Incrível: Arthur Rizzi defende o fim do estado laico. Pelo menos ele teve coragem…

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Algo sempre me incomodou na direita true brasileira: a recusa a confessar suas intenções. Por isso, sempre víamos reclamações, mas quando questionávamos sobre o que deveríamos demandar (em termos de projeto de lei), tergiversavam. É compreensível: quando há vergonha de expor suas intenções, a tendência é escondê-las mesmo.

Pelo menos Arthur Rizzi, do site Minuto Produtivo – e um adepto do olavetismo -, teve coragem de declarar suas intenções em um texto intitulado Conservador cristão defensor do estado laico é oxímoro, do qual pinço as partes mais interessantes.

[…] posso voltar meus ataques aos novos inimigos que nasceram na cena ideológica brasileira, aqueles que representam a maior ameaça à cristandade (ou ao que restou dela) no pós-petismo, os liberais e os liberais-conservadores.

[…] Não importa se você é um “liberal puro-sangue” ou um “liberal-conservador”, comparado à tradição Greco-Católica que existia na Europa antes do advento das revoluções burguesas, TODOS ELES são revolucionários.

A diferença entre ambos é que enquanto o radical quer varrer a religião da vida pública prendendo-a a esfera privada, como se fosse uma superstição primitiva, os demais queriam preservá-la como elemento de foro público mas sujeita às leis humanas.

[…] O último caso, o americano, ao dizer que todas as religiões têm valor nulo para o Estado, acaba rebaixando a Igreja Católica ao mesmo nível do satanismo e da “religião do monstro de espaguete voador”. Isso faz do Estado um ente agnóstico. Em outras palavras, no estado confessional britânico de carácter protestante e “liberal-conservador”, o rei e depois o primeiro-ministro tornaram-se papas. No segundo, o caso americano e infelizmente brasileiro, o Estado tornou-se deus.

Ora, se o Estado não deve ouvir a Igreja em matéria moral na constituição das leis, nada impede que o Estado crie leis que sejam imorais do ponto de vista religioso. Em outras palavras, a supremacia do poder secular sobre o clerical promovido tanto pelo confessionalismo protestante quanto pelo laicismo deísta ou agnóstico, respectivamente propostas majoritariamente liberais-conservadoras e liberais, são veículos de destruição da religião e de secularização progressiva da sociedade. Pois ao transformar, pelo conceito de soberania, o Estado “representativo” moderno no elemento mais poderoso que existe acima de toda e qualquer lei divina, transformou-se assim, o Estado e as leis humanas na nova fonte da moralidade social. Estatismo maior não poderia haver.

Quando um “cristão” que se diz liberal ou liberal-conservador advoga o Estado laico ou o confessionalismo protestante, ele está defendendo justamente o monstro que permite que o Estado continue com seus ataques à religião, problema que o supracitado conservador/liberal deveria temer e combater.

[…] Em outras palavras, qualquer pretensão cristã conservadora morre no instante em que se aceita a laicidade do Estado como premissa. Como, porém, os liberais-conservadores, aliados com os liberais, assumiram para si o monopólio do conservadorismo nacional, ajuntando ao seu redor protestantes, ateus, agnósticos, maçons e ícones do catolicismo liberal já condenado pela Igreja, eles têm as condições midiáticas na internet e de prestígio necessários para expulsar do clubinho conservador quem quer que conteste essa lógica liberal pretensamente conservadora.

Aqui claro está que Arthur Rizzi pede um estado confessional, que seria uma alternativa ao estado laico. De novo, parabenizo-o pela coragem de declarar algo que muitos direitistas true tentariam esconder.

Mas ele se entrega definitivamente aqui, ao dizer: Ora, se o Estado não deve ouvir a Igreja em matéria moral na constituição das leis, nada impede que o Estado crie leis que sejam imorais do ponto de vista religioso.”

Isso é praticamente o mesmo que dizer: “Ora, se não há uma organização superior definindo quem deverá ser o vencedor em uma guerra, nada impede que o lado mais imoral vença o lado mais moral em um confronto entre nações”.

Tanto uma afirmação como outra são constatações sobre a realidade, que Rizzi parece se recusar a aceitar.

Para começar, ele diz que “o Estado cria leis”. Não. São pessoas que criam leis a partir de um processo que podemos definir como guerra política.

Decerto ele pode até reclamar de leis como aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e direito ao aborto, mas ambas as leis significam apenas batalhas políticas vencidas por grupos específicos. E, a bem a verdade, foram batalhas fáceis de serem vencidas. Não há nem razão para adentrarmos à discussão aqui, pois já tratei do assunto várias vezes.

O problema poderia decorrer do uso do aparato estatal para prejudicar religiosos, e isso é realmente um problema. Neste caso, um estado laico daria margem à injustiças, segundo Rizzi. Por exemplo, temos o caso do criacionismo proibido em salas de aula. Nada de errado com essa proibição, mas no momento em que alguém pede escola sem partido, surge o butthurt. Quer dizer, não se pode tomar partido da religião cristã, mas a partidarização em nome de doutrinas antireligiosas está liberada sob o argumento fraudulento de que “é impossível ensinar sem tomar partido”.

É claro que neste caso os esquerdistas passaram a perna nos religiosos, mas não é culpa “do estado laico”, mas na falta de vontade dos conservadores religiosos – e não me incluo neste grupo político – de adentrar à esfera da guerra política.

Assim, a reclamação de Rizzi é mais uma manifestação de negação da política. Por não querer lutar a guerra política (na qual os adversários do conservadorismo religioso têm conquistado uma vitória atrás da outra), ele se limita a vislumbrar um mundo no qual o estado se torne confessional, o que evitaria o risco de ver seu grupo derrotado.

No fim das contas, em um mundo tão interconectado, ele não conseguirá recriar o estado confessional. Viverá reclamando pelos cantos, talvez para compensar o fato de sair do zero nesta batalha. Mas se Rizzi apenas se limitasse a ficar “no zero”, tudo bem. Ao usar argumentos para justificar a negação da política, ele passa a trabalhar contra qualquer projeto de luta contra o esquerdismo.

Em suma, não há problema algum para os religiosos em relação à existência do estado laico. Os religiosos devem reclamar que seus principais líderes e formadores de opinião não estão jogando os jogos políticos.

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Para adquirir o livro “Liberdade ou Morte”, você pode consultar o site da Livraria Cultura ou da Saraiva.

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11 COMMENTS

  1. O que as vaias à goleira Hope Solo nos têm a ensinar sobre guerra política?

    A aplicação das regras alinskyanas do ridículo como forma de desestabilização da atleta em campo e do uso de tática de que o grupo gosta (no caso, a zoeira brasileira), bem como a cobrança do preço pela zombaria (justa, diga-se de passagem, embora infeliz pela seriedade da doença).
    A comunicação aos atletas engraçadinhos gringos é a de que mexer com o Brasil significa perseguição da torcida, o que, em se tratando de manter a moral numa terra estranha, pode interferir negativamente no desempenho nas provas. Na prática, é dizer que ninguém, além do brasileiro, tem o direito, nem deve julgar tê-lo (alô, Bolsonaro?), de brincar com os problemas que assolam o país.

  2. Eu não entendi muito bem se a proibição do ensino do criacionismo em sala de aula foi utilizada como um exemplo “do uso do aparato estatal para prejudicar religiosos” ou da liberação da “partidarização em nome de doutrinas antireligiosas”. Se foi utilizada como exemplo disso, então com certeza não foi um bom exemplo.

    Não é possível ensinar a biologia moderna sem quebrar a espinha dorsal do criacionismo, assim como não é possível fazer omelete sem quebrar ovos. Não é uma questão de doutrinação antireligiosa, mas um efeito colateral inevitável do ensino da biologia.

    • Totalmente errado Flavio Ferreira… Robert Gentry quebrou a espinha dorsal do evolucionismo, com descobertas que colocaram um cheque no Principio Uniformitarista (halos de polonio) e no Principio Cosmologico (redshifts)…

      leia Creation Tiny Mistery, de Robert V Gentry, (argumento nao refutado ate o presente momento…) e ainda vale lembrar que Gentry é a maior autoridade nesse campo…

      o video no youtube é ‘impressoes digitais da criação’.

      A ASA tem milhares de Pos Doutores Criacionistas e Evolucionistas Intervencionistas, como Francis Collins, antigo Diretor do Projeto Genoma Humano, entao essa historia de nao poder estudar os dois lados da moeda, é mito humanista…

      Nao estou falando de criacionista bobo, do tipo, Deus fez isso assim e pronto, e sim de algum tipo de PROGRAMAÇÃO COM REGRAS como os cientistas pró intervencionismo acreditam!

      que pode ser Deus, Deuses ou Alienígenas…

    • Ola Flavio… o criacionismo é muito mal representado nos livros, pois nao ha discussao filosofica a respeito dos argumentos pró criação, seja ela por Deus ou por outros agentes inteligentes, como a Panspermia…

      de qualquer forma, o Principio Uniformitarista foi colocado em CHEQUE, por Robet Gentry com os estudos sobre os HALOS RADIOATIVOS e o Principio Cosmologico, foi colocado em CHEQUE, por ele de novo junto com os estudos de HALTON ARP sobre os redshifts…

      ou seja, autores criacionistas podem não provar o criacionismo, mas são otimos combatentes contra a FÉ CEGA de cientistas humanistas…

      Att

  3. Ayan, pare de prestar atenção á nanicos. Deu uma atenção desnecessária a uma pessoa cuja influência política é nula na direita liberal.

  4. A lógica dele está correta e coloca o dedo na ferida, dizendo algo que eu já comentei aqui outras vezes e é o cerne de nossas dificuldades: o que se chama de “direita” no Brasil não passa de uma série de grupos ideologicamente distintos e que não partem sequer das mesmas premissas ideológicas. Por isso a esquerda é unida e a “direita” não é.

    No caso, o Arthur Rizzi não é nem mesmo um conservador, mas o que se chama de “tradicionalista”, que são na política (esse termo também serve para descrever uma série de outros movimentos ideológicos, não necessariamente políticos) defensores do Estado confessional católico e que praticamente desapareceram como força política internacional após o fim dos regimes de Salazar e Franco.

    Rizzi toca numa questão fundamental, que é a falha lógica comum encontrada no conservadorismo e no liberalismo: o poder moral do Estado sobre o indivíduo. Esta é óbvia no liberalismo (defensor da liberdade religiosa e do indiferentismo religioso, o que forçosamente exigirá um Código Civil imposto pelo Estado), enquanto no conservadorismo é uma falha mais sutil, pois Burke pensou em uma espécie de “protestantismo não-confessional”, criando uma base moral mínima baseada na moral Cristã. Onde estaria o erro nesse caso? Simples: esse sistema não é aplicável em culturas não-cristãs, a não ser pela imposição estatal como os EUA fizeram ao povo japonês no pós-guerra, proibindo práticas religiosas como o culto de adoração ao imperador ou a proibição do niqab na França, Bélgica e várias cidades europeias.

    O conservadorismo e o liberalismo precisam impor regras morais por meio do Estado “de cima para baixo”, definidas por burocratas ainda que eleitos pelo povo, o que é um precedente que a História confirma ser perigoso, como a infame “Lei Seca” norte-americana e as tentativas de descriminalização da pedofilia nos anos 1970/80 na Europa, que foram barradas pelos legisladores à época mas poderiam não ter sido e nada garante serem novamente barradas no futuro. Como sanar essa contradição entre laicidade estatal e subjugação do indivíduo a um regramento moral imposto pelo Estado?

    O tradicionalismo propõe uma resposta: a completa separação do poder estatal do poder moral. Nesse modelo, temos uma Instituição internacional (Igreja Católica) que “sinaliza o caminho” (como diz Gilbert Chesterton) da boa convivência humana e defendendo premissas universais (aplicáveis a todos os adeptos, independente de nacionalidade) e inegociáveis (como os direitos à vida e à propriedade privada, inexistentes no mundo como regras absolutas antes de Jesus de Nazaré), trabalhando conjuntamente com o Estado visando a paz social e servindo de contraponto aos abusos cometidos pelos detentores do poder estatal em suas diversas vertentes (Executivo, Legislativo, Judiciário, Moderador etc.) caso este aja contra o povo. O Estado confessional católico, pela sua estruturação em forma de parceria entre ente estatal e não-estatal, tem a vantagem de ser à prova de teocratização, o que não se vê em outras crenças como no islamismo e no protestantismo, ainda que vários desses mitiguem mas não resolvam completamente o problema via parlamentarismo monárquico.

    Como fica a liberdade individual e de crença no tradicionalismo? Para esta corrente, prega-se não a liberdade mas a tolerância, que é conviver com a diferença desde que não haja agressão à Moral greco-judaico-católica definida e das premissas inegociáveis, valendo isso também para crenças políticas. Para quem nunca percebeu, foi o sistema tradicionalista que criou a primeira constituição do mundo, a Carga Magna, contribuindo sobremaneira para a evolução do controle do poder estatal, pois um dos motivos da mesma foi a agressão sistemática do Estado à premissa Cristã do direito de propriedade, que motivou a excomunhão e consequente enfraquecimento político de João sem-terra perante a nobreza e o povo inglês. Hoje, trabalhamos mais de 5 meses por anos para sustentar nosso perdulário Estado laico e sua constituição de cunho socialista fabiano imposta por burocratas à revelia do povo brasileiro, que não elegeu nenhuma Assembleia Constituinte para tal.

    • A análise é absurda, por atribuir ao liberalismo iluminista um conceito que veio do luteranismo. E de resto é a mesma análise do Conde Loppeux, atribuindo aos liberais os erros políticos dos conservadores religiosos. Na terceira parte desta série (onde só citarei os erros do Rizzi de relance) mostrarei que as culpas que você atribui ao liberalismo estão no próprio conservadorismo religioso, por se recusarem a lutar o jogo.

      Exemplo:

      Hoje, trabalhamos mais de 5 meses por anos para sustentar nosso perdulário Estado laico e sua constituição de cunho socialista fabiano imposta por burocratas à revelia do povo brasileiro, que não elegeu nenhuma Assembleia Constituinte para tal.

      Mas o que impediu os oponentes dos socialistas de lutarem? Nada.

      Observe que este tipo de erro permeia toda a análise negacionista.

      • “Mas o que impediu os oponentes dos socialistas de lutarem? Nada.”

        Sempre houveram combatentes conservadores e liberais no Brasil, diferente do que Olavo de Carvalho diz quando se acha um combatente solitário. Basta lembrarmos de Roberto Campos, Plínio Correa de Oliveira, Gustavo Corção, para ficar apenas nesses exemplos.

        Concordo que houve uma perda de espaço na imprensa, que paulatinamente vai boicotando esses pensadores seja por questões ideológicas (saída de Olavo do O Globo e do Rodrigo Constantino da filotucana Veja, este último despachado coincidentemente após se alinhar como Partido Novo) ou financeiras, como vemos hoje a influência do governo bolivariano realizada via verba publicitária e a escandalosa censura aos jornalistas do SBT, para objetivamente calar Rachel Sheherazade (no caso do bandido preso ao poste no Rio). Entrementes, a CUT se jacta desde os anos 1990 de seus trolls disfarçados de jornalistas cada vez mais ganhando espaço na imprensa.

        Hoje, a tal “onda conservadora” que tanto assusta a esquerda nada mais é do que o retorno à mídia de liberais e conservadores proporcionada pela Internet, que deu voz novamente a esses grupos e a conversas como as que estamos tendo. Se outrora a esquerda em um movimento planetário orquestrado pela União Soviética e seus satélites promoveu uma guerra de ocupação na imprensa (conceito que remonta a Trotsky), liberais e conservadores nunca tiveram uma estrutura como essa de contra-ataque, pois mesmo a Igreja Católica, que apoiava diversos “think tanks” anticomunistas e promoveu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, também sofreu infiltração comunista e viu a Ação Católica decair a ponto de ex-membros da mesma a abandonarem para criar uma organização terrorista! Com o enfraquecimento da influência política do Clero pelos comunistas infiltrados, a esquerda retirou seu principal obstáculo para o avanço sobre as universidades.

        Não concordo com os negacionistas, intervencionistas ou a turma de Olavo, que achava que 2 milhões de pessoas nas ruas (nem 1% da população) em mar/15 deixavam o povo preparado para uma “revolução pacífica”. Ainda que fossem 20 milhões não acho que seria suficiente. Agora que estamos quebrando o monopólio midiático da esquerda, temos que combater e nos organizar. Unir os anti-bolivarianos não é fácil, pois são grupos heterogêneos enquanto a esquerda é unida ideologicamente, mas temos que ganhar tempo. Não acho que estamos prontos para 2016 tampouco 2018, mas acho que podemos começar a fazer a diferença em 2022 se cada um der uma marretada no Muro de Berlim ideológico que nos cercea.

  5. É interessante observar que por “Cristandade”, essas Olavetes entedem “Catolicismo”, excluindo completamente as demais denominações cristãs, principalmente o Protestantismo (cujo ódio, Olavo e Olavetes passaram a expressar recentemente). Como Protestante, sou a favor do Estado Laico. Pouca gente sabe, mas a separação entre Igreja e Estado foi estabelecida pela Revolução Americana, pelos próprios protestantes, afim de evitar que um governo ligado à uma Igreja específica um dia viesse a se converter em uma tirania e a perseguir as demais.

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