Rotina de negação: todos os esquerdistas são iguais

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Seguramente você já ouviu essa conversa em vários lugares, dizendo que “todos os esquerdistas são iguais”.

Antes de tudo é bom dizer que esta é uma estratégia retórica que visa atacar todo um grupo para vender uma espécie de purismo de outro lado. Basta relembrarmos o histórico do neoateísmo, quando Sam Harris e Richard Dawkins buscavam convencer que “todos os religiosos davam no mesmo, independentemente se fossem jihadistas ou cristãos”. O objetivo era um só: vender a ideia de que apenas o ateismo militante “salvava”. (Mas na verdade há uma diferença ética entre o jihadismo e o cristianismo, e vemos isso explicitamente em casos de atentados terroristas e estupros em série cometidos por pessoas pertencentes apenas ao primeiro grupo, não ao segundo)

No Brasil, os objetivos por trás desse discurso é vender alternativas como:

  1. Apoiar uma intervenção militar
  2. Apoiar uma revolução civil (algo que muitos deles talvez nem acreditem, mas vá lá)
  3. Apoiar a candidatura de Bolsonaro para 2018

O objetivo aqui não é julgar essas opções, mas a retórica utilizada para definir “todos os esquerdistas como se fossem a mesma coisa”. Tudo isso facilitaria a venda de uma das três opções acima.

Se julgarmos as coisas pela ótica unicamente pragmática e indiferente a filtros morais, não podemos classificá-los como completamente errados. Embora estejam propagando uma mentira, ela atenderia a objetivos de propaganda. Pelo pragmatismo puro, eles provavelmente teriam uma justificativa.

Mas até mesmo pelo pragmatismo puro, eles deveriam ser contestados, pois no máximo falaríamos de pragmatismo aplicado ao purismo, o que é no mínimo bizarro. Imaginemos a terceira opção – eleição de Bolsonaro em 2018 – que provavelmente será cada vez mais dificultada pelas leis já implementadas (e outras novas leis que o PT deve determinar) pela extrema-esquerda. Mas para combater essas leis da extrema-esquerda, ele dependeria da ajuda de deputados da esquerda moderada. Todavia, ele se recusa ao diálogo de pressão com estes deputados, pois para ele “não há diálogo com nenhum esquerdista, nem centrista” e, em casos mais extremos, “nem mesmo com qualquer liberal”. Digamos que isso é se imaginar em ação pragmática, mas agir, de fato, pelo purismo. Mesmo assim, se eles se sentem contentes ao agir dessa forma, podemos entender o modelo mental para essas escolhas. O que importa aqui é saber: o lançamento de todos os esquerdistas em um único saco é ao menos idealizado em torno de um objetivo.

O problema moral é radicalmente mais grave e perturbador, e pode ser visualizado ao relembrarmos a belíssima fala de Janaína Paschoal ao programa Roda Viva, em setembro de 2015:

É muito evidente que esses 2 minutos e meio acima explicam muita coisa. Mesmo que PMDB e PSDB sejam partidos de esquerda, eles não são de extrema-esquerda, e aí há uma diferença moral radical: enquanto o PT é dedicado a implantar um totalitarismo, o mesmo não pode ser dito de PMDB e PSDB. Podemos, é claro, criticar suas defesas do estatismo, da agenda do marxismo cultural e até varias alianças feitas, mas não podemos praticar equivalência moral.

Mas se o purista de direita diz que “todos são a mesma coisa”, então subcomunica para a plateia que o totalitarismo do PT, do PCdoB e do PSOL não faz diferença, pois “se todos os esquerdistas são iguais”, logo estas ações totalitárias não seriam problema suficiente para diferenciar estes últimos.

Os puristas podem até se defender dizendo: “na verdade, o que estou dizendo é que lá no fim o esquerdismo moderado do PSDB e do PMDB vão resultar no totalitarismo do PT”, mas essa mesma desculpa pode ser utilizada por todos contra todos. Veja:

  • Um liberal pode dizer que a aceitação, por parte dos conservadores, que o estado interfira em questões de costumes pode levar ao estatismo, até mesmo o de extrema-esquerda
  • Um conservador pode dizer que a tendência liberal a aceitar a liberdade quanto aos costumes irá transferir para o estado a questão dos valores morais e isso vai resultar no socialismo (é algo mais ou menos nessa linha que alguns conservadores costumam dizer)
  • Um direitista purista em geral pode dizer que o esquerdismo moderado de alguns partidos vai levar ao totalitarismo da extrema-esquerda

Em todos os casos, o padrão é o mesmo, mas faltam evidências. O que deveria importar, nesses casos, é a busca por evidências táticas, mas isso quase nunca é discutido. Nota-se que, na busca por mais mitos políticos, o realismo em análises políticas é mandado para o espaço. De novo vale lembrar que isso não surpreende muito se considerarmos o baixo nível do debate tático político brasileiro atual praticado pela oposição, mas aqui o problema vai além: na tentativa de “empacotar” vários oponentes no mesmo saco, esses direitistas true terminam no fim fazendo uma propaganda perigosíssima: o totalitarismo de PT, PCdoB e PSOL não é tão importante assim, e, por isso “PMDB e PSDB” são iguais a eles mesmo e não tem conversa!

A mensagem subcomunicada é terrível e “relaxa” as mentes para lutar contra aquilo que é efetivamente mais perigoso na extrema-esquerda: a implementação de uma ditadura. É que isso deixa de ser importante para esses direitistas, pois, quando o cérebro “iguala todas as opções”, as diferenças mais perigosas de um dos lados passam a se tornar menos perceptíveis. Talvez aí esteja uma das chaves para descobrir porque somos tão incapazes de nos proteger do totalitarismo.

Na verdade, há uma diferença moral enorme – como bem lembrou Janaína Paschoal – entre partidos de esquerda moderada e de extrema-esquerda. Não notar essa diferença é perigosíssimo. Pode até ser interessante levar as discussões com esses confusionistas para a esfera do debate moral, questionando-os: “Realmente você não vê diferença moral entre implementar ditaduras e não implementar?”. Esse tipo de questionamento já é suficiente para começar a sessão de desmascaramento.

Vale lembrar que renegar o frame “todos os esquerdistas são exatamente iguais” não implica abandonar opções de direita. Na verdade, o ideal é lutar pelo crescimento do pensamento de direita até termos opções viáveis de candidatos ao poder executivo que sejam de direita. Enquanto isso, nada impede de votarmos em candidatos centristas e esquerdistas moderados se isso for útil para tirar a extrema-esquerda do poder. Isso sim seria o real pragmatismo, tanto em prática como em pensamento.

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17 COMMENTS

  1. Concordo. O momento para o Bolsonaro não é o de “queimar navios” e “explodir pontes”. Entendo que setores da chamada esquerda moderada jamais o apoiarão, mas se ele sequer não iniciar uma aproximação com liberais e anarco-capitalistas (nem todos os repudiam, conheço alguns que o apoiam), jamais passará dos 10% nas pesquisas. Estagnará e será uma figura nanica em 2018.

    Não mencionei os libertários, pois parece mais fácil ao Bolsonaro se aproximar dos tucanos (esquerdistas moderados) do que deles, e não me refiro aos planos de longo prazo do deputado.

    • Concordo. E tenho certeza que o próprio Bolsonaro sabe disso.

      Por isso creio que a estratégia “real” do Bolsonaro será “vender” esses 10% no segundo turno. Ao que tudo indica até aqui, bolsonaristas transferirão seu voto ao candidato indicado por seu deus. E sabemos que esses 10% poderão definir a eleição.

      Daí também da esquerda (ou melhor colocando, da situação) em lançar novos satélites como o Rede e o Raiz, com o intuito de 1) Atacar diretamente os satélites da oposição; 2) Roubar voto dos incautos, inconformados com o governo, pagando de “oposição à esquerda”.

  2. Infelizmente, as diferenças entre os esquerdistas “moderados” e “radicais” é muito menor do que se imagina, pois as premissas falsas, aquelas que nunca deram certo em 100 anos de tentativas, e que nunca vão dar, são as mesmas. O coitadismo, o relativismo moral, o bandido como injustiçado social, as “minorias” e por aí vai. Tenho tolerância ZERO com qualquer coisa que cheire remotamente a esquerda e esquerdistas. Existem os que dá pra conversar, mas geralmente são aqueles capazes de reconhecer as próprias cagadas. Se contam nos dedos de uma mão;

    • Aí que está: como mostrei, considerar “pequena” a diferença entre implementar uma ditadura e não fazê-lo é meio complicado. Por isso, sempre diferencio o esquerdista que implementa o totalitarismo, e o que não o implementa, assim como podemos diferenciar o religioso que respeita o estado laico e o que não respeita, o ateu que respeita a religião e que quer eliminá-la. Há uma diferença clara, mesmo que possamos criticar TODO O ESQUERDISMO em alguns aspectos.

      • Os que não implementam, voluntária ou involuntariamente, pavimentam o caminho para os que implementam. Repito: a esquerda é falsa em suas premissas, não existe esquerdista “do bem”, mesmo que seja um cara bacana, do tipo que você gosta de tomar uma com ele. O resultado de suas ações, palavras e ideologia será sempre nefasto.

      • Ninguém está dizendo que “existe esquerdista do bem”. A questão não é essa. A questão é saber que HÁ DIFERENÇAS e ESCOLHAS a serem feitas. E o totalitarismo deve ser repelido de forma ESPECÍFICA. Minha crítica é em relação à EQUIVALÊNCIA MORAL.

      • É fato que existem diferenças entre as demandas políticas imediatas dos vários setores da esquerda. Mas, na prática, a esquerda radical é quem define o que é ou não “de esquerda”. A consequência é que, como norma, as ditaduras esquerdistas são implementadas com a ajuda das ações (ou omissões) das alas moderadas da esquerda. Aqui mesmo, o PT só chegou ao poder vestindo a roupagem da esquerda moderada, com o apoio de _toda a esquerda. Nos momentos de radicalização, o campo de luta deve ser claramente demarcado. Esta é a utilidade imediata do lema “todos os esquerdistas são iguais”. E, pra arrematar, se o próprio FHC afirmou taxativamente que “não existem diferenças ideológicas entre o PT e o PSDB”, é obrigação da direita desmascarar os trapaceiros.

      • Olha, Policarpo, em tese denunciar as alianças e a conivência com o discurso socialista é ideal. O que não podemos é esquecer que, até 2018, temos que pressionar os deputados de esquerda moderada. O problema da direita true neocon é abandonar toda forma de pressão.

  3. “Seguramente você já ouviu essa conversa em vários lugares, dizendo que todos os esquerdistas são iguais.”

    Não. Nunca ouvi sequer um anarcocapitalista falar isso de forma séria no Facebook.

    • Porra, parece que você não anda lendo muito o que escrevem por aí. Quase todo anarcocapitalista diz que abaixo de Libertários só existem soças, e que são todos iguais, é um fato.

      • É, eu já vi libertários/ancaps classificarem as pessoas entre “libertários” (ou ancaps) e “estatistas”. E ponto final. Ao mesmo tempo, existem MUITOS conservadores que classificam as pessoas entre “conservadores” e “esquerda”, e esses são tão ou mais perigosos que aqueles, pois os ancaps nunca sequer chegarão perto de seus objetivos, nem têm a pretensão de impor qualquer tipo de controle sobre a vida alheia, ao contrário dos conservadores radicais.

      • Será mesmo Jefferson? Nunca ouviu falar que nas ruas e propriedades privadas manda o dono? Se alguém dominar um território é claro que isso terá consequências coletivas. E dizer que algo não se realizará para provar que ela não é ruim chega a ser ridículo, eu poderia dizer o mesmo desses supostos conservadora que você está falando, ainda mais se levar em consideração que o conservadorismo estava praticamente morto no Brasil até pouco tempo.

        Mas sua fala é muito engraçada, porque salvo engano o Instituto Mises Brasil se dividiu em dois, onde uma parte ficou chamando a outra de soça, de estatista, e se dizendo os “trues libertarians”. E não só isso, mas a maioria das discussões são assim: “X não é tão libertário assim, é um soça enrustido”. Então não venha me falar que eu não estou ciente do que ocorre nesse meio, pois eu vejo vídeos, leio textos e visito algumas páginas deles, então não venha me falar que eu não conheço esses grupos. Inclusive muitos atacaram o Luciano na época em que ele desmascarou o autoritarismo ancap.

  4. Luciano, “todos os esquerdistas querem a mesma coisa: a implantação de uma ditadura comunista”. Isto é uma verdade!
    O PT é o PSDB de amanhã!
    Já o PMDB não tem nada a ver com essa análise. É um estranho no ninho nesse seu raciocínio.
    O PMDB é um partido fisiologista, e não ideológico.
    O mesmo se dá com o PP.
    Parece que você mesmo caiu numa “rotina de negação” ao colocar na análise o PMDB junto com o PSDB.

    • Pode ser que o “PT seja o PSDB de amanhã”. E, se for isso, então os combateremos COMO se combate o PT. Porém, hoje há uma diferença MORAL entre o PT e o PSDB, e Janaína Paschoal expos muito bem qual é. Isso não é tucanismo, mas expor uma atitude praticada pelo PT que não foi praticada pelo PSDB em nenhuma de suas gestões.

      O que está acontecendo é que estou rejeitando a equivalência moral (e argumentos para isso não faltam), enquanto você, usando o discurso da “equivalência entre as esquerdas”, pratica equivalência moral NA QUESTÃO do totalitarismo.

      Em tempo: a questão de “alinhamento ideológico” é questionável, já que ideologias são apenas armadilhas para conquista de poder.

      O PMDB, mesmo sendo fisiologista, tem sido AUXILIAR do PT em seu totalitarismo. Só abandonarão a meta petista de construir uma ditadura se NÓS OS PRESSIONARMOS nesse sentido. Já o PSDB não está apoiando o PT nisso. Está contra. É uma diferença moral.

      Ainda assim, PMDB, em essência, e PSDB, mesmo que ambos possam ser questionados por ALINHAMENTOS DIVERSOS COM O SOCIALISMO (sejam fisiológicos, ou ideológicos), ainda não são MORALMENTE EQUIVALENTES ao PT.

      Abs,

      LH

  5. Quando eu digo que os partidos de esquerda são iguais, não estou dizendo que seus métodos são iguais, e sim que seus objetivos são iguais, a longo prazo… É obvio que um Fernando Henrique é muito diferente de um Lula, não vejo no FHC a mesma truculência e desrespeito para com a coisa pública, mas, na pratica, também nunca vi o PSDB votar contra os projetos de lei bolivarianos. No fim, Marxistas ou Fabianos, todos, almejam um único fim, a tal da ditadura do proletariado. Mudam as moscas e os métodos, mas o zumbido permanece o mesmo!

    • Pode ser que “no longo prazo” sejam iguais. Mas em oito anos de governo, FHC não pediu censura de mídia. Lula pedia isso desde o começo de seu governo. Assim, julgar pelo futuro é coisa de Minority Report. Se VOCÊ estiver correto que NO LONGO PRAZO eles vão querer o que o PT hoje quer, voltamos a falar. Caso, contrário, OBJETIVAMENTE, há diferença entre esquerdistas não totalitários e totalitários.

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