Collor diz ter provas contra Janot. Queremos ver.

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Já me falaram que o ceticismo político é seletivo, ao buscar pressionar por provas contra meus oponentes, mas não fazer o mesmo questionamento aos que me são neutros e aos que estão do meu lado. Tal afirmação é desprovida de fundamento, haja vista que o ceticismo político é apenas um complemento aos métodos tradicionais de ceticismo tradicional e ceticismo científico. Mas no ceticismo político a prioridade de questionamento é dada às alegações de seu adversário político. Logo, o ceticismo político não pede que você deixe de questionar os seus, mas não esqueça de que há um grande número de alegações de seus oponentes contra você, e que esses questionamentos devem ser priorizados.

Para quem é da área de auditoria de sistemas, é fácil visualizar o que ocorre. Imagine que tenhamos 200 casos de testes relacionados a aspectos de segurança da informação, e 3 dias para executá-los. O objetivo é executar todos os 200 casos de testes. Porém, apenas 60 deles são impeditivos, e que, se não forem executados, impedem o sistema de ser lançado em ambiente de produção (para facilitar o entendimento ao leitor leigo em TI: é o ambiente onde os clientes finais podem comprar, baixar e instalar o software). Com essa priorização, ninguém está dizendo que não é para executar todos os casos de testes. O ideal é executar os 200. Mas e se não tivermos 3 profissionais para fazer os testes, conforme previsto na alocação de recursos? E se tivermos apenas 1 profissional? Então, neste caso, executamos prioritariamente os 60 mais críticos, que são os que impedem o lançamento do software. Basicamente, o ceticismo político é aplicação de um raciocínio tão óbvio como esse no uso do ceticismo.

Se esta introdução é suficiente, então devo dizer que a sequência de frames “Se afirmou, prove! Se alegou, demonstre!” deveria ser um imperativo para os céticos políticos. Neste caso, só faço executar um instinto. Antes de vê-lo neste caso, acompanhemos a nota lançada por Collor, que reafirma ter provas contra Janot:

A respeito da sabatina do Procurador-Geral da República ocorrida na CCJ do Senado, no último dia 26/08, cabe esclarecer que, ao contrário do que a maioria dos meios divulgou, o senhor Janot se omitiu em várias perguntas. Em outras, apenas tangenciou. E, por fim, no que respondeu, falseou a verdade.

As regras e a dinâmica que envolvem sabatinas nem sempre permitem, por limitação de tempo e de réplicas, o completo esclarecimento dos fatos e, menos ainda, a devida cobertura e repercussão. Soma-se a isso, a recorrente postura parcial da mídia, que – salvas exceções -, inclina suas matérias em meu desfavor. O fato é que o senhor Janot não disse quem é, onde trabalha e qual a sua relação com Fernando Antônio Fagundes Reis; falseou a verdade no caso ORTENG/Braskem/Petrobras e seu exercício como advogado; se omitiu em relação à ORTENG/Abreu e Lima (carta-convite); tangenciou a falta de investigação das SPEs/TCU (Processo TC 029.389/2013-5) e a omissão do Ministério Público no caso; falseou a verdade em relação à Oficina da Palavra e ao seu Diretor Raul Pilati Rodrigues; não respondeu sobre o caso MP/Secopa-MT/Oficina da Palavra; falseou uma meia verdade em relação aos gastos e às responsabilidades de sua comissão interna no aluguel de um imóvel no Lago Sul; faltou com a verdade em relação à nomeação de uma cerimonialista para a PGR, especialmente sobre a motivação e a legalidade do ato; negou-se a falar sobre o fato de ter homiziado dois estelionatários em sua casa em Angra dos Reis e sobre os recibos de aluguel não passados a um deles; menosprezou a escamoteação de informações à CCJ sobre processos em seu desfavor no TCU e no Senado Federal, por meio dos quais ambos podem julgá-lo e condená-lo; por fim, faltou com a verdade quanto aos vazamentos de informações sob segredo de justiça, confirmados textualmente até mesmo por servidores da PGR. E o pior, declarou-se, cinicamente, um ser apolítico.

Tenho provas documentais e testemunhais de tudo que afirmei. Algumas delas cheguei a mostrar durante a sabatina. Mesmo assim, o Sr. Janot fez cara de paisagem. Ele ainda deve muitos esclarecimentos. Não há de demorar para a sociedade perceber que o Procurador-Geral da República está longe, muito longe de ser a última Coca-Cola do deserto.

Por fim, espero tão somente que nossa imprensa – livre, isenta e democrática, e que observa o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiro e seus dispositivos que exortam a precisa apuração e equidade na exposição de pontos de vista dissonantes, sobretudo envolvendo denúncias contra agentes públicos – aprenda também, com o mesmo pau, a bater em Francisco.

Diria o cético: “Perfeito! Agora apresente as provas!”. Para um cético quanto a Janot, isto seria melhor ainda. E caso Collor não tenha as provas, não há nada a perder. Desta feita, questionar Collor por suas alegadas evidências é um empreendimento onde só podemos ganhar, mas, mesmo que não tenhamos sucesso, nada perderemos.

Voltando ao caso Janot, precisamos também manter um contínuo e perpétuo exame crítico. Ele fez alegações em relação a Eduardo Cunha (inimigo do PT), então que prove as alegações. Se recentemente ele afirmou ter tomado uma decisão por causa de sentimentos de Júlio Camargo (que alegou: “me sinto ameaçado por Cunha”), então que prove a validade destes sentimentos. Não adianta um sujeito dizer que foi visitado por uma fada durante a noite para que isto sirva para validar a existência de fadas.

Enquanto isso, boa parte do julgamento público nesta questão tem sido com base na fé cega. Os adeptos de Janot dizem que ele não deve ser questionado por suas decisões. Eu, ao contrário, defendo que dele devem ser exigidas provas do que alega. Os inimigos de Collor dizem que a opinião dele não vale nada. Na contramão, eu digo que se Collor tem provas, que as apresente. Devemos exigi-lo, aliás.

Eis, então, em uma casca de noz, como é uma forma de pensar com base no ceticismo político.

 

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7 COMMENTS

  1. eu sequer dou ouvidos a qualquer alegacao.
    mas sabemos quem sao os poderosos e seus metodos.
    Cunha, Collor, Dilma, Lula, Janot e etc…
    todos envolvidos nos processos fraudulentos das relacoes de poder.
    todos.
    isso sabemos porque a corrupcao do sistema politico eh algo de conhecimento publico e notorio.
    Cunha se alimentou do governo, Collor tb.
    se ha provas contra eles, nao sei.
    mas sei que todos eles sao corruptos.
    uma briga de antigos aliados por poder e dinheiro.
    nada alem disso.
    temos que pedir provas a todos apenas para cumprir o papel democratico das instituicoes.
    mas sabemos, sao todos culpados.

    • Ainda que sejam “todos culpados”, somente o PT usou corrupção a tal nível para criar um projeto de ETERNIZAÇÃO NO PODER.

      Ou seja, além da corrupção, quer nos transformar em escravos.

      Então, não podemos relativizar.

      Abs,

      LH

      • @Luciano

        Mas será que foi só o PT? Digo, se o PSDB, por exemplo, tivesse tido a competência de se perpetuar no poder, não teria assim feito?

        Em outras palavras: Não acho que o PT criou um projeto de eternização no poder; acho que ele foi o partido mais competente em fazê-lo.

        Enfim, acho que vale esse “ceticismo do ceticismo” (ou fortianismo, hehe).

      • Leonardo,

        Fale-me por favor de como funcionava o projeto do PSDB de eternização no poder? Quais referencias? Lembre-se que temos, do lado do PT, o Foro, as atas do Foro e os comportamentos de partidos aliados em outros países bolivarianos.

        Aguardo.

        LH

    • Um dos maiores problemas no Brasil é a falta de senso de proporção que o sistema de educação imbecilizador criou. Por exemplo, fui outro dia ao site “Vota na Web”, que faz enquete sobre a opinião da população (provavelmente as enquetes são viciadas por militâncias, mas enfim…) a respeito de projetos de lei. Havia um projeto de lei que criava o crime de “Moléstia Sexual”, para diferenciar de estupro atos como “encoxar”, “passar a mão”, e afins, definindo para estes atos uma pena menor do que a do estupro.

      Como já era de se esperar, muita gente foi contra, alegando que “para a vítima é a mesma coisa”. Isso só denota a total falta de senso de proporção. A questão é a seguinte, você é pego por uma gangue de bandidos e eles alegam que querem se divertir às suas custas. Com uma arma em punho, o chefe fala, você escolhe: toma um soco de cada um de nós, ou corre, mas se correr, eu atiro pra matar!

      Dizer que as escolhas são equivalentes é como dizer que uma encoxada (que, embora seja um abuso digno de punição, gera um trauma menor, é menos intrusivo, menos agressivo – pois normalmente a mulher apanha ao tentar resistir a um estupro – e não gera o risco de transmitir DST ou engravidar a vítima) é igual a um estupro. E dizer que “todos esses políticos são iguais” é a mesma coisa. Todos são corruptos? Provavelmente. Todos enriqueceram ilicitamente? Talvez sim. Mas há uma grande diferença entre aqueles que “só querem roubar” e os que criam sistemas para a perpetuação e ampliação do roubo às custas do sofrimento de toda a população do país. Por isso, é indigno, ingênuo (quando não desonesto) e imoral tratar a todos como se fossem iguais!

  2. Perfeito Luciano, mais uma ótima lição para a direita de sofá ou de teclados que fica no derrotismo de “está tudo dominado, não há nada que podemos fazer”.
    Que tal reunir alguns de seus posts em uma apostila de CETICISMO POLÍTICO ?

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