Por que a crença em que "a verdade aparece no final" é uma ilusão que só leva ao desastre? Ou: o silêncio como derrota.

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Ainda em relação ao caso da acusação sobre Feliciano (tratada aqui e aqui), ouvi o seguinte argumento: “Não, Luciano, Feliciano não terá sua carreira demolida se lá no fim ficar comprovado que a garota mentiu”. Na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam na política. Digamos que acreditar nisso é acreditar que “a verdade aparece no final”. Vemos isso em muitos filmes, onde um personagem é tratado como culpado durante toda a projeção e, lá no fim, sua inocência é descoberta. Mas na vida real a coisa funciona sob uma dinâmica diferente.

Vamos compreender isso com um exemplo prático.

Considere duas pessoas: Roberto e Cássio. O primeiro resolve inventar a notícia: “Cássio é corno, e tenho diversas provas; aqui estão as fotos”. Não importa se as fotos exibidas por Roberto são verdadeiras ou não. Pode ser que ele tenha pego de uma garota aleatoriamente na Internet que nem é a esposa de Cássio. Agora imagine que Roberto contou essa notícia em um boteco da região, frequentado por cerca de 100 pessoas. Imagine que ele tenha falado com essas 100 pessoas numa sexta-feira.

Eis que isso chega aos ouvidos de Cássio, que descobre do que ele foi acusado. Mas ao invés de ir imediatamente ao boteco e resolver a situação, Cássio resolve praticar um ato de contrição. Fica quieto, por semanas, “até apurar os fatos”. Ao descobrir exatamente quais foram as fotos exibidas por Roberto, decide visitar o mesmo boteco, que, infelizmente, está sendo frequentado por 80 pessoas apenas. Mesmo assim, Cássio decide contar a todos a mentira de Roberto.

Mas existem alguns problemas:

  • Destas 80 pessoas, apenas metade resolveu acreditar na defesa de Cássio (preferiram ficar com a versão inicial, de Roberto, pois este ficou no ataque, e quem fica no ataque é mais “ouvido”).
  • Sobraram 40 pessoas que acreditaram em Cássio, mas há um problema: destas 40 pessoas, apenas 23 estavam na sexta-feira anterior, quando Roberto contou a mentira. Ou seja, os 17 que receberam a nova informação nem sequer sabiam do que se tratava e nem deram muita importância.
  • Dá para notar que boa parte dos que estavam na sexta-feira anterior nem estavam no boteco no dia em que Cássio foi trazer sua versão.

A conclusão é clara: decerto Cássio tinha uma verdade em mãos para refutar o que Roberto havia dito. Mas das 100 pessoas que estavam no dia do boteco, Cássio só conseguiu convencer 23. Vamos imaginar que das 77 restantes, umas 10 ou 15 não tenham acreditado em Roberto. Conte então 35 pessoas, mais ou menos, que compraram a versão da inocência de Cássio. Ainda teríamos 65 que ficaram com a versão de sua culpa, ou seja, a versão contada inicialmente por Roberto.

Em suma, de nada adianta “você ter a verdade em mãos, que vai aparecer no final” se você não tem garantias de que todos que ouviram a mentira estarão lá para ouvir sua verdade. E mesmo que todos estejam lá para ouvir sua verdade, pode até ser que alguns nem acreditem mais em você. Logo, “ter a verdade em mãos lá no final” pode ser bonito no cinema, mas na vida real é muito pouco. Na vida real, é preciso atacar rápido e de forma certeira. (Claro que é bom que no final a verdade apareça, mas o que estou dizendo é que contar unicamente com isso é pedir para ser destruído).

Ficar quieto, em seu canto, como tem feito Feliciano neste caso – independentemente de sua culpa ou inocência – é inaceitável. Politicamente é absurdo. Se ele for inocente, ainda assim essa escolha pelo silêncio – a partir da crença em que “lá no fim a verdade aparece” – é um suicídio político.

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4 COMMENTS

  1. Fez um favor a direita um dos maiores calhordas exploradores da fé e ingenuidade alheia com videos para comprovar, se sua carreira acabar e abrir espaço pra outro sem um passado sujo e condenatório, já foi uma grande melhoria.

    • — (“Fez um favor a direita um dos maiores calhordas exploradores da fé e ingenuidade alheia com videos para comprovar”).

      Quais vídeos comprovam que ele é um calhorda e explorador…?

      — (” se sua carreira acabar e abrir espaço pra outro sem um passado sujo e condenatório”).

      Por que o passado dele é sujo e condenatório?

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