Os 11 padrões de negação da política

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Muito se escreve sobre política, muito mais na Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil. Há livros como Rules for Radicals, de Saul Alinsky, The Art of Political War e Take no Prisoners, de David Horowitz, The Real Right Returns, de Daniel Friberg e vários outros. Se buscarmos combinar análises, podemos adaptar parte do material da dinâmica social, da psicologia social e da psicologia evolutiva para complementar os métodos a serem obtidos e insights a serem absorvidos. Há muito conteúdo por aí.

Mas há uma “trava” para muitos brasileiros. Por mais que expliquemos os métodos, boa parte dos brasileiros não consegue assimilá-los. Isto acontece por uma cultura de negação da política, muito provavelmente criada no Brasil após o regime militar. Com isto, quando alguém começa a falar de métodos não demora para alguém interromper dizendo que “é impossível que façamos isso”, que “a culpa é dos políticos que não nos representam” ou que “está tudo dominado”.

Tecnicamente, em termos de dinâmica social, estes discursos representam “interrupções”. Imagine, por exemplo, que você vai começar uma sessão de treino para o próximo jogo do campeonato de futebol. Mas quando todos entram no gramado para treinar, alguém diz: “Qual a razão para estarmos aqui jogando futebol?”. E a partir daí, se interrompe o treino, por meia hora, para a pessoa discutir uma razão filosófica para o futebol. Em termos de resultado, isto é um desastre, além de completa negação da realidade. E nem sequer era o momento adequado para fazer aquilo. Mesmo assim, o treinamento foi interrompido por meia hora. Todas as ações de negação da política servem, então, como “interrupções” de ações efetivamente políticas.

Os padrões estão aqui não para demonizar seus praticantes, mas para compreendê-los e criarmos antídotos de modo que essas pessoas não interrompam as ações efetivamente políticas. Também é bom dizer que todos nós manifestamos um ou outro desses padrões vez por outra. O complicado é quando eles se transformam em uma mania e são manifestados em momentos inconvenientes em grande volume. Aqui estão, portanto, os 11 padrões de negação da política

(1) Propor algo irrealizável ou praticamente impossível

Imagine que você está em uma comunidade de Facebook discutindo como pressionar os deputados para aprovar um projeto de lei. E então alguém interrompe dizendo: “Ei, desistam disso tudo, o melhor mesmo é um sistema monárquico”. Mas como essa proposta é irrealizável (ao menos nos dias atuais) e não há nem sequer um contexto cultural adequado para professá-la, qual a razão para aventá-la em um momento de discussão de opções táticas viáveis e mais urgentes? Eu não quero dizer que um monarquista está fazendo a interrupção de caso pensado, mas este é claramente um exemplo de negação da política.

(2) Negar ou igualar as opções disponíveis

Você organiza seus amigos para pressionar os deputados do PSDB para que eles endureçam nas críticas ao PT e entrem com ações contra os bolivarianos. E, de uma hora para outra, alguém aparece dizendo “ei, desistam disso, é a estratégia das tesouras” ou “eles já fecharam tudo no Pacto de Princeton e não adianta pressionar”. Em outro momento, dizem “desistam de todos eles, pois a solução é Bolsonaro 2018”. Nada contra alguém ter preferência por votar em Bolsonaro (eu prefiro votar nele do que em um petista), mas se estamos discutindo demandas políticas envolvendo todos os parlamentares atuais, que sentido há em inserir esse tipo de comando verbal para falar de uma eleição que só vai acontecer em 2018? No mínimo é esquisito.  Por que não falar da “opção Bolsonaro” enquanto discutimos a eleição de 2018 (o que só vai acontecer daqui a dois anos) e focarmos nas opções que temos para as demandas atuais? Quanto à tese do conchavo, faltam evidências. Parece mais desculpinha para negar ou igualar as opções disponíveis para as demandas atuais.

(3) Pensar em soluções fora da política

É muito frequente vermos com que naturalidade esta opção é adotada. É como em um torneio de sedução, alguém trazer, como opção: “não conquistei ninguém, então vou estuprar”. Ou no campeonato de futebol: “estou em último lugar, o negócio é comprar o juiz”. A mente orientada ao tapetão pode encontrar racionalizações para quebrar as regras. É um pulo para justificar o abandono do jogo. O pedido por intervenção militar é este padrão clássico executado à risca. Recentemente, surgiu o pedido por “revolução civil”, mas que no fim das contas depende do exército chegar e arrumar a bagunça. Discursos assim representam o lançamento de opções “além da política”. Exatamente por isso são destrutivos em termos de motivação para as ações efetivamente políticas. Não surpreende que os adeptos deste padrão xingaram tanto os movimentos de rua, mas, depois de renegá-los oficialmente, não conseguiram levar ninguém às ruas. Elementar.

(4) Apelar ao purismo

Este fenômeno acontece tanto com conservadores, liberais e libertários. Envolve um comportamento turrão no momento de discutir as opções disponíveis, pois elas não se adequam puramente ao que você acredita. Ora, por que um libertário anarcocapitalista deve votar se ele não acredita no estado? Esse é um exemplo de purismo vindo de um libertário. O purismo, em todos os casos, é uma racionalização pela qual várias opções razoavelmente interessantes – especialmente em comparação com as opções propostas pelo seu maior inimigo – são descartadas por não serem exatamente o que você quer. Mas a política é a arte do possível em relação ao que temos. Infelizmente, o purista não pensa assim.

(5) Renegar as opções democráticas

Na política moderna, a democracia é o palco onde os jogos realmente acontecem. É onde corações e mentes são disputados por formadores de opinião de cada um dos lados. Mas o negador da política, como não gosta do jogo, diz então que o “problema é a democracia em si”. Alguns autores de direita já chegaram ao extremo de escrever teses validando esta negação, como Hans-Hermann Hoppe fez em Democracia: o Deus que Falhou. Mas a conversa é a mesma de sempre: colocar na democracia a culpa dos direitistas que se recusam a jogar o jogo. Argumentam que a “democracia permitiu a implementação de lei (a)” ou “aumento do poder do estado com (b)”. Mas isso, na verdade, não é culpa da democracia, mas de opositores que se recusaram a jogar o jogo. E quanto mais renegam a democracia, mais perderão. E enquanto isso vemos a esquerda querendo a censura e definindo isso como “democratização de meios de comunicação”. Diante disso, dá até dó de ver direitistas dizendo que “a democracia não funcionou”…

(6) Ignorar ganhos rápidos

Eu não sei se Olavo de Carvalho disse que sua proposta de criar uma “elite da alta cultura” é um projeto que se conclui só em 20 ou 30 anos. Mas já vi alguns de seus leitores dizendo: “olha, desistam das opções que temos, pois é preciso primeiro criar uma nova elite cultural”. Mas será que não podemos fazer nada até lá? Decerto podemos, mas este tipo de discurso – e deixo claro que não sei se Olavo o formatou desse jeito, podendo ser ação apenas de alguns de seus leitores – é usado para interrupção de ações atuais. Novamente retornamos à campanha virtual de Jair Bolsonaro para 2018. É uma campanha de verdade? Tomara que seja. Mas há suspeitas de que falar de uma candidatura em 2018 em pleno 2016 – enquanto temos tantas outras demandas importantes mais prioritárias, entre elas o impeachment – pode estar sendo uma forma de nublar a mente de muita gente em relação a ganhos rápidos. É bom ficar de olho, apenas, e isso não significa duvidar do candidato. Geralmente com este padrão alguém diz “deixe  a opção corrente (a) de lado, pois o importante é cuidar de (b)”. Obviamente (b) jamais é uma demanda para ser materializada em curto espaço de tempo. Sempre é algo lançado para acontecer daqui 2, 5, 10 ou até 30 anos, tempo suficiente para algumas pessoas trocarem por outra demanda e até esquecerem de quem a lançou originalmente. Como disse, é para ficarem de olho…

(7) Negar ou transferir responsabilidade

Qualquer pessoa que acesse a Internet e conhece as regras do jogo já pode pressionar candidatos e até formadores de opinião para jogarem sob os princípios da guerra política. Podemos exigir menos frouxidão de opositores da tirania, bem como exigir que os principais formadores de opinião lidos por nós usem os rótulos mais assertivos possíveis contra oponentes. Podemos também usar termos adequados e lançar shaming e ridicularização em adversários em qualquer interação virtual. Porém, de repente alguém diz: “de que adianta tudo isso se não temos partidos que nos representem?”. Esta é uma forma de transferir a responsabilidade para uma outra parte. Enquanto agentes políticos sempre temos algo a fazer. O jogo efetivamente é decidido pelos formadores de opinião, mas, em linha com aqueles que concordamos e que lutam por nossas demandas, sempre temos algo a fazer. Quanto mais pessoas assumirem a responsabilidade – especialmente nos blocos de formadores de opinião, profissionais ou amadores, e nos últimos está o segredo para a vitória – mais resultados teremos, assim como mais parlamentares e políticos em geral pressionados surgirão.

(8) Ampliar o poder do oponente

O ser humano trabalha por motivação e recompensa. Sem a motivação, não buscamos a recompensa. Mas se esta parece muito distante, então temos pouca motivação. É por isso que buscar pequenas conquistas – que levam às conquistar maiores – é positivo, pois isso mantém a motivação dos envolvidos. Mas uma forma de negar a política é dizer que seu inimigo é tão poderoso, mas tão poderoso que não pode ser vencido pelas vias políticas. Obviamente este padrão tende a justificar o desânimo absoluto, com a catarse prometida vindo a partir de soluções fora da política. Este tipo de comportamento sofreu um balde de água fria com a vitória de Maurício Macri na Argentina e, dias depois, com a vitória da oposição de Nicolas Maduro na Venezuela. Ainda assim, eles sempre retornam com novas racionalizações para dizer que nosso inimigo é onipresente e indestrutível… pelas vias politicas, é claro. Saul Alinsky disse: “Poder não é o que você tem, mas o que o seu inimigo pensa que você tem”. Com este padrão, o direitista cria uma versão inversa (e imperdoável) do lema alinskiano.

(9) Evitar clareza em demandas

Em muitos casos as demandas resultantes da negação são moralmente bizarras, dignas de vergonha alheia e, no mundo atual, praticamente indizíveis. Quais as alternativas à política? Guerra civil? Sair matando os opositores? Proibir os partidos inimigos? Exilar adversários? E em relação à guerra cultural, a alternativa é qual? Acabar com a laicidade do estado? Em muitos casos, o negador da política critica a situação atual, detalha até mesmo seus inimigos mas, sabendo que muitas de suas demandas receberiam o selo “vergonha alheia”, não propõem nada no lugar. Recentemente, participei de um debate neste blog onde uma pessoa me definia como “culpado” pela situação atual. Motivo: eu seria um “crente na democracia”. Questionei então: “qual a alternativa?”. Ele me respondeu que não tinha uma. Ora, mas se não tinha alternativa, como atacava as alternativas disponíveis? Mas lá pelas tantas ele deixou escapar que optaria por uma ditadura a la Pinochet, pois não teria os mesmos problema de “uma democracia”. Aí as coisas ficavam mais claras: ele tinha uma demanda, mas não queria ser claro por questões de vergonha até em proferi-la. Muitas vezes encontramos este padrão. Em termos de interrupção, isso é particularmente incômodo, pois falamos em demandas factíveis, que podem ser expressadas e virarem projetos políticos, mas eles as criticam, em nome de demandas que muitas vezes nem mesmo tem coragem de expressar. Vergonhoso.

(10) Endeusar a própria incompetência política

A partir do momento em que descobrimos um certo grau de inaptidão política, o ideal seria lutar para reverter a situação, nos desenvolvendo cada dia mais, adquirindo habilidade para rotular, dominar a prática do shaming, criar um pensamento orientado a frames e daí por diante. Mas para isso seria preciso aceitar a política em sua plenitude. Mas como fazer isso se algumas pessoas até criaram racionalizações para tornar a incompetência política uma espécie de “mérito”? Para isso, podem fazer confusões entre métodos e conteúdo, para dizer que jogar a guerra política é imoral. Alguns até se orgulham de serem “mais morais” por não jogarem o jogo. Mas na verdade imoral é não jogá-lo a partir do momento em que se adquire a ciência de como funciona a política. Outros dizem que “o conservador possui uma mente diferente, que não quer ver a política como um jogo”, mas a verdade é completamente diferente. Conservadores costumam ser pessoas funcionais – ou seja, que operam normalmente, sendo capazes de viver em sociedade – em todos os aspectos da vida. Podem arrumar um emprego, ter relacionamentos e daí por diante. Em todas essas questões, existe um aspecto da política cotidiana que eles sabem jogar, e caso não soubessem fracassariam em seus empregos e relacionamentos em maior quantidade do que os esquerdistas. Isso não acontece, pois eles conseguem jogar o jogo da vida. Porém, em virtude de racionalizações para negação da política – inserida em sua mente por formadores de opinião que nela não acreditam -, criaram uma incompetência especificamente no domínio do debate público. O terror  acontece quando até mesmo criam racionalizações para achar que esta incompetência, que deveria ser imperdoável, é uma espécie de mérito.

(11) Demonizar a habilidade dos oponentes

Li em um texto de Alexandre Borges sobre o quanto alguns direitistas usam a seguinte expressão: “a esquerda tem o monopólio da virtude”. Aí ele lembra: é claro, pois ela lutou por isso. Quer dizer, a esquerda assumiu a responsabilidade de conseguir o monopólio da virtude, e, com os tempos, demonstrou habilidade em conquistar vários espaços mentais, inclusive vários rótulos ótimos para eles (e péssimos para seus oponentes). Isto, em vez de envergonhar os negacionistas – que deveriam pensar “ei, então é hora de eu me mexer” – acaba gerando uma espécie de questionamento moral ao oponente. É como se seu time entrasse em campo, não quisesse aprender as regras do jogo, as ignorasse e com 10 minutos já estivesse tomando 5 a 0. Mas aí, ao invés de questionar sua inabilidade, você demonizaria a habilidade deles: “que sacanagem a deles de fazer tantos gols, não?”. Eu me lembro de um amigo que costumava expor algumas ações taticamente espertas da extrema-esquerda, dizendo: “olha só o que eles fizeram”. Fazia isso com uma espécie de indignação. E eu respondia: “mas eles tem que fazer isso mesmo, estão certos; resta a nós fazermos a nossa parte”. Nada impediria que ele usasse até o shaming contra o oponente, mas é lastimável um comportamento de “trava” para a ação. Outra ilustração está no filme Falcão Negro em Perigo, onde um soldado diz: “Eles estão atirando na gente”. O capitão retorna: “Ora, atire de volta”. Seja lá como for, com este padrão, o negacionista não apenas promove a própria incompetência política (como visto no padrão anterior), como demoniza a competência adversária. O bloqueio mental criado com isso é terrível para qualquer forma de desenvolvimento.

Em resumo, esses são os 11 padrões de negação da política, que tenho mapeado em todo esse tempo de blog, e especialmente a partir do início da campanha eleitoral de 2014. Obviamente, os padrões existem há muito tempo, e fazem parte das chagas que adquirimos por termos uma limitação de nossa conscientização política – especialmente desde os tempos do regime militar. Em nações da Europa e da América do Norte, a direita geralmente perde da esquerda no jogo (por sorte tem havido alguma evolução nos últimos tempos), mas ainda o joga. No Brasil, a coisa é pior: muitos ainda negam a própria política, executando vários dos padrões acima com uma normalidade impressionante. Obviamente, já existem alguns sinais de evolução quanto à consciência política, mas a negação prejudica terrivelmente o desenvolvimento.

O objetivo aqui não é demonizar essas pessoas, como já ressaltei anteriormente. É entender esses padrões e saber como combatê-los e neutralizá-los enquanto fazemos ações organizadas para a política. Em 13/3 teremos novas manifestações pelo impeachment de Dilma e vários movimentos e pessoas estão em apoio. Mas muitas pessoas aparecerão com padrões de negação nas comunidades focadas nesta luta. É preciso reduzir seu efeito. O negacionismo da política é inevitável e ocorre tanto na direita como na esquerda. Mas nesta última, os negacionistas ficaram relegados a partidos e organizações obscuros. Na direita, acabou se transformando em uma mania, ultrapassando qualquer cota de controle. O negócio é nos precavermos e superarmos os padrões de negação.

E aí, você acha que há algum padrão adicional a ser mapeado? Acha que novos exemplos são necessários? Argumentos e críticas construtivas são bem vindos, especialmente aqueles querendo refutar os padrões ou exemplos aqui utilizados, ou mesmo para justificar comportamentos. Objeções assim podem reforçar (ou não) este tipo de mapeamento.

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17 COMMENTS

  1. Sou monarquista. Dentro da dinâmica proposta por você, eu estaria pecando em dizer que, com o Poder Moderador, ao monarca caberia simplesmente dissolver o Parlamento e convocar novas Eleições Populares – não sem antes alguém do próprio Governo, do próprio Parlamento, ou algum notável da população fazer o pedido ao próprio monarca por vias oficiais, datado, rubricado e registrado em Orgão competente?

    Faço isso quando vejo que todos estão reclamando da morosidade do processo, seja para definir pelo impeachment, seja para negá-lo. Acho esse o momento ideal para “lembrar”, ao menos aos “direitistas” brasileiros, que o Brasil nem sempre foi essa zona e que, por muito tempo, tivemos um Sistema/Forma de Governo que era considerado um dos mais modernos e dinâmicos de sua Era.

    Além do mais, digo que – considerando a possibilidade de que o Golpe Bananeiro de 1.889 jamais tivesse ocorrido, e fôssemos um monarquia até hoje – ainda que muito provavelmente o Poder Moderador tivesse sido, com o passar dos anos, severamente diminuído em suas possibilidades práticas, eu tenho a leve impressão de que o que serviria para o Brasil atual fosse o modelo reinante no Século XIX, sem tirar nem por: tal qual um domador de leões domina suas feras.

    Eu erro em sugerir/lembrar disso tudo no momento atual? Erro em propor a Restauração da Monarquia?

    Você diz que não há um contexto cultural para nós. Ok. Mas a criação de um fica a nosso encargo. E como criá-lo sem esse tipo de ação? Além do mais, aproveitamos, os resquícios das características antropológicas do brasileiro, onde há uma aceitação, digamos, “tácita”, do monarca, de sua figura, por assim dizer, paterna.

    • Discutir a monarquia como uma possibilidade teórica e avaliar as possibilidades é uma coisa justificável. O problema é que hoje a monarquia, como possibilidade política, está muito longe. No meio dos debates atuais, trazer isso como proposta é complicado.
      Eu erro em sugerir/lembrar disso tudo no momento atual? Erro em propor a Restauração da Monarquia? Você diz que não há um contexto cultural para nós. Ok. Mas a criação de um fica a nosso encargo. E como criá-lo sem esse tipo de ação? Além do mais, aproveitamos, os resquícios das características antropológicas do brasileiro, onde há uma aceitação, digamos, “tácita”, do monarca, de sua figura, por assim dizer, paterna.
      Decerto você pode propor isso, mas não como ALTERNATIVA às lutas atuais. Um marxista retinto, por exemplo, pode idealizar a sociedade sem classes, mas ele vai aceitar várias conquistas temporárias, que não serão abandonadas porque “ainda não se implementou a sociedade sem classes”. Minha proposta é essa. Tenha você em mente o modelo ideal, devemos jogar com as opções disponíveis. Se a monarquia não faz parte do debate público, você pode até participar do início de um movimento neste sentido. Mas a “não existência de uma monarquia” não pode servir como uma razão para ignorar as lutas atuais. Se você não faz isso, ótimo, mas em alguns casos há este tipo de comportamento.

  2. A respeito do ítem seis, eu ouvi um vídeo do olavo de Carvalho, e a não ser que eu seja uma pessoa no mesmo nível de compreensão de alguns petistas que vemos por ai, o que ele disse foi que é necessária uma mudança cultural para que se alcance os objetivos relativos à redemocratização de nossa sociedade, e que para que isto aconteça, devemos nos envolver no processo de mudança desde já, ainda mais considerando que atualmente no aspecto intelectual, as lideranças de esquerda são muito mais fracas do que no passado e do nosso lado um contingente de pessoas capazes está começando a flexionar os músculos, o que por si só já é um começo. Ele tambem cita que o processo que culminou na calamidade politica de hoje no Brasil, foi iniciado a uns cinquenta anos e que a contra medida com certeza não vai ser imediata, mas já está em latência. Ele não falou com estas palavras, mas foi este o conteudo que assimilei e concordo. Tirar a Dilma, o Lula e o pt do cenário será uma grande vitória, mas limpar a sugeira que fizeram e o aparelhamento de praticamente todos os setores da atividade civil no Brasil vai tomar um tempo muito grande. É claro que a velocidade vai depender de nossas ações, do grau de objetividade e de compreensão do inimigo. Devemos estar permanentemente alertas, trabalhar as técnicas de concisão e eloquência para formar opiniões e policiar o que é ensinado para nossos filhos. Fiz isto com minhas duas filhas e hoje fazemos juntos com relação a minha neta. Pensar que eles não podem ser superados, que não temos capacidade de enfrentá-los e outras bobagens como estas só dá folego para eles. Pensar que nesta cruzada não haverá vítimas do nosso lado é uma ingenuidade. Eles arruinam reputações, eles roubam, eles mentem eles agridem e matam. Nós é que devemos ser firmes e fustigar sempre tomando a dianteira; seja no plano das ações efetivas, seja no campo intelectual. O seu comentário é muito importante como alerta e convite à reflexão. O inimigo não dorme e não tem piedade.

    • o que ele disse foi que é necessária uma mudança cultural para que se alcance os objetivos relativos à redemocratização de nossa sociedade, e que para que isto aconteça, devemos nos envolver no processo de mudança desde já

      E ele está certíssimo nisso.

      Ele tambem cita que o processo que culminou na calamidade politica de hoje no Brasil, foi iniciado a uns cinquenta anos e que a contra medida com certeza não vai ser imediata, mas já está em latência. Ele não falou com estas palavras, mas foi este o conteudo que assimilei e concordo. Tirar a Dilma, o Lula e o pt do cenário será uma grande vitória, mas limpar a sugeira que fizeram e o aparelhamento de praticamente todos os setores da atividade civil no Brasil vai tomar um tempo muito grande.

      Exato.

      O que na verdade eu critico não é essa constatação do Olavo, mas a extrapolação dessa constatação adaptada para “a luta (a) não importante, devemos focar nessa luta de longo prazo”. Já vi muitos usarem este argumento, mas não quero culpar o Olavo por isso, pois a interpretação que eu tenho dele é a mesma que a sua neste caso.

      • Bom dia Luciano. Eu costumo me colocar como um formador de opinião, em todas as ocasiões, pela argumentação ponderada e baseada em fatos. Além disto, participo das manifestações que acredito de alguma forma contribuam para que atinjamos o objetivo de reverter a situação. O importane é o que vai acontecer a longo prazo, embora o impedimento da Dilma e a prisão do Lula sejam uma grande contribuição de curto prazo a esta causa. O que não podemos é perder o foco como alguns teem feito. Falando nisto, e de uma certa forma corroborando este raciocínio, eu desde a primeira manifestação pública contra a Dilma, mantenho em meu carro pendurado no retrovisor interno um pequeno (mas visivel) carrtaz que é uma cópia do “Fora Dilma e leve o pt junto”. Diversas vezes sugeri que este artifício fosse usado e no meu caso, que produzi artezanalmente, o resultado foi muito interessante. Pessoas na rua que veem o cartaz levantam o polegar em sinal de aprovação, outras quando o carro esta estacionado, vem me cumprimentar pela iniciativa e me perguntam onde eu comprei. Explico que fiz usando a imagem que estava praticamente em todos os sites na internet, só´precisei usar a impressora e colocar no carro. Um comentário de alguem quando pela primeira vez citei o meu caso em um blog, foi de que ele não fazia igual porque tinha medo que riscassem seu carro. Devia ser pt ou então era muito medroso. Não se ganha batalhas temendo os eventuais danos do combate. Hoje vi um comentário que está sendo criado um comitê pelo impedimento da Dilma e imprimirão posters, e outras mídias para dar força ao movimento. Eu pergunto; onde estava esta gente quando tudo começou? Onde estava o MBL que não desenvolveu esta ideia desde os primórdios? Espero que a ideia frutifique, pois esta e uma forma de agir a curto prazo aglutinando simpatizantes e lembrando ininterruptamente que alcançar o objetivo, depende de ações de curto, médio e longo prazo. Não temos tempo para ficar parados. Se você quiser, por favor me envie um e-mail para que eu te envie fotos de como fiz em meu carro, ficou simples, estético e visível. Gostaria de ver todos os carros na rua com alguma alusão e apoio ao “Fora Dilma, fora pt”. Saudações.

      • Por isto eu não ataco o MBL, e até costumo levantar a bola, pois penso que eles são ativos e trabalham pelo que acreditam. Porem, sempre fica a impressão (para mim pelo menos) que eles são amadores. Por falar nisto, um outro perigo que está sempre no ar é o dos aproveitadores que tentam monopolizar este movimento em favor próprio e para causas eleitorais no futuro. Em São José dos Campos, a pessoa que estava “liderando” os trabalhos no caminhão de som – parecia mais um insuflador ou animador de programa de auditório – em dado momento pediu que quem quisesse dar alguma mensagem, que subisse no caminhão. Eu subi, e de cara o tal sujeito veio me dar instruções sob como e o que eu devia falar. Depois me pediu que lhe dissesse o que eu pretendia expor, tudo muito autoritário e personalista. Obviamente não disse textualmente qual seria a minha mensagem, mas em linhas gerais. Fiquei ao lado aguardando que fosse chamado, e para meu espanto, o tal sujeito apontou o dedo para mim, citou que eu queria passar uma mensagem e imediatamente começou a falar um monte de tolices atreladas ao meu “briefing” como se fosse meu tradutor. Minha primeira reação foi fazer um escarcel inclusive chamando o tal cara de esbirro e aproveitador, mas imediatamente me dei conta que se tal o fizesse, apareceria como agitador e ao mesmo tempo tiraria a paz da manifestação, polarizando pessoas no momento errado. então virei as costas e desci indignado do caminhão. Várias pessoas ficaram sem entender nada e assim que desci, vieram me perguntar o que ocorrera, quando então, para estas pessoas contei o que sucedera. A reação foi favorável à minha atitude mas de qualquer maneira ficou uma sombra de dúvida quanto ao “animador do caminhão. Em suma, esta luta só vai ser ganha se houver foco, se os movimentos forem de curto, médio e longo prazo, se as pessoas estiverem conscientes e separarem o joio do trigo e se tiverem espaço para manifestar suas opiniões sem a neessidade de tutela por parte de esbirros. Afinal de contas como podemos representar uma alternativa ao totalitarismo ditatorial se somos ‘literalmente barrados na rampa do caminhão de som”? Que fiquem todos atentos.

    • Quanto ao Olavo de Carvalho, que é inegavelmente um ícone desta cruzada e uma mente pensante da melhor qualidade, tambem tem seus maus momentos. De tudo que li e ouvi dele sobre o MBL, eu entendo que sua posição é de que o MBL está perigosamente se aproximando de um protagonismo que pode ser perigoso para a própria causa que defende. Todos já constatamos que os rapazes do MBL são inteligentes, articulados, com uma excelente base cultural e com talento para se comunicar. O que pode prejudicar é a hipótese de que sejam seduzidos por um apelo digamos mais comercial e que sejam manipulados pelas raposas políticas (ou será lobos(?), ou será abutres(?)) que povoam este cenário. Pessoas muito jovens podem ser traídas pelo próprio ego e pelos hormonios em ebulição, especialmente quando são inteligentes e fazem sucesso instantâneo. A arrogância, a prepotência e a soberba são um risco constante. Eu torço para que eles tenham, sucesso e não caiam na armadilha.

  3. Criar blogs, escrever, replicar, aprender, compreender, cada um tem sua maneira de expressar, pensando em melhorias para nossa sociedade. O que importa, como você mencionou, é não interessa se sua preferência seja monarquia, parlamentarismo, anarcocapitalismo, democracia quase liberal. Vamos trabalhar com as opções que temos, participar ativamente da política. As eleições municipais se aproximam. Não tem coragem de ser candidato, apoie um que compactue de suas ideias.
    Aprendi muito com o Ceticismo Político, Senso Incomum, Instituto Mises Brasil, Instituto Liberal, Olavo, Bolsonaro,Instituto Plínio Correia, Padre Paulo Ricardo, e escritores como Ayn Rand, Ludwig von Mises, Milton, Constantino, e todos, com suas distintas teorias tem como objetivo a liberdade para o ser humano visando o bem para a sociedade. Portanto, mãos a obras.
    Ps: Luciano, foi lendo seu blog e os demais citados acima que resolvi fazer o meu, com o qual me loguei pra escrever. Escrevo semanalmente uma coluna no Jornal Gazeta Informativa e publico no meu blog.
    Vamos acabar com essa tirania.

  4. Esse é um dos textos mais importantes já escritos aqui, e nunca antes na história desse país como em 2016 ficou claro esses comportamentos. Direita true é especialista em todos. Esse assunto pode ser altamente desenvolvido, mas nesse texto está sintetizado tudo que é preciso saber a respeito. Quando vejo direitista true babaca falando merda e praticando esses negacionismos nem ligo, pois sei que é caso perdido, quase um petista. Agora, quando vejo alguém que é inteligente, esperto, que saca o jogo, cometendo dessas coisas, me dá um desânimo fudido mesmo. No próximo flagrante vou recomendar esse texto. Muito bom!

  5. Eu defendo o parlamentarismo, e tenho consciência de que isso implicaria a volta de uma monarquia. Por uma questão histórica, declaramos uma república presidencialista, a exemplo dos Estados Unidos, o que indiretamente significa que “em nosso país aboliram-se os privilégios de nascença e todos podem exercer a política”, essa sendo a justificativa que Tom Paine, por exemplo, oferece para sua defesa do presidencialismo e a ruptura com a monarquia inglesa nos Eua. Claro que na Europa, onde ainda existem monarquias, e no Japão passou-se a considerar o monarca como um árbitro das garantias constitucionais (em sua maioria de matiz liberal), tendo hierarquia sobre o cargo de primeiro-ministro sem, porém, interferir no governo. “Ele reina mas não governa”, e os direitos de nascença, bem como títulos de nobreza, acabam sendo acomodados em meio a um sistema democrático que se provou mais estável, enquanto o presidencialismo fortalece o poder da administração perante o povo, simplificando a relação do povo com a política mas muitas vezes confundindo-o. Não raro se encontram manifestações de desprezo ao sistema político, restringindi e igualando todas as opções (PT=PSDB) e deixando de oferecer qualquer contribuição. Nesse sentido, penso que a bipolaridade é fruto da ausência de projetos políticos dos outros partidos, que não projetam seus candidatos acima de certo patamar. O PMDB definiu que não tem como ganhar o brasileiro e se concentra em ganhar mais campeonatos estaduais e a disputar a Copa do Brasil, onde com menos jogos, se conquista a taça do ministério da Saúde e de quebra ganha a presidência das Casas Legislativas, se se portar bem. Esse caso de ausência de opções é produto da ausência de uma parcela da população na representação política. Basta ver o caso do Macri, que em 7 anos reuniu uma agremiação em torno de uma posição política que o hegemônico peronismo não abarcava. Tendo esse espaço todo para avançar, é provável que, no futuro, exista uma representação capaz de defender os interesses da população hoje ignorada e cujo voto elegeu políticos que se venderam ao poder atual. Não sei quando se poderá atingir esse objetivo, os partidos Novo e PSL, mesmo a REDE, buscam representar a parte do eleitorado cansada do domínio da esquerda católica dos anos setenta que fundaram o PT e os que fundaram o PSDB. Nossa política atual é um parcelamento que pagamos dos anos em que a Revolução Militar/3a ditadura (sendo a primeira a do golpe republicano e a segunda a de getulio) reprimiu a discussão política e santificou personalidades como FHC, Lula, Ulisses, Tancredo, Brizola dando a essas personalidades poderes messiânicos e sendo atribuídos feitos a que somente contribuíram em alguma pequena medida, e em última instância deram uma supremacia brutal em seus partidos, fazendo com que a militância nunca conseguisse ter decisão no partido. Por isso, novos movimentos terão mais espaço assim que os santos de hoje estejam desacreditados. Há razões que explicam a guinada na Argentina e me parece que uma seja a proximidade da Argentina com a Europa culturalmente e financeiramente, o que não existe em tal medida no Brasil por não termos uma unidade tão grande. Nosso capitalismo, mesmo o agro, foi sempre ligado ao Estado de modo que acaba não criando uma alternativa própria ao poder atual, muito pela forma com que os principais empresários do Brasil se enriqueceram, mais por manobras protecionistas que por melhor preço e produtividade. Porém os países se parecem na medida em que possuem grandes partes da população que não estão representadas. Parte disso explica a necessidade desse texto e os 30 milhões de nulos da última eleição. O propósito é divulgar uma cultura que valorize a ação individual e o mérito e não onde a inveja e o orgulho equalizem todos e exijam sempre mais direitos à custa dos que produzem. Que não aceite a explicação da conjuntura com poucas linhas arrogantes atribuindo a fatores externos indefinidos as causas do insucesso atual da economia (mas curiosamente não são apontados como fator para o sucesso anterior). Em suma, que as pessoas parem de replicar padrões impostos pelas autoridades políticas ou morais e sejam conscientes dos pequenos desafios que precisam superar a cada dia para que no futuro se construa algo significativo como a liberdade financeira, deixando de se preocupar com o quanto a grama do vizinho é mais verde; que não demonize o lucro e a busca de objetivos pessoais. No futuro essas pessoas não dependerão de ninguém enquanto os solidários virtuosos não hesitarão em quebrar a previdência das próximas gerações para que sua própria existência continue pródiga.

  6. Mas é claro que você combate um plano que vem sendo elaborado e realizado há MAIS DE SESSENTA ANOS com uma “ação rápida”, com “ganho rápido”. Burro.

      • Não fique brabo com Lucas, já que ele se deu o trabalho de ilustrar à perfeição, praticamente condensando numa só frase, a essência do negacionismo que você apresenta nesse soberbo texto.
        Calharia de você escrever algo, dentro dessa série, sobre o peso daquele ditado “política, futebol e religião não se discutem”, no imaginário popular, relacionado à pouquíssima participação das pessoas comuns nas discussões e ações políticas?

  7. Olá! Ótima questão. Já refleti sobre o assunto, e vou aceitar o seu convite e expor minhas impressões. Acredito que a resposta está não no pós-ditadura, mas sim na própria ditadura. Uma vez cerradas a maior parte das possibilidades de participação da esquerda na vida política institucional do país durante o regime militar, a esquerda se reorganizou debaixo para cima – experiência que ela, aliás, já tinha, uma vez que era bastante presente nos movimentos sindicais. Além dos sindicatos, ela se expressou também através dos movimentos populares, da comunidades eclesiais de base, das centrais sindicais e, em última instância da criação de um partido político, quando isto se tornou possível.

    Minha impressão – não chega a ser uma hipótese – é que as parcelas conservadoras da população nunca aprenderam a fazer nada disso porque simplesmente não tiveram que fazê-lo depois do golpe de 64. O seu ideário era defendido pelo status quo, que fazia questão de conduzir o processo politico com o mínimo de participação popular – veja-se por exemplo a recusa às eleições diretas. A militância da esquerda soube se adestrar e politizar os simpatizantes. No campo da direita, não se formou militância. Quando muito, o eleitorado conservador se mobilizou em ocasiões muito centrais, como a eleição de Fernando Collor contra Lula. Mas o jogo de defesa de seus valores e ideias era feito pela classe política profissional. Agora órfã destes partidos, esse segmento se vê obrigado a aprender as regras do jogo político – e sofre com isso. E alguns continuam achando melhor contornar o processo democrático, o que talvez reflita a lembrança de como se “jogou o jogo” antes, em 45, 54, 64, 69 etc.

    • Achei o seu um argumento bem interessante, que pode ser bastante válido., desde que se identifique as “parcelas conservadoras dentro da sociedade. Uma coisa que as esquerdas souberam fazer foi entender como funciona a mentalidade brasileira. E um dos aspectos dessa mentalidade é a facilidade com que pode ser capturada pela narrativa do mártir, do injustiçado. A ditadura colaborou involuntariamente com isso, quando torturou e sumiu com alguns presos, do que as esquerdas souberam muito bem se aproveitar. Sem esquecer que uma parte significativa da classe média dos anos 60, 70, 80, foi doutrinada nas universidades públicas. Nesse período os verdadeiros conservadores foram as famílias pobres e com pouca ou nenhuma instrução. É notável que, a partir da universalização do ensino e a maior penetração do ideário da classe média, principalmente por meio das novelas, os valores conservadores entre os mais pobres começaram a declinar rapidamente.

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