Os impostos da guerra política

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impostos

Dificilmente encontraremos no passado recente um período tão positivo para fazermos oposição ao PT como agora. Ainda assim, aparecem vez por outra adeptos da intervenção militar. Como se isso não fosse suficiente, também temos esbarrado com defensores de ideias como “fim da democracia” (os famosos leitores de Hans Hermann Hoppe).

Isso me lembra de uma vez que uma conexão “gambiarra” (feita no som de meu carro) fazia com que o som começasse a “roubar carga” da bateria. Bastavam duas ou três semanas para que a bateria estivesse completamente descarregada, mesmo que eu usasse o carro de modo suficiente para sua carga. O problema estava no “ladrão de carga”.

Podemos definir grupos como adeptos da intervenção ou de fim da democracia como nossos “ladrões de carga”. Eles vivem gastando um esforço hercúleo para desestimular as pessoas para a luta, mesmo que em alguns casos inadvertidamente.

Essa é a grande luta interna de nosso tempo. Nós temos que carregar a bateria em proporção maior do que eles consigam “roubar carga”. A esquerda já conseguiu isso. A quantidade de esquerdistas pedindo revolução armada hoje é muito menor do que aqueles querendo tomar o poder pela via da ação democrática, mesmo que seja para corrompê-la. Eles devem agradecer a Gramsci por isso.

Em suma, os “ladrões de carga” possuem, no fim das contas, objetivos similares (tirar os totalitários socialistas do poder), mas não percebem que estão apenas ajudando-os.

Voltando aos dois principais “ladrões de carga”, tanto os libertários de Hoppe como os intervencionistas não passam de perfis que negam a política.  Ambos os grupos rejeitarão qualquer alternativa democrática, usarão slogans fortemente, e apoiarão (1) medidas extremas, ou (2) idealizações, que servem como fuga de qualquer resultado atual.

Pela ótica da guerra política, nós precisamos gerar resultados suficiente, e crescer como grupo atuante, sabendo que ambos os dois grupos irão puxar a direita “para baixo”, aniquilar resultados, etc.

Como alguns deles se enfurecem com algumas metáforas (por exemplo, quando eu defini o intervencionismo como “lepra política”), podemos avançar para uma outra: eles são nossos impostos.

Uma coisa que noto nos negacionistas da política é sua hercúlea vontade de negar as ações politicas atuais, chegando a chamar os executores dessas ações de “ingênuos, iludidos”, de forma a jogar psicologicamente fazendo com que ao mesmo tempo seu ego seja reforçado, e ele continue reforçando a crença de que tem um “conhecimento superior”. Na verdade, eles parecem agir como membros de culto, portadores da “verdade revelada”.

Um detalhe que a proposta da guerra política não depende destes mesmos recursos. Depende de observar o comportamento de sucesso da esquerda, pela ótica da dinâmica social, e reproduzir o que funciona, de acordo com nossos códigos morais. Elementos podem ser testados em vários âmbitos menores, como ganhar um debate virtual, silenciar um oponente pelo constrangimento e daí por diante. Parece que não, mas aceitar a guerra política é uma ideia muito simples. O difícil é apenas dominar uma série de racionalizações de “bloqueio” que nos impedem de ir adiante. Isto e nada mais.

Ao contrário, as propostas negadoras dependem, como já disse, da postura de “detentores de uma verdade revelada”.

O engraçado é que eles realmente acham que estão nos ensinando suas fórmulas certeiras para resolução dos problemas, seja pela via da intervenção militar, seja pela via da construção de um novo sistema social (baseado em libertarianismos puristas, fim da democracia, etc.).

Mas como o ceticismo pode ser usado diante destes casos? Simples: pela exigência de evidências, tratando tudo como tratamos alegações extraordinárias de qualquer tipo.

Dia desses conversei com um adepto da tese de que a direita deve se declara “contra a democracia”, pois, segundo ele (com base naquele divertido livro do Hans Herman Hoppe), a “democracia é o problema”. Comecei pedindo um detalhamento de propostas para implementação. Não recebi nada. Depois pedi um gap analysis, de antes ou depois. Também nada. Mas aí pedi um plano de ação. Veio uma coisa assim: “o plano de ação é inserir o novo conceito via guerra cultural, pois na guerra política tudo estará perdido, o negócio é ganhar a guerra cultural”.

Não sei se ele prestou atenção, mas uma coisa não exclui a outra. E ele dizia que “a guerra política já tinha sido tentada mas não funcionou”. Porém, o conceito de guerra política para a direita é novo: é de 2000. E no Brasil então, é ainda mais novo. E mesmo sendo novo o conceito, ele só reproduz o que a esquerda já faz há várias décadas e a direita (em muitos casos) nem sabe o que é.

Mas foi nesse momento que percebi de novo que o debate proposto por negacionistas não é sério. Ele se baseia em reforço de crenças, pelas quais seus adeptos precisam continuar visualizando a si próprios como iluminados.

Devemos interrompê-los em suas ilusões? Não. Devemos dar-lhes motivação para que sigam, mas exigir que tragam resultados sempre que possível. Eu duvido que consigam. Mas o importante é saber que nossa luta deve seguir, sabendo que os negacionistas da política estão à espreita. Como já disse, são como os impostos. Se você conseguiria um resultado de valor (x), contabilize automaticamente uma redução de 30% a 40% nestes resultados por causa do “serviço” dos negacionistas.

A extrema esquerda já tem essas figuras no PCO e PSTU. Pena que eles não atrapalham tanto por lá. Nosso desafio é lutar para que eles não nos atrapalhem tanto. Em outras palavras, precisamos reduzir nossos “impostos” na guerra política urgentemente.

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14 COMMENTS

  1. Atenção leitores do Ayan: entrem na página do Ministério Público do RJ (http://www.mprj.mp.br/web/internet/cidadao/ouvidoria/faca-sua-comunicacao-aqui), preencham o formulário e façam a seguinte representação:

    ……………………………………..
    O prefeito de Maricá-RJ e presidente do diretório estadual do PT do Rio de Janeiro, o Sr. Washington Siqueira, fez a seguinte declaração na sua conta do facebook (http://noticias.r7.com/brasil/apos-hostilizacao-a-mantega-presidente-do-pt-do-rj-convoca-petistas-a-dar-porrada-25022015; http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/partidos/quaqua-incita-petistas-a-irem-para-a-porrada/) :

    “Contra o fascismo a porrada! Não podemos engolir esses fascistas burguesinhos de merda! Tá na hora da militância e dos petistas responderam esses fdps que dão propina ao guarda, roubam e fazem caixa dois em suas empresas, sonegam impostos dão uma de falso moralistas e querem achincalhar um partido e uma militância que melhorou a vida de milhões de Brasileiros. Vamos pagar com a mesma moeda: agrediu, devolvemos dando porrada!”

    Note que embora ele afirme no final “agrediu, devolvemos dando porrada”, não está falando de reação a agressões físicas, o que denotaria legítima defesa a depender do caso, mas sim em responder críticas(“querem achincalhar”) de opositores (“fascistas burguesinhos de merda”) contra a sua agremiação política (“um partido e uma militância que melhorou a vida de milhões de Brasileiros”). Observe que até a referência aos críticos é virulenta e odiosa.

    É um absurdo que um prefeito incite a violência nas redes sociais desta maneira, especialmente após o episódio lamentável do dia 24/02, quando brutamontes petistas agrediram pessoas que, pacificamente, protestavam contra a corrupção descoberta pela operação Lava-jato, conforme os seguintes links:https://www.youtube.com/watch?v=TX1TwvoHY-g; http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/grupo-contra-o-pt-e-agredido-em-ato-pela-petrobras,837cc6cee4dbb410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html; http://www.libertar.in/2015/02/democracia-comunista-petistas-agridem.html; http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/discipulos-morais-de-marilena-chaui-ensinam-como-devem-ser-tratados-os-coxinhas-golpistas/. A reação truculenta contra pessoas que não compartilham das mesmas opiniões políticas deles é incompatível com um regime democrático e republicano.

    Isto posto, solicito a abertura de inquérito policial a fim de se colherem elementos à propositura de denúncia contra o delito de incitação ao crime.
    …………………………….
    Divulguem nas redes sociais. Avante Republicanos!

  2. Luciano, o Lulla, que é craque nisso, deixou o rabo pra trás na questão do exército do mst. Como ele pode ter dado esse mole, na sua opinião: confiança de que está tudo dominado, desespero ou é o próximo passo da revolução comunista?

  3. Que bom Luciano, que Você não abandonou este seu blog!

    Agora, com relação a rejeição da Guerra Política por segmentos da Direita, não parece a Você, Luciano, que o problema realmente é apenas preguiça mental?

    Falo isso porque trabalho como Instrutor e, o meu maior problema, é que as pessoas (por conta do lixo de Ensino que temos em nosso País), NÃO MAIS QUEREM PENSAR! E, pior, FICAM COM RAIVA, de Você, se você tentar obrigá-las a isso!

    Desisti já de usar o método Socrático, por que recebia reclamações diárias de que eu “humilhava as pessoas”, simplesmente por que respondia seus questionamentos com uma outra pergunta dirigida…:(

    A meu ver o negacionismo da Guerra Política é apenas a “aplicação prática” desta mesma preguiça mental.

    • De acordo, e acho que é um problema dos ~~tempos modernos~~ (tenho 23 anos mas creio que isso é uma coisa dos tempos atuais) essa cultura de tudo precisar ser rápido. Se não for rápido, mastigadinho, prontinho, mão beijada, logo desinteressa.

  4. Luciano, eu tenho plena convicção de que tanto o PCO quanto o PSTU (e até o PSOL, em menor escalao) fazem o papel de um ato custoso de uma estratégia “pé na porta” da esquerda. Eles se apresentam como radicais, revolucionários, querendo mudar tudo, já sabendo que serão rejeitados, mas amaciando os ânimos da população para que esses abracem as idéias que serão apresentadas pelo PT como moderadas. É a mesma coisa que fazem as “feminazis” em grupos como o Femen e a Marcha das Vadias.

    Será que a gente não consegue converter os nossos extremistas no ato custoso de um “pé na porta” nosso também? Será que não conseguimos apresentá-los para os outros como um grupo “desiludido pela destruição causada pelos partidos de esquerda que governaram o Brasil nos últimos 20 anos, mas que, apesar de muito equivocados em suas demandas, a indignação deles é a mesma do resto da população”, ou qualquer coisa nesse sentido, que os use para facilitar a propagação das nossas idéias? Porque tudo indica que eliminar esse “imposto”, como você está se referindo a eles agora, parece impossível. Sempre vai ter gente acomodada demais pra sequer expôr DE VEZ EM QUANDO suas idéias nas redes ou círculos sociais, o que eu considero uma participação mínima na guerra política, e vão preferir que as FFAA atuem.

    O que você acha disso?

  5. Ter um grupo pregando o fim do estado, por mais que seja impossível, pode ser uma ameaça constante para os políticos que desejam aumentar o tamanho do estado. Se eles pensarem “vou pegar leve porque senão vão dar ouvidos para aqueles malucos” o trabalho já foi bem feito. Além disso, as idéias radicais tornam o estado mínimo e o conservadorismo mais palatáveis.

    O grande problema é que muitos desses radicais ancaps acham que vão fazer a revolução com a bunda sentada na cadeira, discorrendo em sites e grupos de discussão. Não são como o PSTU, que tem uma boa capacidade de mobilização para protestos. Nisso os militaristas ganham. Ao menos eles ainda fazem algum barulho, embora ainda não seja o suficiente.

    Vejo os radicais como um problema e uma oportunidade, dependendo de como vão agir.

  6. A democracia é um problema sim.E não que seja o caso mas SE o problema dos ancaps é a falta de estratégia pra chegar onde eles querem, isso é uma coisa, agora se o ideal está certo ou errado,isso é outra
    Seu argumento é esse, Luciano: se um médico diz que o cara está gripado, e que ele médico não sabe qual o remédio pra gripe, então a afirmação de que o cara está gripado deve ser mentira.

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