A vitória do intervencionista é a derrota do democrata

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Já fiz muitas críticas aos intervencionistas, os adeptos da intervenção militar. Dentre essas críticas temos o fato de que pedir publicamente uma intervenção militar significa fazer propaganda para o oponente, que, no caso, quer ser percebido como “mais democrático”, mesmo que peça censura sob o frame “democratização de meios de comunicação”. Assim, intervencionismo é propaganda gratuita para o PT, facilitando a vida do partido na hora de lançar o rótulo “golpista” a todos os seus oponentes. Ademais, a intervenção militar dificilmente funcionaria em um mundo tão conectado. Em 1964, era muito mais fácil fazer alguém desaparecer do que hoje. O modelo de tomada de poder pela força está, pois, extinto. Ditaduras são amparadas hoje mais em simulações de democracia do que pela tomada de poder pela via armada. Isto decorre de um único motivo: ações pela via da força estão cada vez mais fadadas ao fracasso pois é cada vez mais difícil “esconder corpos” em um mundo com tamanha disponibilidade de tecnologias de comunicação.

Mas quero ir além destas críticas. Mais do que qualquer outra razão para rejeitar o discurso intervencionista, a mais negativamente impactante é a retórica baseada em negação da guerra política ad aeternum, bem como o esforço hercúleo gasto para fazer outras pessoas abandonarem esta guerra.

Guerra política é a luta pelo poder trincheira a trincheira, post a post, fórum a fórum, vídeo a vídeo, em várias camadas, sempre pela via democrática. Ela envolve fazer memes, piadas, ridicularizações, shamings, controlar o frame e usar diversos outros recursos em uma eterna luta por posições, por espaços e por audiência, sempre de acordo com cada questão sob disputa. Porém, para empreender seu tempo neste tipo de iniciativa você precisa, mais do que qualquer outra coisa, acreditar na guerra política. Qualquer ação na guerra política depende de motivação para a luta.

A estrutura mental do intervencionista é completamente diferente, pois, para acreditar na ação militar como única solução viável, ele precisa manter em sua mente a crença da insuficiência ou mesmo esterilidade da ação civil. Isto acaba se refletindo nas manifestações verbais deste grupo, cujo discurso acaba beirando a escatologia, sempre na desmotivação para a ação (se bem que eles se motivam na divulgação de memes pedindo a volta dos militares, mas a coisa para por aí). E para os adeptos da guerra política, isso é extremamente desagradável, na melhor das hipóteses. E aniquilador de resultados, na pior.

Como isto ocorre no dia a dia? É muito simples visualizarmos o processo. Basta surgir um revés na política nacional. Em seguida, publique algo sobre o assunto em sua rede social. O adepto da ação civil tende a usar o evento como motivação para a luta. Como resultado, pessoas são convocadas a se manifestar, protestar, mandar e-mails para deputados e daí por diante. Esse é o caminho para quem acredita na guerra política. Já o adepto da intervenção militar vai na contramão, e imediatamente começa a lançar discursos dizendo “pronto, está tudo dominado” ou “o domínio total do PT é questão de tempo”, em uma peregrinação contínua de desestímulo para a luta civil. Tudo porque em sua mente existe a necessidade de manutenção da crença na intervenção militar como única solução.

Algumas pessoas têm afirmado que intervencionistas e democratas deveriam se unir em prol de um objetivo maior: derrubar o PT. A causa é mais do que nobre, mas carece de um erro de análise: não é possível unir dois grupos tão divergentes em relação aos métodos de como chegar ao poder. Para piorar, os intervencionistas dependem da contínua perda de esperança na luta democrática, pois esta desesperança serve para alimentar a fé na “solução final” (a ação militar). Logo, nem mesmo que queiram os dois grupos conseguirão lutar juntos, pois os esforços são dispendidos em direções opostas: (1) o intervencionista precisa desanimar a luta civil, (2) o democrata depende do ânimo para a luta civil. Logo, a vitória de um é a derrota do outro.

Texto publicado na edição 11 de “O Coyote”.

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10 COMMENTS

    • Só gostaria de fazer uma pergunta: Estando a justiça brasileira quase totalmente aparelhada, qual a confiabilidade das informações que serão veiculadas por esse programa? Como estou propondo esta questão às 11:32 h, portanto bem antes do programa ir ao ar – se entendi corretamente- não se trata de uma pergunta capciosa, mas apenas de alguém que está a cada dia que passa perdendo a fé em todas as nossas instituições ditas “democráticas”.

  1. Luciano, sei que isso não trata deste post, mas gostaria de saber se você tem algo a dizer sobre as estratégias políticas dos partidos de Direita da Suíça e Estônia (onde há mais de uma década a Direita se mantém predominantes), como o Swiss People Party e Estonian Reform Party.

  2. Com relação à matéria aqui colocada.deixo claro que não peço a intervenção militar, entretanto, também quero deixar bem claro que se uma determinada hora, as Forças Armadas decidirem intervir, respirarei bem mais aliviado do que respiro hoje.

    Isto posto, peço desculpas por discordar em alguns pontos da matéria citada.

    Questiono sobre os cadáveres “escondidos”. Isto não é impossível porque vivemos na era da Informática. Isto deixou de ser possível a partir do momento em que inventaram a máquina fotográfica, haja vista os cadáveres que, no Brasil, a assim chamada Ditadura Militar não conseguiu esconder durante o período da repressão, quando os expatriados que agora nos governam e a imprensa oposicionista, hoje governista, nunca a deixou esconder.

    Por outro lado, os comunistas , isto é, os socialistas, nunca se incomodaram se seus cadáveres seriam escondidos ou não, a prova disso é que, por mais que se revelem esses cadáveres, cada dia o Comunismo (Socialismo) avança mais no controle das nações de todo o mundo até mesmo “entrando de sola” no país mais Democrático (no sentido clássico) e mais capitalista, que é os Estados Unidos da América.

    Outra coisa, Democracia é uma palavra muito usada e abusada e, consequentemente, bastante desacreditada hoje. No Brasil, por exemplo, tem-se feito crer que “democracia” é ter eleições e que isso basta. Também há vários tipos de democracia, algumas delas até totalitárias como a tal da “democracia participativa” que Dilma introduziu legalmente no Brasil com o Decreto 8243 que até o momento não foi invalidado. Assim temer pela democracia devido à intervenção militar é temer pelo que há muito, no Brasil, deixou de existir.

    • Entendo, Erreve, e, infelizmente, este é o problema. Falta por parte da direita um COMPROMETIMENTO com um gramscianismo reverso, que é o que daria resultados. Ao invés disso, muitos falos “eu faço (x), mas espero por (y) se não der certo” ou coisas do tipo. Uma parte da direita se comprometeu com a guerra política, e outra parte não.

      Outra coisa é comparar os modelos de tomada de poder. No Ocidente, porém, este modelo é obsoleto, e foi substituído pela democracia de fachada.

      Sobre “democracia ser desacreditada”, não é bem assim. Há um preço para o grupo que se posiciona CONTRA a alternativa democrática, e é exatamente por isso que os petistas jamais se posicionarão contra. Eles estão COMPROMETIDOS com a tomada de poder pelas vias democráticas (mesmo que a corrompam e a transformem em democracia de fachada).

      Então, não é que a democracia “deixou de existir”. Ela está sendo danificada, pelas vias democráticas, mas pode ser plenamente usada por nós. Mas o maior esforço dos intervencionistas é DESANIMAR-NOS para a luta política, para que nos juntemos ao seu time.

      Vou fazer um texto sobre isso: sobre o uso da retórica do exagero.

  3. Lucianoayan, primeiramente boa noite e parabéns pelo trabalho.
    bom, por uma questão de terminologia, o uso da palavra ‘intervencionista’ não deveria ser usado para os que defendem a volta dos militares. Ou sim?
    Deveria haver uma especificação como ‘intervencionismo militar’. `Para não confundir com o termo historicamente cunhado pelos liberais que se refere à regulação estatal, que inclusive é realidade gritante em nosso país.
    Abraço.

  4. Ayan, estou errado em achar que intervencionistas são Positivistas sem saber? Afinal eles acham que já tem a resposta para a sociedade com os seus “engenheiros sociais” e por isso negam a guerra política.
    Faz sentido?

  5. Eu tenho experiência de campo com esses caras, eu afirmo que é tudo isso mesmo. e pior, eles ainda desconstroem quem está lutando.

    Eles usam o argumento vitimista: “Não podemos dividir a direita”, mas são os primeiros a criar uma redoma monista envolta do conceito de direita.

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