Cunha na maior parte do tempo foi só instrumento de Dilma. Ou: Frank Underwood estava no PT.

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Alvin Toffler já dizia: “se você não tem uma estratégia, então você é parte da estratégia de alguém”. Agora já é mais fácil reconhecer uma predição que eu fazia há tempos: na guerra política, Eduardo Cunha pisou várias vezes na bola. Eu ouvia várias vezes alguém dizendo por aí: “ele é o Frank Underwood brasileiro”. Ao ouvir isso, eu dizia que essa pessoa deveria ter assistido alguma versão legendada em chinês ou russo da série “House of Cards”. O fato é que Cunha está longe de ter a habilidade do personagem Frank Underwood.

Na verdade, Cunha deu algumas boas estocadas no PT, principalmente após ter vencido a eleição para presidência da Câmara. Mas daí para diante, seu túmulo começou a ser cavado.

Focarei aqui na questão do impeachment e no motivo pelo qual em boa parte do tempo ele foi mais instrumento do PT do que qualquer outra coisa. Daí você poderá notar que a mente de um Frank Underwood estava no local mais previsível de todos: no PT.

Basta compreender um dos princípios táticos de Saul Alinsky: “Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o”. O terceiro passo é o mais fundamental de todos: personalização.

Por personalização, basta compreender a busca de alvos pessoais para seu combate. Assim, ao invés de lutar contra “a Prefeitura”, lutamos contra “o Haddad”. Ao invés de lutar contra “o Foro de São Paulo”, é mais viável lutar contra “Lula, Maduro e seus amigos”. Pelo mesmo principio, ao invés de lutar contra “a Câmara dos Deputados”, era melhor lutar contra “o Cunha”. Eis a personalização.

Em meados de 2015, o PT estava ciente de estar muito próximo de perder o poder. Com o ronco das ruas, o pedido de impeachment ficava pela portinha. A Câmara dos Deputados já estava pronta para fazer o pedido ser aceito. Mas como? Simples: todos sabiam que Eduardo Cunha poderia rejeitar o pedido. Com isso, o plenário poderia votar a sequência do processo, por maioria simples.

O PT se apavorou com essa possibilidade, uma vez que o impeachment seguindo em frente via votação da Câmara prejudicaria a tática da “personalização”, que já havia funcionado brilhantemente para o partido contendas anteriores.

Começou uma articulação via STF, que não demorou para intervir de maneira ditatorial e anticonstitucional na Câmara, proibindo que eles dessem sequência ao processo. Quer dizer: por ação totalitária do STF, a Câmara não poderia colocar a sequência do processo no plenário. Com isso, só haveria uma única alternativa: ou Eduardo Cunha aceitava dar sequência no impeachment ou o processo morreria. A pressão das ruas já era insuportável para a Câmara, logo Cunha não tinha outra opção.

Repare que a jogada petista foi muito básica, se nos apercebermos do que dizia Alinsky: a partir do momento em que o PT considerou a partida como decidida, o melhor negócio seria a sequência do impeachment pelas mãos de Eduardo Cunha, mas de jeito algum pelas mãos do plenário, em votação por maioria simples. Considerando a regra da personalização, o melhor negócio para o PT seria poder dizer que o impeachment era “do Cunha” e não “da Câmara dos Deputados”.

E a vontade do PT foi feita neste sentido.

É preciso deixar claro que a luta petista não era mais para se safar do impeachment, mas por conseguir sair do processo dando uma narrativa aos seus militantes, pensando em futuras metas eleitorais e novos jogos pelo poder. Para isso, seria melhor ter um inimigo – “o Cunha” – personalizado a partir de uma narrativa repetida em ritmo de batida de bife. Seria péssimo ter que duelar com “a Câmara dos Deputados”.

Logo, a armação foi feita para dar esta narrativa ao PT. Se o impeachment era inevitável, ao menos que o PT conseguisse ter o alvo “personalizado”.

A partir do momento em que o STF disse “ou o Cunha aceita ou o processo está morto” – não com essas palavras, mas na prática foi isso mesmo -, e se considerarmos que o então presidente da Câmara não tinha outra alternativa a não ser dar sequência no processo (por pressão das ruas), vimos um político experiente se tornar nada mais que um instrumento nas mãos do PT.

A maior das vitórias foi nossa: o impeachment ocorrer. Mas pelo menos o PT queria uma outra vitória em uma batalha menor – criar uma narrativa fazendo uso de Cunha como seu instrumento de “personalização” -, para, mesmo que Dilma perdesse o cargo, eles conseguissem algum capital político para falar à militância. Nesse sentido, “o Cunha” foi apenas a utilização de um frame para a criação de um “inimigo ideal” para a aplicação do método da personalização.

Eduardo Cunha jamais foi um “inimigo” do PT na questão específica do impeachment. Ao contrário: foi um instrumento utilizado a partir do momento em que o impeachment se tornou inevitável. Ele nunca foi o Frank Underwood dessas batalhas. No fundo, ele foi por um bom tempo apenas um joguete nas mãos de oponentes que, aí sim, se comportaram como o personagem interpretado por Kevin Spacey na série “House of Cards”.

Como eu me sinto em relação a isso? Muito bem. E olhe que neste blog – lá por meados de 2015 – eu sugeri vários cursos de ação para Cunha fazer um papel melhor. Mas não havia muito o que fazer. Ele já havia caído na armadilha. É do jogo. Sabíamos que pelos erros de Cunha, ele havia virado apenas um instrumento do PT. Mas queríamos nossa vitória maior: tirar um governo totalitário do poder. Conseguimos. O PT ficou com seu prêmio de consolo, e para isso utilizaram Cunha do jeito que eles quiseram. Este último, é claro, perdeu tudo.

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1 COMMENT

  1. Ontem um petista chegou falando mal de Cunha. Respondí imediatamente: deveriam erguer um monumento ao Cunha. Se não fosse por ele essa camabda petista ainda estaria rindo da nossa cara.
    Aí tentou falar mal do Maluff. Resposta, o Maluff é infinitamente melhor do que qualquer petista. Praticamente tudo o que São Paulo tem de bom é obra de Maluff. O Maluff rouba mas faz; o PT rouba e não faz nada, tudo o que toca apodrece. Visivelmente desconfortavel o petista sumiu.

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