Narloch diz que o problema não é do brasileiro. Vejamos porque ele está certo…

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Como mostrei por aqui há alguns dias, a tão falada “carta de Mark Manson ao povo brasileiro” era um embuste do início ao fim. Ainda tratarei o assunto mostrando toda a ironia por trás da reação de pessoas à carta. Ali mostrarei que o alto número de pessoas – inclusive de direita – validando a análise de Manson, mesmo não estando embasado por evidências ou qualquer outro tipo de estudo sério sobre a moralidade intrínseca dos povos e da formação da opinião pública, mas sendo aceito acriticamente, serve para comprovar o quanto ele próprio está errado. Mas falaremos disso em breve.

Antes, vale a pena ler um texto recente de Leandro Narloch, mostrando que o problema do Brasil não é o brasileiro:

Falta água, sobra inflação, falta luz, sobram escândalos, o Congresso e as escolas públicas são pura piada, as ações da empresa que prometia ser orgulho nacional valem trocados. Com tanta notícia apontando para um colapso nacional, é fácil culpar a própria cultura pelos erros do país e cravar que “o problema do Brasil é o brasileiro”.

Não somos os únicos a culpar a própria cultura. Os argentinos, numa versão similar ao nosso “é culpa de Portugal”, atribuem suas falhas à colonização de “brutos” espanhóis e italianos. Só que uma colonização muito parecida ocorreu no Chile, o sensato Chile. Os italianos até concordariam com os argentinos, pois também acham que o problema da Itália é o italiano. Sobre a Venezuela, já vi gente afirmando que a herança histórica e cultural levou os venezuelanos ao autoritarismo. Mas então o que dizer de colombianos e panamenhos, tão parecidos culturalmente e cada vez mais liberais?

No Brasil, a ideia de algum traço da cultura sabota o país se manifesta à esquerda e à direita, em conversas de rua e em teses universitárias. Tem quem explique os problemas nacionais por uma suposta preguiça de negros e mestiços. “O brasileiro é pobre porque não gosta de trabalhar”, ouvíamos anos atrás. Hoje se propaga uma versão simétrica desse equívoco. O problema não seria os negros, mas os brancos: a raiz das mazelas nacionais seria uma elite branca preconceituosa e apegada a privilégios.

Na rua, dizem que culpa é do jeitinho brasileiro, a nossa bem conhecida habilidade de ignorar as regras e favorecer parentes e amigos. Na Unicamp, empilham-se teses sobre os efeitos da “herança escravagista do Brasil patriarcal”, que teria criado uma elite acostumada a viver do esforço dos outros. Como se estivéssemos presos a um determinismo sociológico.

Longe de mim ter orgulho ou defender a cultura brasileira (ou qualquer cultura nacional). Meu ponto é que outros povos cheios de defeitos atropelaram arcaísmos e prosperaram. Os americanos sulistas são muito mais racistas que nós – mas isso não impede que a renda média dos negros americanos seja duas vezes a dos brasileiros. Ingleses até hoje mantém distinções de classe, o que muito professor da Unicamp consideraria motivo suficiente para subdesenvolvimento. Nos anos 70, pouca gente acreditaria que países da Ásia seriam tão ricos e desenvolvidos quanto os europeus. Era comum pensar que algum traço cultural limitava o progresso da Ásia, como o confucionismo na China. Hoje o PIB per capita de Hong Kong é 40% maior que o da Inglaterra; o de Cingapura é duas vezes o da França.

O problema não é cultura, mas as regras do jogo. O jeitinho brasileiro não é exclusivo ao Brasil – na verdade existe em todo lugar com excesso de burocracia. Um venezuelano ou um lord inglês, depois de um período de adaptação, vão andar na linha num ambiente em que outros andam na linha, e vão picaretear se acreditarem que os outros picareteiam sem serem punidos. Se há instituições (públicas ou privadas) que façam valer o que foi combinado e garantam direitos de propriedade, a cooperação aparece.

Dito isso, admito que há teses de peso sobre características da população capazes de influenciar a política. Os economistas Alberto Alesina e Edward Glaeser acreditam que, em países com mais diversidade étnica, as pessoas são menos dispostas a contribuir com o estado de bem-estar social (por isso os EUA não teriam um sistema equivalente ao da homogênea Dinamarca). Também se diz que, em países mais desiguais, os governos são mais irresponsáveis na economia, pois tendem a sacrificar as contas públicas com assistencialismo, para garantir o voto dos pobres. Mas isso diz pouco sobre costumes ou herança cultural: aconteceria com alemães ou dinamarqueses nas mesmas condições. E não impediu os Estados Unidos – um país tão heterogêneo quanto o Brasil e bem mais desigual que a Europa – de enriquecer.

O Brasil, como mostra o noticiário das últimas semanas, tem problemas de sobra. Mas o brasileiro não é um deles.

Narloch está certo em sua análise.

Enfim, não adianta propagar discursos dizendo “desista da política, pois antes precisamos que o povo brasileiro mude em seu interior”. Isto não é apenas bobagem pura, mas contraproducente. No fim, é sempre aquela conversa mole que tem sido popularizada pela campanha do PT dizendo que “a corrupção está enraizada no povo mesmo”, mais para transferir ao povo as responsabilidades de seus inadmissíveis escândalos de corrupção em nome do poder tirânico.

Está na hora de rejeitarmos essa cruel transferência de responsabilidade. Não, o “povo brasileiro” não é o responsável.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, eu descordo em parte. Primeiro, porque não li a carta como se fosse uma mensagem de “não falemos de política, já que o problema é cultural”. Pelo contrário: ajamos na política, porque a cultura é feita de ações. E, considero o brasileiro mais corrupto do que o que conheço de povos em países mais desenvolvidos (nesse ponto, concordo que é uma impressão, longe de ter algum rigor científico). Quando morei nos Estados Unidos, vi brasileiros encontrando formas de burlar a regra para se beneficiarem. E, as brechas só existiam porque os americanos não pensavam da mesma forma (chegaram a mudar regras quando perceberam o que acontecia com os brasileiros). Porém, também concordo com estrangeiros aqui passam a agir de forma mais “corrupta” do que fariam em seus países (e que acontece o inverso, com brasileiros que se mudam para determinados países). Enfim, acho sim que nós gostamos de ir pra rua quando estamos insatisfeitos com a passagem do ônibus ou com a inflação (mesmo que não saibamos que é isso que incomoda). Mas, quando um ex-presidente consegue adiar seu depoimento, as ruas não param.

    • Luciano, eu descordo em parte. Primeiro, porque não li a carta como se fosse uma mensagem de “não falemos de política, já que o problema é cultural”. Pelo contrário: ajamos na política, porque a cultura é feita de ações.
      Mas como é que podemos melhorar as coisas se há um “problema intrínseco na moral” do povo brasileiro? Quando se faz uma ação de mudança social, é preciso definir quem dará o “trigger” da mudança. O Manson diz que o “trigger” vem de cada um dos indivíduos. Eu digo que vem dos formadores de opinião. E aí, como fazemos?
      E, considero o brasileiro mais corrupto do que o que conheço de povos em países mais desenvolvidos (nesse ponto, concordo que é uma impressão, longe de ter algum rigor científico).
      Precisamos aber QUAL O NÍVEL de diferença em testes de moralidade. Eu acho difícil existir essa moralidade intrínseca negativa do povo brasileiro.
      Enfim, acho sim que nós gostamos de ir pra rua quando estamos insatisfeitos com a passagem do ônibus ou com a inflação (mesmo que não saibamos que é isso que incomoda). Mas, quando um ex-presidente consegue adiar seu depoimento, as ruas não param.
      E se as ruas não param, a culpa está… no povo? A meu ver, isso é completamente contraditório com os estudos sobre opinião pública.

      • Obrigado por investir seu tempo para responder, Luciano. E, fazendo uma correção, “eu discordo” (bem diferente de “descordo”).

        Bom, para efeitos práticos, entendo o risco que corremos se não atacamos um problema tangível (de onde vem o “trigger”). Meu ponto é o seguinte: vem de todos e a única forma de resolvermos é passarmos a ter consequências para todos. Agora, acho que o melhor dos mundos é começarmos pelos governantes (nesse ponto, concordo com você). Quando você traz a ideia de formadores de opinião, vale refletirmos que hoje nossos governantes têm menos poder como formadores do que outros agentes (artistas, bloqueios, etc.).
        A questão da moralidade intrínseca, em minha opinião, está ligada ao ambiente, à cultura. Mas, desde pequenos somos bombardeados pela ideia de que damos jeitinho pra tudo, de que levamos vantagem em tudo. Quando sai um programa de TV sobre a história dos Estados Unidos, eles retratam com certo heroísmo. No Brasil, o programa é chamado de “Quintos dos Infernos” (e, recheado de comportamentos moralmente questionáveis, vindos de nossos primeiros governantes). Pra mim, esse é o principal obstáculo: mudar tanto o cotidiano, as ações e consequências de todos, que a cultura mude. Exige constância, algo que não somos acostumados.
        A questão das ruas é complexa. Acho que não elegemos líderes no movimento. Ou, os que elegemos não deveriam estar lá. Acho sim, que se as ruas não param, a culpa está no povo. O povo pára as ruas. O povo elege seus líderes (propositadamente ou não) e os segue até as ruas. E, se não for através do povo, como as manifestações ocorrerão, então? As forças armadas vão protestar nas ruas? A não ser que descarte as manifestações populares como ferramenta de mudança, acho que o povo deve ser responsabilizado.

        Enfim, é uma discussão frutífera, mas com muitas possibilidades de não ter fim…

  2. Parabéns pela matéria. Está na hora de deixarmos o “politicamente correto” e passar a olhar para frente, apontar a falhar e planejar a longo prazo a correção. Falta educar para reduzir a manipulação política.

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