Não atacou? Perdeu de novo. Dilma se adianta e pressiona STF antes da oposição. Já virou piada.

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Política não é apenas baseada em análises em larga escala de eventos políticos, mas também em análises de como funcionam as mentes das pessoas atuando na política, e, principalmente, das pessoas por ela afetada. Mas às vezes esquecemos de avaliar nossas próprias mentes no curso da luta política. Será que estamos mantendo a motivação adequada? Será que estamos sendo coerentes ao difundir um discurso? Será que nossas ações não estão sendo incongruentes com o discurso? Ou, então, será que nosso discurso, mesmo tendo sido elaborado com boas intenções, não está atrapalhando nossas metas?

Um amigo me comentou que os negacionistas estão cada vez mais “participativos” nas redes sociais e, com isso, ajudando a tirar a pressão da panela política da direita. Ele está certo ao fazer esta análise. É claro que diante desta situação, os negacionistas tendem a argumentar em favor de seus motivos para negar a política – muitos dirão “as instituições estão acabadas, já somos uma ditadura, então desista, e junte-se a nós na desobediência civil”. Porém, esta própria atuação tem tido resultado inverso: desanimadas, estão retirando a pressão da luta sobre o PT, supostamente em nome de um adversário “mais amplo”. Como resultado, a própria pressão geral sobre o PT tende a diminuir. Mas é o PT, e não outro partido, que está no poder. Se o nível de rejeição ao PT for reduzido, nem mesmo qualquer tipo de “rebelião civil” vai ocorrer por não existir indignação suficiente.

Sobre adversário, Saul Alinsky havia escrito: “Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o”. Foi o que o PT fez contra Marina, depois contra Aécio e agora contra Cunha. Enquanto isso, qual é “nosso alvo”? Eu tenho defendido que, nestes quatro anos (espero que sejam menos), nosso alvo seja Dilma e o governo do PT, ao lado de todas as intenções totalitárias do partido. Diferentemente, muitos preferem falar em “toda a esquerda” ou “o Foro de São Paulo” (já eu sugiro atacar as ações petistas que sustentam o Foro, por exemplo). Vamos assistir e ver no que dá. Enfim, vamos seguir em frente.

Eu venho avisando feito desesperado há vários dias: “pressionem o STF, pressionem o STF”. Isto não está acontecendo. Decerto algumas ações esparsas foram feitas aqui e ali, como um dia em que algumas pessoas se manifestaram denunciando o “puxadinho do PT” (o STF) em um evento do qual Ricardo Lewandowski participava. Visto na página de Felipe Moura Brasil, o vídeo abaixo mostra a excelente iniciativa, realizada semanas atrás:

Isto precisaria acontecer muitas vezes mais, já que a vida do STF tem  sido uma moleza só. De qualquer forma, mais uma vez o PT se adianta e ocupa uma posição antecipadamente, ao pressionar a instituição antes que seus adversários o façam. Leia editorial do Estadão em 21/10:

O governo de Dilma Rousseff, seguindo o padrão instituído pelo PT, entrou de vez no terreno da leviandade ao qualificar como “política” qualquer eventual decisão judicial que acolha as acusações contra a presidente e que podem lhe custar o mandato.Como o Planalto tem “convicção de que não há base jurídica” para o impeachment, conforme disse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, deduz-se que, se o entendimento dos tribunais for diferente, estará configurado o vício do processo. “A Constituição federal é clara quando diz que nenhuma lesão ao direito ficará afastada do Poder Judiciário. E tenho certeza de que o Supremo Tribunal Federal (STF) não agirá politicamente”, declarou Cardozo.

O governo planeja empreender uma guerra judicial, em todas as instâncias, para impedir que prosperem ações em favor do afastamento de Dilma. Conta, evidentemente, com a boa vontade do presidente do Supremo, ministro Ricardo Lewandowski, que já informou a líderes governistas que pretende dar livre curso a qualquer petição que questione o “açodamento” de processos contra Dilma, conforme informou o Estado.

Ao mesmo tempo, o Planalto trata de desqualificar as tentativas de responsabilizar Dilma pelas chamadas “pedaladas fiscais”, isto é, as manobras contábeis para fechar as contas do governo à custa de bancos públicos. Argumenta que outros governos fizeram isso no passado e não foram punidos. Além disso, questiona a própria ideia de “pedalada” como crime de responsabilidade, ao sugerir que essa manobra não só é legal, como serviu para garantir o pagamento de benefícios sociais.

Defender-se com os mecanismos que a lei faculta é um direito inquestionável do governo, cabendo àqueles que acusam Dilma fundamentar corretamente suas ações para obter sucesso nos tribunais. Mas a presidente e seus auxiliares estão extrapolando seu direito à ampla defesa. Eles decidiram qualificar como “golpe” a mera possibilidade de sofrer qualquer revés judicial, o que configura inaceitável pressão de um Poder sobre outro.

Esse tem sido o comportamento do PT e de seus militantes desde o julgamento do mensalão. São inesquecíveis as palavras de ordem dos petistas em defesa dos companheiros flagrados com a mão na cumbuca e devidamente condenados: esses delinquentes – “membros da quadrilha, reunidos em verdadeira empresa criminosa”, como salientou o ministro Celso de Mello em seu voto no STF – deveriam ser considerados, na verdade, “guerreiros do povo brasileiro”. Em 2010, quando ainda era presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva disse que, quando deixasse o poder, desmontaria o que chamou de “farsa do mensalão”, modo nada sutil de pressionar o STF e colocar em dúvida a lisura e a independência dos ministros que ali trabalhavam.

Esse padrão petista voltou agora com toda a força. O julgamento das contas do governo pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sofreu todo tipo de constrangimento por parte do Planalto. Às vésperas da sessão do TCU que acabou por rejeitar as contas, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, chegou a dizer que o ministro relator do processo, Augusto Nardes, atuava como um “agente político”.

Assim, quando se trata de crimes que envolvem petistas, o governo – que se arvora pioneiro no combate aos malfeitos no País – tudo faz para criar embaraços para aqueles que se dedicam a investigar e julgar esses casos. Tal comportamento revela o traço autoritário que marca o PT desde que chegou ao poder – e que transforma qualquer forma de oposição e de condenação judicial em “golpismo”.

Ora, a tentação golpista se revela mesmo é quando se insinua, como ocorreu no mensalão, que o STF pode agir como um “tribunal de exceção”, exarando sentenças tão somente para “criminalizar o PT”. Ou então quando não se respeita a Suprema Corte do País, sugerindo que ela pode vir a tomar uma decisão “política”, como afirmou, com estudada singeleza, o ministro da Justiça.

Enfim, o PT, mesmo com culpa no cartório, e mesmo sendo o partido mais beneficiado pelo judiciário, o acusa antecipadamente. Com isso, lança pressão a fim de obter mais vantagens. Mesmo prejudicada em todas as decisões judiciais, a oposição, optando pelo silêncio, só consegue construir um cenário onde será ainda mais prejudicada.

Pensando bem, o PT é um partido pragmático, que joga o jogo, mesmo que minta até dizer chega. Seus opositores, estejam eles nos partidos ou na formação de opinião nos jornais, ou em quaisquer meios onde possam atuar na sociedade civil, seja nas redes sociais ou fora dela, em geral ainda estão vivendo com aquela maldita sensação de estarem sempre um passo atrás, o que em nada se diferencia do que já assistimos nas eleições de 2014.

Tirar o PT, hoje em dia, é meramente uma questão de abraçar o jogo político. Atacar outras frentes de esquerda, após uma possível derrota petista, também deveria ser feita com base no mesmo tipo de jogo político. Sem este tipo de jogo, no entanto, não há perspectivas de vitória nem hoje e nem amanhã.

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15 COMMENTS

  1. Luciano, o que pode acontecer se a oposição resolver recorrer ao plenário, contrariando as liminares de Teori e Rosa, no caso de Eduardo Cunha rejeitar o pedido de impeachment elaborado por Bicudo, Reale Jr e Janaína Paschoal ? Eu acho que o STF não tem o direito de afrontar o Poder Legislativo com decisões absurdas, visivelmente políticas!

    http://www.implicante.org/noticias/finalmente-oposicao-peita-o-stf-e-promete-recorrer-se-cunha-rejeitar-o-impeachment/

    #RecorreOposição

  2. “Esse tem sido o comportamento do PT e de seus militantes desde o julgamento do mensalão. São inesquecíveis as palavras de ordem dos petistas em defesa dos companheiros flagrados com a mão na cumbuca e devidamente condenados: ”

    Pois é. A oposição se submeteu a regra de conduta que foi proclamada pelo PT sem retrucar que nunca o PT agiu dessa forma. PMDB isola (não blinda) Cunha. PT defende até a morte seus condenados.

  3. Seja claro, Luciano. A quem você se refere quando diz “a direita não fez x / fez y”? Quem deveria ter atacado e não atacou? Quem são as pessoas que podem fazer alguma coisa e não estão fazendo? Se você sabe quem são, porque não se reporta diretamente a elas? Seria mais pragmático do que ficar na internet dando lições de “guerra política” a quem tem pouco ou nenhum poder de ação, não acha?

  4. Parabéns Luciano suas ideias são sempre inspiradores – nos inspiram sentimentos bons e ruins (devidamente direcionados) mas principalmente idéias de métodos de análise e de estratégias de ação e reação.

  5. Corretíssimas as colocações do texto sobre os pontos abordados.

    O que tenho visto nas redes sociais nas últimas semanas é o fogo amigo massivo por parte dos negacionistas que acaba por desestimular muita gente. Apesar deles dizerem que tem de se fazer greve geral, ocupar Brasília e parar o país, num processo de desobediência civil e de tomada do poder (como na Ucrânia), nada disso passa perto de se tornar concreto. Eles não tem organização nem adeptos suficientes para conseguir alcançar qualquer objetivo. Além do que eles não tem conhecimento de guerra política e acabam se isolando, o que torna as coisas ainda mais difíceis para eles. E tudo isso acaba afetando os movimentos que optam pela luta política, pois muitos caem no discurso dos negacionistas e esperam ações deles, as quais não ocorrerão devido aos fatores citados. Olavo gosta de falar, de opinar, mas sair do conforto dele na Virginia e organizar algo por aqui ele não está disposto. Portanto, corremos o grande risco de haver uma dispersão dos direitistas (que já são desunidos) e tudo acabar sem conseguirmos alcançar nenhum objetivo. Tenho medo disso ocorrer. Foi muito tempo gasto participando de movimentos, de organização, para perder a batalha por causa de desunião.

    Ainda aposto minhas esperanças no fato dos movimentos pró-impeachment (MBL, VPR, ROL e Aliança) terem deixado nos bastidores suas disputas e estarem focados no objetivo principal que é a saída de Dilma do poder. É aguardar para ver o resultado de tudo isso.

  6. Luciano, sempre penso que nossa pressão deve ser no PSDB, por submissão ao PT, no PMDB e militares, por cumplicidade, e em qualquer um que esteja do lado do PT, transformando esta legenda em algo semelhante à suástica.

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