Mais sobre o fundo partidário e a política da capitulação

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Meu texto Por que eu deveria votar em candidatos de direita que não querem fundo partidário? gerou um tanto de comentários incomodados. Primeiramente, em razão de um equívoco que eu cometi, quando disse que o Partido Novo não havia recebido o fundo partidário. Soube, por várias fontes, que o partido recebeu o fundo, mesmo que irá utilizá-lo para conscientização das pessoas contra seu recebimento. Aproveito aqui para fazer a correção.

Em segundo lugar, é bom responder alguns comentaristas de minha página de Facebook, em especial um mais enfezado que sugeriu o frame “se você defende o pragmatismo, vai terminar como o Lula”. É engraçado notar como alguns liberais não jogam a guerra política contra a extrema-esquerda (que eles até chamam apenas de esquerda), mas resolvem jogar o jogo contra divergentes táticos. A acusação é torpe e desonesta, dado que Lula é culpado por corrupção, enquanto eu propus que a lei fosse seguida. Adotar a narrativa de que defender o uso do fundo partidário (até ele ser eliminado para todos) é o mesmo que defender a corrupção é uma desonestidade sem igual.

Vamos deixar bem claras as coisas. Tudo o que eu propus pode ser resumido desta forma: jogue de acordo com as regras do jogo e, se você não concorda com essas regras, lute para mudá-las. Enquanto fizer isso, aja dentro da lei. Logo, por consequência, se você não gosta de uma lei, tente mudá-la.

Ressalto aqui que, de acordo com a correção feita no primeiro parágrafo, eu não estou acusando o Partido Novo de qualquer coisa, até porque ele não praticou a capitulação de que o acusei erradamente no texto anterior. Mas alguns de seus partidários estão defendendo a política da capitulação, e são estes meus objetos de crítica.

É preciso compreender que votamos em políticos não porque vamos com a cara deles. Não é por beleza. Ou por corte de cabelo. Ou por que eles concordam em ideais conosco. Votamos porque achamos que eles podem fazer algo a nosso favor. Se queremos viver em um mundo mais livre e com menos censura, é com esses partidos e políticos que escolhermos que vamos contar. Se queremos que a estatização não seja o monstro que é, contaremos com eles da mesma forma. Se exigimos que não exista mais o financiamento público de campanhas (onde entra a discussão sobre o fundo partidário) é igualmente com essa gente que vamos contar.

Pessoas que defendem a “eficiência” deveriam se preocupar com questões como o pragmatismo. Por isso, é melhor evitarmos unicamente as palavras bonitinhas e focar em resultados.

Relembre, por exemplo, quando o PT decidiu cortar as verbas pra a Revista Veja no início de 2015, como retaliação a uma capa mostrando que “Dilma e Lula sabiam de tudo quanto ao Petrolão”, às vesperas das eleições. Hoje sabemos que a revista estava certíssima. Mas mesmo assim a publicação foi punida. Eu escrevi duramente contra essa censura, mas alguns liberais, neste site, disseram: “ah, assim é até melhor, pois, por princípio, nós, liberais, não gostamos de verbas estatais”. Ora, mas a questão não era essa, mas sim o uso seletivo de verbas estatais para beneficiar os nossos adversários. Ou seja, não adianta criar uma realidade paralela e achar que basta nós deixarmos de receber as verbas estatais que o problema estará resolvido. Na verdade, o ideal é que compreendamos em que mundo nós vivemos:

  1. Aquele onde não existem verbas estatais para ninguém
  2. Aquele em que as verbas estatais são distribuídas para todos, isonomicamente
  3. Aquele em que as verbas estatais ficam nas mãos apenas do nosso adversário

É bem simples: se estamos vivendo no mundo (3), temos que lutar para chegar no mundo (2), e daí pensarmos em criar o mundo (1). Esses liberais que até comemoraram a retirada de verbas da Veja criaram uma realidade paralela, imaginando viver no mundo (1), para ignorar a situação real: vivemos no mundo (3). E aí chegou Michel Temer, um esquerdista “light”, cortou as verbas dos blogs estatais – e agiu corretamente, pois “ou é para todos os blogueiros, tanto de direita ou esquerda, ou é para ninguém” – e fez muito mais do que os liberais que fugiram da realidade. Quer dizer: a política de capitulação não serve para nada (a não ser prover um pouco de conforto psicológico). Já a política de confronto gera resultados.

Voltemos à questão do fundo partidário. Queremos saber daqueles que defendem que seu partido não os receba: isso vai retirar as verbas do fundo partidários de todos? A resposta é sim ou não. Existirá ao menos um confronto, com propostas de resultados tangíveis? De novo, a resposta é sim ou não. Não há espaço para perder tempo.  Se a proposta de “deixar de receber fundo partidário” não estiver diretamente atrelada a uma ação política efetiva para retirar o fundo para todos, o que eu ganho nisso, como eleitor? Devemos questionar: o que o partido vai fazer por mim, que sou contra o financiamento público de campanhas? Apenas deixar de receber o fundo não vai fazer nada nesse sentido (pois a grana irá para outros partidos).

Como já disse antes, não vou julgar nenhum partido ou político que faça a opção de não receber o fundo por questões pragmáticas. Imagine um partido que fosse receber R$ 1 milhão do fundo partidário, mas, após decidir não recebê-lo, veja um aumento brutal de doações, muito superiores à grana do fundo. Nesse caso, merecem aplausos. Mas se não for o caso e se a ação não tiver nada de pragmatismo envolvido, vale o puxão de orelha. O que importa para o eleitor é que o partido nos ajude a sair de uma estatização tão doentia.

Agora creio que já fica muito mais fácil de resolver as coisas. Se temos problemas com a censura a partir do uso de verbas estatais, um político que diga “ah, mas eu nem quero verbas para os meios que não sejam de extrema-esquerda” estará capitulando, pois não dará resposta alguma para o problema do uso de verbas do estado para beneficiar os partidos totalitários. Se temos problemas com o financiamento público de campanha (que deveria ser extinto), um político afirmando “ah, mas eu já farei minha parte ao não receber o fundo partidário” não está dando resposta alguma para qualquer proposta de fim do financiamento público para todos os partidos. Este foi o objetivo de minha objeção: se o objetivo de alguém ao recusar o fundo partidário é executar uma ação de capitulação, por que devemos votar nessa pessoa?

De nossos políticos, queremos que eles reduzam ou eliminem o fundo partidário, não apenas que se sintam psicologicamente bem para participar de jantares dizendo “ah, eu não recebo o fundo, sou o bonzão”. Queremos que eles nos ajudem a viver em um país onde não exista a censura sutil, e não apenas que comemorem “ah, mas eu não recebo verbas estatais de anúncio, então o problema não existe”. Atitudes assim geralmente configuram capitulação e sempre se baseiam em racionalizações para justificar recuos. Na política da capitulação, o adversário nos força a recuar cada vez mais, até cairmos no abismo. Não creio que esse seja o mais nobre dos objetivos para políticos de direita.

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2 COMMENTS

  1. Ayan, outra fato que eu acho que o Novo faz errado, é não permitir a reeleição de seus quadros. Como eles pretendem formar um bloco influente desse jeito?

    • Pedro, eles permitem apenas uma reeleição ao mesmo cargo. Após isto, ou você “sobe” a outro nível ou sai.

      “Membros do NOVO com cargo legislativo podem concorrer a apenas uma reeleição consecutiva. Dessa maneira evitamos o carreirismo, forçamos o representante a buscar novos desafios e abrimos espaço para a renovação.”

      Retirei da página deles esse texto.

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