Pauta conservadora “em segundo plano” pode ser sinal de Maia para guerra política

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Como mostra o Bocão News, o novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), deve impor um freio à pauta conservadora que, segundo alguns, teria marcado a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A ideia seria evitar, num primeiro momento, a votação de projetos que “radicalizem o ambiente”, gerando confrontos em plenário. Alguns temas, como o Estatuto da Família e a proposta que dificulta a demarcação de terras indígenas, devem sair da lista de prioridades do plenário.

Leia mais, conforme entrevista de Maia à Folha:

Folha – A gestão Eduardo Cunha patrocinou uma pauta conservadora na Câmara. Como o sr. lidará com ela?

Rodrigo Maia – Neste momento de crise, a gente não pode radicalizar mais o ambiente entre governo e oposição, ou entre deputados que pensam de forma conservadora e liberal nos valores. O Brasil precisa criar um ambiente que seja mais de consenso do que de dissenso. Não quero tensionar as relações na Câmara. Vou deixar os temas que geram mais divisão e problemas para um segundo momento.

Muitos projetos que atingem minorias estão avançando, como o que dificulta a demarcação de terras indígenas e o chamado Estatuto da Família. O que pensa sobre eles?

A demarcação é um tema que está distante da minha realidade. Vou tentar equilibrar. Se deixar na mão dos meus amigos [da bancada ruralista], fica difícil… [risos]. No caso dos temas de valores da família, eu sempre tendo a votar numa posição mais conservadora. Mas acho que neste momento deve prevalecer o consenso. São poucos meses e teremos uma eleição no meio. Se a gente radicalizar nos temas, não vamos avançar para lugar nenhum.

Parte da bancada evangélica o boicotou porque o sr. apoiou, em 2006, um projeto que criminaliza a homofobia.

Foi o último grande projeto aprovado na Câmara. Isso foi usado de forma sórdida contra mim. Aquele projeto precisa ser melhorado no Senado, porque tem alguns excessos. Mas o tema da homofobia preocupa a todos, inclusive os evangélicos. Este tema está na ordem do dia porque ainda estão matando pessoas por causa da orientação sexual delas. Os evangélicos que não misturam as coisas sabem que meus votos foram majoritariamente conservadores nos últimos anos. Eu caminhei do centro para a direita.

Geralmente as terminologias são utilizadas de forma equivocada na política.

De fato o Estatuto da Família é uma pauta conservadora, enquanto a demarcação de terras indígenas nada tem de conservador. De qualquer forma, vamos considerar, a título de argumento, que as pautas sejam “conservadoras”.

Um liberal/libertário como eu não tem nada contra as lutas conservadoras. Na verdade, até o liberalismo clássico sempre defendeu a convivência entre modos de vida diferentes, incluindo o modo de vida conservador. Algumas demandas conservadoras são legítimas e respeitáveis, embora por vezes contestáveis.

Mas a grande verdade é que os conservadores ainda precisam comer mais feijão com arroz e vitaminar sua luta política. Devem adentrar a mais confrontos políticos e partir de vez para a guerra cultural, especialmente nas universidades, na mídia e no ambiente cultural em geral. Somente assim, suas pautas deixarão de ser “polêmicas” para se tornarem parte do senso comum. Há muito trabalho pela frente a ser feito pelos conservadores. A bem da verdade, há muito trabalho pela frente também para os liberais, e até para os libertários pragmáticos.

Dá para notar também que Maia adota a perspectiva da triangulação, que é jogar politicamente “batendo a carta de seus oponentes”. O governo Temer fez isso ao colocar a jurista de extrema-esquerda Flavia Piovesan na Secretaria de Direitos Humanos. Aliás, o governo petista sempre faz triangulações. Bill Clinton era um especialista nesse sentido. Usar a triangulação não é algo indesejável, mas vital na maioria dos momentos. (Triangular não é adotar toda a agenda do oponente, mas apenas parte dela, de forma a aumentar a base de apoio e quebrar narrativas adversárias)

Outro ponto elogiável na entrevista é o reconhecimento de sua mudança para um perfil de direita, ao longo dos tempos. Mas isso, na realidade, significa apenas uma abertura para pautas conservadoras e liberais, mas isso só ocorrerá ao longo do tempo de acordo com a guerra política feita fora dos círculos parlamentares. É uma guerra que acontece pela sociedade civil, a todos os momentos e oportunidades, em um ciclo de politização que deve ser ampliado a cada dia que passa. Em resumo, os participantes da sociedade civil, sejam eles conservadores ou liberais, devem ir para a guerra política sem economia.

Com isso, os itens das agendas conservadoras ou liberais voltam à pauta rapidinho. Isso não significa depositar “fé em Maia”, mas reparar que há um canal aberto ali, facilmente suscetível à pressão. Mas, antes disso, temos que fazer nosso trabalho via guerra política, em todos os ambientes.

Um socialista comprometido com o PT não iria “colocar a pauta conservadora em segundo plano”. Iria dizer que a pauta deveria ser enterrada pelo gato na raia. Ao mencionar o “segundo plano”, Maia sinalizou que o espaço está aberto para uma ação política dos interessados.

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