O que significa “negar a política” e como isso está prejudicando os petistas

14
148

lula_tv

Hoje, quem diria, o PT vive um drama por causa do mesmo fenômeno que assombra a direita há várias décadas.

Antes de falar deste fenômeno, vejamos o que disse Lula em julho de 2013 a estudantes em uma conferência em São Bernardo:

A pior coisa que pode acontecer no mundo é a gente aceitar a negação da política. Não existe nenhuma experiência em que a negação da política tenha um resultado melhor do que a podridão da política. […] Quando estiverem putos da vida, que não confiarem em ninguém: eu não gosto do Lula, eu não gosto da Dilma [Rousseff], eu não gosto do Marinho [Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo]’, ainda assim, não neguem a política […] Não é de hoje que a gente vê as coisas acontecerem e as pessoas colocarem a política no ralo da podridão. (…) Toda vez que acontece um problema, a negação da política aparece em primeiro plano.

Esta parte também é relevantíssima e tem tudo a ver com o que eu tenho falado mais de mil vezes por aqui:

Muito menos neguem os partidos. Vocês podem fazer outros. Quando você estiver puto e quiser negar as coisas, em vez de negar a política, entre na política.

Já é o suficiente para nossa análise.

O que Lula dizia aqui é o seguinte: com o advento das manifestações de junho de 2013, uma espécie de purismo tomou conta de boa parte dos jovens de esquerda. Com isso, muitos deles seguiam atacando a direita, mas, para pesadelo do PT, começaram a negá-los também.

Se isso não afetou suficientemente o partido nas eleições presidenciais, o efeito veio feito um tsunami após a constatação pública do estelionato eleitoral petista. Eles já não passaram a contar apenas com seus opositores tradicionais. Agora tinham que lidar com a rejeição vinda de outros socialistas brasileiros.

Mas o que é o socialismo se não um método para se obter o poder de forma totalitária para os líderes dos militantes ingênuos? Nenhum partido seria melhor para estes militantes do que o PT. Tudo bem que agora eles estão começando a se desgastar até nessa frente, mas o PT pragmaticamente seria a melhor escolha para os socialistas brasileiros.

Ao invés disto, estes puristas de esquerda passaram a atacar o partido, em troca de… quem mesmo? Ninguém. Eis a negação da política. Pode estar em curso inclusive o florescimento de uma visão de esquerda aí sim adepta da tomada de poder pela via da força, como ocorreu em Cuba.

Eu não tenho pena do PT. Nem um pouco. E é um fato que o surgimento de pessoas que “neguem a política” está fazendo muito mal para eles.

Por outro lado, este efeito tem afligido a direita brasileira há várias décadas. E, curiosamente, os negadores da política de direita estão mais quietos ultimamente diante do esfacelamento petista. A ironia aqui beira o estado da arte.

Relembremos o que é política: a ação humana baseada no tratamento de conflitos de interesses pela via social. Logo, ela depende necessariamente das opções políticas que temos. Se um grupo desiste dos partidos que podem pender para seu lado (seja na direita ou na esquerda), resta o idealismo filosófico ou, na pior das hipóteses, as vias antisociais, como intervenção militar ou luta armada.

A dinâmica é mais simples do que parece. O abandono das demandas reais e dos partidos atuais, em troca de “nenhuma opção”, impede que seus interesses sejam atendidos de qualquer forma. No caso de partidos como PSDB, DEM e PMDB, algumas pessoas da direita negam a política ao dizer “ah, é tudo farinha do mesmo saco”. Com isso, retiram qualquer forma de pressão destes partidos e os empurram na direção oposta aos seus interesses. (E antes que me questionem, eu apoio completamente o NOVO, mas, hoje em dia, ele ainda não é um partido que faça avançar nossas demandas no Congresso)

A negação da política, na direita, muitas vezes esconde a crença fundamental em uma intervenção militar. Na esquerda, esconder uma crença fundamental também, mas aqui na revolução armada. Hoje em dia, na era dos SmartPhones (em que um tanque nas ruas se transformaria em um vídeo no YouTube em questão de segundos), essas apostas não possuem mais o menor fundamento. Mas ainda assim grupos consideráveis de pessoas acreditam nelas. Elas podem até negar a verdade, que não deixa de ser dura: estão apenas mantendo uma crença no sistema límbico profundo para habilitar sua rejeição à política. Em troca dessa manutenção de crença, no máximo conseguem fazer propaganda para seus maiores adversários.

O que eu sinceramente não esperava é que a negação à política fosse hoje em dia afetar o PT. Que eles sofram um pouco aquilo que nós, da direita, temos sofrido há muito tempo com negadores da política. E que nós possamos aprender com isso, questionando duramente direitistas que neguem a política.

Anúncios

14 COMMENTS

  1. Luciano, você precisa URGENTEMENTE lançar seu livro. Não há nenhum outro nessa nova leva de autores de direita, por mais habilidoso que seja, que escreva com foco no que você escreve (e, sinceramente, considero você hoje quase tão importante quanto o Olavo de Carvalho ou o Reinaldo Azevedo).
    Procura a Record (que nos próximos meses vai lançar o Alexandre Borges e o Flavio Morgenstern), lança um crowfunding… sei lá, dá teu jeito. Seus leitores regulares hoje devem ser em milhares. Certamente a repercussão e a vendagem seriam excelentes.

  2. Luciano, acho que está na hora de falar do esquerdismo do (milionário) OMELETE (do UOL), a moda agora é fazer críticas a “elite branca privilegiada” que controla o Oscar, e os leftistas americanos estão lançando ataques em massa contra AMERICAN SNIPER, caso este ganhe, a Academia será acusada de tudo quanto não presta. No caso a mais recente crítica do Omelete foi do machismo da Academia do Oscar formado de uma “uma branca e privilegiada” que exclui as mulheres do prêmio e bla bla bla. Se você não sabe, o Omelete é patrocinado por estatais.

    No caso do vídeo em questão é muito interessante como Natália Bridi fala em “ser mãe” de modo pejorativo, como se isso fosse uma coisa ruim para a mulher. Com sua influência, pouco depois estaria rodando pelo face montagens trollando o site em questão.

    Aqui o mais recente video:
    https://www.youtube.com/watch?v=LXAbX3P3ZkY

    Compara com:
    http://www.huffingtonpost.com/a-b-wilkinson/oscars-2015-so-hollywood-_b_6550568.html
    É coincidência?

    Estou citando esse vídeo mais recente mas já tivemos muitos outros na mesma vibe.

    • Amigo, só uma dúvida , pelo que vejo no citado site, só vejo publicidade privada. Se puder me esclarecer quais patrocínios estatais que descarregam grana neste site Omelete, ficarei grato.

      • Não me referia a isso – banners em site- quando o Omelete organizou o caro Comicon-Experience 2014, os logos da Petrobrás infestavam o evento. Se quiser consertar o que eu quis dizer, não foi acusar o site pipoca de banners estatais, o que queria chamar atenção era de que a empresa Omelete tem ajuda estatal para bancar seus eventos. Nos comentários do vídeo em questão alguns notaram isso antes de mim. Pronto, está explicado.

  3. hoje, esses “puristas” de esquerda tentam rotular tanto o PT quanto o PSDB de partidos de direita, embora tecnicamente estejam apenas muito pouco à direita dos radicais esquerdopatas.
    Aliás, esse é um ponto que precisamos deixar claro aos esquerdopatas, o PT ainda é partido de esquerda!

  4. [OFF MUITO IMPORTANTE]

    Pela primeira vez vi uma nota na imprensa a respeito do caso Fernando Holiday.

    Hoje, no jornal Destak (que, felizmente, é claramente contra o governo), o colunista João Pequeno tratou perfeitamente do assunto.

    Segue abaixo o texto, cujo qual tomei liberdade de digitá-lo:

    —————————————————————-
    ‘APRENDER A SER PRETO’

    Já tem patrulha doida para proibir até fantasia de nêga maluca, mas uma real ameaça de agressão racista passou batida pela militância. Talvez por vi de seus próprios militantes.
    Fernando ‘Holiday’ Silva passou para filosofia na Unifesp sem a necessidade do critério racial de cotas, às quais se declara contrário, em vídeos no YouTube. Bastou para receber ameaças e intimidações – físicas, inclusive – de quem usa maioria numérica para aterrorizar quem não seguir o comportamento da matilha – a própria definição de bullying.
    Felizmente, Fernando parece não ter se intimidado e deu queixa à polícia das ameaças, já que as secretarias da Presidência da República teoricamente dedicadas a proteger direitos humanos e vítimas de discriminação racial não fizeram nada – preferem criminalizar inimigos políticos.
    “Você vai aprender a ser preto de verdade ou não vai aguentar um mês”, rosnou, no Facebook, uma candidata a professora de como pretos devem se comportar, na ideia de sua cabeça sob um aplique de cabelos claros.
    “Espero que os nego (sic) façam uns ataques físico (sic) nessa criação de branco”, emendou um amiguinho, na maior incitação à violência racista desde que um membro da comissão de ética do PT em Natal-RN disse que “Joaquim Barbosa deve ser morto (…) porque não se trata de um ser humano”.
    O silêncio na imprensa foi mais alto que o grito contra o goleiro Aranha, e Fernando corre risco, mas, como Joaquim, é um ser humano, que raciocina. Já quem o ameaça, em bando, é mero clone.
    Como diz Lobão, “o frouxo unido jamais será um indivíduo”.
    ——————————————————————–

    Reparem que ele citou inclusive o silêncio da imprensa – não vi nem sequer na Veja menção ao caso.

    E eu pergunto: onde estão VOCÊS – vocês, que lêem aqui – que não estão colaborando com o caso, assim como o Luciano colaborou divulgando? Escrever opiniões na caixa de comentários aqui é muito fácil.
    Cadê o recado para os grandes jornais, xingando-os de covardes, de cúmplices da escória, por não citarem o caso?

    Aconselho escreverem ao colunista João Pequeno parabenizando por noticiar o caso. Foi a ÚNICA menção que vi ao caso na imprensa, E O CASO NÃO É RECENTE.
    E-mail dele: joaopequeno77@yahoo.com.br

    Passarei logo mais uma lista de e-mails para que possamos enviar à imprensa (eu já enviei na época do caso) pedindo que o caso seja noticiado.

    Se novamente vocês – é, você que tá lendo – nada fizer, todo o esforço de Fernando Holiday terá sido em vão. E vamos dispensar o PRATO CHEIO que é essas ameaças vindas da esquerdopatada. Dispensar prato cheio é feio, não é?

  5. Post muito elucidativo Luciano, confesso que tenho um pouco dessa mania de negar a politica, apesar de eu me policiar ainda me pego dizendo coisas como “é tudo a mesma coisa”, principalmente depois daquela aprovação da “lei do calote” na qual um deputado a quem confiei meu voto votou a favor da famigerada lei, nas eleições apoiei o sujeito porque ele se propôs a lutar contra o desarmamento,fiquei muito desapontado quando descobri que ele tinha sido um dos que votaram a favor do calote e ainda estou um pouco, mas parando para pensar “estratégicamente” por assim dizer,vejo que continuo sendo muito purista e sem uma visão orientada a resultados. admito que errei e estou disposto a agir mais pragmaticamente, este blog tem sido de grande ajuda a mim não apenas no sentido de compreender a politica mas em várias outras áreas da minha vida.

Deixe uma resposta