O fim da infância política como nosso grande desafio

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O PT corre sérios riscos de sair do poder via impeachment. E esta é uma ótima notícia. Porém, isto decorrerá não por vencermos o PT no jogo político – no que ele é várias vezes superior -, mas pela demolição da economia e pelas diversas evidências descobertas de corrupção. Simples assim.

Digamos que o PT é um time adulto para a política, jogando contra crianças (e até bebês) do outro lado, que mal entendem o jogo. Porém, imagine que um raio caiu no lado do campo do PT. A partir daí, mesmo que o time adversário seja composto de crianças e bebês, ele pode conseguir fazer um gol. A possível vitória vem não de nossa habilidade – patética  e desastrosa – para o jogo político, mas de um contexto. Assim, o PT dá uma baile na oposição – toda ela, de novo é bom lembrar – em termos de guerra política. Mas o raio caiu do lado do campo eles – a demolição da economia e os escândalos de corrupção – e finalmente podemos vencer.

Quando digo que o PT possui uma frequência cerebral para a guerra política em escala três ou quatro vezes superior a da média da oposição – e aqui incluo não só a esquerda moderada, como os centristas e todos os direitistas – como podemos explicar este fenômeno? Basta compreendemos como funciona o futebol. Como todo jogo, ele possui tanto regras como uma série de preceitos fundamentais (seriam as boas práticas). A tudo isso chamamos de código do futebol. Tanto o nível como a habilidade com que esse código é internalizado na mente dos jogadores define o jogo.

Vamos definir dois times para o nosso exemplo: os Guardiões e os Legendários. (Que nomes bestas, hein Luciano? Sim, são bestas. Mas servem ao exemplo.)

Vejamos como seria um jogo dos Guardiões:

Eu não estou sugerindo que todos devem ter este nível de habilidade. Mas a velocidade com que se passa uma bola deve ser praticamente automática. Ninguém ali no campo ficou titubeando. Tudo está no subconsciente. Em questões de milissegundos as decisões são tomadas, de acordo com o código do futebol. Os times formados por adultos profissionais no futebol se diferenciam em habilidade e talento, mas quanto à frequência cerebral praticamente eles se equiparam.

Nos jogos profissionais entre adultos, ninguém interrompe as sequências de ações para discutir “será que eu passo a bola?” ou “o que será que acontece se eu meter a mão na bola?”. Não dá tempo para fazer essas coisas. Aliás, fazer isso já é o suficiente para você perder a bola. O código do futebol já deve estar internalizado na mente dos jogadores adultos profissionais.

Agora veja um outro exemplo de time de futebol pertencendo à outra categoria. Daremos a esse time o nome de Legendários, que joga como ambos os times que vemos abaixo:

É claro que isto é uma piada, fazendo parte de um dos sketches do Monty Python. Mas podemos desconstruir as cenas acima para uma situação real, onde jogadores entram em campo sem a agilidade mental para jogar futebol e em muitos casos talvez até inconscientes de que estão em um jogo. O desrespeito ao código do futebol é total.

Imagine o que acontece quando os Guardiões encaram os Legendários. É como eu disse anteriormente: só na ocasião em que um raio cai no lado do campo dos Guardiões (com o time inteiro ficando desmaiado) surge a chance para que os Legendários façam um gol. Este é nosso momento contra o PT.

Pode parecer que estou exagerando, mas é assim que as coisas correm nos dias atuais. O PT está afundando por causa da crise e da corrupção. Este é o raio que caiu do lado do campo petista. Mas por outro lado nós ainda não temos visto a oposição com agilidade mental suficiente para vencer o PT no controle de frame, no jogo de rótulos, e nas diversas táticas de ataque verbal. Foi por isso que escrevi hoje sobre Dilma lançando uma metralhadora de ótimos frames e tornando o jogo de novo emocionante.

Deveria ser motivo de vergonha para nós que eles tenham usado o rótulo “golpista” mais vezes. Bem como o rótulo “fascista”. Ou alegando estarem “em nome da democracia”. Até hoje vemos a maioria das pessoas de direita se referindo ao PT como “de esquerda” e não de extrema-esquerda. É de chorar. Decerto tivemos alguns acertos, como a criação do rótulo “isentão”, nas últimas semanas. Os movimentos democráticos de rua tem escolhido bons frames. Mas ainda assim, se observarmos a comunicação pela ótica da guerra política, a forma com que o PT se comunica ainda deveria ser vista como invejável pela direita.

Não é possível para nós criarmos uma legião de formadores de opinião que usem um linguajar político no nível adulto ainda para 2016. Mas é bem possível que façamos isso para 2018. Devemos cada vez mais exigir que as pessoas usem o shaming, controlem o frame, fiquem no ataque, falem ao coração, polarizem a questão, pensem em termos de guerra verbal e busquem ganhar o jogo da rotulagem.

Nosso desafio é tirar pessoas da direita – e os republicanos em geral – da infância política.

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