Uma abordagem diferente para a guerra política: a neutralização de bugs da mente

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KarlackBrainBug

Tenho estudado muito mais sobre os “brain bugs” (um ótimo livro sobre o assunto é “Brain Bugs”, de Dean Buonomano). E, para além disso, tenho mapeado de forma diferente alguns comportamentos contra-produtivos da direita. Cada vez mais, isso tem respaldado uma nova abordagem (ou melhor, uma abordagem ampliada) sobre guerra política, onde a questão maior não é meramente ensinar guerra política (a qual não é tão complicada assim). O maior trabalho, na verdade, é neutralizar alguns bugs mentais que impedem algumas pessoas de visualizar algumas situações, levando até à incapacidade de reações que não são mais que óbvias.

Chego a esta conclusão ao avaliar o comportamento de muitas pessoas de direita no seu cotidiano fora do debate público. Seus cérebros tem funcionamento normal, mas somente no momento em que adentramos à política é que algumas pessoas de direita parecem até crianças. Mas não é que elas precisem ter um aprendizado muito complexo para sair desta situação. Elas precisam que muitos dos bugs mentais que os contaminaram sejam neutralizados, uma vez que se elas encarassem uma situação similar em seu cotidiano, não reagiriam de maneira tão infantil e patética como reagem no contexto da guerra política. Este bugs só as incapacitam para algumas percepções e reações nas questões do debate público, sem afetá-las em seu cotidiano.

Esses bugs mentais, que incapacitam o processamento básico de informações na política, podem ter sido inseridos por conceitos deturpados de política, erros de formadores de opinião e coisas do tipo. Como consequência, vemos na extrema esquerda algo que deveria ser até uma vergonha para todos nós: eles possuem muito mais agilidade mental para o embate político. Dentre muitos exemplos, isto pode ser notado em quando eles rotulam com muito mais rapidez seu oponente, do que seu oponente os rotula. Agilidade mental é isto.

Só para iniciarmos esta abordagem, vejamos cinco exemplos de bugs mentais:

Raciocínio unicamente de longo prazo: No meio de um debate alguém diz que “é preciso primeiro ter um partido de direita no poder, antes de fazer algo”. Decerto é uma boa meta, mas ela é de longo prazo, que não pode servir como pretexto para eliminar uma meta de curto prazo. Uma evidência de que não agimos assim no cotidiano está no fato de que pessoas que ambicionam a função de gerente não recusam o cargo de estagiário, no início de suas carreiras. Logo, é evidente que, em uma situação do cotidiano, o raciocínio unicamente de longo prazo se torna inaceitável. Por que na política este raciocínio é utilizado tão despudoradamente?

Desapego ao controle de vulnerabilidades pela existência de um ofensor: Você provavelmente já ouviu a seguinte frase: “Olha, eu vou falar isso mesmo, pois a esquerda já nos rotula mesmo, então, dane-se, nem ligo mais”. Por este bug, a pessoa não consegue mais visualizar seus erros como oportunidades ao oponente, pois ela entende que o oponente a atacaria mesmo assim. Porém, no cotidiano fora da política, isso não aconteceria. Ninguém deixa de investir na segurança que consegue bancar (cadeados, senhas, etc) somente por que os bandidos vão tentar te atacar assim mesmo.

Desapego à luta por reputação: Não há como negar que em nossas vidas, lutamos por nossa reputação, na medida do possível. Isto vale para qualquer contexto de interação humana: com nossas esposas ou namoradas, com nossa família, com nossos amigos, em nosso ambiente de trabalho. Para algumas pessoas que aparecem no debate público dizendo “eu quero intervenção militar” ou “que se dane quem recebe bolsa família”, a coisa funciona de maneira oposta. Simplesmente não há interesse algum por lutar por reputação (no caso, em política, é demonstrar-se como mais apego à democracia, à luta pelos desfavorecidos, etc.). Talvez isto ocorra porque a pessoa não sente que sua vida será diretamente impactada (como no caso da luta pela própria reputação). Assim, a reputação de seu grupo sendo danificada não soaria a ele tão desastrosa como se o dano fosse causado à sua própria reputação. De qualquer forma, este é um bug mental que incapacita alguém na luta pela reputação de seu grupo político.

Recusa à procura de oportunidade: Este bug é visualizado nos depressivos em geral, que se recusam a visualizar oportunidades, mesmo que existam. No cotidiano, este comportamento só se manifesta caso a pessoa esteja sofrendo de depressão, em termos clínicos. A busca de oportunidades é, então, encerrada. Mas seu oposto ocorre até mesmo no mundo animal. Basta assistir ao Discovery Channel e ver quando a gaivota cai na boca do jacaré. Ela fará de tudo para escapar. Isto é buscar oportunidades para alçar condições melhores do que as que temos no presente momento. Muitos direitistas não conseguem nem mesmo manifestar este básico instinto animal.

Tomada da mente do oponente como a sua: Este bug é tão grave, tão grave que se ele ocorrer persistentemente no ambiente corporativo, a pessoa precisa ser demitida. É um risco absurdo contar com pessoas assim. Por sorte, este bug, no cotidiano, tende a ocorrer em profissionais de perfil júnior, e é corrigido. Mas na direita, ele aparece, por exemplo, em pessoas que dizem que os “socialistas se enganaram, e parecem que não conseguem aprender”. Isto é tomar a mente do outro como se fosse a tua, e julgá-lo não pelo que ele está fazendo, mas pelo que você faria. Se você fizer isso em uma negociação, já perdeu. Em uma negociação, você precisa entender os objetivos do outro, que não são os mesmos que os teus, para somente aí tomar sua posição. Na gestão de um projeto, você precisa gerenciar interesses conflitantes. Se cair na ilusão de achar que todos tem o mesmo interesse que você, temos certeza de fracasso para o projeto. Então, por que julgamos um líder socialista por ambicionar o mesmo que a gente (ou seja, construir uma política econômica estável)?.

E estes são apenas cinco exemplos. Observe que para todos eles, temos um exemplo similar da vida cotidiana fora da política, onde estes comportamentos não são executados, ou, se são, isto ocorre raramente. Então por que eles aparecem de forma tão persistente quando uma pessoa está fazendo um post em um blog, criando um vídeo, lançando um comentário nas redes sociais? Provavelmente eu faça uma seção do blog, chamada Bugs Mentais, onde estes bugs sejam todos expostos, como em um catálogo. Até o momento anotei uns 20 a 30 bugs. Se alguém quiser sugerir outros, sinta-se livre para fazê-lo. Desde já, agradeço.

O que importa é que estes bugs mentais raramente se apresentam ao mesmo tempo em um indivíduo. Alguns possuem mais, outros menos. O que importa é que eles bloqueiam reações, aniquilam certas percepções e, enfim, propiciam um fenômeno terrível: quase sempre temos a impressão de que a extrema esquerda possui muito mais agilidade mental do que a direita. Por isso, estão sempre um passo à frente.

Na verdade, nós temos a mesma agilidade mental que eles. Talvez até mais. Só não usamos esta agilidade mental por causa de vários bugs mentais que nos incapacitam a processar as informações corretamente, comprometendo radicalmente nossas respostas. Mapeando estes bugs mentais, poderemos, enfim, criar “vacinas” para dar puxões de orelha, banir pessoas de comunidades (em casos extremos), aplicar shaming ou mesmo diversas outras técnicas de aprendizado. Espero que ninguém se magoe. Amigos dão puxões de orelhas em amigos. Se as pessoas da direita estão do nosso lado, por que não podemos questioná-las fortemente por comportamentos tão obviamente danosos?

Enfim, que bugs mentais você tem identificado por aí e para os quais “vacinas” podem ser desenvolvidas?

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16 COMMENTS

  1. Acho que o Partido Novo tem o bug do “contra políticos profissionais”(limites de reeleição e aversão a políticos de outros partidos já existentes que poderiam puxar votos). Não entendem que existe uma montanha de diferença entre ser um amador e um profissional, e que é preciso ter gente especialista para ajudar aqueles que irão conseguir bases eleitorais para assim vencer as eleições.
    As pessoas podem até falar numa pesquisa que gostariam de votar em gente que tem um trabalho além da política, mas quando chega na hora de votar(muita gente não pesquisa), vota nos já muito conhecidos.

  2. Muito bom Luciano. Ao meu ver o bug mais grave é o último: “Tomada da mente do oponente como a sua”. Vejo alguns dizendo que seria mais honroso Dilma renunciar. Como podem perder tempo com uma hipótese dessas? Nossa ética e nossa moral são NOSSAS e não dos outros necessariamente. Dilma ou qualquer esquerdista se preocupando com reputação e honra? Eles não são afetados por bom exemplos. Temos que acordar.

  3. Infelizmente, a solução desses problemas é difícil, tanto que já prevejo que, esse artigo terá pouca repercussão, e quem precisa talvez nem lerá por não se identificar ou ter preguiça de se livrar do bug, aí já mostra um problema do problema.
    Fica um apelo para que compartilhem, quem é escritor ou colunista que tente republicar ele de forma a torná-lo interessante ao ponto de cair no gosto das pessoas, talvez com um título provocativo perguntando “Qual tipo de direitista você é?“, talvez de forma irônica, com imagens e exemplos de frases usadas por indivíduos com um dos problemas acima. Outra coisa interessante seria transformar cada bug em um artigo, tipo “Bug da DireitaPerdida 1: Raciocínio unicamente de longo prazo ou ‘esperando o Messias’
    Além de alertar, a vacina que vejo é as pessoas tomarem consciência da enorme quantia de ‘infectados’ e do problema que os bugs causam ao país(na guerra política), e assim começar identificar contaminados e usar a ironia e um pouco de deboche para desinfectar, coisas como mostrar o erro deles e alertá-los que Petralhas estão sendo gratos a eles. Inclusive tenho visto infectados tentando contaminar outros.

  4. Direitistas, entendam: quando um esquerdista está em uma passeata lutando contra corrupção, ele não está lutando contra corrupção e sim porque a corrupção não beneficia a esquerda. Se beneficiasse a esquerda eles não fariam nada, como não fazem quando interessa a eles.

  5. Ótimo post. Fui identificando vários que conheço através dos bugs. Tenho desde amigo que pede intervenção até amigo que é uma mistura de depressivo com “não existe partido de direita”.

    Um bug que notei recentemente em um direitista, enquanto ia para a manifestação de 16/08, no bus, creio que se encaixe no “desapego à luta por reputação”:
    Estavam conversando sobre a TV Cultura, que está ameaçada de acabar, e o tal direitista disse “foda-se, não assisto nada da TV Cultura mesmo”. Que lixeira de fala! Desde quando é preciso ser esquerdista pra defender a permanência dela? É a permanência de vários empregos, não é preciso ser esquerdista pre enxergar isso. Na minha família mesmo, o marido da minha irmã trabalha na Cultura e sustenta a família com tal salário há anos. Pode achar a programação da emissora irrelevante, mas dizer um FODA-SE para uma empresa que está encerrando atividades simplesmente porque o impacto na tua vida é nulo, é muito amadorismo político.

  6. Outro bug que vejo é uma vigarice que esquerdistas deitam e rolam em cima, enquanto alguns direitistas patinam, tapados que só.

    É assim:

    Quando houve a manifestação do dia 15/03, eu vi uns esquerdopatas que conheço escrevendo no facebook “que horror tanta gente querendo intervenção militar”.
    E a esquerdopatada ia lá e curtia aos montes, dizia horrores, o quanto abominava esses inimigos da democracia na Paulista.
    Queriam, como a imprensa golpista, convencer de que a manifestação INTEIRA era por intervenção militar.

    Aí eu pergunto: eles sabiam que era só uma meia dúzia que queria intervenção?
    ÓBVIO QUE SABIAM!
    Como o CQC sabe, como a Globo sabe, como o PT sabe, como a Luciana Genro sabe. Todos os esquerdopatas sabem disso.
    Mas fingem, coletivamente, não saber, para poder capitalizar em cima, ridicularizar e demonizar. Eles são aliados nisso, são unidos nisso, são se desmentem, pelo contrário, dão corda.

    Agora vejamos como direitistas se comportam em situação mais ou menos semelhante.

    O Luciano vem e publica que aquela lixeira de Evo Morales, que parece figurante do Chaves, ameaçou atacar o Brasil se a Dilma for derrubada.

    O que uns direitistas patéticos fazem?

    “É mentira, ele não falou isso Luciano, só falou que não vai deixar ela cair”
    “Nananinanão, não é isso que ele quis dizer”

    Porra, VÃO SE FUDEREM, CABEÇAS DE BAGRE!
    Se fosse um presidente não bolivariano, a esquerda estaria capitalizando loucamente em cima disso, todos se apoiando, todos curtindo postagem do outro e dando mais corda.

    Quando é conosco, vem essas porras desses direitistas cabeças de bagre e QI de ostras dizerem “ei, não é bem assim”.

    Vou dar um exemplo tosco pra perceberem o quão inúteis estão sendo:
    Se alguém me pergunta onde moro, digo que é no Butantã. Se meu pai (chato) está perto, quer que corrija: que diga que é no Caxingui, que especifique, pois “senão a pessoa pode achar que é lá praqueles lados da Vila Sônia” (quem conhece aqui sabe que a diferença entre o Caxingui e a Vila Sônia é no máximo que o primeiro tem mais árvores, mas moradores antigos tem essa frescurite, essa rixinha, essa briguinha imbecil).
    PORRA, Butantã todo mundo sabe onde é, não precisa ficar especificando qual lado do Butantã é.
    E essa coisa da pessoa te corrigir, ainda mais na frente dos outros, é um saco. Você passa por mentiroso.

    Esses direitistas “olhe, não foi bem o que Evo disse” são TOSCOS no mesmo nível desse exemplo que falei.

  7. E tem mais um bug sobre o qual falei aqui, que se encaixa um pouco com alguns dos citados no post: os PURISTAS, que dizem “não vou na manifestação porque lá tem quem quer intervenção militar e isso eu não apóio”. Desmoralizam o TODO por causa de UNS, atendendo à expectativa dos CQCs da vida.

    https://casacaindo.wordpress.com/2015/08/17/a-futilidade-do-puristas-que-por-causa-de-uns-intervencionistas-sem-audiencia-preferem-desmoralizar-as-manifestacoes-inteiras/

  8. Creio que o maior bug seja o fato de que só recentemente as pessoas do cotidiano passaram a ter interesse pela política, o que no final é o interesse no próprio futuro. Assim o que temos na “direita” é um contingente enorme de pessoas que estão a aprender como enfrentar a esquerda bolivariana. E aí temos visto todo tipo de desabafo. Então cabe a nós que estamos dispostos a aprender a cada dia, mais um frame e uma nova maneira, de também chamar os “estagiários da política” para essa escola dos aprendizes da “guerra política” onde você e seu CETICISMO POLÍTICO, figuram no brasão dos novos guerreiros da nação, pela paz e pelo enfrentamento dos ladrões de sonhos com a estratégia das palavras e sua forma pragmática de uso. Obrigado Ceticista.

  9. Recentemente, vimos a agilidade da esquerda para convencer muitos inocentes que “tirar a Dilma não resolveria nada, pois o substituto seria tão ruim quanto ela, e além disso, tirá-la seria golpe”, ao passo que tirar o Cunha imediatamente resolveria todos os problemas do Brasil, e não, não seria golpe alhum. Muita gente boa caiu nessa, amigos meus inclusive. E qdo vc questiona a hipocrisia, eles meio que acordam de um surto.

    Outra é ser pautado pela esquerda: “Não fala que você defende impostos mais baixos, vão dizer que vc etc.”, “Não fale que vc é a favor da redução da maioridade, vão achar que vc…”, “Não diga que vc é contra o aborto, vão falar que vc…”.

    Esquerdistas jamais cometem este erro primário, eles tentam Impor as pautas absurdas deles sempre, e cagam para o que pensamos deles, e por repetir tanto o que pensam, suas opiniões acabam sendo a verdade aceita e absoluta, nos ganham pelo cansaço.

    Não podemos ter medo de impor nossas próprias pautas. Claro que dizer que odeia pobre e aue quer um novo AI-5 não ajudará muito nossa, mas se o a escolha é entre entre se ficar mudo como uma múmia enquanto esquerdistas vomitam seus absurdos, ou impor ALGUMA pauta de contestação, eu prefiro a última escolha, por mais idiota que seja.

  10. Essa doeu, sequência de vários tapas na minha cara, como sou juvenil nessa guerra, vou imprimir esse texto magnifico, colar na capa da minha agenda e ler mais vezes, para continuar vacinando esses bugs que existem aqui dentro da minha cabeça. Obrigado Luciano, não vejo a hora ler o seu livro! posso solicitar uma sugestão? o seu segundo livro ser no mesmo segmento desse texto.

  11. O grande bug e’ achar que discutir questoes sociais amadoristicamente traz resultados sociais proporcionais ‘a energia investida. Ao inves, cria uma situacao de preguica, ressentimento, redirecionamento de emocoes ruins.

    Passei 6 anos discutindo politica com liberais, ouvindo eles falarem muita besteira filosofica, ate’ o dia em que eles continuaram debatendo e eu usei essa energia pra me mudar pros EUA. Poha, tudo que eles acreditaram os levaria a se mudar do Brasil, por que nao se mudam?Nem o sucesso do MBL justifica o custo oportunidade. E ai’ quem mudou o mudou de quem?

    O bom de entender de politica e’ saber como viver sua propria vida, para onde ir, que lugares e pessoas evitar.

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