O marxismo é a crença em esperanças aterradoras

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A direita brasileira possui dois problemas centrais, que precisam ser levados à mesa de discussão. O primeiro é a incapacidade de jogar fora a visão infantil da política, em direção a uma visão adulta. Tenho chamado isso de negacionismo da política. O segundo problema, tão grave quanto, é a fé cega na crença, fator mais presente em liberais do que em conservadores.

A fé cega na crença não tem a ver com acreditar ou não em coisas como socialismo. Em vez disso, o crente acredita que seu adversário socialista realmente acredita naquilo que ele realmente não acredita. Desta forma, ele não consegue mais visualizar seu adversário como ele é, mas, de forma paternal, percebe-o como um “coitado enganado”. Podemos definir isso como uma fé cega, pois não há indício algum de que os socialistas, por exemplo, acreditem no que dizem. Por exemplo, quando um socialista diz “eu acredito na sociedade sem classes” na verdade ele quer dizer outra coisa, em direção oposta: “eu acredito no poder que a narrativa de crença em sociedade sem classes pode me prover”. Em cima desta narrativa, o socialista emitirá truques para obtenção de poder. A forma pela qual eles se agarram ao poder, bem como escondem os crimes cometidos nessa luta, é uma das diversas provas de que eles não são “coitados enganados”, mas sórdidos dissimulados.

A fé cega na crença, tragicamente, impede que o crente veja seu adversário desta forma. A adoção de um tom compassivo o torna incapaz de prever os próximos passos esquerdistas. É por isso que hoje existe tanta gente surpresa com o aparelhamento petista da Lei Rouanet e das verbas de mídia. Para quem não possui a fé cega na crença, não há surpresa alguma.

Pense nas possibilidades: imagine que poder de predição e contenção das iniciativas totalitárias teríamos se metade dos liberais e conservadores que adotam a fé cega na crença a abandonassem por completo. Simplesmente, teríamos mentes mais preparadas para lidar com as artimanhas do outro lado. Mas uma mente que só consegue visualizar um fraudador como “coitado enganado” perde toda capacidade de previsão dos próximos passos oponentes.

Vi um texto de Thiago Kistenmacher, do Instituto Liberal, que – independentemente de seus méritos como estudioso de filosofia e literatura – comete vários lapsos nesse sentido. Insistentemente, ele parece apegado demais à crença de que seus adversários socialistas são pessoas “acreditando em esperanças vazias”. Eu não sei onde milhões (ou bilhões) de verbas estatais são “esperanças vazias”. Na verdade, são concretas até demais.

Compassivamente, Thiago diz:

A julgar pela forma como o mundo anda, quer dizer, considerando o relativismo e as causas mais absurdas que surgem a cada semana, é interessante que nos perguntemos: os sujeitos que defendem coisas como ideologia de gênero, comunismo, e mesmo a honestidade de um ex-sindicalista conhecido, realmente acreditam nisso? Talvez seja difícil acreditar, mas acreditam.

O mais duro é notar que, ao menos nos casos dos principais arquitetos dessas ideias, a realidade vai na contramão: eles não acreditam, pois não precisam acreditar. Na realidade, é melhor que não acreditem. No filme Scarface, o líder do trafico de drogas, Sosa (Robert Loggia), diz para Tony Montana (Al Pacino), que está iniciando na “profissão”: “Nunca se vicie em seu próprio produto”, que é a cocaína. Vale o mesmo para o socialismo: se você quiser ter sucesso com a obtenção do poder socialista, nunca acredite no socialismo, mas sim no poder que ele pode prover. Quem deve se “drogar” com o socialismo são os outros, sejam os militantes funcionais (que só servem como massa de manobra), como também seus adversários, que devem acreditar que você acredita de verdade no socialismo (pela fé cega na crença).

Thiago argumenta:

Dando um salto no tempo, pensemos: até que ponto um petista acredita na inocência de Dilma Rousseff? Até que ponto um militante do PSTU que vive em 2016 acredita no comunismo? Um black block que quebra ônibus na Av. Paulista realmente acredita na abolição completa da autoridade ou sabe que defende algo que não se concretizará? Em suma, uma pessoa que usufrui dos produtos oriundos da livre concorrência realmente crê que seria melhor se o Estado controlasse a economia? Ainda que pessoas digam que alguém pode ser um cachorro, ou uma árvore, por exemplo, será que ela acredita realmente nisso? Parece impossível, mas é possível.

Na verdade, só os militantes funcionais acreditam, mas, de novo, eles são apenas as peças manipuláveis no tabuleiro. Tanto Thiago deve acreditar que eles acreditam, como os militantes funcionais devem acreditar de verdade nas crenças socialistas. Mas os dois estão apenas sendo utilizados pelos mais espertos no jogo: aqueles que precisam ter ciência de que o socialismo é uma fraude, para somente então capitalizar com a fraude.

Para compreender como o método funciona basta avaliar como pensam os hackers que invadem as organizações. Não encontramos até hoje nenhum fraudador de cartão de crédito que acreditasse estar utilizando um cartão legítimo. O que ocorre novamente é o exato oposto: a ciência da ilegitimidade do cartão permite que o fraudador consiga definir os melhores métodos para cometer a fraude. Quando prevenimos as pessoas para não clicar em emails de phishing (que servem para roubar as senhas do outro), não lutamos para aprendermos a clicar em links “enviados por engano”, mas para não clicarmos em links enviados por pessoas que intencionalmente querem roubar nossas senhas.

Uma mente que não consegue entender o phishing como uma fraude para roubar senhas, não conseguirá assimilar os métodos dos fraudadores. Por isso, não conseguirá se precaver. Pessoas assim se tornam riscos organizacionais. O mais divertido é vê-las com pena do fraudador, que na verdade nem identificam como tal, achando que “os links vieram por engano”. Fica clara a razão pela qual a fé cega na crença é um colapso cerebral.

Sigamos:

De duas, uma, ou o sujeito está tão mentalmente doutrinado que acredita nisso tudo ou no fundo, sabe que é mentira, mas tenta fazer de tudo para crer. Confesso que eu mesmo me perguntava, no encontro com militantes comunistas, se eles acreditavam naquilo que estavam falando e, desgraçadamente, parecia que sim.

Na verdade, o maior esforço que existe (é um esforço descomunal) é fazer de tudo para crer que “ele realmente acredita”. A pergunta que deveria ser feita é: quem está ganhando poder com uma crença? Não é o liberal que acredita que o socialista “é um tontinho que crê no socialismo”. É o socialista, que ganha poder a partir de verbas estatais (seja via Lei Rouanet, ou atuando em sindicatos, bem como qualquer outra forma de aliança com o poder estatal). A pergunta que devemos a fazer a Thiago é: você realmente acredita que eles acreditam no socialismo? Desgraçadamente, a resposta é sim. Este é o problema que precisamos resolver.

Mais:

Disso tudo decorre dois graves problemas: se o indivíduo acredita de verdade, não vai medir esforços para concluir seus projetos megalomaníacos, todavia, se não acredita, o fato de querer acreditar pode transformá-lo num ressentido que, perdido num turbilhão de conflitos, vá para o tudo ou nada. Enfim, de qualquer forma, seres assim causam arrepios.

Não devemos nos arrepiar tanto, mas nos preparamos. Mas o fator mais assustador é a insistência de pessoas bem intencionadas como Thiago em quererem acreditar que o socialista “realmente acredita” no socialismo. Já devíamos ter ultrapassado a fase de ficar batendo cabeça com a questão “ele acredita ou não no socialismo”. Provas suficientes mostram que todos aqueles que importam, no jogo socialista, não acreditam na tese, mas no poder que a tese pode prover. A única realidade (a mais dura de todas) mostra que sempre que as instâncias de jogo socialista são ativadas, aquele que “diz crer no socialismo” sai em vantagem na frente de um oponente que acredita que o socialista “é só ilusão”.

Thiago conclui com mais compassividade ainda, com uma candura que seria até comovente:

Talvez essa seja uma questão aberta e um tanto quanto abstrata, especulativa, todavia, acreditando ou não em tudo o que pregam, o que importa é que essas loucuras realmente incomodam e ameaçam quem quer somente viver o mundo tal como ele é, livre de esperanças vazias que prometem o que a realidade, inflexível por natureza, não pode conceder.

Nada disso. O aspecto mais incômodo é que algumas pessoas de direita se recusam a ver o oponente socialista como ele é, e isso é uma das principais ameaças para aqueles que querem viver uma vida livre. A fé cega na crença impossibilita o combate ao socialismo por retirar todos os estímulos de predição diante da fraude oponente. Para criar uma fantasia reconfortante onde nosso oponente (que só adquire cada vez mais poder) é um “coitado iludido”, nos recusamos a ver os projetos de poder do adversário como eles são.

Retorno ao exemplo já utilizado no passado em relação ao custo com prostitutas. O exemplo pode parecer incômodo, mas é um potente aniquilador da fé cega na crença.

Um amigo comentou a respeito de uma “casa da luz vermelha”, que frequentava. Perguntei quanto ele pagava por programa. Ele me disse: 150 reais. Em alguns casos até 200. E no caso de uma atriz dos filmes das Brasileirinhas, 250 reais. Eu mostrei-lhe uma matéria na qual José Dirceu teve uma noite com a argentina Antonella, ex-BBB, ao custo de 30 mil reais. Questionei, em seguida: “e você é o espertão e ele o coitadinho enganado?”. Meu amigo engoliu em seco. Creio que ali surgiu uma reflexão sobre a fé cega na crença.

Thiago fala de pessoas que vivem atrás “de esperanças vazias que prometem o que a realidade, inflexível por natureza, não pode conceder”. Na verdade, o problema são as esperanças concretas, que o poder estatal certamente pode conceder. Nosso problema não está nas “esperanças frustradas” dos socialistas, mas nos sonhos que eles concretizam, traduzidos em escravidão, opressão, devastação econômica e morte.

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5 COMMENTS

  1. Luciano, no mais das vezes, o direitista que você diz ter “fé cega na crença” na verdade está tentando abrir os olhos daqueles “militantes funcionais”, que têm, sim, a crença sincera no socialismo. Uma coisa é o discurso para os militantes profissionais; outra, aquele que é dirigido aos “militantes funcionais”, que prefiro chamar de inocentes úteis.

    Quando o direitista aborda o “militante funcional” dizendo-lhe que ele não acredita na ideologia, ele simplesmente dará as costas ao direitista em questão, pois acredita sim no discurso de esquerda.

    Portanto, tanto a direita deve desmascarar os militantes profissionais como também deve mostrar ao “militante funcional” que ele está enganado, apontando-lhe as fraquezas e os crimes do socialismo real, do socialismo posto em prática.

    • os militantes funcionais sofrem lavagem cerebral todos os dias nas UNIVERSIDADES, sejam eles futuros docentes, entao farao o mesmo com os seus futuros alunos…

      o X da questão é que nessas Universidades não se estuda todos os lados da moeda, mas apenas um lado e ai que mora o problema, ora, perceba que o Keynesianismo em termos de escola economica, ocupou todas as cadeiras, praticamente todas, das IFs brasileiras… ora, cade as outras escolas economicas?

  2. Acredito que nem os militantes funcionais realmente acreditam no socialismo. Até esses peixes pequenos ganham alguma coisa, às vezes é ridiculamente pouco, mas ganham. E aquele que ainda não ganhou nada, está esperando para ganhar. Não existe socialista grátis, entender isso é questão de sobrevivência.

  3. Sei que a comparação é muito simplista mas, para efeito de comparação, acredito ser válido: quando o bandido está com a arma apontada para sua cabeça REALMENTE faz diferença se ele sabe ou não, acredita ou não, que está fazendo algo errado?

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