O drama do negacionismo

11
144

urso

Por todos os dias visualizamos comportamentos de negação da política. Talvez subconscientemente alguns de nós somos até capazes de identificar estes padrões comportamentais. Mas ainda não é muito fácil avaliar seus impactos. E falamos aqui de um impacto devastador.

Simplesmente, a negação da política é o maior de todos os flagelos acometendo a direita no Brasil. Muitos falam em Foro de São Paulo. Outros mencionam o patrimonialismo doentio. Ou mesmo o culto ao estado. Todos estes fatores têm sido úteis na consolidação do esquerdismo, e, atualmente, no altíssimo risco de vivermos sob uma violentíssima ditadura de extrema-esquerda. A maior parte da responsabilidade por este cenário está na negação da política.

Para compreender este dano, imagine a situação de dois técnicos de futebol vivendo situações similares. Ambos estão na segunda divisão e possuem elencos com o mesmo potencial de gerar resultados. Nos dois casos, existe a disputa por uma das quatro vagas para a primeira divisão.

Realize, agora, que durante os seis meses do certame, o técnico do time A conseguirá executar todos seus treinamentos. Algo que dure em média cerca de 40 horas semanais. Isto sem contar o tempo de concentração e as próprias partidas. Em todo este período seu time estará dedicado.

Já o time B, em nosso exemplo, vive situação completamente diferente. Seu elenco está convencido de que apenas um quarto do tempo deve ser gasto para o treinamento. Nada além de 10 horas semanais. As demais 30 horas são gastas para discutir questões como: vale a pena jogar futebol? Outros debates incluem a “filosofia do futebol” – onde eles passam a maior parte do tempo justificando a inviabilidade do jogo – e até a “escolha de esportes opcionais”. Um debate em específico é divertido: eles discutem sobre a impossibilidade de se vencer um campeonato apenas pelo treinamento e pelas regras. Para eles é preciso discutir a compra de juízes, uma vez que seus adversários “são muito poderosos”. Quase 30 horas semanais são gastas com esse tipo de discussão.

Evidentemente, sob as mesmas condições (e considerando o mesmo perfil técnico), o time A tende a ter chances muito mais consideráveis de ir para a primeira divisão. Lembre-se que eu falei de chances, e não de uma certeza. Mas com certeza o time B deve ir para terceira divisão. O fato é que o time A aceitou o código do futebol. O time B o negou.

Em outro exemplo, considere um gerente de projetos júnior – que até tenha alguma experiência – estudando para a certificação PMP. Após o treinamento em gestão de projetos, o plano de estudo requer 400 horas de estudo em um período de três meses, após o qual o aluno estará apto a fazer a prova. Com base em dados de mercado, para uma pessoa medianamente inteligente, esta carga horária parece ser suficiente.

Observe agora uma outra pessoa com a mesma experiência e tendo assistido o mesmo treinamento e com o mesmo nível de inteligência. Porém, ao invés de estudar 400 horas, ela estudará apenas 100 horas. As demais serão gastas com elocubrações questionando a viabilidade da gestão de projetos, ou até na criação de uma teoria da conspiração onde apenas pessoas que tenham pago alguma propina poderão passar. Enfim, em nome de atitude de negação, esta pessoa não concentrará os esforços necessários a caminho de um objetivo.

Não estou querendo sugerir que as negações são absurdas per se. Na verdade, quando estamos diante de um objetivo – idealizado ou apenas discutido -, teremos atitudes de negação e não há nada de errado com isso. Quando alguém decide escolher por um curso universitário, pensamentos de negação podem levar à seguinte conclusão: é melhor abandonar este curso, pois não é aquilo que desejo, em nome de um outro. O investimento de esforços em um relacionamento pode ser interrompido pela negação da vida em dois por parte deste casal, por diversos motivos. Muitas vezes as negações podem nos levar para o brejo, mas em certos casos nos levam para terra firme.

O complicômetro aparece quando falamos de negação diante de objetivos diante dos quais qualquer opção de fuga é inaceitável. Por exemplo, imagine que você está no meio da floresta caçando com amigos e, de repente, todos precisam correr inabalavelmente de um urso. Se não o fizerem, podem virar picadinho nas mãos de um animal que pode te partir ao meio com um golpe. É totalmente insano que, no meio da fuga, você pense em parar para refletir sobre “a validade filosófica de se fugir da dor” ou sobre “problematizações em relação ao direito dos ursos de terem sua caça” (você incluído). Assim, a negação é um flagelo quando ela se torna um obstáculo em relação a um objetivo do qual é inaceitável que você fuja.

Uma vez que – por vários motivos que abordaremos no curso deste ensaio – a política é inevitável, negá-la é uma estupidez. Mas visualizar este tipo de comportamento é extremamente comum. Ouvimos todos os dias pessoas dizendo que “a democracia não funciona”, que “é melhor que venha o exército mesmo” ou que “o povo não sabe votar”. Mas se a democracia não funciona, qual a opção? E será que pedir por intervenção militar – enquanto existe um mar de oportunidades para vitórias políticas mais legítimas pela frente – é uma alternativa válida em termos morais e até pragmáticos? E será que dizer que o povo “não sabe votar” não é apenas uma justificativa esfarrapada para a falta de esforços de um dos lados da guerra política? Ao longo deste ensaio ficará claro que todos estes discursos são apenas manifestações de negação da política, raramente levando a qualquer resultado positivo.

Negações sempre geram interrupções de esforço. Como já vimos antes, não há problema algum em interromper ações que não nos interessam. Mas e quando essas ações interrompem objetivos óbvios. Ou pelo menos objetivos que deveriam ser óbvios, principalmente por não termos opções além deles. Cada vez mais a observação dos eventos políticos nos mostram que negar a política é quase tão inteligente como negar a existência da noite e do dia, a solidez das pedras e a alta temperatura da água fervente. É quase como se pudéssemos dizer: “ok, você nega que a água fervente se encontra em alta temperatura?”. O resultado desta negação pode levar alguém ao hospital.

Se isto parece uma loucura é porque definitivamente é. A direita brasileira, em muitos casos, tem praticado a loucura de negar a política. Se o primeiro princípio do código da guerra política aqui proposto defende que devemos aceitar a política como ela é, manifestar atitudes de negação é o prenúncio para o desastre. Nisto, liberais, libertários e conservadores contribuem com vários de seus adeptos nos brindando com manifestações diárias desse tipo de comportamento. Desta feita, a direita gasta tempo considerável enchendo a cabeça de minhoca e interrompendo várias iniciativas para a conquista de uma verdadeira consciência política.

Para se conseguir fugir de um urso assassino, é essencial tomar a ação de fuga como algo a concentrar todos seus esforços enquanto você tiver fôlego. Para que seu time tenha chances de ser campeão da segunda divisão, com possibilidade de acesso à primeira, é preciso treinar o máximo possível. Para passar no exame PMP, o estudo deve ser transformado em sua prioridade número zero. E para obter resultados na política, é preciso aceitá-la como ela é. Negações só tendem a gerar interrupção de esforços e redução de chance de resultados. Isso jamais funcionou em qualquer aspecto da vida. Não seria diferente para a política.

Em vários países, especialmente na Europa e na América do Norte, podemos falar sobre métodos da guerra política e gerar muitos resultados. No Brasil, há um dificultador adicional – e não estou dizendo que isso não ocorre em outros países latino-americanos – em razão do altíssimo índice de negação da política. Em consequência, vemos muitas pessoas “travarem” ao falar de política. Disto não podemos tirar outra conclusão que não compreender que transformar a negação da política (por parte da direita) em um problema a ser resolvido é um de nossos principais empreendimentos. (Obviamente, existem exceções que felizmente aumentam a cada dia; mas o problema da negação ainda é gravíssimo e muito mais volumoso do que seria tolerável)

Hoje em dia, a mina de ouro da esquerda brasileira tem sido a negação da política por parte da direita. Podemos acabar com essa festa se conhecermos os padrões de negação da política, antes de começarmos a lidar com eles.

Ver post: Os 11 padrões de negação da política

Voltar para: O fim da infância política (ei, este é apenas um dos primeiros textos aqui colocados neste ensaio, mas teremos vários outros nos próximos dias)

Retornar para o índice dos ensaios da guerra política.

Anúncios

11 COMMENTS

  1. De fato, o problema do negacionismo político é muito grave no Brasil. Em vários momentos conservadores da linha direita true tem feito esse negacionismo, como os recentes artigos desse blog mostram, e outros grupos que não são esquerdistas também tem feito isso. Tenho observado um pouco do libertarianismo que me parece estar crescendo entre jovens. Posts libertários no facebook dizem que nos EUA se você vota num republicano ou democrata tanto faz porque os dois roubam você, no Brasil tanto faz PT ou PSDB, tanto faz PT ou alguém de direita como Bolsonaro e mesmo se for um liberal clássico que poderia gerar um Estado com menos impostos eles também não apoiam porque pra eles não deveria haver Estado nenhum. Eles ficam também criando um monte de mensagens falando como é legal ter um monte de armas pra se defender, que as pessoas deveriam ser livres pra usar drogas, fazer o que quiserem, etc. Criticam todos os partidos e não pensam em apoiar o mal menor, ou seja, na prática política acabam não fazendo diferença, não ajudam os candidatos de direita de fato como alguns poderiam imaginar. A única contribuição que eles dão na luta política é nas mensagens que eles divulgam criticando o socialismo, a falta de liberdade econômica, defendendo o capitalismo, pois algumas pessoas podem aprender boas idéias com isso, mas são uns negacionistas também, pois pra eles enquanto não se faz uma revolução anarquista pra abolir o Estado não interessa participar do jogo político, eles costumam dizer que não são nem socialistas nem conservadores, querem uma liberdade absoluta e por isso não apoiam nada que seja diferente disso. Além disso, existe o negacionismo dos cidadãos comuns que dizem que todos os partidos são corruptos, que nivelam o PT com PSDB e todos os outros partidos, de modo que ninguém merece ser votado, tanto faz quem estiver no poder. Parte da esquerda alimenta esse negacionismo quando, ao ser confrontados com provas irrefutáveis de corrupção do PT alardeiam que todos os partidos são corruptos e fazem isso muitas vezes colocando no mesmo nível casos comprovados e julgados de corrupção do PT com meras acusações sem fundamento de corrupção dos políticos do PSDB. Vêm um ataque contra o Lula ou Dilma e logo em seguida arrumam alguma coisa pra falar do FHC, do Aécio, do Serra, do Alckmim, etc. Se não conseguem mais dizer que são melhores, tentam pelo menos empatar o jogo. E uma vez que alguns cidadãos comuns acreditem nesse empate eles ficam desmotivados pra tentar derrubar o governo, ir numa passeata pró-impeachment, etc. Fazem isso com PMDB também, dizendo o Temer não seria melhor, o PMDB também não vale nada, etc.

  2. Luciano, temos que impedir de chegar no bolso dos militantes esquerdistas o dinheiro do brasileiro.

    Os petistas acabaram com a economia,o que hoje vejo até como uma coisa boa, pois os próprios movimentos que apoiam o PT não tem dinheiro para ir as ruas para “defender” esse (des) governo.

    É claro que eles podem tentar arrecadar grana de países aliados. Por isso o meu questionamento.

    Então faço a pergunta:

    Como fazer para impedir que o dinheiro do trabalhador brasileiro chegue às mãos dos estatistas sindicalizados para que eles não possam ficar bem aparelhados?

    • Renato,

      Precisamos de mais pragmatismo (e menos culto a totens) no momento de elaborar demandas políticas. Vou abordar isso nos textos da seção 2 e 3, principalmente, na série “O fim da inocência política’.

      Abs,

      LH

  3. Cadê a seção dos livros recomendados?
    Ps. Por que comentários não liberados ficam ocultos, e não como antes, com a mensagem “O comentário aguarda moderação”? Ao menos temos a garantia de que o comentário foi enviado, na segunda forma.

  4. O post “Os 11 padrões da negação da política” está muito bom. Na minha opinião, além de todos os pontos já mostrados , há nessas pessoas um espírito um tanto sabotador de boas tentativas, não? Basta alguém, seja do meio político ou não, mostrar um caminho para, logo em seguida aparecer uma chuva de discursos tentando desacreditar o sujeito. A minha pergunta é: o que motiva essas pessoas a agir dessa forma? É ciúme, ignorância dos fatos ou coisa pior?

Deixe uma resposta