou outro com ele.

    Além disso, a imagem de “gênio do mal” pegar pode ser uma vantagem a ser explorada politicamente. Seria bom se as pessoas de fato acreditarem que ele está aí para enganar todo mundo através de uma série de artifícios. Acho um bom rótulo, que tem potencial para colar.

    Ou seja, acredito que devemos analisar a campanha petista, separar o joio do trigo, aprender as técnicas não imorais e denunciar os golpes baixos, usando o frame de “gênio do mal”. E, cá pra nós, nem acho o gênio tão gênio assim. Tudo bem que ele teve que carregar o “poste” Dilma nas costas, mas ele enfrentava um inimigo fraquíssimo. O que ele faria se pegasse um bom leitor de David Horowitz pela frente?

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