Entenda porque é quase impossível que Bolsonaro vença para presidente em 2018

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Há muitos fãs de Jair Bolsonaro por aí, bastante empolgados em torno de uma mitologia. Enquanto isso parece algo positivo – e não deixaria de ser, se observado isoladamente -, ao mesmo tempo está sendo o Calcanhar de Aquiles do candidato.

Um fenômeno bastante curioso observado no comportamento dos fãs do candidato é a incapacidade – por parte de muitos deles – de conviver com as críticas táticas, capacidade esta dominada pela esquerda e, no Brasil, ainda mais pela extrema-esquerda.

A capacidade crítica, especialmente em relação aos aspectos táticos, é um diferencial poderosíssimo em qualquer empreendimento de guerra. Como dizia Alinsky – apenas refletindo a sabedoria dos métodos da guerra tradicional -, é preciso se adaptar aos eventos do mundo, sem dogmas em relação às táticas. Com isso, não lutamos as lutas passadas, mas as novas lutas que se apresentam à nossa frente. A capacidade de dizer “isto não funcionou”, quando se pensa em mudança de cursos de ação, faz toda a diferença.

Fiz um post chamado Flavio Bolsonaro toma surra de Marcelo Freixo após pergunta mal formulada em debate, trazendo as tradicionais críticas táticas nas quais este blog se especializou. Como de costume, o chororô apareceu, até mais do que quando fiz críticas táticas em relação ao desempenho (péssimo) de Marco Feliciano no caso do ataque de Patrícia Lélis. Aliás, que desempenho?

Para essas pessoas, a crítica tática é uma ofensa, ao contrário do que aconteceria com seus adversários principais.

Dois exemplos.

Diante de tantos colapsos econômicos e denúncias de corrupção, cabia ao PT escolher algumas táticas: (1) personalizar a questão do impeachment, (2) utilizar a narrativa “do golpe”. Ambas as táticas foram escolhidas não para reverter o impeachment, mas para mobilizar a base e unificar o partido para seguir em novos desafios para 2018. Sabendo que eles terão seu poder reduzido, ao menos precisam de uma “base”. Assim, ambas as táticas foram corretas, mas só floresceram depois de muita crítica interna, principalmente em vários blogs petistas.

A comunicação do governo Temer deu um tiro no pé atrás do outro, desde o início da interinidade. Depois de várias críticas (vindas de vários formadores de opinião, além de correligionários), se tornou evidente que o governo está lutando para melhorar a questão da comunicação. É uma das prioridades atuais. Estão certos nisso. Se conseguirão reverter o problema da má comunicação, isso são outros quinhentos contos. Mas já estão trabalhando nisso e, portanto, merecem ponto positivo.

Não seria possível para o PT escolher duas táticas narrativas, e nem para o PMDB decidir melhorar a comunicação, se eles não estivessem abertos às críticas táticas. Críticas táticas, como já abordei aqui, não tem nada a ver com críticas morais. Logo, quando algum petista diz “ei, Dilma, enquanto você não cair de cabeça na narrativa do golpe, você não vai energizar a base” ou quando um peemedebista diz “preste atenção Temer, pois essas divulgações de propostas, com recuos, estão queimando seu filme”, essas afirmações não podem ser respondidas com: “ei, por que você está torcendo contra mim?”.

Enfim, nada justifica tomar a crítica tática pelo lado pessoal dessa forma. É algo até infantil.

Mas, infelizmente para os Bolsonaro, essa é uma trincheira que eles próprios cavaram. Não é mais possível que eles a abandonem.

A narrativa do “mito”, criada pela equipe de marketing de Bolsonaro, criou uma “base” de apoiadores que, em muitos casos, entendem seu candidato não como uma pessoa capaz de levar suas propostas políticas adiante. Ele é visto como um “mito”. Isso é mais do que um “salvador da pátria” – como foram tratados Collor e Lula.

A campanha do “mito” não tem nada de errado em si. Ela é até bem eficiente e possui vários componentes desenvolvidos primeiramente na campanha de Barack Obama para a presidência em 2008. O problema é quando tudo isso é encarado mais do que apenas um componente de campanha, mas algo internalizado nos principais apoiadores do candidato. É aí que se criam fantasias como, por exemplo, achar que todas as decisões e ações de seu candidato são corretas. E ai de quem ousar criticar as táticas escolhidas.

Resultado: Flavio Bolsonaro corre seríssimos riscos de nem ir para o segundo turno nas eleições para prefeito, enquanto seu pai, Jair, não avança nas pesquisas para presidente. Provavelmente, Jair deve tentar garantir mais um mandato de deputado federal ou, no máximo, tentar a vaga de senador.

Algumas pessoas me perguntam: “mas e se Jair Bolsonaro mudar seu curso de ação para se tornar um candidato viável em 2018?”. Este é o problema. Ele não poderá mudar seu curso de ação pois é o único dos candidatos à presidência que inviabilizou qualquer possibilidade de se receber uma crítica tática.

No fundo, Jair Bolsonaro é um Donald Trump sem tanto dinheiro e fama.

Trump está complicando uma eleição que deveria estar ganhando por no mínimo 20 pontos de diferença. Duelar com Hillary hoje virou quase um “bater no bebado”. É do tipo: se bater, bateu no bêbado, e se apanhar, apanhou do bêbado. Quer dizer: não é mérito algum ganhar de Hillary. Já perder para ela – em um terceiro mandato esquerdista, ou seja, uma “proeza” da incompetência – seria um fracasso imperdoável. Não quer dizer que há certeza de sua derrota. Mas um risco – inaceitável, nesse momento – de que ele perca. E se perder, é por que quis. Por ter sido burro e turrão. Não espere que ele melhore suas táticas de campanha. Isso será impossível para alguém que não ouve críticas táticas.

Só que para Jair Bolsonaro a questão é pior, pois, como já disse, ele está muito atrás de Trump nos quesitos dinheiro e fama.

Como agravante, ele não pode voltar atrás na “estética do mito”. Talvez até poderia pensar em mudar as coisas em seu núcleo central de apoiadores e marqueteiros, e isso poderia envolver troca de time ou adoção de novos princípios. Mas é praticamente impossível que isso aconteça.

Para esses que acham que o sucesso da política é glorificar “um mito” que, como tal, jamais erra – e exatamente por isso eles reagem tão mal a uma crítica tática -, a sensação de que Bolsonaro é o “gênio das táticas” pode ser reconfortante. Mas o preço a ser pago por isso é muito alto. Como resultado, ele tem muito menos capacidade de aprender com os erros do que qualquer candidato principal do PT, PMDB, PSDB ou DEM. Não é só isso: fontes confiáveis dizem que toda a estratégia do “mito que não erra” veio da própria cabeça de Jair Bolsonaro, sendo até mesmo um reflexo de sua personalidade.

A narrativa do “mito que não erra” – aceita em todos os níveis dos apoiadores de Bolsonaro, até mesmo pelo núcleo central e, fundamentalmente, pelo chefe de tudo, ou seja, o próprio candidato – está sendo muito útil para aumentar seus votos como deputado federal e até permitir que ele tenha alguma chance como senador. Mas deve implodir de vez qualquer chance de que ele se torne um candidato viável à presidência.

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16 COMMENTS

  1. Acredito na necessidade do reequilíbrio ideológico político para uma “homeostase” social, o que algumas idéias do Bolsonaro podem empurrar, um pouco, o fiel da balança pra esse ponto. Mas a equipe de assessoramento do referido “mito” é muito incompetente pra esse nível de guerra política. Não basta ter boas idéias; Na guerra política, principalmente a brasileira, é preciso um pouco mais de Schopenhauer e Goebbels.

  2. Cara, observo mais ou menos as mesas coisas que no Lula e seus seguidores: idolatria. Várias pessoas que conheço já idolatram Jair. Acreditam que ele nunca erra. Que ele seria o presidente perfeito. Já vi gente falando até mesmo que ele vai tirar o Brasil da crise econômica! Na minha opinião, Jair Bolsonaro tem boas ideias no campo da segurança social. Nada mais. Não vejo uma mente administrativa nele. Confesso que me surpreendi na entrevista do Flavio a que assisti ontem, uma das proposta do mesmo é desburocratizar a abertura de negócios e atrair novos empreendedores. Mas ainda não me convenci totalmente!

  3. Há um (potencial) grave erro na sua análise – você aceita rever sua postura? – se sim, vamos lá. É bem simples: o fenômeno do Mito não começou elaborado dentro da pré-campanha de Bolsonaro. O Mito é um meme. Ele pertence a internet – enquanto organismo vivo e dinâmico, sendo, portanto, efêmero. O fenômeno Mito adotou Bolsonaro – e não o contrário. Sabiamente, Bolsonaro surfou na onda (e está cansando…e isso também é culpa de seus apoiadores). É justamente a hora de engatar um novo curso, cabendo ao pretenso presidenciável Bolsonaro buscar um diálogo maduro com aquela parcela da população que o rejeita (ou não o conhece). We, from the internet, não o condenaremos e desejaremos a ele boa sorte; então adotaremos outro mito e continuaremos a escarnear através de outras figuras de pregnância aderente aos conceitos de ‘mitagem’.

  4. Acredito que o problema maior não esteja em ele endossar o rótulo de “Mito”. Por sinal, nunca vi ele fazendo isso. Acho q até pouco tempo ele nem sabia o significado exato da palavra mito.
    Bolsonaro foi um político cresceu espontaneamente, graças as suas falas e posições. Ele ñ estava preparado para isso e pouco sabia sobre guerra política, pois sempre teve uma atuação isolada. Agora, na primeira disputa para um cargo majoritário parece q ele está percebendo os problemas que vai ter se continuar a alimentar na militância o purismo e a falta de pragmatismo. A figura do candidato honesto, sincero e de posições firmes ñ pode se confundir com a figura da perfeição, o homem que não erra. Como é abordado no texto, isso irá torná-lo um candidato politicamente isolado e sem armas para enfrentar os adversário.

    Ainda há tempo de mudar e trabalhar a militância. Se o fizer, vai perder muitos seguidores, mas ganhará outros.
    Esse vídeo mostra como Bolsonaro está sofrendo ataques da própria militância por ñ ser um semideus (só assim para controlar todas as alianças políticas do seu partido no país todo). Esse tipo de gente mais atrapalha do q ajuda.

  5. Ja comentei algo parecido sobre este assunto. Me espanta a postura de Jair Bolsonaro quando é chamado a falar ou discursar. Sua entonação de voz mostra uma pessoa voluntariosa,precipitada e pouco afeita à discrição. Observem o tom de voz que ele dá quando faz uma critica ou revida algum ataque de terceiros. Chega a ser infantil tal comportamento. Mas eu o aprecio como politico , nao tem medo de enfrentar as situações adversas.

  6. Talvez a neurociência explique determinados bloqueios psicológicos que ocorrem em seguidores obtusos de “guias” ou ideologias políticas.
    Infelizmente, concordo que existem certas similaridades entre alguns direitistas e socialistas nessa fé cega.
    E olhe que consigo ver vários pontos positivos nos Bolsonaros, ao contrário da extrema esquerda onde nada se salva.

  7. Contra esses candidatos insossos e politicamente corretos que temos (aecio, marina, picolé de chuchu etc), Bolsonaro ganha disparado no primeiro turno. Não porque seja um mito, mas porque fala a linguagem do povo e transmite sinceridade.

  8. ceticismo você esta usando o jogo da narrativas contra o mito bolsonaro bolsonaro é a esperança de um brasil democrata e não de um brasil proprinocrata

  9. Não é muito cedo pra ficar projetando coisas pra 2018? Sendo bem realista, não vejo um outro candidato viável pra esquerda além do Lula, que até 2018 deve estar preso; figuras como Marina e Aécio estão longe de ser imbatíveis; e ainda tem a imprevisibilidade da Lava Jato, que ninguém sabe onde vai parar e quantos políticos ainda serão derrubados por ela. Na atual conjuntura realmente o Bolsonaro não tem chance, mas ainda acho muito cedo pra fazer afirmações.

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