Da direita negacionista que entrou no labirinto do fauno e precisa sair de lá

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Às vezes precisamos buscar na arte as melhores ilustrações para situações bizarras e complexas vistas em nosso cotidiano, como, por exemplo, o comportamento de uma parte da direita negacionista que – em nome de suas atitudes de negação à política – cria mundos imaginários para julgar as questões reais pelas regras deste mundo alternativo.

Pode nos ser muito útil relembrar o ótimo filme “Labirinto do Fauno” (Pan’s Labyrinth, de 2006), dirigido por Guillermo del Toro. Relembremos o trailer:

O filme traz a história de uma garota, Ophelia, que sofre o diabo nos tempos da ditadura franquista. Sua mãe é esposa do capital Vidal, que a faz sofrer feito cão. Vidal é um sádico, cuja crueldade é descarregada não apenas em sua mãe, mas principalmente em Ophelia, principalmente pelo fato de ela não ser sua filha.

Há algumas formas de se entender o filme. Uma é como uma alegoria sobre um mundo fantástico, onde Ophelia é uma princesa que fugiu do submundo, no qual predomina a magia, com seres fabulosos. Eles retornariam para ajudá-la a se livrar do mal em Terra. A segunda maneira de entender a história é pela abordagem mais realista: Ophelia criou um mundo imaginário em sua mente para fugir dos horrores abatidos sobre ela na realidade. Como aqui sempre se adota o realismo, vamos utilizar essa segunda interpretação.

Acontece praticamente o mesmo com muitos direitistas, sejam de tom conservador, liberal ou libertário. Alguns deles criam mundos imaginários para julgar o mundo real, perdendo a conexão com as lutas da realidade. Vivem como Ophelia no labirinto do fauno.

Por exemplo, quando escrevi sobre a proibição de celulares em salas de aula, alguns conservadores disseram: “está certo, tem que proibir mesmo, sala de aula é lugar de estudar”. Mas no mundo real a sala de aula se tornou local de doutrinação ideológica dos inimigos dele. Já não é mais “lugar de estudar” há muito tempo, especialmente nas escolas públicas. A permissão da filmagem de aulas poderia até reduzir a ação dos inimigos da democracia. Mas o sujeito criou o mundo imaginário onde “os professores são bem intencionados, que só querem dar aulas, e serão atrapalhados por celulares”. Eis a Ophelia, quase com lágrimas escorrendo de seus olhos, de emoção.

Na mesma questão, um libertário apareceu no Facebook e disse que “nada deveria ser feito contra a proibição de celulares, pois o ideal é lutar pelo mundo sem estado”. No mundo imaginário criado por este sujeito, a questão da “eliminação do estado” já está sendo discutida, quando na verdade nem de longe ela é aventada. Em troca deste mundo imaginário (onde a discussão sugerida por ele estaria acontecendo) ele deixaria a luta real contra a doutrinação “de lado” para focar na “verdadeira luta”: a eliminação definitiva do estado. Ophelia se empolga de novo.

E ainda temos, em outras abordagens do Escola sem Partido, alguns liberais que, para negar a doutrinação, falaram que o projeto “impede o debate”. No mundo imaginário criado por este liberal, aquilo que chamamos de doutrinação é apenas “instância de debate em salas de aula”. Sendo, assim, o “debate” nunca é o problema. O liberal Joel Pinheiro da Fonseca utiliza narrativas aventando a esse mundo imaginário: um mundo no qual não há doutrinação opressiva, abuso estudantil, estelionato educacional e abuso de alunos em salas de aula, mas apenas “professores debatendo”. Claro que ele precisa ignorar a realidade: uma na qual o aluno que discorde sofre sanções de diversos tipos, o que é o problema mais grave. Mas no mundo de Ophelia isso não faz a menor diferença: Joel crê que “no debate” tudo se resolve.

Fora da questão relacionada ao Escola sem Partido, preciso citar apenas um exemplo, dentre dezenas passíveis de serem elencados.

Em meu livro “Liberdade ou Morte”, citei o comportamento bizarro de alguns liberais que reagiram com “euforia” após o corte de verbas estatais da Revista Veja no final de 2014. Na época, a revista lançou uma capa dizendo que “Lula e Dilma sabiam de tudo” quanto ao Petrolão. Após as eleições, o governo cortou verbas estatais de anúncio da publicação. Alguns liberais disseram: “que bom, assim a revista fica mais isenta” e até “somos liberais, logo acreditamos que uma revista que lemos não deve receber verbas estatais mesmo”. Porém, no mundo real nem de longe existe a discussão sobre a eliminação de vez das verbas estatais de anúncios de todas as publicações. Claro que seria interessante que as verbas estatais da Veja fossem cortadas, mas somente se o mesmo ocorresse com todas as publicações. Caso contrário, haverá uma disparidade, sempre em favor da extrema-esquerda. No mundo real, o melhor é lutar para que as verbas estatais de anúncios sejam distribuídas de modo isonômico, para que, daqui a algumas décadas, possamos discutir a eliminação por completo dessas verbas estatais. Mas ao ficar até “comemorando” pela retirada de verbas de uma publicação em específico, essa direita liberal comprou a narrativa da extrema-esquerda. Claro que sua emoção foi, como sempre, instrumentalizada pelos socialistas. Mas Ophelia não se preocupa tanto com o mundo real, não é mesmo?

O que se percebe é um fenômeno percorrendo todos os padrões da negação da política: a busca de se ignorar a realidade, na criação de mundos imaginários. Note que não há problema algum em ter um ideal imaginário, como “a sociedade mais livre” ou “a sociedade mais justa”. Ideais servem como motivação para conquistas futuras. O problema aqui é criar um mundo imaginário para julgar os eventos de um mundo real, o qual estaria em desconexão com esse mundo imaginário. Ao ignorar os eventos do mundo real, em troca do conforto de uma fantasia, ignoramos as lutas reais. A partir daí, somos instrumentalizados pelo nosso inimigo com facilidade impressionante.

“O Labirinto do Fauno” é um filme belíssimo, principalmente se o avaliarmos de uma forma realista. É a história de uma menina que encontrou em sua loucura uma fuga dos horrores reais. Mas sua história real é trágica. A fuga da realidade ajudou a consolidar sua tragédia. Para muitos direitistas, o adorno do negacionismo com fugas da realidade – geralmente manifestada na criação de mundos imaginários para julgar as lutas da realidade, o que sempre induz ao erro – só tem a destruir a própria direita.

Talvez seja como ocorreu com Ophelia. O inimigo, representado pela extrema-esquerda, tem vencido tantas batalha que provavelmente o melhor, para alguns direitistas, seja fugir para um mundo imaginário mesmo. Mas isso não é factível: a fuga para mundos imaginários só pode gerar alguns resultados para algumas crianças, pois muitas vezes existem adultos para protegê-las. E nem mesmo Ophelia, no filme, teve essa sorte. Para os adultos, ninguém virá protegê-los por fugir da realidade. Para a direita, o melhor mesmo é que ela fuja do labirinto do fauno e passe a encarar o mundo como ele é no momento de decidir suas lutas.

Em tempo: a música acima é “Real World”, feita pelo Queensryche em 1993 para o filme “Last Action Hero” (O Último Grande Herói). Também é um filme sobre fuga da realidade, e muito mais divertido e menos depressivo que “O Labirinto do Fauno”. Merece uma checada.

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Para adquirir o livro “Liberdade ou Morte”, você pode consultar o site da Livraria Cultura ou da Saraiva.

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8 COMMENTS

  1. A única conclusão liberal, é que a solução para a doutrinação das escolas, seria o fim da educação estatal, daí todos poderão comprar os cursos que bem entenderem.

    Agora, dentro de uma educação estatal, os agentes estatais (professores) é que ditam como o serviço será feito. E se esses agentes estatais estiverem agindo para beneficiar estruturas paralelas (Sindicato dos Professores), então o Estado terá de regular a própria ação dos seus agentes (projeto Escola Sem partido).

    Para que não aconteça, dessas estruturas paralelas (Sindicato dos Professores) receber ordens de grupos de interesse (Partidos Políticos) que poderão culminar na subversão do uso da máquina estatal (ensino como doutrinação) para fins do próprio grupo de interesse (partido), que se revelará no futuro, como severas distorções no próprio Estado, por causa deste benefício recebido pelos grupos de interesse.

    Ou seja, o Estado deve regular o próprio estado e seus agentes estatais.
    Outras visões liberais são contra-informação.

    • Observador,

      A proposta é absurda, pois não há sequer um “debate” sobre a educação estatal. A Escola Sem Partido não atribui ao estado o poder de “vigilância”. Esse foi um espantalho criado por negacionistas. A Escola Sem Partido FACILITA ao aluno o poder de se defender de uma doutrinação FEITA PELO estado. Ou seja, é impossível criar uma situação pior que a que temos. E os doutrinadores estão contra o projeto, ou seja, é sinal de que o ESP atinge os fascistas que dominam o estado.

      Alegar como “única solução possível” algo que nem é parte da agenda de debates é, digamos, uma fuga para o labirinto do fauno, como aventa o texto. Sorry.

      Abs,

      LH

  2. Posso comentar um [OFF]?

    …Na sua opinião, podemos curtir os Jogos Olímpicos, e comemorar os parcos – porém IMPORTANTÍSSIMOS! – louros dos atletas brasileiros, ou isso seria “nada a ver”, “pachequice” e “ufanismo”, pois que viria aí a cobrança da conta?

    Você concorda que as mulheres tem todo o direito à prática desportiva, seja ela qual for?
    O que me diz do pessoal da direita que, face à afirmação de que “as mulheres podem jogar futebol e eu assisto freqüentemente às partidas do feminino”, responde com coisas como:
    – “o apoio ao futebol feminino representa o avanço da Ditadura Feminista no Brasil” e/ou
    – “não me venha com o politicamente correto!”

    ???

  3. Muito bom, isso deve ser um conhecimento a ser memorizado pelos liberais.
    A esquerda sempre se adapta e usa o sistema atual de um país para construir os seus Estados totalitários, disseminadores de atrocidades e misérias.

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