19 exemplos expõem a mentira na frase “usar as armas do inimigo é se igualar a ele”

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Existem alguns dramas acometendo a direita brasileira em proporção ainda maior do que acometem as direitas da Europa e dos Estados Unidos. Um deles, já comentado amplamente por aqui, é a fé cega na crença. Outro, tão grave quanto, é a negação da política.

Negação da política significa o aceite de uma série de auto-enganos na forma de se negar a atuação política, bem como principalmente negar o código da guerra política. Por exemplo, imagine alguém que durante um jogo de futebol, no qual está sendo goleado, resolva se indignar por que o adversário está metendo a bola na rede. Ou que, enquanto ele não está conseguindo passar em um concurso, decida se indignar com a vontade que algumas pessoas possuem de passar nas provas. São armadilhas deste tipo, criadas para justificar o “não jogo” ou a “não disputa”, que definimos como a negação da política.

Tal como a fé cega na crença, a negação da política é um flagelo que incapacita boa parte da direita para o jogo político.

Vejo aqui um exemplo de negação em um post do colega Cassiano Tirapani, que é boa gente e tem algumas ideias boas. Mas essa argumentação abaixo, lançada por ele, é claramente resultante de alguns dos padrões mais graves de negacionismo da política:

Não me vejo lutando uma “guerra política” contra comunistas. Vencer a esquerda é um objetivo muito mesquinho, e vencê-la a qualquer custo é pouco nobre. Para mim os fins não justificam os meios. Mesmo porque o ganho imediato quase sempre tem um alto custo histórico. A história não faz vista grossa para nossos erros, nem ameniza o peso de nossas transgressões pelas nossas “boas intenções”. Um dos estatutos mais primários da esquerda na guerra política é a noção de que o que faz mal ao seu inimigo faz bem pra ela. A esquerda trabalha com essa noção especificamente na sua atividade de subversão, que consiste em apoiar qualquer medida destrutiva, qualquer política catastrófica, qualquer grupo radical, desde que com isso ela possa prejudicar a classe burguesa e sua democracia liberal. O apoio da esquerda ao avanço islâmico é um caso atual dessa estratégia. Ao apoiar o multiculturalismo e a imigração islâmica a esquerda pensa que está no controle de um processo que vai destruir o capitalismo, quando na verdade ela está flertando com um poder muito maior do que ela pode controlar, e que, se cumprir sua finalidade, levará ao desaparecimento não apenas da direita, mas da própria esquerda. Essa “maravilhosa” estratégia é como um blefe de mãos vazias. Foi retratada no livro de Michel Houllebecq em que a esquerda apoia o partido islâmico na disputa pelo poder na França apenas para não permitir que o Front Nacional vença a disputa. Isso é como serrar o galho da árvore em que se está sentado, pensando que vai derrubar a árvore (quando quem vai cair é você). Só porque seu adversário está apavorado com suas ações, não significa que suas ações são boas – nem moralmente, e talvez nem estrategicamente. É muito difícil lutar a guerra política sem terminar adotando o mesmo padrão moral de seu antagonista. Se você puder fazer isso, te dou meus parabéns.

Então venho aqui cobrar os parabéns por parte de Caco Tirapani, pois, com um único exemplo, toda essa análise acima se esfacela. Basta olhar a atuação policial. Eles usam as mesmas “armas” que os bandidos. E não se tornam bandidos (não por isso, ao menos). Entendendo isso, você saberá que não “se transforma” no outro se usar as mesmas armas que o outro. Ou seja, quebrar o argumento negacionista é fácil até demais.

Eu não digo que Caco Tirapani seja um mentiroso. Como já disse, eu o considero boa gente. Dá para notar que ele é bem intencionado. Mas provavelmente ele minta para si próprio. Algo como uma mentira subconsciente. O que importa é que a afirmação dizendo “usar as armas do inimigo é se igualar a ele” é mentirosa.

Mas é melhor levar isso à prova máxima. Observemos os seis princípios da guerra política, de David Horowitz, junto com uma observação moral sobre cada:

  1. Política é guerra conduzida por outros meios: Não há nada de imoral em compreender essa obviedade.
  2. Política é guerra de posição: Para compreender isso, basta estudar a estratégia do “posicionamento” (amplamente abordada por Al Ries). Todos publicitários competentes sabem disso. Não há nada de imoral.
  3. Na guerra política, o agressor geralmente prevalece: Essa é uma realidade da vida, que vale para o futebol, e até para o posicionamento em qualquer conflito. Não há nada de imoral nisso também.
  4. Posição é definida por medo e esperança: Compreender isso é compreender como o ser humano recebe os estímulos do mundo. De novo, nada de imoral nisso.
  5. As armas da política são símbolos que evocam medo e esperança: Idem ao anterior.
  6. A vitória fica do lado do povo: Basta fazer uma pesquisa e observe que isso significa buscar aquilo que irá atender à maior parcela possível do eleitorado que se aproxima de você. É insano dizer que há algo de imoral nisso.

E a coisa fica melhor quando observamos as 13 regras para táticas, de Saul Alinsky:

  1. Poder não é apenas o que você tem, mas o que o inimigo pensa que você tem. -> Aqui significa compreender, claramente, que o blefe é parte central dos confrontos humanos. Entender isso significa não viver caindo em blefes, por exemplo. Se deixar de ser vítima de blefes passar a ser imoral, então a coisa complicou.
  2. Nunca vá além da experiência de sua comunidade. -> Esta é uma boa prática que qualquer pessoa que lidere um grupo deve aplicar. Acho que imoral é não aplicar isso…
  3. Sempre que possível, fuja da experiência do seu inimigo. -> Tente se desviar dos pontos nos quais seu adversário é melhor, e foque em suas fragilidades. De novo, nada de imoral aqui.
  4. Faça o inimigo sucumbir pelo seu próprio livro de regras. -> Apontar as contradições humanas é uma arte que ajuda a expor os desonestos. Não apenas não há nada de imoral aqui, como a aplicação desta regra gera benefícios para a moral.
  5. O ridículo é a arma mais poderosa do ser humano. ->  Quem já compartilhou memes de zoeira não tem moral para reclamar desta regra. Enfim, nada de imoral aqui.
  6. Uma boa tática é uma que a sua comunidade aprecia. -> Priorizar as coisas que as pessoas mais gostam ajuda a aumentar a aderência de suas ideias. Imoral? Nem de longe.
  7. Uma tática que se arrasta por muito tempo se torna um obstáculo. -> Se algo vai se arrastando e não dá resultado, é melhor trocar por outra coisa que dê resultado. Impossível isso ser imoral per se.
  8. Mantenha a pressão, com diferentes táticas e ações, e utilize todos os eventos do período para o seu propósito. -> Isso foi feito brilhantemente na época em que as pessoas pressionaram os deputados pelo impeachment. É belo e moral.
  9. A ameaça geralmente é mais aterrorizante que a coisa em si. -> Isso tem a ver com dar alguns “sustos” em seu oponente, para intimidá-lo. Aqui pode haver alguém dizendo “ei, isso é imoral”. Mas vejam esse vídeo, intitulado The Ghost Army, mostrando que o exército aliado usou tanques falsos para enganar Hitler. Se isso não foi “imoral”, então, de novo, temos mais uma regra sem componentes “imorais”.
  10. A maior premissa para táticas é o desenvolvimento de operações que irão manter uma pressão constante na oposição -> Uma bela dica de como priorizar as ações. Novamente, sem nada de imoral.
  11. Se você produzir um efeito excessivamente negativo e profundo no oponente isso poderá se voltar contra você. -> Aqui é o seguinte: se você for pressionar e desgastar o oponente, saiba reconhecer os limites. Como alguém pode dizer que esta regra é imoral?
  12. O preço de um ataque bem sucedido é uma alternativa construtiva. -> Ou seja, se você quer (x), mas às vezes consegue metade de (x), isso pode ser uma vitória a ser comemorada entre seus pares. É só um princípio da negociação humana. Como tudo até aqui, não há nada de imoral nisso.
  13. Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o. -> Evite atacar entidades despersonalizadas. As pessoas comuns não entendem isso. Foque em pessoas, e, por tabela, ataque as demais entidades. Ao invés de atacar “o Foro de São Paulo”, foque nos líderes que pertencem à entidade. O PT, ao invés de atacar principalmente “a Câmara”, focou “no Cunha, como o líder de uma tropa”. As pessoas entendem melhor. assim. Nada de imoral aqui. É apenas uma boa prática.

Enfim, com a análise dos princípios de Horowitz e Alinsky, vimos que todos os 19 princípios não tem nada de imoral. Quem aplicar os 19 princípios acima de verdade (internalizando-os em seu subconsciente, e sem viver em negação) estará no caminho para conseguir adentrar ao jogo político de fato. Não é o suficiente para alguém se tornar um “ninja”, mas é um bom começo.

Pode-se dizer: “ah, mas e as mentiras utilizadas pelo oponente?”. Bem, isso não são táticas e métodos, mas conteúdos embutidos em métodos. Assim como a vontade de matar uma vítima inocente não é um método, mas o conteúdo para o uso de um método (no caso, os métodos são a arma e a emboscada). “Armas” e “emboscadas”, que são os métodos, não possuem nada de imoral per se.

Catastroficamente, uma boa parte da direita se confunde toda. Toma os métodos como “imorais” e por isso apanha feito criancinha da esquerda. No Brasil, a extrema-esquerda faz gato e sapato de muita gente da direita. Mas na verdade os métodos para a guerra política – que a extrema-esquerda domina – deveriam estar sendo utilizados pela direita. O que a direita deveria estar combatendo são as MENTIRAS da extrema-esquerda (e até da esquerda genérica). Mas como se recusa a assimilar os métodos da guerra política utilizados pela esquerda, simplesmente essa direita negacionista perde toda a capacidade de rebater as mentiras do oponente.

A situação está nesse pé: imagine que um capitão da polícia se recusasse a usar armas e emboscadas apenas porque os bandidos já as utilizam. E , com isso, permitem que os bandidos usem as armas e emboscadas não para proteger pessoas, mas para cometer crimes em larga escala. E aí sua capacidade de proteger os cidadãos do crime vai para o ralo. Você, acreditando “luta por justiça”, termina promovendo a injustiça e a barbárie.

Em resumo, com 19 exemplos vistos aqui, mostramos que a frase “usar as armas do inimigo é se igualar a ele” é uma das maiores mentiras que alguém de direita pode lhe contar. É ainda pior que isso: são formas negacionistas através das quais os mentirosos da extrema-esquerda encontram brechas para produzirem cada vez mais vítimas. Ao acreditar lutar “pela moralidade na política”, os negacionistas são os principais patrocinadores da imoralidade, por criarem injustificáveis colapsos mentais que impedem a única luta possível contra o barbarismo.

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14 COMMENTS

  1. E alguns casos mentir também é uma arma que pode perfeitamente ser usada para o bem.

    Quando um policial finge ser um cliente de um assassino de aluguel e o contrata para matar uma pessoa em uma casa em que ninguém mora, mas onde os policiais farão uma emboscada para pegar o assassino de aluguel, foi usada uma mentira. Mas o objetivo é incrivelmente nobre.

    Se na época em que Hitler estava cometendo genocídio contra os judeus alguém espalhasse algumas mentiras publicamente que contribuíssem para fazer com que ele fosse derrotado também seria um caso de mentir para alcançar um fim nobre.

  2. Se grupos anti-bolivarianos usarem as mesmas armas deles, não estariam infringindo a tática 6 do Alinsky? Fora esse detalhe, sinceramente, não vi antagonismo na sua posição perante a do Cassiani, mas complementaridade.

    Basicamente, o texto de Cassiani é uma explanação sobre a tática 11 do Alinsky, onde ele diz que o fim não justifica os meios porque a esquerda utiliza meios imorais, o que Alinsky alerta para que seja evitado e infringiria as táticas 2 e 6, referentes ao grupo do qual o político é membro.

    • Pedro,

      Pode até parecer que sim, mas na verdade não é. Mas as regras do Alinsky são feitas para JOGAR O JOGO. Se um grupo aprecia “não jogar”, então nem adianta falar sobre táticas com este grupo. Mas, a partir do momento em que alguém entende que está JOGANDO, que busque aí sim as coisas que mais aprecia.

      É como vários times de futebol. Cada um tem um estilo de jogo. Isso é seguir a regra 6 de Alinsky. Mas decidir não entrar em campo e jamais jogar futebol aí não seria mais uma forma de jogar.

      Abs,

      LH

  3. Concordo plenamente com o argumento de que a direita deve aprender as táticas da guerra política, que ela deve engajar-se pra valer nesta guerra.

    O problema do trecho citado, que me suscitou dúvidas a respeito do real posicionamento de Cassiano, é que ele coloca objeções – de forma abstrata, genérica e incondicional – ao engajamento na guerra política, mas dá um exemplo concreto que não dá suporte a tais objeções.

    Objeções amplas e irrestritas:

    “Não me vejo lutando uma “guerra política” contra comunistas. Vencer a esquerda é um objetivo muito mesquinho, e vencê-la a qualquer custo é pouco nobre. Para mim os fins não justificam os meios.”

    “É muito difícil lutar a guerra política sem terminar adotando o mesmo padrão moral de seu antagonista. Se você puder fazer isso, te dou meus parabéns.”

    Exemplo que ele fornece para apoiar as suas objeções:

    “Ao apoiar o multiculturalismo e a imigração islâmica a esquerda pensa que está no controle de um processo que vai destruir o capitalismo, quando na verdade ela está flertando com um poder muito maior do que ela pode controlar, e que, se cumprir sua finalidade, levará ao desaparecimento não apenas da direita, mas da própria esquerda.”

    Acho que a idéia aí é a de que existem limites para as estratégias ou táticas a serem adotadas na guerra política. Uma tática que pode levar à sua própria destruição não seria uma tática muito eficaz (vitória de Pirro). Isso, é claro, partindo da pressuposição de que as coisas seriam, realmente, da maneira como caracterizadas por Cassiano.

    Assim, fico na dúvida se Cassiano faz objeção à própria idéia de guerra política per se, ou se ele apenas rejeita o emprego de táticas ineficazes.

  4. Ayan, posso concordar com tudo, os princípios da guerra política não tem nada de imoral, mas as consequências destes princípios não poderiam ser imorais?

    Pegando como exemplo: A vitória fica do lado do povo, isso não tem nada de imoral, mas sua consequência sim. O PT dá bolsa família, algo que fez com que a maioria do eleitorado ficasse do lado da Dilma, mas é algo imoral pelo fato que para dar uma ajuda aos mais carentes, se retire dos que possuem algo. Se a direita ir por este mesmo caminho, não se tornaria uma nova esquerda, ou ainda, uma direita mentirosa que promete e quando está no poder faz diferente?

    • Na verdade, quem deu o Bolsa Família foi o FHC. Mas quem fez O MELHOR JOGO a partir do Bolsa Família foi o PT.

      Ademais, bolsa família não é um recurso esquerdista. Ele FOI ADOTADO como recurso esquerdista por maior tato político deles. Na verdade, (1) “bolsa família, sem totalitarismo” deveria ser algo da direita, enquanto (2) “bolsa família, para implementar ditadura” é o recurso da extrema-esquerda. Ao nos recusarmos a adotar (1), abrimos o terreno para o oponente implementar (2).

      Abs,

      LH

      • Sei que o bolsa família foi o FHC que deu, mas FHC por acaso é de direita? E até onde sei, ajudar a classe menos favorecida é um recurso da esquerda, redistribuição de recursos pagos por quem ganha mais. Se a direita usar essa carta, ela deixa de ser direita. Eu como conservador, não apoiaria qualquer direita que pega meu dinheiro para repassar a alguém que nem conheço. Como consequência, imoral. Obrigado pela resposta

      • Não, Leandro. Eu disse que o FHC é menos esquerdista que o PT e ainda assim usou o Bolsa Família. E outros políticos de direita ao redor do mundo não vão cortar os programas de assistencialismo.

        “Se a direita usar essa carta, ela deixa de ser direita.” <- Isso é purismo, e não passa de uma racionalização para justificar o "não jogo".
        "Eu como conservador, não apoiaria qualquer direita que pega meu dinheiro para repassar" <- Essa é uma escolha narrativa sua, que dá os resultados que você escolhe. Só depois não reclame.
        "Como consequência, imoral" <- se você acha moral o assistencialismo, então política não é para você. Tente fazer suas demandas e veja o resultado. Uma sugestão é tentar com o Bolsonaro um projeto pelo fim do Bolsa Família.

      • Desculpe, Luciano, mas você não falou que o FHC é menos esquerdista, reli até o artigo e lá não consta que você disse que FHC é menos esquerdista. Um esquerdista usar isso para mim é normal, por isso perguntei se FHC é de direita

        OK, nenhum político de direita vai cortar, nem eu faria isso num primeiro momento, seria suicídio político. O problema não está em manter,(é muito mais difícil retirar algo que pessoas já se acostumaram a ter sem fazer esforço),mas está em criar assistencialismo apenas para ganhar votos, para ganhar “o jogo”

        Não é uma narrativa minha, é uma narrativa da direita, se ela passou a adotar assistencialismo então eu estou por fora mesmo, talvez a esquerda diga que o negócio é ter menos estatais e a direita diga para ter mais estatais, não sei.

        Sim, é imoral pelo motivo que apresentei.mas talvez, você goste das cotas nas universidades. Quem sabe se a direita aumentar o número dos cotistas isso ajude a ganhar o jogo?
        Ah para quê? Nem existe direita no Brasil, só uns gatos pingados mesmo rss
        Melhor, talvez você queira ajudar os mais necessitados com seus recursos para a direita ganhar o jogo? um imposto de 50% sobre tudo que ganhar fora os que já são pagos, só para ajudar no bolsa família? Isso seria bem moral, não sairá do meu bolso rss

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