Guerra política: a morte da girafinha e os 5 estágios para a aceitação

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Por mais que o PT esteja tomando um chute nos fundilhos, dado pela realidade, há algo de que não podemos nos orgulhar: do talento político da direita para combatê-los. É claro que alguns dos movimentos de rua merecem parabéns, assim como alguns políticos já despontam como jogadores políticos. Mas na hora da guerra política, a direita em geral ainda está devendo. E muito. E se eu lhe dissesse que essa transição mental é uma moleza e que o problema se resume apenas em estágios que podem ser superados?

O grande problema do momento é a negação da política. Frases como “essa Letícia Sabatella tinha que fazer mimimi de novo”, “não aguento mais essa polarização” ou “quando será que eles vão parar de nos chamar de extrema-direita?” estão se tornando um padrão. Em suma, a direita ainda nem começou a jogar o jogo, está se defrontando com a necessidade de adquirir uma verdadeira maturidade política e já entrou em conflito interno, sempre naquele ritmo “vai ou não vai”, normalmente tendendo a dar dois passos para trás. A razão é que vivem em negação da política.

Entendo o drama pelo qual muitos estão passando. Tecnicamente, quase todo direitista é uma criança de 5 anos nas questões políticas. Muitos podem até serem pessoas plenamente funcionais para vários aspectos da vida. Mas na hora de abordar as questões da política pública, a grande maioria se torna criança na mão de adultos evidentemente mais espertos que ele.

Imagine agora a transição entre as fases de sua vida. Por exemplo, tente se imaginar com 5 anos. Em seguida, tente se imaginar com 10 anos. E depois com 15 anos. E daí por diante. Você irá notar a brutal mudança que foi ocorrendo em sua personalidade ao longo do tempo, em virtude dos acontecimentos e dos jogos aprendidos. Jogos estes, aliás, existentes em todas as interações humanas. Agora imagine se você tivesse que sair dos 5 anos de idade para a sua idade atual, em termos de mudança de personalidade. Isto sim seria uma mudança brutal.

O que precisamos hoje em dia é sair de uma idade mental de 5 anos para a política para nos transformar em adultos políticos. Isso é quase um assassinato de sua antiga personalidade, para o renascer de uma nova persona. Não há outra opção, pois o fato de os petistas agirem como adultos políticos – e notarem que seus adversários são crianças políticas, especialmente aqueles que estão em boa parte da direita – está nos forçando a fazer essa transição. É praticamente a morte de uma identidade para o renascimento de outra. Novamente: não temos outra opção. Aqueles que quiserem continuar vivendo como crianças, serão feitos de gato e sapato com cada vez mais constância. O capital político levantado tão rapidamente por Letícia Sabatella com um jogo tão bobinho – como aquele feito por ela neste fim de semana – é um exemplo de que há adultos de um lado e crianças do outro nas questões políticas.

Essa “morte” de um indivíduo para o nascimento de outro envolve, por exemplo:

  • passar a entender toda e qualquer interação humana (em questões públicas) como parte de um jogo, especialmente quando se está diante dos oponentes
  • identificar cada menor ato do oponente como instâncias de um jogo, sabendo rebatê-las, e até antecipá-las
  • pensar em termos de métodos e técnicas, como se você estivesse em um quadra de basquete ou um campo de futebol (onde o domínio de um código, envolvendo regras e boas técnicas, define quem ganha e quem perde)

Ou é isso ou esqueçam qualquer luta pelo poder. O PT pode até sair agora, mas um partido de extrema-esquerda retornará em 2018 e não não haverá nada que possa ser feito. A não ser que comecemos a transformar crianças políticas em adultos políticos em um curto espaço de tempo. Isso significa, mais uma vez, a “morte” de uma personalidade para o nascimento de outra. (Isso não ocorrerá com muitas pessoas, claro, mas os formadores de opinião de direita precisam passar por esses estágios)

É aí que entra o Modelo de Kubles-Ross, elaborado pela psicóloga Elisabeth Kubler-Ross em seu livro On Death and Dying. Na obra, de 1969, ela explicou os cinco estágios discretos passados pelas pessoas lidando com a perda ou o luto. E o primeiro estágio é nada mais nada menos que a negação. Os estágios são:

  1. Negação: “Isto não pode estar acontecendo.”
  2. Raiva: “Por que eu? Não é justo.”
  3. Negociação: “Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem.”
  4. Depressão: “Estou tão triste. Porquê vou me preocupar com qualquer coisa?”
  5. Aceitação: “Vai tudo ficar bem.”, “Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me.”

Enfim, no momento em que alguém aceita plenamente o que é a guerra política, como ela funciona e qual é o código para o jogo, ela está no estágio cinco. Um lado de sua personalidade terá morrido. Uma criança terá se tornado adulta (a não ser nos casos em que a evolução da infância política para a fase adulto foi progressiva) e aceitado várias noções da realidade sobre a política. Terá entendido como realmente funcionam as relações humanas na política, como os seres humanos reagem aos comandos do jogo, o que difere o perdedor do vencedor e por aí vai.

Mas antes disso, vários comportamentos se manifestam. E, tristemente, a negação parece o estágio em que muitos estão estacionados. Aceitar a guerra política é hoje uma opção que define se alguém quer ser caça ou caçador. Não é algo que “se escolha”. É como escolher querer viver apanhando ou passar a deixar de ser unicamente vítima das circunstâncias. Mas na “negação” muitos não conseguem perceber esta realidade tão óbvia. Aí ficam na mesma situação que a girafinha do vídeo abaixo:

No fim das contas, a própria girafinha viu que as coisas “não eram tão ruins quanto pareciam”. E não são mesmo. Quem aceitar passar da fase infantil para a fase adulta em questão de poucos meses futuramente vai pensar: “Putz, mas era só isso? Pensar em termos de guerra política era só ter aceitado algumas noções realistas sobre o mundo e a humanidade e passar a lidar com elas? Quer dizer que ter tornado a guerra de rótulos, a rotulagem e a politização extrema como parte de nossa identidade era tão tranquilo? Quer dizer que eu não virei um ‘monstrão’ depois disso?”. Sim, tudo vai ser uma moleza e muitos pensarão: como fui tão infantil na política por tanto tempo? A sensação será: por que não aceitei esta realidade antes?

Mas até lá muita negação vai se manifestar. E, na maior parte dos casos, passada a negação, outros estágios virão antes da aceitação. E depois a sensação vai ser aquela típica “mas era só isso?”. Normal.

E aí, em que estágio você está? E caso você não esteja no estágio da aceitação da política, qual sua disposição para chegar lá? É você que decide. Uma dica: ficar em negação é sempre mais sofrido do que chegar ao estágio da aceitação da política.

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