Rotina de negação: Usar os métodos dos esquerdistas na guerra política é anti-ético

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Uma das formas de negação da politica é considerá-la, por princípio, imoral. Ou, pior ainda, definir a guerra política como imoral per se.

Como já vimos aqui na tradução de A Arte da Guerra Política de David Horowitz, aceitar a guerra política se constitui de aceitar e praticar uma série de princípios, que incluem ficar no ataque, falar ao coração e trabalhar os símbolos de medo e esperança. Pela perspectiva de Saul Alinsky, também inclui usar uma série de táticas para as ações do cotidiano. Para Antonio Gramsci, isso se baseia em ocupar os espaços e fazer a revolução cultural. Na visão de Gene Sharp, isso significa usar uma série de métodos úteis especialmente para derrubar tiranos. E, olhando pela ótica de George Lakoff, significa controlar o frame.

A guerra política não se limita a estes autores, mas eles obviamente dão vários insights importantes. Utilizar os métodos de um ou dois destes autores em cada interação política é jogar a guerra política. É muito melhor do que ficar pedindo intervenção militar ou adotar outras formas de discursos espasmódicos e não orientados a resultados pragmáticos. Porém, mesmo que estes autores falem de métodos que podem ser aplicados por todos os lados na guerra política, alguns dizem que isso é “imoral”.

Por exemplo, alguém pode dizer que “não vai utilizar os métodos de Gramsci, pois ele é imoral”, mesmo que ninguém tenha sugerido que esta pessoa defenda as mesmas ideias que o autor sardo. Na verdade, sugerimos que os métodos de Gramsci sejam adotados, e não seu conteúdo moral. Outros podem dizer que “rotular é imoral”, mas dificilmente há uma explicação racional a respeito disso. Aliás, ao definir a rotulagem como “imoral” ele próprio já estaria rotulando, então a reclamação não faz muito sentido.

No fim, tudo parece mais uma racionalização para não jogar o jogo, talvez por falhas historicamente identificáveis trazidas por formadores de opinião no passado – alguns na direita parecem achar que a politização é “um pecado” – ou mesmo para tentar validar ações extremas, como intervenção militar e/ou qualquer coisa outra. Mas a pergunta é: existe um argumento racional em prol de que jogar o jogo político é imoral?

Antes precisamos entender sobre como este argumento é construído, e já o farei pela melhor variação que encontrei dele – justamente a que seria mais sólida -, transcrita neste formato: “Nenhum método que foi utilizado para um fim imoral pode ser usado para um fim moral”. Ou até sua variação: “Nenhum método criado para um fim imoral pode ser usado para um fim moral”. Creio que este é o melhor formato desta argumentação. Logo, se Antonio Gramsci utilizou a ocupação de espaços e a guerra cultural para implementar ideias falsas, tanto ocupação de espaços como guerra cultural não podem mais ser utilizados para implementar ideias verdadeiras. Se Saul Alinsky defendeu a ridicularização como uma arma poderosa para atacar pessoas decentes, logo a ridicularização não poderia mais ser utilizada para atacar monstros morais. Isto seria enfim levar a cabo um sistema moral inviabilizando a utilização de um método para um uso moral a partir do momento em que é identificada sua utilização para um uso imoral.

Esta parece ser uma escolha moral, mas na verdade é a mais imoral de todas as escolhas, pois permite que as pessoas adeptas da crueldade e do barbarismo possam selecionar métodos neutros em uma grande bacia de métodos. A partir do momento em que os métodos são selecionados por alguém imoral, não podem mais serem selecionados por uma pessoa ou para um uso moral. Nenhuma sociedade sequer sobreviveria com esta situação, pois as pessoas imorais podem usar vários métodos para conseguirem perpetrar suas barbaridades, e assim adquiririam poder absurdo, já que cada vez mais os métodos das pessoas morais estariam reduzidos.

A primeira coisa que devemos fazer é mostrar que a expressão “nenhum método que foi utilizado para um fim imoral pode ser usado para um fim moral” é falsa. Por exemplo, usar uma arma para assaltar alguém é imoral, mas usar uma arma para prender esse bandido ou resistir ao assalto não é. Utilizar uma jaula para escravizar a esposa é imoral, mas utilizar o mesmo tipo de jaula para prender um escravizador de pessoas não é. Como se nota, a observação da realidade – sob qualquer aspecto da analise moral – mostra como a expressão “nenhum método que foi utilizado para um fim imoral pode ser usado para um fim moral” é flagrantemente falsa. Logo, utilizar os métodos da guerra política já utilizados pelo esquerdista não é imoral, desde que, é claro, você não esteja defendendo ideias ou argumentos imorais.

E agora podemos ir além, constatando que defender expressões como “nenhum método que foi utilizado para um fim imoral pode ser usado para um fim moral” ou mesmo “não devemos utilizar para fins morais os métodos já utilizados por pessoas imorais” é, em si, imoral. Isto porque, ao limitar as opções de ações para pessoas morais e/ou em ações morais, aumentamos o poder das pessoas imorais. Isto significa premiar a imoralidade com uma constelação infinita de métodos, limitando dia após dia todas as opções de combate às desumanidades. Não há outra forma maior de incentivar a imoralidade do que essa.

Claro que alguém pode deixar de usar os métodos da guerra política por incompetência, ignorância ou até falta de treino. Isso dificilmente poderia ser qualificado como imoral. Mas defender a noção de que “as pessoas não devem usar os métodos da guerra política, pois não é possível utilizar algo para fins morais que já tenha sido usado para fins imorais” é flagrantemente imoral, pois se torna a construção de paraísos em terra para aqueles dispostos a usar o barbarismo, especialmente porque estes verão as opções de seus combatentes limitadas por essas “brechas de percepção” embutidas na racionalização usada para negar a guerra política.

Em suma, jogue a guerra política sem medo ou qualquer forma de economia. Se não conseguir jogar, por ignorância ou incompetência, é possível desculpá-lo. Mas sair defendendo, em nome de “valores morais” que as pessoas recusem o jogo político é algo que merece ser visto com desconfiança, pois defender o abandono do jogo por “questões morais” é essencialmente imoral.

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18 COMMENTS

  1. Concordo plenamente e ainda vou mais adiante: admito em nome do necessário pragmatismo na guerra política até mesmo o uso da violência letal contra os totalitários em situações limite. Em função da defesa da liberdade individual e da propriedade privada, entendo que qualquer ação se justifique, até o assassinato de quem as ameace ou agrida, em último caso.

    Assim como a guerra é a política por outros meios, a política é a guerra por outros meios.

  2. Você esqueceu de abordar a questão da guerra assimétrica. Alguns usam uma ampliação dessas situações extraordinárias para afirmar que todas as outras caem no mesmo panorama.

    Exemplo: Em uma guerra de traficantes contra policiais, o traficante pode dar um tiro em um morador inocente para distrair a ação dos policiais, mas o policial não pode fazer o mesmo.

    Quer dizer: eles usam uma situação onde o método já é imoral/anti-ético em si e dizem que todos eles são.

    Outra coisa que já ouvi foi: “quer dizer que você defende, como Gramsci, que se use a mentira em série para divulgar suas idéias e desmoralizar seus oponentes?”

    Eu disse: Não, eu defendo que se use verdades em série (técnica da !metralhadora de dados) e o desmascaramento em série como contra-ponto a essa técnica.

  3. Um exemplo interessante do que pode ser uma aplicação prática deste princípio da negação, está descrito na matéria de Roberto Pompeu de Toledo, que fecha a revista Veja desta semana. Nela, o admirador de Obama, Toledo, louva um jornalista conservador americano, Robert Brooks, por ter descrito 5 “virtudes” de Obama, entre elas justamente o “Otimismo [de Barack Hussein]. Sua postura seria um antídoto contra a “pornografia do pessimismo” exalada pelos candidatos (inclusive os Republicanos) na atual campanha.”

    Toledo, seguindo a tradição já consolidada entre os principais jornaiis brasileiros, de demonizar todo e qualquer candidato Republicano à Presidência dos EUA, ainda termina sua matéria com a seguinte gracinha – perfeitamente enquadrada nas regras de Horowitz:

    “O reconhecimento de um adversário como Brooks é a maior das homenagens a Obama. A nós brasileiros, um presidente que merece tal honraria dá muita inveja. Resta, se serve de consolo, que nossa inveja pode virar vingança, se por lá eles elegerem Trump.”

  4. Pergunta:
    Se vale jogar o jogo vencedor contra quem o usou imoralmente, vale usar a desobediência civil pacífica?
    E ainda, se a DCP, foi usada com sucesso por monstros morais como Gandhi, MLK, Mandela e Walesa, porque condená-la a priori?

  5. Luciano, o canalhão do Lula vai depor quarta-feira e os militantes esquerdistas irão defender o guru deles. Até agora não vi ninguém da oposição mencionar alguma reação sobre esse evento.

    Não seria bom dar uma ideia contra essa patifaria para aqueles que estão dormindo em relação as artimanhas do PT?

  6. Armas, jaulas etc. são AMORAIS. Mentira, calúnia e difamação (alguns métodos esquerdistas) são IMORAIS. Creio que sua comparação foi infeliz, Luciano.

    Acho válido estudar e dominar os métodos que eles usam, mas com o objetivo de desmascará-los, desmontá-los. Controle da narrativa pode ser feito dessa forma.

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