Liberdade como um fim em si mesmo? Ou: o fim do cristianismo levando ao fim da liberdade? (excerto do posfácio de “A Urgência de Sermos Charlie”)

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OBJEÇÃO: Você parece ver a liberdade como um fim em si mesmo. Se acabarmos com o cristianismo, acabará a liberdade.

Este tipo de objeção surge a partir de duas observações. São elas:

  1. O livro “A Urgência de Sermos Charlie” defenderia a ideia de liberdade apenas como um fim em si mesmo
  2. A liberdade excessiva pode acabar com o cristianismo, e então acabará a liberdade

A primeira observação deriva de uma interpretação equivocada do que eu escrevi. Já a segunda nasce em um silogismo que não se funda em qualquer coisa que eu escrevi, mas é possível encontrar um erro de análise nela também.

Antes de tudo, no capítulo 7 eu trouxe uma argumentação (já iniciada no capítulo 2) onde demonstro que uma sociedade que valorize a liberdade de expressão, plenamente, sempre será mais justa para os seus cidadãos do que uma sociedade que não valorize a mesma liberdade. Logo, eu não parto da defesa da liberdade a partir de uma perspectiva dogmática, mas de uma argumentação sustentando o benefício que a liberdade pode trazer para um grupo em comparação com outro. Ou uma sociedade em comparação com outra.

Como também argumentei várias vezes no decorrer do livro, brechas na liberdade, sejam para atender a interesses religiosos ou, como principalmente ocorre, para atender a interesses de totalitários fascistas, sempre serão aproveitadas em detrimento do povo. Assim, a liberdade é defendida aqui (e creio que o fiz com bastante contundência) como a melhor opção, mesmo a partir de uma análise completamente pragmática e utilitarista.

A segunda observação parte da ideia de que o uso da liberdade, como tem ocorrido atualmente, pode, no futuro, acabar com o cristianismo. Como uma religião sendo atacada e ridicularizada por seus oponentes, o cristianismo poderia, com isso, estar condenado.

A meu ver, essa é uma preocupação totalmente desnecessária principalmente inexata em relação ao elemento facilitador para os seculares na direção da demolição do discurso cristão no debate público. Algumas das consequências incluiriam até uma perda de fieis. Esta análise, porém, é míope, pois não é o uso de piadas contra a religião (por parte de seculares e anti-cristãos) que faz mal ao cristianismo, mas a ausência de esforços deste grupo para entrar no debate público de acordo com os princípios da guerra política. A causa raiz das derrotas cristãs não está no fato dos oponentes terem liberdade para satirizá-los (e lembro que os cristãos poderiam satirizá-los de volta), mas no conhecimento limitado dos cristãos de como vencê-los politicamente.

Me parece que culpar a liberdade, neste caso, é uma forma de transferir a culpa para este ícone, quando o melhor seria que os cristãos, enquanto grupo social, assumissem a responsabilidade por vencer a guerra política. Eu encerro o capítulo 2 demonstrando que hoje em dia até mesmo as brechas que poderiam ser usadas pelos religiosos para lutar a guerra política não são aproveitadas. Enquanto isso, seus oponentes, estejam eles na extrema esquerda ou no neo ateísmo (ou nos dois ao mesmo tempo), aproveitam as oportunidades.

Eu reconheço que como ateu não consigo ter o mesmo senso de urgência que os cristãos neste caso. Mas acho difícil que o cristianismo seja extinto ou solapado tão cedo. Mas se for, não o será por causa da liberdade de outros poderem fazer charges contra eles, mas na inabilidade dos próprios cristãos em jogar a guerra política. Esta é a reflexão a ser feita.

No caso de cristãos que priorizem lutar contra a liberdade (tentando evitar que “os outros fazem charges desagradáveis”), o máximo que farão é esconder para debaixo do tapete a verdadeira causa raiz das vitórias de alguns dos inimigos da religião. A causa é uma só: os principais oponentes dos cristãos jogam a guerra política, enquanto a maioria dos cristãos não pensa nisso. Se algum dia o cristianismo for extinto (o que acho difícil) culpem qualquer outro fator, menos a liberdade.

Para concluir: esta argumentação também nos lembra que as sociedades cristãs foram muito mais pródigas em permitir a liberdade de discordantes, em comparação com o mundo islâmico, por exemplo. É verdade que o próprio secularismo surgiu em um ambiente cristão. Neste argumento, então, é dito que “se deixarmos as pessoas fazerem piadas com o cristianismo, poderão acabar com ele, mas se acabarem com o cristianismo, então a liberdade poderá acabar”.

Justiça seja feita, de novo reconheço que as sociedades cristãs, antes e depois do Iluminismo, abriram o caminho para a valorização da liberdade de expressão (pela qual estamos lutando). Mas uma vez que tenhamos descoberto este valor, o cristianismo, hoje em dia, deixa de ser condição necessária para a liberdade, isto mesmo que possamos reconhecer que é muito melhor que sejamos uma sociedade majoritariamente cristã do que uma sociedade majoritariamente islâmica, por exemplo. Ademais, a solução não está na restrição da liberdade alheia como forma de se proteger cristianismo. Para além de todos os outros argumentos que apresentei aqui, isto ainda daria ainda mais sanção moral aos oponentes da religião, pois eles poderiam reclamar da proibição seletiva à críticas feita pelos religiosos. Politicamente, seria um desastre para os cristãos.

Sejamos ainda mais práticos. Distinção de emergência para limitar liberdade de expressão alheia sempre é um jogo. Sempre foi. Não importa se é para proteger a religião ou proteger os “sentimentos islâmicos”. Não importa se é para punir hereges ou críticos do sistema socialista. Sempre é um jogo. Neste jogo, os mais cínicos e dissimulados vencem. A extrema esquerda já cuidou de elencá-los para suas hostes. Hoje em dia, o jogo do fingimento para censurar a divergência pela distinção de emergência já se expõe para todos nós como um ardil sujíssimo. E eles possuem habilidade para jogar este jogo sujo. E seus adversários não. E se forem da direita religiosa, há muito menos talento ainda. Se o jogo é sujo e você não tem condições de jogá-lo tão bem, não é melhor extinguir o jogo? Esta deveria ser a luta.

Qualquer pessoa que valorize fugir da opressão fascista, seja ele um ateu ou religioso, tem muito a ganhar se abraçar a luta da liberdade.

O livro “A Urgência de Sermos Charlie”, que será publicado em 30/6, ainda pode ser adquirido antecipadamente a partir de contribuição neste link

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4 COMMENTS

  1. Como estudiosa sobre Religiões e CRISTÃ convicta, parabenizo e compartilho o seu Excelente Texto. LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! Paz e Bem!

  2. De fato, as objeções não fazem sentido. Se o cristianismo não desapareceu nem com a perseguição sangrenta, não seria com meia dúzia de piadinhas que isso aconteceria. Ademais, há uma inversão de causa e efeito. As provocações acontecem exatamente pelo avanço do materialismo e anti-cristianismo na sociedade, e não o contrário. Uma sociedade majoritariamente guiada pelos valores cristãos saberá reprimir os ataques baixos a religião sem a usar o aparato estatal, através de críticas públicas e boicote, meios perfeitamente legítimos de expressão. Quando o cristianismo depende do estado para alguma coisa o sinal de alerta já deveria estar ligado.

    Só não concordo com a hipótese de que a liberdade se sustenta sozinha sem a base cristã. Sinceramente, acho problemático afirmar isso, já que vivemos uma realidade em que o politicamente correto corrói a liberdade de expressão exatamente na mesma medida em que a sociedade se descristianiza. Acredito ser possível que uma sociedade não cristã ter liberdade (embora com certas restrições, é o que acontece no Japão e na Coréia do Sul), mas creio firmemente que o materialismo europeu que se tornou o zeitgeist é intrinsecamente contrário a liberdade. A perseguição a símbolos religiosos utilizados até mesmo por civis em nome do secularismo é apenas uma das faces desse problema. A opção islâmica não parece mais animadora. Então nos resta mesmo o resgate de valores judaico-cristãos.

    A defesa da liberdade de expressão da perspectiva utilitária é irretocável, mas entra em conflito com o politicamente correto, e por isso duvido que tenha sucesso se usada isoladamente. Um grande acerto do livro é exatamente se voltar contra os pilares do politicamente correto. A liberdade como um fim em si mesmo não pode vencer esse movimento, mas o livro parece estar muito longe de dizer isso.

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