“Fora Foro” é meuzovo!

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foraforo

Existem algumas coisas de que nos envergonhamos em nossa trajetória politica e quase sempre isso tem a ver com coisas que apoiamos e deixamos de apoiar depois. Ou então com coisas que criticamos e deixamos de criticar. Whatever…

Eu me envergonho, por exemplo, de ter participado de um frenesi da direita true nas eleições de 2014, ao considerar como “o maior dos méritos” o fato de um dos candidatos, Levy Fidelix, ter assumido um compromisso: falar DO FORO DE SÃO PAULO nos debates presidenciais. Ninguém ali via chances de vitória do candidato, óbvio, e muitos não o levavam a sério, mas teríamos “uma vitória” em mãos se o Foro ficasse conhecido nos debates.

O resultado foi o desastre: nas vezes em que o candidato citou o tema, o fez de forma atabalhoada. Não gerou praticamente nada. Ele não tinha habilidade com o tema. E mais: ninguém se interessou pelo assunto. Nunca vou esquecer de um dia em que ele resolveu citar “o totalitarismo dos países bolivarianos” e tinha 30 segundos para fazer uma pergunta. Ele gastou 12 segundos só para dar uma respirada, mais o resto para uma introdução e, quando fez a pergunta, já havia estourado seu tempo. Quase ninguém sequer entendeu o que ele havia perguntado. Ridículo. Fidelix não tinha nem sequer um frame pronto para falar do assunto. Obviamente, transformar o lema “Fora Foro” em demanda política foi uma burrice.

(Em tempo: combinar com candidatos para ir “falar do Foro”, que eu me lembre, não foi uma ideia de Olavo de Carvalho. Foi uma ideia de um dos leitores dele, na época. Muitos compraram a ideia. Mas quase todo mundo ali no círculo se empolgou.)

Seja lá como for, adquiri o hábito de, ao longo dos tempos, começar a ser mais pragmático e PRÁTICO no momento de abordar demandas políticas: quando alguém dizia “ei, fale do Foro”, eu começava a questionar: Qual o resultado prático esperado? Isto é uma demanda política? Se é uma demanda, o que devemos alcançar com ela? Com quais frames empacotamos essa demanda? Em que âmbito devemos abordar o assunto? Qual o público a ser alcançado?

Vamos aos fatos: o Foro de São Paulo foi (e continua sendo) fundamental para o projeto de poder socialista latino-americano hoje aqui no Brasil encabeçado pelo PT. Ponto. Mas eu não me lembro de ter visto petistas conseguindo poder “falando do Foro”. Em vez disso, sempre atuaram em alianças estratégicas e táticas com outros partidos e organizações do Foro, e tudo que falam, em público, se relaciona a DEMANDAS, que são pensadas em termos práticos. A militância, enfim, ecoa essas demandas, e não “elegias ao Foro”.

Logo, podemos atacar o Foro de São Paulo de várias formas, e muitas vezes além de sair dizendo “Fora Foro”. Na verdade, apenas um conjunto de formadores de opinião conhecendo o Foro de São Paulo já seria o suficiente. Mas o que geraria mais resultado seriam DEMANDAS bem elaboradas e pensadas de forma que os OBJETIVOS DO Foro fossem atingidos.

Para isto, é só entender o modus operandi dos partidos do Foro chegando ao poder. Entendendo este modus operandi, sabemos como suas demandas são elaboradas, e implementadas. Sabemos como eles montam discursos para implementar uma ditadura sutil. Ou como vão corroendo as instituições, aparelhando o judiciário e controlando de forma safada as campanhas eleitorais. O poder efetivo surge aí: na implementação de demandas pensadas em termos estratégicos e táticos.

Em tempo: se conseguíssemos, via projeto de lei, proibir a existência do Foro de São Paulo, os partidos e organizações ali presentes criariam uma outra organização, provavelmente com mais discrição. Só isso. Basta retornar aos idos dos anos 90 na Colômbia e imaginar uma situação onde os membros do Cartel de Medellín se reuniriam anualmente em um evento público para falar dos “desbravadores da economia popular”, que seriam, é claro, eles próprios. Imagine agora que o Congresso proibisse, por força de lei, a ocorrência deste evento. O que iria mudar na organização e nos resultados do Cartel de Medellín? Nada. Provavelmente eles se organizariam de outro modo.

O que se nota é que muitos dos propagadores do lema “Fora Foro de São Paulo” passaram a perseguir um totem, e não um conjunto de demandas políticas bem pensadas.

É possível observar esse fenômeno com clareza ao lembrarmos os ocorridos do segundo semestre de 2015, quando o STF deu um golpe estabelecendo o controle bolivariano de campanhas, proibindo empresas de fazer doações políticas – utilizadas sabiamente pelo PT para vencer quatro eleições – ao mesmo tempo em que os meios estatais de campanha política para o PT e suas linhas auxiliares seriam mantidos (Lei Rouanet, BLOSTA, “pontos de cultura” do MinC e outros).

Certamente tínhamos uma demanda ali a ser disputada: os “amigos do Foro” tinham que aprovar o controle bolivariano de campanha (como fizeram), e os “inimigos do Foro” deveriam lutar para garantir a liberdade de campanha política. E o que aconteceu? Somente os “amigos do Foro” fizeram alguma coisa, e exatamente por isso venceram. Do lado dos “inimigos do Foro” não surgia sequer um frame. O máximo que vimos foi “ah, o problema do fim do financiamento empresarial de campanhas é o caixa dois”. Falar isso é quase tão patético quanto dizer que “o problema do homicídio é a camisa manchada de sangue” ou “o problema do estupro é o cabelo despenteado da vítima”.

Ou seja, não conseguiam nem sequer identificar o problema trazido pela demanda oponente. Não teria como elaborem frames eficientes mesmo. Desastrados, os poucos a tocarem no assunto falaram nos frames adversários: “fim de financiamento empresarial” ao invés de “controle bolivariano de campanhas” ou “controle petista de campanhas”. Se alguém os questionasse sobre os motivos para barrar a proposta golpista do PT, não sabiam dar uma mísera explicação. Tragicamente, este foi o comportamento padrão da maioria absoluta dos que se propuseram ao longo dos anos a “lutar contra o Foro”.

Fizemos muito bem ao conhecer a estrutura do Foro de São Paulo e devemos ser gratos a pessoas como José Carlos Graça Wagner e Olavo de Carvalho por nos clarificarem sobre a organização e seus objetivos. Mas é uma tragédia cognitiva que pouco se fez com essa informação. Pior: muitos transformaram o Foro em um totem, o trataram de forma abstrata, e ignoraram as demandas da patota, o que exatamente deveria ter se tornado tema prioritário.

O resultado é mais do que vergonhoso: hoje temos fartura em termos de pessoas falando “Fora Foro” e uma escassez incrível de pessoas elaborando demandas para combatê-lo. Sem demandas claras em mente, não há sequer expectativa de bons frames. E, curiosamente, muitos movimentos de rua – que não saem as ruas pedindo “Fora Foro”, espertamente – estão fazendo mais contra o Foro de São Paulo do que muitos que supostamente teriam como prioridade “derrubar o Foro”. Mas estes últimos se limitam a esperar demandas quiméricas como “extinção do Foro de São Paulo”, algo que, se conseguido, somente faria seus inimigos se reorganizarem ainda melhor.

A única forma pragmática de lutar contra o Foro de São Paulo seria lutar contra as demandas da organização. Mas esta é a última prioridade dos “inimigos do Foro”. E mesmo assim alguns são arrogantes a ponto de querer julgar os outros dizendo “(x) não fala do Foro de São Paulo”, como se muitos que adotaram como prioridade “falar do Foro de São Paulo” tivessem bons resultados em mãos. É por isso que hoje já até uso o termo Cartel Bolivariano e foco na luta contra o totalitarismo na América Latina, que na verdade é a ambição única do Foro.

Assim, quando alguém for arrogante e lhe disser que “você não luta suficientemente contra o Foro de São Paulo”, pergunte algumas coisas em retorno. Como, por exemplo, que demandas essa pessoa tem defendido? Essa pessoa teria como evidenciar sua luta por essas demandas? E quais frames ela tem utilizado na defesa dessas demandas? As respostas são suficientes para saber se o discurso de “Fora Foro” serve para algum resultado prático ou apenas como um totem para fornecer conforto psicológico, mas inútil.

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22 COMMENTS

  1. Com relação ao financiamento privado das campanhas eleitorais, o que eu vi acontecer foi que uma boa parte da direita, senão a maioria esmagadora, impressionada com a manipulação política feita pelos grandes implicados na Lava Jato, a qual aconteceu, entre outros meios, através das contribuições milionárias dos empresários envolvidos às campanha dos maiores corruptos da República.

    O frame, para usar sua expressão, usado pela esquerda no sentido das doações privadas criar uma dependência dos candidatos em relação aos doadores pegou de um modo que a maioria achou certa a proibição. Faltou argumentos que deixassem claros para a população que o “financiamento privado das campanhas” pode não ser bom mas é muito melhor do que o financiamento público.

    Me lembro que, o que derrotou os governistas no plebiscito sobre o desarmamento foi esclarecer à população que ela ficaria refém da bandidagem. A força e o gigantismo da corrupção revelada pelo Lava Jato impediu que o argumento favorável ao financiamento privado fosse forte o suficiente para mobilizar a maioria do povo brasileiro. Agora, todos sofreremos as más cobnsequências disso.

    • pfffffffff
      que nada. Ela é uma em mil.
      A maioria das mulheres europeias já delegaram as feminazis a função da luta e proteção de seus direitos individuais. E tudo o que elas (as feminazi) tem a dizer a respeito da onda macissa de estupros é: mantenha um braço distancia de estranhos.
      Cavaram a propria cova, aceita que doi menos.
      (agora, vai ver se na Polonia isso está acontecendo? hehe)

  2. Show! Grato por tornar esse assunto uma coisa de adultos que estão focados em resultados.

    Luciano, te mandei um email mas você não me respondeu, qual o status do Livro? Por favor coloque um update no miniblog do seu livro na Kickante, infelizmente não estou conseguindo ler os seus artigos com muita frequência e muito menos os seus posts no facebook, por falta de tempo. Portanto se você der o update em um desses meios tal como já fez no passado é provável que eu não veja.

    Grato.

    • Alow, Syhape.

      Eu andei meio corrido e fiquei uns dias sem acessar o email, mas hoje farei. O livro será enviado na primeira quinzena de fevereiro, conforme a previsão do editor. Vai rolar, finalmente! Não vejo a hora.

      Grande abraço,

      LH

  3. Da mais resultado começar a chamar petista de fascista e nazista (e eles são mesmos) do que gritar fora foro de são paulo.
    Eu já descobri como calar qualquer argumento de esquerda, nem precisa refutar diretamente o argumento é só mostrar que o interesse é a defesa de um projeto de poder.
    E realmente é só isso defender um projeto de poder que os beneficia financeiramente.
    Marcelo Odebrecht e joao pedro stédile, estão no mesmo balaio de gatos ambos defendem este projeto de poder, isso refuta a suposta luta de classes.Se desejar continuar afirme que no Brasil a verdadeira luta de classes é ente malandros e manés. Malandro é todo aquele que se locupleta do estado, mané é aquele que paga a conta pro malandro.

  4. Luciano, esta análise destoa da boa qualidade dos seus textos. Você desconsidera o principal: somente no 1º mandato de Dilma, o “Foro de São Paulo” tornou-se conhecido por uma pequenina parcela da opinião pública; só em 2014, nas grandes manifestações, o público brasileiro, começou a ler bordões como “Fora Foro”.

    A luta dos adversários do FSP (parte mais importante da luta contra a esquerda marxista da América Latina) está num estágio inicial. Ao contrário do que você diz, há importantes demandas políticas anti-Foro, por ex.: voto-impresso; posse de armas; combate da ideologia de gênero; combate da legalização das drogas e muitas outras.

    No Brasil, ao longo de décadas e com a TOTAL cumplicidade de liberais e fabianos, o FSP construiu, não uma cortina, mas uma muralha de ferro para protegê-lo. Assim, qualquer tentativa de diminuir a importância das ações daqueles que, como verdadeiros quixotes, estão tentando furar a muralha para expor essa organização nefasta é muito, muito injusta. Num contexto de boicote total, todas as oportunidades para desmacarar o Foro, devem ser aproveitadas, desde a ajuda de um Fidélix até os cartazes de “Fora Foro”.

  5. Continuo tendo em mente que o Foro não é uma prioridade e que o melhor para o Brasil agora e o pior golpe que o Foro de São Paulo poderia levar é o impeachment de Dilma Rousseff ou quem sabe a prisão de Lula pois leva a uma desmoralização dos cabeças dessa organização. Estancar a sangria de verbas via BNDES para esses ditadores latinos também é uma forma de dificultar a brincadeira deles.

    Concordo 100% que esses ataques diretos contra a organização Foro de São Paulo não devem resultar em muita coisa a não ser em uma mudança tática a nível global da esquerda. Aliás é melhor ter o bandido sob vigilância do que ter ele desaparecido.

  6. O Foro de São Paulo se fia, principalmente, em líderes carismáticos e na “proteção” do Brasil. O sustentáculo do poder político deles sempre foi esse. Diferentemente dos antigos regimes comunistas, o FSP não criou uma superestrutura burocrática que garantisse a longevidade do projeto bolivariano nos países que dominou (a exceção talvez seja a Venezuela, mas mesmo nessa o bolivarianismo vem sofrendo derrotas). Logo, após a morte de Chávez, a velhice dos Castro e a escolha incrivelmente estúpida de Lula por Dilma Rousseff (que nunca fez parte do núcleo duro petista), o FSP só vem perdendo poder e relevância. Os Kirchner, embora tenham destruído a Argentina, nunca foram realmente um pilar do bolivarianismo, agindo mais em nome próprio do que em nome da esquerda latinoamericana (e desconfio que a configuração étnica da Argentina, em que praticamente inexistem minorias raciais e retórica indigenista, contribua muito para isso). Por fim, o Equador de Correa é insignificante, sem relevância e poder, e a Bolívia de Evo Morales ultimamente vem dado mostras de aderir ao pragmatismo e à ortodoxia.
    Enfim, o que ainda segura o projeto da esquerda bolivariana é a permanência do PT no Palácio do Planalto. A economia dos países sob o Foro está destruída, a criminalidade explodiu, a qualidade de vida baixou. O que garante um respiro ao FSP é, exatamente, o PT. Assim como os regimes comunistas no Leste Europeu acabaram tão logo a Rússia pulou fora, o bolivarianismo acabará (ou, no máximo, se tornará uma realidade restrita a poucos e insignificantes países periféricos) assim que o PT acabar.
    Em suma: para “lutar contra as demandas” do Foro de São Paulo, é necessário lutar contra as demandas do PT (como o já citado financiamento público de campanha). É isso que esse pessoal não conseguiu extrair desse texto.

  7. Luciano, tudo bem? Não sei se o meu comentário não entrou ou você o deletou por alguma razão. Acho que a informação é de extrema importância. A Lola chamar você de racista e homofóbico é muito grave.

  8. Muito bom o artigo. O primeiro combate são ações estrategicamente planejadas. Se não são previstas, podem ser revistas. Vejam um exemplo:

    “As exigências muçulmanas já começaram também no nosso País. Em Foz do Iguaçu foi depredada uma igreja e profanada até a imagem de N. Sra Aparecida, considerada por mais da metade da população como a Padroeira do Brasil”.

    http://www.defesanet.com.br/pensamento/noticia/21431/Comentario-Gelio-Fregapani—Panorama-mundial-do-petroleo–O-combate-a-dengue-e-Muculmanos-no-Brasil/

  9. Falar do Foro na campanha eleitoral e em outros meios trouxe resultados, não em relação as demandas, mas em relação ao alcance do tema. Lembro q chegou a ser um dos temas mais pesquisados na internet, se não me engano, no fim de 2014. O simples fato do nome “Foro de São Paulo” ter sido repetido massivamente, sem muitas explicações, fez com que muitas pessoas fossem pesquisar sobre o q era tal organização. Claro q entre entender e aprender a combater existe um longo caminho, mas foi um começo.
    Uma pena q esse conhecimento adquirido sobre o Foro tenha se perdido e ficado apenas o slogan: “Fora Foro”, que vc bem explicou no texto porque não faz sentido. O mesmo digo em relação a extinção do PT, q seria um boa conquista (se bem interpretada), claro, mas de forma alguma acabaria com as pautas pregadas por ele.

  10. Muitos ainda não têm ideia do que é o Foro de São Paulo, e os que ouviram falar não sabem dos detalhes, como por exemplo, o envolvimento dos traficantes das FARC.

    É verdade que “Fora Foro” não é uma demanda exatamente viável neste momento, concordo contigo. Entretanto, um conhecimento maior dos podres da esquerda poderia ser perfeito para um outro fator da guerra política: o desgaste da imagem da mesma. Então, o movimento não deve morrer, e sim deve mudar o seu modo de operação.

  11. O brasileiro trabalhador não tem costume de protestar com o objetivo de atingir um determinado resultado e as vezes nem mesmo trabalhar com o mesmo intuito. Por isso fica um bando de marmanjo querendo reconhecimento por ter se esforçado, por ter chegado todo dia no horário estabelecido pela empresa e por ter colocado a camisa por dentro da calça durante os últimos vinte anos; mas basta uma reunião de acompanhamento de metas, auditoria externa ou negociações e pronto. Gagueja, se treme, começa a suar e não consegue nem anotar as merdas que precisa fazer para sair da encrenca que se meteu, parecendo que nem tem formação profissional. Posso estar enganado, mas em todos os protestos, os escassos cartazes escritos em inglês mostravam que não havia uma preocupação dedicada a imprensa internacional (não só pelo baixo número de cartazes mas pelo teor dos mesmos que falavam mais em intervenção militar do que outra coisa ) e mesmo assim querem que os EUA e/ou ONU se posicionem a respeito do Bolivarianismo na America Latina. Não acontecerá; o mundo todo tem problemas e os nossos não serão sequer ouvidos se a mensagem não chegar clara e em bom som.

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