E o óbvio está acontecendo: candidato de Kirchner lidera pesquisa para presidência na Argentina

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Algumas crianças políticas podem até protestar, lembrando que se “a economia vai mal, sucessores não serão eleitos”. É o famoso lema “é a economia, estúpido”, criado por um assessor de Bill Clinton. Porém, isto é verdade apenas em parte e sob certas condições, pois se um grupo político controla totalmente a narrativa, a economia deixa de ser o fator preponderante.

Segundo a Reuters, o candidato Daniel Scioli, do partido governista, ampliou sua liderança nas pesquisas para as eleições deste mês. Ele tem 38,6 por cento, seguido por Mauricio Macri, atual prefeito de Buenos Aires, com 27,9 por cento. Sergio Massa, da Frente de Renovação, tem 21,5 por cento das intenções de voto. O primeiro turno ocorre em 25 de outubro. Se um candidato tiver 45%, leva o cargo. Caso tenha 40%, mas fique 10% à frente do segundo colocado, também. Parece que Scioli caminha para levar no primeiro turno.

Os incautos dirão que “isto não faz sentido”. Ao contrário: isso faz todo o sentido, conforme tudo que venho descrevendo aqui neste blog. Engana-se quem acha que a economia “decide a questão”. Decerto ela influencia, mas nem de longe é o fator mais relevante. O que decide a questão é o controle da narrativa, e, para isso, são necessários elementos como censura de mídia e controle do uso de verbas estatais para financiamento de campanha. Quando eu critico o uso da Lei Rouanet, o aparelhamento do MinC (que deveria ser extinto), o financiamento imoral da BLOSTA e a proibição do financiamento empresarial de campanhas não o faço por birra, mas por uma avaliação estratégia do que realmente importa na conquista do poder hoje em dia. Quem realmente buscar entender o que significa o termo “tirania moderna” não chegará a conclusões diferentes.

A direita tem sido irresponsável ao nível do absurdo ao não querer disputar essas questões. Acham que a economia vai destruir o PT. Se Dilma permanecer no cargo e em 2018 Lula despontar na liderança, não conseguirão entender os motivos para isso. Será irritante vê-los demonstrar surpresa. Não é nem mesmo moral que eles ajam dessa forma.

Não é o sofrimento do povo que fará um povo rejeitar um governo do corrupto, mas a percepção sobre os culpados por esse sofrimento. Um governo que controla a mídia alterará essa percepção com facilidade impressionante. A partir daí, os resultados econômicos tornam-se quase irrelevantes.

Se você ainda não entendeu por que o PT gasta tanto esforço querendo controlar a mídia, investindo em tal medida na Lei Rouanet e nos “pontos de cultura” e querendo vetar o financiamento empresarial de campanhas (ao mesmo tempo que o partido usou esse tipo de verba por várias eleições e, quando se “queimou” por corrupção, decidiu que ninguém mais pode utilizá-lo) é melhor começar a prestar atenção na dinâmica da política das tiranias modernas, especialmente aquelas da América do Sul. E principalmente aquelas que, por fazerem parte do Foro de São Paulo, trocam informações, técnicas e recursos para implementações de tiranias modernas, utilizando o que há de mais avançado nestas tecnologias de poder.

O impeachment é a mais importante de todas as lutas no momento. Mas tal como se avaliássemos o campeonato brasileiro e tivéssemos um G4 (no caso, para classificação à Libertadores), depois do impeachment na liderança, as posições 2, 3 e 4 teriam que estar ocupadas por lutas para derrubar tiranias modernas. Lutar pelo voto impresso, pelo fim da influência do aparelho estatal no financiamento da campanha petista (ou seja, tirar o poder do PT em vetar financiamento empresarial, ao mesmo tempo em que proibi-lo por lei a gastar menos dinheiro público para se promover) e daí por diante.

Depois das lições dadas pelo caso Argentino, ignorar questões como essas é apenas uma escolha irresponsável.

Em tempo: há muitas pessoas que hoje preferem lutar mais contra o Foro de São Paulo do que contra o PT. Pragmaticamente, eu me limito a cobrar resultados. Uma estratégia diferente seria derrubar o PT, e depois focar no Foro. Mas cada um é cada um. Como diria Saul Alinsky, “a melhor tática é aquela que cada grupo aprecia”. Não vale a pena ficar insistindo para que mudem de prioridade. Todavia, não deixa de ser irônico que muitas dessas pessoas merecem nota zero no momento de priorizar as lutas contra os projetos de tirania moderna do PT. Da parte de muitos deles, só ouvi o barulho do grilo quando o STF deu o golpe, junto com a OAB e o PT, para proibir financiamento empresarial de campanha. O nível de pressão foi uma piada. Então, se querem priorizar a luta contra o Foro, sugiro que comecem a se preocupar em tirar do PT os meios sujos que eles adquiriram e estão lutando para adquirir ainda mais com o fito de se eternizar no poder. Lembrem-se que suas escolhas táticas também farão parte da história…

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16 COMMENTS

  1. Luciano,
    Concordo em tudo contigo. Não temos oposição de verdade, articulação menos ainda. Falta organização. Parabéns pelos textos lúcidos e sempre sapientes.

  2. Eu não sei Luciano. Talvez muitas pessoas não consigam acreditar que os esquerdistas possam ser tão sórdidos ou que não seja possível que não sigam alguma espécie de moral (baseado em que eu não sei). Não admitem que por omissão e/ou por burrice deixaram um bando de sociopatas se apoderarem da máquina estatal. Parece filosofia de boteco mas é a única forma que consigo ver para que alguém fique sistematicamente buscando o lado positivo dos atos esquerdistas enquanto o ato em si é todo negativo, prejudica o presente e compromete o futuro.

    Por isso quando falo mal do comunismo prefiro sempre dar mais ênfase na forma como eles mataram do que nos números; não que eu não cite as centenas de milhões mas nunca esqueço de mencionar como mataram de fome 2 milhões de ucranianos só confiscando comida.

  3. Na minha intuição, o pessoal mais reclama. Não sabem de fato como fazer ataques contundentes.
    Temos grandes massas populares saindo às ruas em datas chaves, muita gente se movimentando na internet, mas a esquerda ainda faz de conta que esse povo é uma minoria raivosa e de pouca força.
    Não sei se é o bastante, mas a unica coisa que a maioria consegue é fazer pressão sobre as “autoridades”. As investidas das non violent revolutions fazem mais estrago, alias, faz uma pressão monstruosamente maior que ficar postando memes nas redes, mas me parece haver uma forte tendência por esperar as coisas ficarem insustentáveis para se começar a agir.

  4. Avaliação perfeita. Não conhecia este site, mas já virei leitor assíduo. A insistência no fator econômico como pivô da política deitou raízes no Brasil na época do regime militar e floresceu já na “redemocratização”, encontrando adubo novo com o pessoal liberal que ressurge nessas bandas, com sua cartilha muito acertada em alguns pontos, mas só em alguns pontos. Encarar tudo pela economia, aliás, é típico de uma sociedade telúrica, de animas que não mais olham para o alto. Parabéns pelo trabalho.

  5. Eu não entendo a campanha paz e amor do Macri. Olhando de fora, ele tá cometendo o mesmo erro do PSDB nas campanhas anteriores à do Aécio. Narrativa fraca, tom morno, evitando o confronto quando deveria procurá-lo, falta de foco…

    O Macri fez muito criando um partido quase que do nada e transformando ele numa alternativa política viável, e fez isso fora da máquina do peronismo… Isso já foi por si só quase um milagre. Mas o PRO é ainda muito fraco pelo interior (e o apoio da UCR não muda lá muito esse quadro) e ele paga um preço eleitoral por isso.
    Mas o fato é que a campanha propriamente dita foi péssima.

    —–

    Sobre o Foro de SP eu queria chamar a atenção pra outra coisa. A campanha do Scioli repete clichês que nós conhecemos de ouvir de João Santana. Que também foram usados nas campanhas de Bachelet, Maduro, Vazquez… Obviamente cada um deles foca em questões nacionais. Mas somam à isso fórmulas testadas e aprovadas em outros lugares e outras eleições. Há uma circulação de bons profissionais e boas idéias (e dinheiro?) de uma eleição pra outra pela esquerda do continente.

    Isso é só um exemplo da “intelligentsia”, do comando do Foro de SP funcionando. A direita não tem resposta pra isso, não construiu nem sombra de algo semelhante, e essa é uma das razões pelas quais perdemos tantas eleições pelo continente (e não quero saber de smartimatic). Porque nós trabalhamos isolados e porque não temos uma estratégia mais ampla. E enquanto não tivermos, seremos sempre flanqueados. Uma vitória eleitoral é apenas local e temporária (como no Chile) até o próximo ataque do Foro de São Paulo.

    Quem quer combater o Foro de SP só no Brasil não está realmente acabando com ele, só machucando ou adiando. O Brasil é, claro, o principal país do bloco, e de longe. Mas tá muito longe também de ser o único. Evo não vai sair da Bolívia tão cedo, nem Corrêa do Equador ou Vazquez no Uruguai (e pelo jeito, o Kirchnerismo tampouco) e a Bachelet vai passar uma constituição bolivariana no Chile… Ainda que com muita sorte detonemos todo o poder petista aqui, no dia seguinte eles começar a construir outra alternativa das bases e com apoio externo.

    A política hoje é transnacional pelo mundo todo e parece que só a direita latino-americana é que não entendeu isso. Nós precisamos correr atrás disso, estamos 20 anos atrasados. Destruir o Foro de SP não é gritar “Fora Foro”. É construir uma alternativa de mesmo porte, um projeto continental.

  6. Luciano, tem um cara chamado Flávio Augusto, empreendedor de sucesso, que costuma mandar recados muito interessantes no blog dele (Geração de Valor). Há um artigo que ao meu ver se aplica à essa direita que, teoricamente, quer derrubar o PT e o Foro. leia o trecho abaixo, em especial o terceiro parágrafo:

    “O sucesso é uma ciência exata que todos podem aprender. Aprender a ser primeiro para depois fazer e por consequência ter.

    Meu sonho é conseguir transmitir essa certeza para mais pessoas. Não tenho do que reclamar, pois muitas já tem colocado em prática e colhem resultados por isso, mas, infelizmente, outros acham que os textos são motivadores e bonitinhos, mas parece que ainda estão presos à boiada e entorpecidos pela ilusão da estabilidade, mergulhados em referenciais que são muito abaixo do desejável e que, por isso, entram e saem das semanas sem sair do lugar.

    Desperdiçam seu potencial, usando os textos do GV apenas como entretenimento massageador da alma para deixar seu cérebro ainda mais obeso. Sim, conhecimento não colocado em prática produz obesidade cerebral. Por isso, acabam não usando este conteúdo como combustível e conhecimento para transformarem seus sonhos em realidade. O que falta? Apetite. E, estando sem fome, conformam-se com migalhas.”

    Blogs como o seu está lotado de leitores, mas muitos se enquadram no grupo da tal obesidade cerebral. Provavelmente chegam em casa putos da vida, e para aliviar a dor, leem seus textos para não se sentirem sozinhos no sentimento, e depois fica por isso mesmo.

    Talvez esteja na hora de focar a mensagem aos empreendedores dispostos a botar a mão na massa e fazer com que o restante das pessoas os apoie.

    Link para o texto completo:

    http://geracaodevalor.com/blog/para-quem-nao-se-ofende-com-verdade/

    • E você acha que daqui do que o Luciano escreve não saem algumas estratégias usadas pelo MBL, Vem Pra Rua? E já vi no Revoltados Online, alguns políticos e possivelmente até jornalistas/colunistas também.
      Sem querer puxar s… Acho que Luciano faz a parte dele muito bem, acho que “empreendedores dispostos a botar a mão na massa e fazer com que o restante das pessoas os apoie” é quem deveriam então descobrir o site de Luciano e/ou divulgá-lo. Veja que não estou negando a sua afirmação de que o site é muito usado como “livro de cabeceira”, apenas que tem seu alto valor apesar de muitos não tirarem máximo proveito, ou tirarem mínimo proveito.
      No mais, parabéns, que sua crítica aos leitores daqui sirva para que sejam mais produtivos na guerra política, e, que no mínimo divulguem mais o conteúdo, o site

  7. A economia é o que mais importa no dia a dia das pessoas, mas está longe de ser, no curto prazo, o principal determinante de uma eleição. O populismo latino-americano é a prova disso, pois mesmo países com economias capengas e em claro declínio reelegem seus populistas. Isso decorre do fato de que a própria estrutura estatal, já completamente ocupada pelo partido parasita em todas as esferas, é usada massivamente para reeleger o candidato da situação.
    Da última vez em que fui a Buenos Aires, além de ver uma cidade caindo aos pedaços e triste, com um povo sem esperança, vi diversos cartazes e outdoors fazendo alusão ao governo de Cristina com o símbolo do governo do lado (ou seja, pagos pelo próprio erário). Exaltar o governo anterior para estimular a eleição do sucessor, com dinheiro dos pagadores de impostos, em plena luz do dia, sem a menor cerimônia.
    No caso do Brasil, além dos mensalões e pixulecos que alimentam o partido, há diversas outras frentes: uso dos Correios para enviar panfletos, uso de propagandas de estatais para exaltar o governo, etc, etc, etc.
    A América Latina está morta. E o mundo outrora dito “civilizado” não está muito melhor não. Basta ver o nível de populismo dos possíveis candidatos democratas nas eleições americanas.

  8. Pra mim foi um surpresa total essa pequisa na Argentina.O país está tão ruim como a Venezuela e mesmo assim o povo ainda vai manter eles! será que não pode haver um equivoco nesses números visto que governo controla com mão de ferro os meios de comunicação. Alguém já viu algum blog de mídia independente da Argentina que confirme esses números? Pois se forem Reais começo acreditar que o Lula volta mesmo em 2018!

    • Pode acreditar então que Lula vem forte em 2018. Pode ser que não leve no primeiro turno mas o PT tem diversos fatores ao seu favor que vez ou outra são mencionados aqui. Toda a crise política e econômica implantada pelo PT tem o efeito de descrédito da população com a classe política no geral. O fato do PT ser o motor dessa crise não os desqualificam para 2018 pois eles não precisam se apresentar como honestos. Eles precisam se apresentar como os menos piores e com projetos mais factíveis. Isso tudo para quem tem cada vez mais o monopólio das verbas é moleza. Difamar deve ser a tática PTista da vez. Lula provavelmente vai ficar acusando Aécio de golpista e esse último vai ficar se defendendo o tempo todo. Já vimos várias vezes o resultado disso.

      O objetivo de implantar a crise no meu entendimento é despertar na população a tolerância pela arbitrariedade das forças políticas. É muito fácil você aceitar que para organizar uma zona, uma nova ordem precise ser imposta. Você vê parte da direita caindo nessa tática ao defender a intervenção militar, a invasão do Congresso e a expulsão dos políticos a ponta pé e etc. Só não percebem que nada disso define quem vai atirar e quem vai comer chumbo.

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