Trump perdeu para Hillary no debate. Ou: o caminho para a direita está no escrutínio dos que escolhem não jogar o jogo.

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É com pesar que constato que Donald Trump perdeu para Hillary Clinton no debate desta segunda feira. Decerto já fiz algumas críticas à postura do candidato republicano, mas igualmente sempre expus aqui um fato: é melhor que ele ganhe do que ela. Basta uma informação para tomarmos essa decisão: se ganhar, Hillary poderá nomear três novos juízes da Suprema Corte.

Alguns direitistas até já disseram: “ah, mas Trump não será bom para a direita”. Certinho. Então quer dizer que ver a esquerda radical nomear três juízes da Suprema Corte será bom para a direita? É evidente que os direitistas que optaram por Hillary se recusam a olhar o processo (óbvio até demais) de conquista de poder. Não estão apenas fora do “jogo”. Estão fora da realidade.

Logo, minha postura clara sempre foi de crítica tática a Donald Trump – por sua postura arrogante, pouco pragmatismo e falta de vontade de jogar o jogo político no mesmo nível que sua adversária -, e não em relação às suas propostas, as quais – mesmo que passíveis de crítica em alguns momentos -, são um bálsamo na comparação com o que ocorrerá com uma vitória de Hillary.

Quanto ao debate, o que vimos é o padrão de sempre. É suficiente constatar que Hillary rotulou Trump de retrógado, machista, sexista e até racista várias vezes, enquanto o republicano não lançou nenhum rótulo neste sentido. As rotulagens de Hillary quase sempre não eram rebatidas. Nitidamente, a postura de ir para o ataque foi assumida, quase sempre, por Hillary.

O curioso é que Hillary defendeu várias coisas que o PT defende, como impunidade de criminosos, taxação aos ricos – a qual é uma medida intencionalmente feita para afugentar investidores e aumentar desemprego – e diversas outras ideias que poderiam ser facilmente desconstruídas, mas não o foram.

Trump foi desafiado a apresentar suas declarações de imposto de renda. Até reagiu ao expor o escândalo dos e-mails apagados do servidor privado enquanto Hillary era Secretária de Estado. Mas não o fez com a contundência necessária.

No geral, Trump foi atacado em seu caráter várias e várias vezes. Parecia até que ele havia tomado algum remédio tranquilizante. Dava a impressão de que ele resolveu debater “sem culhões”. Só para se ter uma ideia, como lembrou Alexandre Borges, Trump se referia à Hillary como “a secretária de Estado”. Ela o chamava apenas de “Donald”, buscando o efeito psicológico de tratá-lo como a uma criança. Isto não tem outra qualificação que não a escolha de qualificações para nossos adversários.

A verdade inconteste é que precisamos aumentar a dureza com os políticos que estejam mais próximos de nosso espectro político e que resolvam perder o jogo político. Simples assim. Não é possível que depois de John McCain e Mitt Romney, estejamos assistindo Donald Trump escolher perder as eleições em nome na manutenção da eterna mania republicana de não jogar o jogo político.

Como é que reagiríamos se o técnico do time de futebol para o qual torcemos resolvesse parar de treinar a equipe? E se ele resolvesse que o time deveria entrar em campo e jogar com as mãos, ao invés de jogar com os pés? E se essas decisões fizessem com que nosso time perdesse jogos fáceis?

Nem é preciso dizer que faríamos com o técnico aquilo que a população brasileira fez com Felipão após a Copa de 2014. Ou seja, esfregamos na cara dele as opções erradas que tomou. Não há motivo para agir de modo diferente com os políticos para os quais torcemos, até porque são esses políticos que recebem recursos – e doações – para fazerem campanha. Se temos obrigação de jogar o jogo político, eles tem muito mais.

Assim, a postura a ser adotada com Trump é a seguinte: “Ganhe esta eleição. E se prepare para ser humilhado por nós – por ter escolhido perder – se você não ganhar. Razão: é só escolher jogar o jogo que a vitória estará garantida”. Quer dizer: devemos atribuir um preço à derrota que porventura venha em razão da arrogância por não jogar o jogo.

É assim que se cria uma verdadeira consciência política. Devemos parar de buscar anestésicos, como já vi em alguns comentários pós-debate: “ah, mas o moderador estava do lado de Hillary”, “ah, mas a CNN favoreceu a esquerdista” e daí por diante. Esses são os pontos que chamamos, na guerra, de “fatores adversos” e geralmente estão fora de nossa esfera de controle.

Mas a própria decisão de focar nos fatores que estão fora de nossa esfera de controle às vezes funciona como uma busca por conforto mental para ignorar as nossas decisões erradas. Vemos isso nas análises de futebol. Muitas vezes nosso time toma decisões terríveis e joga muito mal. O que resta? Dizer que “o juiz ajudou o time adversário”. Às vezes isso é verdade, mas em muitos casos surge como forma de esconder nossos erros. A pergunta a ser feita é: será que, mesmo que o juiz adversário tenha nos prejudicado, será que jogamos suficientemente bem?

De tal modo, independentemente de o moderador ter ficado a favor de Hillary, Trump não tem direito à desculpa por ter perdido o debate. Perdeu por suas escolhas e deve ser pressionado a melhorar para os próximos debates. Se não o fizer, não é o “partidarismo da mídia” que deveria ser utilizado como anestésico.

Em suma, é preciso adotar a pressão por resultados e abandonar a busca de conforto psicológico. A obrigação moral de Trump é vencer essa eleição. Se não vencer, sua derrota terá decorrido de sua arrogância em não jogar o jogo político. Se perder, portanto, ele deverá ser desconstruído e até ridicularizado após sua derrota, pois não cumpriu sua missão, que era a de evitar que Hillary pudesse vencer e nomear três juízes da Suprema Corte, entre outras coisas.

Espera-se que ele tome as escolhas adequadas, pois jogar o jogo político é unicamente uma questão de escolha.

Encarar os líderes políticos mais próximos às nossas ideias da forma que se encaram os técnicos de futebol dos times para os quais torcemos e lançarmos sobre eles as responsabilidades por boa parte de seus resultados é parte do caminho para o amadurecimento político da direita.

A mensagem deve ser: Trump, ganhe essa eleição, ou pague o preço moral por ter escolhido perdê-la.

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7 COMMENTS

  1. Eu não sei se foi uma boa ideia o Trump aparentar uma imagem de estadista moderado. A história nos conta que mentir em debates compensa. O Lula sempre acusou seus adversários de quererem privatizar a Petrobras. Uma mentira descarada, mas que colou.

  2. Perfeito, no final quando a pergunta era sobre segurança na internet, hackers, e os riscos ao país, Trump não explorou o fato óbvio que Hillary representa em pessoa um risco à segurança do país pois quando Secretária – comandando todos os diplomatas e embaixadores do país mundo afora – ignorou deliberadamente (ou por traumatismo como alegou) as regras de segurança das comunicações oficais!!! Trump se calou.

  3. Lucyano, talvez eu esteja fugindo um pouco do foco, mas na direita brasileira o Benê Barbosa sim tem renome de bom debatedor…Vc acha que ele é um bom exemplo de como devemos agir em debates ?

  4. Irretocável.
    Mas que os direitistas brasileiros entendam que uma possível (e temida) vitória de Hillary deve ser tomada como uma opção de um país que está vários passos a frente do nosso.
    Antevejo direitistas molengas afrouxando intensidade da argumentação se a matriz continuar no rumo progressista.
    Fosse eu um formador de opinião me esforçaria em enquadrar a disputa norte-americana muito mais como uma disputa de alto nível num país de excelência (viu como não se acusaram de corruptos?), do que na diferença ideológica.

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