Por que nós temos a obrigação de atuar com a classe política?

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As manifestações democráticas que levaram ao afastamento de Dilma Rousseff não são apenas grandes movimentos carregando os interesses de muitos brasileiros. São também a demonstração de uma realidade cuja rejeição beira a imoralidade: se você quiser um resultado efetivo deverá não apenas pressionar os políticos profissionais, como atuar em aliança com vários deles em determinado momento.

Se isso pode parecer um contrassenso, na verdade é apenas a constatação do óbvio em um mundo civilizado. A negação da política, historicamente, só tem um resultado: a barbárie. Se não atuarmos em aliança com os políticos, iremos recorrer a quem? Aos elfos? Ao Homem Aranha? Ou ao Exército?

Devemos desconfiar daquelas pessoas falando em “rejeitar todos os partidos políticos”. É preciso questionar: o que teríamos sem a atuação dos políticos?

Pode-se dizer que muitos adeptos de Olavo de Carvalho configuram a extrema-direita brasileira. Pelo menos em um aspecto estão evoluindo politicamente: no passado muitos pediram intervenção militar para depois trocá-la por “pedidos de intervenção civil ou desobediência civil” e agora chegaram ao ponto em que pedem “Bolsonaro 2018”. Isto é claramente uma evolução, pois ao menos estão depositando suas expectativas em ações políticas. (Não que eu apoie Jair Bolsonaro, muito pelo contrário. Mas atuar ao lado de um candidato, em vez de rejeitá-los todos, é uma evolução inegável. Que evoluam ainda mais.)

Os movimentos democráticos – como MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online – resolveram pautar a classe política. Em certo momento, partiram para ações coordenadas junto aos partidos que não haviam se comprometido com o projeto totalitário de poder. Entre esses partidos estavam DEM, PMDB, PSDB e até o PP. Ponto para os movimentos democráticos, que adotaram a via da pressão sobre os políticos em um determinado momento, e ação coordenada com eles, em outro.

O caminho está aí. Tanto a pressão como a ação junto aos partidos políticos deve se tornar não uma exceção, mas um hábito. Decerto podemos reclamar dos políticos, mas somente enquanto pressionamos os políticos que já temos, especialmente em sintonia com aqueles que não estejam comprometidos com os projetos de nosso pior inimigo. Ao aceitar essa realidade, aceitamos uma das facetas mais importantes da política: o aceite da política como ela é.

Negar a atuação junto aos políticos resulta em fascismo, o que é tudo que não queremos. Mas também resulta em uma coleção de fracassos políticos, que é tudo que os maiores fascistas da história – aqueles que estão na extrema-esquerda – mais querem.

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13 COMMENTS

  1. Perfeito!

    Fica o recadinho em especial à turminha olavete que queria, como Reinaldo Azevedo sabiamente disse, que lambêssemos as botas de militares pedindo pra eles nos salvarem.

    No momento, é pressão no Michel Temer e apoio conforme ele for acertando – e, ao que parece, está.

  2. A outra face disso se chama democracia, negar a política e os seus instrumentos de expressão configura-se, tão somente , negar a expressão democrática que temos.
    Isso me faz lembrar da votação do impeachment na câmara, aqueles que não gostaram do que viram, não gostam é da representatividade parlamentar brasileira pois , gostando ou não, aqueles deputados representam suas bases e tiveram votos para tal. Ressalvando que, no atual sistema eleitoral, o voto vai primeiro para o partido e, somente depois, determina a ordem de ocupação dos cargos.

  3. E qual a sua opinião sobre o MBL lançar candidatos?
    Não sei a razão de tantas pessoas criticarem (a bem da verdade, a maior parte das críticas vem de fãs do Olavo/Bolsonaro – ai já deve ser por causa da birra que eles têm com o MBL -), até porque, na minha visão, a mudança política tem de ser feita tanto pressionando os partidos como representando o pensamento liberal no Congresso.

      • Se conseguissem fazer o papel partidário e não perdessem o foco das ações de mobilização popular seria bom, mas não dá para obedecer aos dois senhores.
        Ativismo popular e partidarismo são coisas totalmente antagônicas, especialmente num país descontrolado politicamente como o nosso.
        Uma coisa é um alinhamento focado e episódico, outra se imbricar com as legendas.
        Me admiro que você, Luciano, não enxergue isso.
        E não me admiro que isso entregue as ruas de volta aos esquerdistas.
        Panelar já aprenderam a fazer.

      • Nada a ver esta crítica. Se preciso for, a ala Olavo vai fechar com o PSC e isso não é equivocado. Não há benefício algum em deixar de atuar junto aos partidos políticos que se alinham com nossas demandas.

  4. “Não que eu apoie Jair Bolsonaro, muito pelo contrário.” Porque esta posição? É a primeira vez que leio algo deste autor e então, gostaria de saber o por que desta posição antibolsonaro. Obrigado

  5. Visão estreita do problema Luciano. Uma coisa é atuar mais proximo aos politicos profissionais, outra coisa é achar que esse modelo é o único viável.
    Se os movimentos de rua não voltarem ao lugar onde tudo começou, ou seja , as ruas, fica explicitado que são mais coniventes com as forças políticas vitoriosas no impeachment do que fomentadoras de mudanças.
    Todos sabemos que apesar do apoio que os partidos de oposição deram na derrubada do governo petista, há forte tendência progressista e fisiológica dentro de todos eles. Portanto cabe aos movimentos a pressão, especialmente dos congressistas por mudanças importantes que não dependem do executivo, pelo contrário, irão ajudá-lo.
    Que essa dicotomia de negacionistas e ativistas pragmáticos não lhe desorientem para que se torne um passivismo e protecionismo exagerado aos que lhe interessam como atores.
    By the way… sou tão Olavo quanto Reinaldo nessa história, dois líderes que acham seu umbigo os mais profundos e belos do mundo, mas que não podem manipular o ativismo como vêm fazendo. Há visões intermediárias inteligentes e eficazes além do que os dois propõem.

    • Todos sabemos que apesar do apoio que os partidos de oposição deram na derrubada do governo petista, há forte tendência progressista e fisiológica dentro de todos eles.
      Mas essa é uma premissa TUA. Quem não é purista, tem várias demandas que podem ser levadas a frente neste momento.
      Portanto cabe aos movimentos a pressão, especialmente dos congressistas por mudanças importantes que não dependem do executivo, pelo contrário, irão ajudá-lo.
      Mas é exatamente isso que eu defendo: pressão sobre parlamentares.
      Que essa dicotomia de negacionistas e ativistas pragmáticos não lhe desorientem para que se torne um passivismo e protecionismo exagerado aos que lhe interessam como atores.
      É cada grupo que define seus resultados.

  6. É muita gentileza chamar Olavo e sua turma de extrema-direita. Nem isso são.São apenas babacas ao extremo. Se Olavo tivesse um pingo de humildade reconheceria os resultados obtidos pelo trabalho do MBL e outros movimentos similares. Podem não ser perfeitos, há muita coisa para ser feita ainda, mas certamente são melhores do que as propostas sem pé nem cabeça do mestre.

  7. Vai ser muito engraçado, em 2018, no segundo turno, ver o MBL, junto com a Luciana Genro, apoiando o Aécio contra o Bolsonaro.

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