Analisando o "debate" sobre Escola Sem Partido na Folha… mas que debate?

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Como falei agora há pouco, ontem ocorreu um debate na Folha a respeito do Escola Sem Partido. Nesta quarta (4), o conteúdo foi disponibilizado. Clique aqui para acessá-lo. Bem, “debate” não é o termo adequado.

Do lado da doutrinação estavam o professor Marco Antonio (da FGV) e o diretor do Colégio Bandeirantes, Mauro Aguiar. Do lado da liberdade de aprendizado dos alunos estavam o procurador Miguel Nagib, presidente do movimento Escola sem Partido, e o professor Bráulio Matos (da UnB).

O mérito de Nagib

Sempre elogiei a proatividade de Miguel Nagib em defender sua causa da redução da doutrinação escolar, quase sempre com ótimos argumentos (embora eu possa discordar de seu projeto em um ponto ou outro). Como problema em sua atuação, noto que ele ainda manifeste a “crença no debate”, coisa que nem de longe ocorreu ali na Folha.

Decerto em vários momentos Nagib apresentou bons argumentos, mas foi rotulado tantas vezes de “autoritário” que, à exceção daqueles que já compraram sua ideia, ele não foi ouvido.

Basicamente, o combate de frames – assim foi percebido pelos doutrinadores, mas não por Miguel e Braulio – foi quase uma repetição do jogo do PT durante meses e meses. Os petistas repetiam “impeachment é golpe” e seus adversários diziam: “não, não é golpe”. O PT tem jogado melhor no que tange à linguística, mas unicamente se deu mal pois a crise foi absurda e as evidências de corrupção apareceram em ritmo avassalador. Nagib não tem toda essa moleza em suas mãos.

“O projeto é autoritário” é outro frame na linha “impeachment é golpe”

No mesmo tom em que os petistas disseram “impeachment é golpe” – pela lógica de que “repetição é a base para retenção”, como dizem os bons marqueteiros – os adeptos da doutrinação repetiram “o projeto é autoritário”. Creio que repetiram o frame cerca de três dúzias de vezes em pouco mais de 1 hora de interação.

Claro que existiram blocos de palavras no meio das rotinas, mas, para os defensores da doutrinação, os discursos eram apenas oportunidades para embutir os frames repetitivos – “o projeto é autoritário” – em quantidade suficiente para gerar retenção.

Enquanto isso, Nagib e Braulio pareciam acreditar que existia um debate – não uma guerra de frames – e argumentaram, sobriamente, dizendo que “não há nada de autoritário no projeto”. Por isso, tiveram que ficar na defensiva, posição que não mais abandonaram. Nagib e Braulio poderiam ter partido para o ataque desde o início, “congelando” os doutrinadores como abusadores de crianças e estelionatários do conhecimento. Mas preferiram permanecer em um universo que eles acreditam ainda existir: o do debate aristotélico.

Jogos psicológicos

Antes da primeira metade do debate, uma confusão aconteceu, com diversas provocações onde o adepto da doutrinação Mauro fez um jogo de cena simulando irritação, o que ainda lhe deu oportunidade de xingar Nagib de “autoritário e fascista” (sem qualquer motivo). Ocorre que a plateia se irritou com as provocações de Mauro. Ciente de estar jogando, Mauro aproveitou para xingar a plateia e ainda transferir a culpa dos protestos para Nagib.

Alinhado com Mauro, Marco Antonio ainda aplicou uma jogada de mestre: requisitou que Nagib pedisse para a plateia “se acalmar”. Se Nagib tivesse percebido a jogada, teria dito: “fale você com eles”. Mas, feito bom moço (pecado imperdoável em ambiente de guerra política), ele pediu para o público se calar. Dava para perceber que Marco Antonio ria sadicamente por perceber que Nagib mordeu a isca.

Em suma, parabéns ao Nagib por ter os melhores argumentos. Mas decerto foi decepcionante ver que ele ignorou todos os princípios da guerra política. Do lado da doutrinação, Marco Antonio fez o papel do jogador mais dissimulado, enquanto Mauro encenou o papel de bravão (cujos rótulos foram mais fortes e feitos em tom agressivo). Mas podemos dizer que a dupla pontuou sem parar.

É uma pena que a oportunidade tenha sido tão mal aproveitada por Nagib e Bráulio. Espero pelo menos que eles se sintam contentes em acreditar em um mundo no qual “apenas a mera e simples argumentação” é suficiente. Mas é evidente que este mundo já não existe mais desde o advento do material de Edward Bernays. E isso já faz quase 100 anos. E depois vieram Erving Goffman, Kurt Lewin, George Lakoff e outros. Agora é a época em que a guerra de frames decide quem será ouvido ou ignorado pela plateia neutra do debate.

Oportunidade perdida

É certo que os admiradores do Escola sem Partido saíram confiantes. Assim como os adeptos da doutrinação devem ter gostado do desempenho daqueles ao seu lado. Mas a coisa deveria ser decidida entre os neutros. Neste grupo, é bem provável que a maioria tenha ficado do lado dos adeptos da doutrinação, pois estes últimos decidiram encarar toda a interação como uma instância da guerra política. Apelaram à rotulagem, à postura de ataque e ao controle de frames sem dó nem piedade. Foi uma opção de Nagib e Bráulio atuarem como se estes aspectos da guerra política não fossem sequer dignos de serem considerados.

Decididamente, é uma pena. Quem mais perde com isso são os alunos vítimas da doutrinação escolar. Mas vamos que vamos, pois a vida segue.

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1 COMMENT

  1. O título do projeto já é um erro a meu ver. Ele acusa a escola de ser partidária, trazendo para si, desde o início, o ônus da prova. Daí a sempre eficiente defesa dos doutrinadores será a de provar que são apenas casos pontuais e bla bla bla. Muito mais eficiente seria um projeto de lei chamado “Escola Livre”, visando dar registro a escolas que queiram ensinar conteúdo diferente do MEC. Seria fácil assim taxar os opositores de autoritários e os colocaria na defensiva, e a meu ver com ganhos maiores em termos de liberdade (não impondo mais leis, e sim revogando as existentes).

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