Se der a lógica, o golpe militar turco cai. E que venha a lição a ser aprendida.

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Algo que sempre me impressionou nos intervencionistas brasileiros – que defendem uma intervenção militar, nos moldes de 1964 – é a incapacidade de entender as funções básicas de um smartphone no contexto atual. Eles podem até saber para que serve um smartphone, mas não entendem como ele é um dos itens que mais afeta a política moderna.

Dentre as inovações de um smartphone, a mais importante para o cenário atual da guerra política é a funcionalidade de câmera (muitas vezes de boa qualidade) embutida em um aparelho com conexão à Internet.

Não existiam aparelhos assim em 1964. Naquela época, câmeras eram um luxo destinado apenas a repórteres, cineastas e diretores de TV. E conexão à Internet? Bem, naquela época nem sequer existia a Internet.

No mundo existente em 1964, portanto, não existiam câmeras por todos os lados. Elas eram raras. Nada de Internet também. Logo, o fluxo de comunicação andava em passo de tartaruga, em comparação com a velocidade de um guepardo dos dias atuais. E vai ficar ainda mais rápido. Aguardem e verão.

Ainda temos o detalhe de que o ser humano segue manifestando tendências tirânicas. A vontade por exercer o poder ditatorial existe em vários cantos. Mas em um mundo regido pelas comunicações por todos os lados, a alternativa de se obter o poder colocando tanques nas ruas deixou de ser uma opção. Criou-se então o modelo de tirania moderna, que é exatamente aquele exercido pelo PT, bem como por gente da laia de Nicolas Maduro e Cristina Kirchner.

Sai o uso de tanques na rua e entra em cena o aparelhamento do STF. Saem os mecanismos oficiais de censura (com “selo” oficial do governo em relação ao que pode ser publicado) e entram em cena o uso discricionário da Lei Rouanet e das verbas estatais de anúncios. Em suma, sai a ditadura formal e entra em cena a ditadura sutil. O modelo foi fantasticamente abordado no livro “A Escola de Ditadores”, de William Dobson, que inicialmente decidiu estudar os levantes contra ditaduras no mundo atual e terminou por encontrar novos modelos de ditaduras, muito mais sutis e ardilosos.

Nesta era existem dois princípios mutuamente excludentes para se obter o poder: pela via democrática ou ditatorial. E se alguém escolher o modelo da via ditatorial (como fez o PT), isso deverá acontecer pela infiltração em estruturas democráticas. Isso significa corromper uma democracia para convertê-la, aos poucos, em uma tirania sutil. Essa é a única opção existente no mundo moderno para se estabelecer uma ditadura. A alternativa da intervenção militar pertence ao tempo das ditaduras formais, que são cada vez mais vulneráveis à queda.

Ao optar pelo modelo de ditadura formal (colocando os tanques na rua), os militares que deram o golpe de estado na Turquia quiseram retornar a um mundo pertencente ao passado. Com isso, facilitaram a vida do governo derrubado (que deve voltar). As cenas de resistência serão compiladas e jogadas na Internet. Isso dificilmente será contido. Caso, por algum milagre, os golpistas permaneçam no poder, ficarão por lá apenas a partir de muito desgaste e derramamento de sangue. Se der a lógica, os interventores vão cair. Mas cairão porque se recusaram a olhar o mundo como ele é nos dias de hoje. Ao invés disso, visualizaram um mundo existente apenas em sua imaginação.

Vale o mesmo para aqueles poucos brasileiros que insistem em pedir intervenção militar. Eles pedem algo que ninguém é louco de lhes entregar. Os militares sabem que vivem em um mundo absurdamente diferente daquele de 1964. Pedir intervenção militar é apostar naquilo que não pode mais ser entregue. É por isso que o intervencionismo é o movimento político mais “sem futuro” da história política recente.

Na guerra política, a premissa número 1 é olhar o mundo como ele é, não como se aloja em nossa imaginação. Não se vence uma guerra a partir da visualização do cenário de combate de modo fantasioso. Apelar ao mundo de fantasia é similar a torcer para os elfos virem salvar nosso batalhão durante uma guerra. Mas de nada adianta requisitar a participação dos elfos, pois eles não existem. Pedir uma intervenção militar – inviável para um período tão interconectado como o nosso – é quase a mesma coisa.

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