Introdução: A Urgência de Sermos Charlie

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Aqui está a introdução do livro “A Urgência de Sermos Charlie” (para contribuir com a campanha de crowdfunding para que o livro se materialize clique aqui)

Já se aproximava da hora do almoço em 7 de janeiro de 2015, em Paris, França, quando a cartunista Corine Rey chegou ao seu emprego na redação do jornal Charlie Hebdo. Ela congelou dos pés à cabeça quando uma metralhadora AK-47 foi apontada em sua direção por um homem vestido de preto. Ela já avistava outro, também vestido de preto, enquanto recebia a ordem do primeiro para digitar o código de segurança e destrancar a porta do jornal.

Naquele início de tarde, o restante do time de jornalistas e chargistas já se reunia havia quase 2 horas. Dificilmente eles trabalhavam todos juntos na sede do jornal. Aquele era dia de uma reunião mensal de equipe.

Os homens de preto e encapuzados bradavam palavras de ordem como “Alá é supremo” e “vingamos o Profeta”. Faziam referência a Maomé, que havia sido satirizado em charges publicadas pelo jornal. Não havia nenhuma dúvida: tratava-se de um ataque terrorista.

Eles asseguraram a Corine que sua vida seria poupada. Vários outros tiveram destino inversamente trágico: foram 12 mortos e 11 feridos. A maioria dos mortos pertencia à redação do jornal: o editor Stéphane Charbonnier (também conhecido como Charb), o cartunista Wolinski, o vice-editor Bernard Maris, os cartunistas Jean Cabu, Vernard Verlhac e Phillippe Honoré, o revisor Mustapha Ourad e a psicanalista Elsa Cayat (que escrevia uma coluna quinzenal chamada “Divan”).

Outras vítimas foram o policial Franck Brinsolaro, morto dentro da redação, e o agente Ahmed Merabet, assassinado na rua durante a fuga dos assassinos[i]. As outras duas vítimas eram Frédéric Boisseau, de 42 anos, funcionário da Sodexo, e Michel Renaud, que deu azar de visitar a redação justamente naquele dia.

De acordo com o médico Gerald Kierzek, que atendeu alguns dos feridos[ii], os atiradores separaram os homens das mulheres antes de matá-los. Diante daqueles a quem iriam vitimar em instantes, perguntavam especificamente por seus nomes.

Mais do que gravar em nossas almas uma sensação de horror em um dos dias mais tristes dos últimos tempos, o atentado do 7/1 deixou uma cicatriz no imaginário popular ocidental. Esta data se transmutou em um evento simbólico apontando para a urgência da luta por liberdade de expressão, esta pobre coitada tão vilipendiada nos dias atuais. A tragédia do Charlie Hebdo catapultou o debate em torno deste princípio. Ou melhor, o reabriu, pois parece que temos esquecido os ensinamentos dos primórdios do iluminismo.

Menos ilustrando uma revolta contra a violência do que indignação pelo desrespeito fascista à livre expressão, poucos dias depois manifestações começaram a pipocar por toda a Europa. Obviamente elas ocorreram em maior escala na França. O pico das manifestações aconteceu no domingo seguinte ao atentado, em 11/1, quando mais de 4 milhões de pessoas saíram as ruas[iii].

Em Paris, aproximadamente 1,3 a 1,5 milhão de pessoas participaram. Nas demais cidades francesas, ao menos 2,7 milhões de manifestantes se colocaram em marcha nos atos de fora de Paris. Entre os líderes mundiais presentes (44 chefes de estado e de governo) estavam François Hollande, Angela Merkel, Matteo Renzi, Mariano Rajoy, David Cameron, Jean-Claude Juncker, Ibrahim Boubacar, Benjamin Netanyahu, Mahmoud Abbas, Nicolas Sarkozy e diversos outros.

Adesivos nos quais podia ser lida a mensagem “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), imediatamente viralizados nas redes sociais, eram estampados pela maioria dos manifestantes.

Certamente pode-se apontar a “hipocrisia” traduzida na presença de alguns destes líderes[iv]. O primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, da Turquia, fez com que seu país conseguisse o título de campeão de prisão de jornalistas[v].  Sameh Shoukry, o ministro das relações exteriores do Egito, prendeu vários repórteres[vi]. Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores da Rússia, colocou um jornalista atrás das grades por “insultar um funcionário do governo”[vii]. Diversos outros líderes ali presentes também tinham ficha corrida de desprezo pelo jornalismo livre.

Sobre a presença destes hipócritas, não se tratava de endosso real aos manifestos, mas de reconhecimento do poder de pressão do movimento. Dito de outro modo, a presença destes líderes, politicamente forçados a participar de uma manifestação a favor da liberdade – na qual alguns deles não acreditam -, apenas serviu para demonstrar a dimensão da pressão popular.

Dava para descer mais baixo que estes governantes hipócritas presentes. Lembre-se dos fujões, notados por sua embaraçada ausência. Entre estes que não mostraram suas fuças, tivemos duas figuras carimbadas: o presidente norte-americano Barack Obama e a presidente brasileira reeleita Dilma Rousseff. É compreensível que tenham fugido. Não significa que mereçam respeito por isso. Muito pelo contrário. A marcha ocorria em nome de duas bandeiras: a luta contra o terrorismo e a favor da liberdade de expressão. Agora se explica a fuga pela tangente.

Em 2012, durante um discurso nas Nações Unidas, Obama disse: “O futuro não pertence àqueles que ridicularizam o profeta do Islã”[viii]. Com certeza, ele jamais falaria o mesmo de quem ridicularizasse judeus, cristãos e seculares. Como um presidente norte-americano consegue proferir tamanha asneira sem ter sua carreira política destruída de imediato é realmente um mistério – mas não se preocupem, pois ele está quase lá[ix]. Naquela época, Obama havia lançado seus comentários para confrontar a iniciativa do Charlie Hebdo de publicar os cartuns.

A hipocrisia sempre foi um recurso infinito. Assim, ela não foi economizada no press release de Obama, divulgado via Casa Branca[x] ainda em 7/1, defendendo a liberdade de expressão (que ele mesmo não respeitou ao usar o poder do estado para questionar o direito do Charlie Hebdo publicar as charges):

Eu condeno fortemente o horrível atentado aos escritórios da revista Charlie Hebdo em Paris, que levou à morte de 12 pessoas. Nossos pensamentos e preces estão com as vítimas deste ataque terrorista e com a população da França neste momento difícil. A França é o aliado mais antigo da América, e tem permanecido ombro a ombro com os Estados Unidos na luta contra terroristas que ameaçam nossa segurança compartilhada e o mundo. Repetidas vezes, a população da França tem se colocado a favor de valores universais que nossas gerações bem defendendo. França, e a grande cidade de Paris, onde este ataque ultrajante ocorreu, oferecem ao mundo um exemplo intemporal que irá permanecer por muito além da odiosa visão destes assassinos. Estamos em contato com os oficiais franceses e eu orientei minha administração a fornecer qualquer assistência necessária para ajudar a trazer estes terroristas à justiça.

Como veremos no capítulo 5, há várias outras razões para  Obama se envergonhar, incluindo ter defendido e utilizado vários recursos empregados paulatinamente pela esquerda norte-americana, da qual é um dos líderes. Há muitos motivos contribuindo para o advento do radicalismo islâmico no Ocidente.  Os mais relevantes destes motivos são estes recursos da esquerda.

A extrema esquerda, que comanda o poder no Brasil, tem agido por uma configuração ainda mais desaforada, cínica e desprovida do menor senso de proporções. Digamos que a nota de Dilma foi até razoável, se bem que pertença à categoria me-engana-que-eu-gosto. Ei-la[xi]:

Foi com profundo pesar e indignação que tomei conhecimento do sangrento e intolerável atentado terrorista ocorrido nesta quarta-feira, 7 de janeiro, contra a sede da revista ‘Charlie Hebdo’, em Paris. Esse ato de barbárie, além das lastimáveis perdas humanas, é um inaceitável ataque a um valor fundamental das sociedades democráticas – a liberdade de imprensa.

Nesse momento de dor e sofrimento, desejo estender aos familiares das vítimas minhas condolências. Quero expressar, igualmente ao Presidente (François) Hollande e ao povo francês a solidariedade de meu governo e da nação brasileira.

Aí não dá. Mas não dá mesmo. É um nível de cinismo além do que meu fígado pode suportar.

Relembremos uma breve historinha ocorrida na noite de 24 de outubro de 2014, dois dias antes da votação para definir o presidente do Brasil (quando Dilma venceu Aécio Neves). Naquela noite, a Editora Abril foi vandalizada por um bando de militantes insanos protestando pelo fato da Revista Veja ter publicado uma capa noticiando uma confissão do doleiro Alberto Youssef. Nesta edição, a revista mencionava um vazamento onde o doleiro dizia que Lula e Dilma “sabiam de tudo” em relação ao Petrolão[xii].

No dia seguinte ao ataque à revista, Aécio Neves manifestava sua indignação:

Ao tentar invadir e depredar a fachada de um importante veículo de comunicação, os manifestantes não atingem aquele veículo. Atingem o que temos de mais valioso, que é a liberdade de expressão no Brasil, a liberdade de imprensa. A democracia vive disso, das manifestações. E as contrárias devem ser respeitadas. O alvo foi errado, porque o que a VEJA e outros veículos de comunicação fazem é comunicar. Eles são os vasos transmissores das informações e ao tentar proibir a veiculação dessa revista, há uma demonstração clara do Partido dos Trabalhadores de seu descompromisso com a democracia e com a liberdade de expressão.

Até Dilma não deixou de se pronunciar, usando um discurso prá lá de inconvincente no qual jurava condenar o vandalismo[xiii] contra a revista. Segundo ela, o ataque seria uma “barbárie”. Dilma completou: “só podemos aceitar um padrão de discussão que seja pacífico, com argumentos e que defenda posições e não que ataque uns aos outros”. Daí, como se a estivéssemos assistindo em uma comédia bufa, insistiu que a revista publicava “injúrias e calúnias”. E rematou: “Porque não se pode tratar assim uma presidente da República a três dias da eleição”. Podemos julgar que para ela liberdade de expressão tem limites. A coisa parece funcionar assim: se você tiver um furo jornalístico em mãos e este furo prejudicar a imagem de uma presidente bolivariana às vésperas de uma eleição, você não deve publicá-lo. Se os furos forem sobre adversários políticos, não há problemas. Bem conveniente[xiv].

Não obstante, Orlando Silva, ex-ministro dos esportes de Lula, também tinha que dar vexame. Em seu Twitter, afirmou o seguinte[xv]:

Orgulho da UJSBrasil, a combativa União da Juventude Socialista, corajosa ao denunciar a Veja, vergonha nacional.

Pode ser confortante pensar que esta selvageria vinha de um movimento marginal independente, mas uma simples vasculhada pelo Google permite que qualquer um descubra que a UJS (União da Juventude Socialista) é um dos diversos coletivos não eleitos da base de apoio do PT[xvi]. O grupo não teve o menor receio de chafurdar na lama moral ao atacar uma organização de mídia com violência. Para eles, é mais trivial que manteiga no pão.

Sempre foi do conhecimento de todos a existência de atrito entre o PT e a imprensa livre. Vê-los agindo como inimigos da liberdade não deveria causar espanto. Ultimamente, a maior parte dos esforços do partido tem sido direcionada ao ataque à midia independente, como veremos já no primeiro capítulo. É bem verdade que não temos homens-bomba nem outros perfis de terroristas islâmicos em nosso país. Caso contrário, seria arriscadíssimo para todos nós se eles dessem ouvidos às declarações irresponsáveis e desestabilizadoras golfadas por Dilma e sua tropa em relação à mídia.

Seria desperdício de tempo relembrar todos os momentos risíveis da presidente sempre que o assunto “terrorismo islâmico” vem à baila. Basta trazermos à nossa mente um: o “inesquecível” discurso nas Nações Unidas onde ela disse lamentar o bombardeio dos EUA contra os terroristas do ISIS[xvii]. Como peculiaridade nem um pouco surpreendente, ninguém a viu deixar escapar qualquer suspiro pelas vítimas dos terroristas.

Como ocorre com frequência, enquanto os terroristas promovem banhos de sangue, a extrema esquerda silencia. Quando algum país civilizado revida, eles passam a chorar lágrimas de crocodilo enquanto proferem patéticos discursos pedindo “paz e harmonia”. Com este tipo de artimanha, buscam despertar algum tipo de bloqueio psicológico em quem tentar se defender. Isto ocorre em todos os momentos nos quais eles relativizam os crimes de grupos terroristas contra civilizações livres[xviii], assim como os crimes de seus ditadores sanguinários contra sua própria população indefesa[xix]. Ambos os tipos de atrocidade são defendidos pelo mesmo modelo discursivo, portanto seus proponentes se confundem facilmente enquanto atendem ao mesmo fim: promover violência fascista.

Sem mais delongas, aqui está o momento “inesquecível” de Dilma nas Nações Unidas, sob a forma de um discurso ultrajante à dignidade humana:

Lamento enormemente isso (ataques aéreos na Síria contra o EI). O Brasil sempre vai acreditar que a melhor forma é o diálogo, o acordo e a intermediação da ONU[…] Nós repudiamos sempre o morticínio e a agressão dos dois lados. E, além disso, não acreditamos que seja eficaz. O Brasil é contra todas as agressões. E inclusive acha que o Conselho de Segurança da ONU tem que ter maior representatividade, para impedir esta paralisia do Conselho diante do aumento dos conflitos em todas as regiões do mundo.

Para desgraça da diplomacia brasileira, presenciamos aqui o clássico artifício da equivalência moral num dos momentos mais inconvenientes possíveis. Na ótica dessa gente, um grupo de terroristas cuja dialética baseia-se em cortar as cabeças de seus opositores[xx] (exibidas como troféus em vídeos pela Internet) está no mesmo pé de igualdade moral que um estado democrático objetivando combater o terrorismo para proteger civis.

Qual seria a forma de “diálogo” proposta por Dilma para tratar os terroristas do ISIS? Quais eram os resultados esperados? Ela se propunha a participar? E se todos rissem em sua cara quando fosse para “o diálogo”? A propósito, nesta época a turma do ISIS estava “dialogando” com Hollande, ao mandar desta para melhor um refém francês sequestrado na Argélia[xxi]. Seria esta a “dialética” proposta por Dona Dilma? Essa “dialética” seria permitida para os terroristas ou igualmente para seus opositores? Quais haviam sido as manifestações dilmescas por “diálogo” quando o ISIS começou a decepar cabeças? Este tipo de “diálogo” (abatendo civis) valeria só se fosse financiado por ditadores e terroristas?

A quantidade de contradições dessa senhora transbordava ao ponto de fornecer aos seus opositores um infinito caudal de oportunidades para constrangê-la. A principal maneira poderia resultar da exposição do duplo padrão habitual do PT para avaliar qualquer questão polêmica relacionada aos conflitos internacionais. Não vamos nos estender sobre a arquitetura moral grotesca com a qual os petistas tratam o terrorismo islâmico. Eles simplesmente tornam-se caricaturais a qualquer instante que abrem a boca para falar do assunto.

Especificamente quanto à liberdade de expressão, eles conseguem a proeza de apresentar um desempenho ainda pior, tanto lógica quanto moralmente. É quando notamos o quanto eles são especialistas em lutar contra a liberdade. Como você irá reparar especialmente no capítulo 6, os deputados do PT e de suas linhas auxiliares (PCdoB e PSOL) praticaram uma verdadeira campanha de ódio contra Rachel Sheherazade, jornalista do SBT. O tom do discurso anti-Rachel foi o mesmo usado por vários políticos islâmicos contra os chargistas do Charlie Hebdo[xxii]. A diferença, como já disse, é que por aqui não existem pessoas dispostas a sair matando em nome da intolerância à liberdade de imprensa. Por enquanto.

O capítulo 1 será especialmente dedicado a desmascarar uma série de formadores de opinião ligados a esta extrema esquerda, reduto de praticamente quase todos apoiadores do governo petista. Enquanto alguns deles chegaram a pensar em usar o atentado ao Charlie Hebdo para capitalização política, o entusiamos dos petistas, psolistas e pcdobistas arrefeceu diante das manifestações empunhando a bandeira da liberdade de expressão.  Como consequência, em todo período imediatamente pós-atentado, a extrema esquerda brasileira, mais que qualquer outro grupo, se manchou moralmente ao propagar argumentações ofensivas e cretinas.

O atentado ao Charlie Hedbo é ainda mais do que um marco na luta pela liberdade de expressão e na luta contra o terror. Descobriremos aqui que as causas estão intimamente ligadas. Como diria o Monty Python, após o massacre sobreveio algo que não vemos todos os dias. Pensando bem, também não foi algo que queremos ver com frequência. Foi desolador notar que tanto a esquerda como a direita, sejam ateus ou teístas, se dividiram na questão da liberdade de expressão.

Antes de qualquer outra coisa, precisamos alinhar a terminologia: no espectro econômico, temos as divisões: extrema esquerda, esquerda, centro, direita e extrema direita. No espectro religioso, temos ateus e teístas. E dentre os teístas, temos católicos, islâmicos, judeus e mais tantas outras divisões. Para nossa investigação neste livro, mapear todos estes grupos é especialmente relevante.

Quase em uníssono, quando a extrema esquerda não chegou a apoiar o ataque, ao menos atenuou o crime, optando por transferir parte da responsabilidade para, caso queira acreditar, os chargistas mortos. Como mencionei anteriormente, o capítulo 1 se encarregará de desconstruir alguns destes discursos macabros.

Na direita, várias pessoas também caíram na mesma conversa, apesar de alastrarem uma argumentação mais amena. Na verdade, esta argumentação só não amenizou na irracionalidade. Era tão perspicaz quanto um sanduíche de mortadela. Esses discursos surgiram especialmente de parte da direita religiosa, não da direita secular. Aqui o “argumento” ambicionava proteger a religião, sempre em busca de uma distinção de emergência para poder dizer, de consciência tranquila, “tudo bem com a liberdade de expressão, mas não podemos mexer com símbolos religiosos”. Dedicarei o capítulo 2 a refutar essas sandices, tão inimigas da liberdade como o foram aquelas difundidas pela extrema esquerda.

O capítulo 3 mostrará um terceiro grupo, um tanto restrito, composto tanto de esquerdistas quanto liberais, todos seculares. Eles também vieram nos atazanar com uma argumentação catastrófica. Aqui se atribuía culpa à religião no lugar de estudar a verdadeira causa da violência terrorista, a qual, como ficará claro, foi estimulada a partir de dentro, não de fora, da Europa. Ao transferir a culpa da violência terrorista para a religião, este grupo evita que possamos direcionar a discussão na busca do entendimento das reais causas dessa perversidade. Falamos aqui dos neo-ateus. Assim como os dois grupos anteriores, que não representam toda a esquerda, e nem toda a direita, os neo-ateus não representam todos os ateus.

É “de loucos”, como diriam nossos irmãos lusitanos, mas não deixa de ser uma realidade: finalmente uma parte da direita se uniu a uma parte da esquerda na defesa da ideia de que a liberdade de expressão pode ser violada por distinções de emergência. Na mesma toada, uma parte dos ateus, sejam eles de direita ou de esquerda, também passou a usar o recurso de omitir as causas reais da violência para transferir a culpa à religião.

Tendo passado os 3 primeiros capítulos mostrando por que tanto direita como esquerda, tanto ateus como teístas, ultrapassaram sua cota de bobagem na argumentação pós-atentado, precisarei então identificar qual o real problema intensificando o uso da violência terrorista no Ocidente.

Que fique claro: é preciso rejeitar o truque da extrema esquerda, no Brasil, e da esquerda genérica na América do Norte e Europa (vendo islamofobia em todos os lugares, especialmente onde não existe) do mesmo modo como devemos rejeitar a noção de que a religião é intrinsecamente culpada. Isto nos levaria a um preconceito estúpido e irracional, além de nos impedir de descobrir a causa do problema.

O melhor a fazer é investigar por que hoje o Islamismo se tornou uma ameaça ao Ocidente, não tanto por culpa do Islã em si (que não era especializado em terrorismo até os anos 50), mas por culpa de nossa relação com o Islamismo. Ou melhor, se há um problema com o Islã, devemos levar nosso pensamento para fora da caixa criada pelas propagandas sujas feitas tanto para demonizar grupos como para prover ganhos políticos para indivíduos sem noção de responsabilidade quanto ao que propagam. Precisamos investigar as reais causas propiciando um alto grau de violência terrorista praticada por (parte dos) islâmicos vivendo no Ocidente, ou ao menos a manifestação de apoio a essa violência. O capítulo 4 será dedicado a este empreendimento, no qual o alvo principal é o desmascaramento do multiculturalismo.

No capítulo 5, eu retiro um pouco o foco do estudo sobre o Islamismo e transfiro-o para o estudo de um modelo comportamental surgido na Europa, e propagadado por este continente, além da América do Norte e toda a América Latina. É a utilização de uma série de técnicas para instar “lutas de classe” artificiais, potencializadas por diversas estratégias do politicamente correto, todas elas extremamente úteis como arma política da extrema esquerda na América Latina e da esquerda tradicional na América do Norte e Europa.

Aqui veremos realmente até que ponto mentes sádicas podem chegar. Dissecaremos os seguintes estratagemas: transferência de culpa, duplo padrão, ausência deliberada de senso de proporções, justificação da violência e islamofobia de araque. Ardis deste tipo são elementos indissociáveis de modelos de pensamento surgidos nos tempos de Robespierre, elaborados mais detalhadamente por Marx e Comte, e aprimorados diuturnamente por vários de seus discípulos.

Ainda neste capítulo, tratarei de alguns pontos óbvios que temos esquecido diante de tantas argumentações celeradas, ininterruptamente empregadas pelos usuários das imposturas do politicamente correto. Longe de aceitarmos que se crie uma cultura de relativização, somente para transformar desonestamente os islâmicos radicais em vítimas, melhor seria se seguíssemos normas claras de respeito mútuo. Nada mais que elementos perfeitamente compreensíveis pelo senso comum, assim como facilmente justificáveis sob qualquer argumentação racional.

Nós precisamos parar de tolerar que islâmicos sejam usados como instrumento político nas mãos de políticos demagogos. Contrariamente a este costume deplorável, os islâmicos devem ser respeitados como indivíduos, que, como tais, devem seguir as regras dos países que os acolheram. Mas será impossível sequer levar este tipo de debate adiante se não estivermos prontos a denunciar e refutar os diversos ardis usados para inviabilizá-lo.

Todos esses capítulos são essenciais para nos preparar para a assimilação da mensagem deste livro, cujo ponto central onde quero chegar está nos dois últimos. É quando entro em detalhes sobre o que é “ser Charlie” e o que podemos fazer por este ideal.

Muitas pessoas têm dito “Eu sou Charlie”, mas não vi uma definição para o que isso significa. Arriscarei uma. Ser Charlie significa “reconhecer que o desrespeito à liberdade de expressão já ultrapassou o limite do suportável em nossa civilização, e precisamos urgentemente fazer algo em relação a isso, pois este tipo de desrespeito está levando a diversas formas de totalitarismo e barbarismo”.

No capítulo 6, argumentarei sobre se realmente devem existir limites à liberdade de expressão. Mesmo que aceitemos os limites óbvios (por exemplo, você não pode acusar alguém falsamente de um crime e ficar impune), não podemos deixar estes limites serem utilizados para beneficiar desonestos em busca de conquista e manutenção de poder. Se quisermos discutir liberdade a sério e até critérios para que ela possa ser plena (enquanto protege o cidadão de crimes), temos que fazê-lo racionalmente. Não consigo imaginar um assunto tão urgente quanto esse para o momento.

No capítulo 7, argumentarei em favor do motivo pelo qual devemos transformar a liberdade de expressão em uma das bandeiras mais importantes para qualquer ser vivente de boa fé em nossa moderna civilização. A maior parte das pessoas parece acreditar que a liberdade de expressão é apenas um detalhe para discussão dentre muitos outros fatores, o que acaba complicando a explicação sobre o quanto esta luta é improrrogável para indivíduos buscando apenas sobreviver. Qualquer pesquisa nos sinalizará na direção dizendo que o importante é comida, vestimenta, saúde e segurança. Difícil discordar. E eu não discordo. Porém, sem liberdade de expressão, todo o resto vai ladeira abaixo. Você sempre encontrará baixos índices de liberdade de expressão nos países mais devastados do globo.

Nós precisamos compreender a dinâmica da liberdade de expressão. Pela perspectiva desta dinâmica poderemos assimilar e realmente compreender por que esta liberdade, se violada, só leva ao infortúnio do povo. A liberdade de expressão não é um assunto marginal. É a conquista mais importante de nossa civilização. Consequentemente, a mensagem que deve ficar para nós após o atentado do Charlie Hebdo é essencialmente esta: cessou a era de conivência com as diversas violações à liberdade de expressão.

Este livro foi escrito como um manifesto propondo o que deve ser feito a partir deste novo marco para a civilização. A partir de agora, seres humanos a favor da verdadeira liberdade deverão defendê-la com unhas e dentes de pessoas querendo infringi-la incessantemente. Esta é uma das mais gritantes divisões políticas do momento. Precisamos demarcar as posições peremptoriamente. Nestas páginas, veremos como isto pode ser feito.

[i] “Policial assassinado no chão por terroristas era muçulmano”. UOL, 08/01/2015.

[ii] “A timeline of the Charlie Hebdo terror attack”. CNN, 08/01/2015.

[iii] “Cerca de 4 milhões saem às ruas na maior march da história da França”. UOL, 11/01/2015.

[iv] “Charlie Hebdo: 21 líderes mundiais que marcharam em Paris e não são “amantes” da liberdade de expressão”. Revista Forum, 12/01/2015.

[v] “211 journalists in world’s jail in 2013 – with three counties holding most”. The Guardian, 18/12/2013.

[vi] “Photojournalist Shawkan describes ‘endless nightmare’ from behind bars”. Daily News, 20/12/2014.

[vii] “Journalist arrested after interviewing siberian autonomy advocate”. Reporters without borders, 19/09/2014.

[viii] “Flashback: Obama at the UN ‘The Future Must Not Belong to Those Who Slander the Prophet of Islam”. Townhall, 07/01/2015.

[ix] “Como um Congresso de oposição afeta o governo Obama?”. BBC Brasil 05/11/2014.

[x] “Declaração do Presidente sobre o Ataque na França”, Casa Branca, 01/01/2015.

[xi] “Dilma: atentado ‘intolerável’ ataca liberdade de imprensa”. Terra, 07/01/2015.

[xii] “Candidatos e entidades repudiam vandalismo do edifício-sede da Editora Abril. Deputado comunista Orlando Silva, ex-ministro do esporte, diz ‘sentir orgulho’ pelo ato dos baderneiros”. Blog do Ricardo Setti, 25/10/2014.

[xiii] “Dilma condena vandalismo contra prédio da Veja”. Valor, 25/10/2014.

[xiv] “Lista da Lava Jato confirma: Youssef disse que Lula e Dilma sabiam de tudo”. Folha Política, 07/03/2015.

[xv] “Ex-ministro de Lula elogia ato de vandalismo contra Veja”. Coluna de Rodrigo Constantino (Veja), 25/10/2014.

[xvi] “UJS com Dilma por mais avanços no Brasil”. Site da UJS, 27/05/2014.

[xvii] “Dilma diz ‘lamentar’ bombardeio dos EUA contra terroristas islâmicos”. Maquiavel, 23/09/2014.

[xviii] “O PT e sua relação histórica com o terrorismo explica o apoio cretino aos terroristas do Hamas”. Direitas já, 27/07/2014.

[xix] “Câmara aprova moção de repúdio ao governo da Venezuela”. UOL, 25/02/2014. Nesta notícia, é mencionado que os partidos PT, PSOL e PCdoB se posicionaram contra a moção.

[xx] “Segundo jornalista é decapitado por terroristas do El”. Terra, 02/09/2014.

[xxi] “Hollande confirma que refém francês foi decapitado na Argélia”. Globo, 24/09/2014.

[xxii] “Líderes islâmicos atacam nova capa do ‘Charlie Hebdo’”. Folha de São Paulo, 14/01/2015.

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12 COMMENTS

  1. Luciano,

    Meio off: o assunto da redução da maioridade penal está voltando à tona nas redes sociais, pois parecem que vão fazer uma votação sobre isso, e os “Direitos humanos” junto com a esquerda já estão morrendo de preocupação.

    Estão compartilhando, por exemplo, imagens como essa: https://www.facebook.com/direitoshumanosbrasil/photos/a.563822507032457.1073741834.165500080198037/818127688268603/?type=1&theater

    Há também um post da Dilma, que está sendo muito compartilhado: https://www.facebook.com/SiteDilmaRousseff/photos/a.351365628250368.87876.351338968253034/887809084606017/?type=1&theater

    Sei que há maioria das coisas já ditas já foram refutadas por você, mas sempre sobra alguma coisa e há argumentos ridículos em relação a isso, como por exemplo: “Porque afronta leis brasileiras e acordos internacionais / o Brasil possui tratados com a ONU”.

    Esse argumento só mostra hipocrisia imensa da esquerda, que adora falar em “soberania nacional”, “imperialismo”, “que outros países não têm que se meter nas nossas leis”, mas quando se trata da ONU e ONGs de esquerda, aí pode.

    Outro argumento idiota é aquele que diz que as pessoas querem isso porque estão com raiva e com isso não estão usando a razão, como se a raiva fosse sempre um sentimento ruim.

    A esquerda já está fazendo campanha nas redes sociais. Há como você abordar isso, Luciano?

    Abraços

  2. Início interessante, a introdução cumpre bem seu papel de desenhar qual vai ser o esqueleto da argumentação que será desenvolvida a seguir.

    Só discordo do uso da falácia da distinção de emergência para caracterizar a reação de parte da direita religiosa. Pelo conceito de Schopenhauer, não seria possível se falar nesse tipo de falácia, já que os religiosos sempre defenderam que a religião deveria estar protegida de certo tipo de escárnio. Não foi uma distinção inventada às pressas apenas para criar algum tipo de diferenciação sutil entre categorias e justificar regras diferentes. A punição do escarnecimento religioso é tradicional em vários países do mundo. Faz muito tempo que se entende que a religião deve ser legalmente resguardada de escarnecimento. É até possível discordar disso, mas não dá para dizer que essa diferença é feita de forma emergencial.

  3. Luciano, a respeito do episódio na sede da Editora Abril veja o que o coordenador da campanha do PT ao governo do estado de São Paulo disse:

    Paulo Frateschi: “Por que é que essa juventude [referindo-se a União da Juventude Socialista, grupo historicamente aliado ao PT] jogou lixo na Veja? É porque eles consideram a revista Veja um lixo. É direito deles!”

    Registrei o caso no artigo a seguir: http://adoteumvereadorcampinas.wordpress.com/2014/10/29/violencia-como-metodo-revolucionario/

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