O bilhetismo. Ou: como continuar iludindo as pessoas com esquerdismo.

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Em um universo paralelo, um autor resolve elaborar a seguinte tese: uma das formas de caridade é o bilhetismo, e devemos acreditar nisso. O bilhetismo se baseia em um surto de bondade que acometeria boa parte dos ganhadores da Mega Sena (e seus afins), fazendo-os vender seus bilhetes a preços módicos para que outras pessoas pudessem receber seus prêmios. Seria uma forma quântica de caridade.

O livro faz um baita sucesso, e, com isso, milhares de pessoas começam a comprar bilhetes premiados. Infelizmente, nenhum deles é válido. Os vendedores de bilhetes premiados, como era de se esperar, não passam de picaretas, dependentes da crença de otários na possibilidade de comprarem um bilhete realmente válido. O que o bilhetismo na prática se revelou foi apenas um jogo para que espertos pudessem lucrar à custa de trouxas.

O autor é chamado de embusteiro, mas, em entrevistas, sempre se defende desta forma: “O bilhetismo que a mídia noticia não segue o princípio número um da doutrina: que é transferir seu prêmio para outro, a partir de um baixo custo. Então não é o bilhetismo real”.

Você provavelmente achará esta história absurda. Não é para menos. O questionamento é natural: “Ora, se é para fazer caridade, por que o dono do bilhete premiado não saca o dinheiro e faz uma caridade ainda maior?”. Uma questão tão simples e óbvia como essa já levará ao desnudamento de um ardil.

Mas se você acha que as pessoas não cairiam em truques de gente tentando sustentar o bilhetismo mesmo depois de muita gente enganada, espere até ver o que disse um tal de Christopher Sabatini, articulista do site LatinAmericaGoesGlobal.org, conforme dica de Rodrigo Constantino. Para Sabatini, Venezuela e Equador não são de esquerda, uma vez que “não ajudam os pobres”. E ainda temos que aturar a seguinte racionalização:

Perdido em meio ao fácil selo de esquerdista de Maduro e Correa há um fato singelo: simplesmente dar dinheiro aos pobres não faz de você um socialista ou mesmo um esquerdista. Faz de você um populista (e perdulário).

Uma investigação honesta levaria qualquer um a perceber que os pobres vivem melhor nos países menos esquerdistas. Sabatini poderia até tentar contra-argumentar dizendo que “pelo menos, a intenção esquerdista é ajudar os pobres”, mas de boas intenções o inferno está bem cheio.

Cientificamente, temos que olhar para um grupo estudado pelo seu comportamento, não por sua propaganda. Podemos deduzir o comportamento dos advogados pelo comportamento da maioria deles. Podemos fazer o mesmo em relação à observação dos jogadores de futebol. Para prever comportamentos religiosos, também olhamos, sem nenhuma surpresa, para o comportamento da maioria deles. Enfim, para qualquer grupo sob análise, observamos comportamentos padronizados, não declarações destes grupos.

“Não é isso que você está pensando” é uma frase típica de qualquer adúltero(a) fotografado(a) pelado(a) na cama com a(o) amante. O comportamento, no entanto, não bate com o discurso. “Eu sou inocente” é proferido pela maioria dos bandidos culpados. Portanto, não é uma posição intelectualmente adulta definir um esquerdista pelo seu discurso (“quero ajudar os pobres”), mas sim pelo seu comportamento (“inchar o estado, sob pretexto de ajudar os pobres, prejudicando, no fim das contas, mais os pobres do que os ricos”). Este é o comportamento esquerdista em essência.

É este tipo de visão, minimamente cética em relação a discursos de propaganda, que nos leva a conclusão de que Venezuela e Equador são exemplos perfeitos de esquerdismo. Mais ainda: do esquerdismo mais puro, pelo padrão socialista latino-americano, isto é, o bolivarianismo. O comportamento esquerdista de inchar o estado para dar poder totalitário aos seus líderes é a extrema esquerda em todo o seu esplendor.

Por que será que um autor diria que os falsos bilhetes premiados não constituem “o verdadeiro bilhetismo”? É claro que é por querer sua vulnerabilidade diante de falsários. Do mesmo modo, Sabatini é um esquerdista perfeito, por lutar para que seus leitores continuem vulneráveis diante dos tiranos latino-americanos. É por isso que ele define esses tiranos como “não verdadeiramente esquerdistas”.

No fim das contas, é precisamente isto que o torna um esquerdista exemplar: ele não se preocupa com os pobres, mas com o potencial dos donos de estados inchados e totalitários poderem continuar se locupletando no poder.

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5 COMMENTS

  1. É parecido ou é a mesmo velha conto do vigário sobre o comunismo ou socialismo ainda não ter funcionado porque aqueles que o aplicaram fugiram das regras ou por culpa do EUA que boicotou.
    Mas, eis que a aplicação do seu texto saiu de um espertalhão petista ao falar do governo petista, nem iria ler a matéria, só o título já imaginava os tipos de mentira que encontraria, veja a cara de pau:
    Rui Falcão diz que governo Dilma “não é do PT”
    Lotaram o governo de PTralhas para trabalharem em nome do partido ou de acordos, agora querem se isentar da culpa do que fizeram, dizendo, “esse não é nosso bilhete”, pois não está premiado, só seria se tivesse funcionado.

  2. Essas discrepâncias deveriam ser de conhecimento de todos.
    Até na bíblia está escrito: pelo seus frutos os conhecereis.
    E como aqui se gosta de dar mil e uma definições para o mesmo texto, a bíblia é mais radical: Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo.
    Mateus 7

  3. ” …simplesmente dar dinheiro aos pobres não faz de você um socialista ou mesmo um esquerdista.”

    Não? Ah, sim, é verdade. O que faz de você um socialista é querer dividir o dinheiro dos outro por meio da coerção.

  4. O que ele não fala é que o populismo é um conjunto de práticas que pode ser utilizado tanto por governos de esquerda quanto de direita.

    Dizer que um governo é populista não diz muita coisa em relação ao espectro político dele, embora historicamente a esquerda use o populismo muito mais do que a direita. No máximo, podemos inferir que não é liberal, pois o populismo se baseia no intervencionismo.

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