A extrema-esquerda venezuelana liga (e muito) para os resultados

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Em um texto recente, Rodrigo Constantino mostra aquele típico perfil direitista que deve ser compreendido, evidentemente, mas igualmente superado se quisermos ganhar um alto poder de previsão das ações do oponente, bem como conseguirmos criar uma mentalidade adequada ao verdadeiro combate.

O título do texto é “A prova de que a esquerda não liga para os resultados: Peru X Venezuela”. Inicialmente ele faz a análise correta dos efeitos (eu não diria que são os “resultados”). A Venezuela, acometida pelo socialismo, está destruída economicamente. O Peru, vivenciando lapsos de liberalismo, vive uma fase de prosperidade. A lógica dele é bem clara: o Peru tem os “resultados”, enquanto a Venezuela não os tem.

Toda a análise de Constantino adota a partir daí a fé cega na crença, que faz com que ele julgue os líderes venezuelanos pelos mesmos padrões que julga os líderes peruanos, mas isto não tem fundamento. As pessoas devem ser julgadas pelos seus objetivos, não pelos objetivos do avaliador. É por isso que um crítico de cinema não deve reclamar se uma comédia não possui sustos, ou se um filme de terror não faz rir. É preciso entender o objetivo do produtor do filme.

Pode-se argumentar que Constantino faz isso em busca de uma estética compassiva, mas este trecho é revelador:

Essa esquerda xiita, jurássica, que se recusa a aprender com os próprios erros, que insiste na defesa do socialismo em pleno século XXI, é o maior câncer político que temos de enfrentar. Pensar que ainda há tantos “professores”, “intelectuais” e artistas engajados que condenam o “imperialismo estadunidense” pelas mazelas latino-americanas, em vez de acordar para a realidade, é a prova de que nossas esquerdas não querem saber de resultados: elas necessitam da retórica vazia para sobreviver. Sua matéria-prima é o pobrismo alimentado pela vitimização. Sem isso, não resta nada.

Observe que ele usa três frames típicos da fé cega na crença:

  • “(x) se recusa a aprender com os próprios erros”
  • “(x) não acorda para a realidade”
  • “(x) não quer saber de resultados”

Quais “erros” ele vê nos líderes venezuelanos? Se for em relação ao plano de construir uma tirania e escravizar um povo, eles fizeram tudo certinho. O plano seguiu praticamente sem erros. Em relação a “acordar para a realidade”, me parece que os acadêmicos e intelectuais de extrema-esquerda estão de olhos bem abertos, e ávidos para conseguir o mesmo tipo de escravidão no Brasil. Por isso apoiam o PT, cientes do que estão fazendo.

Mas o pior frame é o terceiro, onde ele aponta que os líderes bolivarianos da Venezuela “não querem saber de resultados”. Mas resultados é o que eles mais possuem no afã de escravizar um povo. Se fôssemos fazer um torneio de escravidão de povos, teríamos que dar o troféu da América do Sul para Nicolas Maduro. Mas só poderá compreender isso quem avaliar uma comédia pela capacidade de fazer rir, ou um filme de horror pela capacidade de dar sustos. A visão adotada por Constantino é aquela que toma como “base”, por exemplo, os filmes de comédia. E a partir daí avalia um filme da série Sexta-Feira 13 e diz que ele fracassou “ao causar risos”, ou então um drama sobre doenças e diz que “é um fracasso no objetivo de fazer rir”. Agora a pergunta: quem disse que o diretor do filme de terror queria fazer rir? Quem disse que o diretor de um filme de tragédia queria que o Constantino risse?

Gosto de ler o material de Constantino, mas sei que é preciso “filtrar” alguns frames que não buscam ver os socialistas como eles são, mas apenas como projeções de sua personalidade. Daí, se os socialistas não fazem aquilo que o liberal faria, então “fracassaram”.

Se aplicássemos a mesma estética adotada por Constantino para avaliar um fraudador que vende bilhetes premiados falsos da loteria em uma cidade do interior (e que ganhou vários milhões enrolando os outros), talvez julgaríamos esse sujeito como “alguém que não aprende com os próprios erros” – caso contrário ele não teria vendido bilhetes inválidos, mas bilhetes que fossem premiados. Ou talvez alguém “longe da realidade”, pois cientes da realidade deveriam ser aquelas pessoas que compraram os bilhetes premiados, certo? Ou mesmo o fraudador seria uma besta quadrada que “não quer saber de resultados”, e por isso sempre aposta em barca furada. Mas no fim das contas quem ri de orelha a orelha é o fraudador.

Eu não digo que os líderes peruanos estão errados. Na verdade, também estão certos, tanto quanto os líderes venezuelanos. A diferença é que ambos possuem objetivos opostos. Os líderes do Peru não querem construir uma tirania, mas um país competitivo. Devem ser julgados por seu sucesso quanto a isso. Os líderes da Venezuela só querem escravizar seu povo. Para isso precisaram afugentar investidores e criar racionamento. Devem ser julgados – não moralmente, mas quanto a terem “sucesso ou não” – quanto a isso também.

Assim, quase ao inverso do que diz o texto de Constantino, a extrema-esquerda liga (e muito) para os resultados. Ela é especialmente perigosa por ter aprendido com os erros das tiranias do passado e, exatamente por isso, construiu novos modelos de tirania. Como diria William Dobson, é a tirania moderna. Acordadíssimos para a realidade, eles são rápidos na aplicação de embustes para sequestrar países inteiros. Pragmáticos ao extremo, são orientados a resultados em qualquer de suas ações. Eu concordaria com Constantino quando ele avalia que os bolivarianos são imorais até a medula. Mas eles não são obrigados a ter a mesma moral que a nossa.

Dá raiva reconhecer essa realidade? Pode ser incômodo compreender que não lutamos contra “coitadinhos enganados”? Com certeza. Mas é assim que as coisas são. Os líderes venezuelanos não precisam de nossa pena por “não conseguirem aprender com os erros” ou “não estarem acordados para a realidade” ou até “não terem bons resultados”. Na realidade, eles são astutos, focados, realistas e extremamente pragmáticos (e bem-sucedidos em seus intentos macabros). Eles não precisam de nossa peninha. Precisam de nosso combate lançado contra eles.

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4 COMMENTS

  1. Corretíssimo ! É isso que que acontecendo,não apenas por parte de criticos e formadores de opinião, mas tambem no meio da população em geral, que acredita que os petistas erraram em suas politicas e estrategias. Eu passo parte do meu tempo tentando explicar aos que me ouvem que não ha erro,ao contrario,há muito acerto nas atitudes da esquerda

    • Ou talvez ele não queira parecer um teórico da conspiração para as pessoas que se chocariam com a realidade, e por causa disso, opta por ajudar a propagação do engano socialista, na esperança vã de atrair ou tentar converter uma parcela de esquerdistas decepcionados que sofreria um choque de realidade ao descobrir que foram enganados. Ou talvez ele mesmo seja um idiota que tenha dificuldade em acreditar que o socialismo e suas variantes não passam de um modelo de fraude com poder devastador sobre sociedades inteiras, capazes de enganar e ludibriar pessoas. Vai saber o que se passa na cabeça do Constantino, não é mesmo? Quem além do próprio pra saber o que realmente se passa em sua cabeça?

      O que interessa é que, com isso, ainda que sua intenção aparentemente seja o oposto (e até o momento não tenho motivos pra duvidar disso), ele ajuda na manutenção da fraude mais bem concebida, mais ardilosa e mais perigosa já criada. Até alguns negacionistas libertários como Ubiratã Iorio se saem melhor do que ele, ao dizer claramente – ainda que em parcas e tímidas declarações – que não acredita que existam socialistas bem intencionados.

  2. É um erro de percepção que eu cometia e que outros, tanto liberais, como conservadores cometemos em achar que todo aquele desastre e misérias que a esquerda espalha seriam um erro de direção. Toda a maldade que a esquerda causa é o objetivo final.

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