Após a derrota do PT, um novo desafio: seis modelos mentais de direita que precisamos superar

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O PT tomou uma sova nas urnas. Isso não significa a derrota definitiva da extrema-esquerda. Ao contrário, a ameaça segue nos rondando, e precisamos de muita luta política pela frente. E isso também não significa um crescimento efetivo da direita, a despeito da capa da Revista Veja falando do “crescimento da direita” – aliás, uma matéria desonesta, e comentarei sobre isso em outro post.

No Brasil, talvez mais do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, se apresentam para nós alguns flagelos acometendo a direita – não toda, por sorte -, que nos prejudicam na obtenção de melhores resultados.

Aqui vou elencar seis “modelos mentais”, que podem ser usados isoladamente ou em conjunto, que tem servido para danificar resultados da direita.

Considere esses seis modelos mentais como “filtros” para percepção da realidade. Uma vez que esses filtros tenham sido adotados, eles funcionam como alavancas para uma série de crenças, sensações, reações e comportamentos derivados.

Decerto utilizamos modelos mentais para perceber a realidade, senti-la e reagir a ela. Todavia, alguns destes modelos são danosos, e podem ser questionados.

Os seis modelos que veremos aqui não possuem utilidade alguma. Vamos além: eles produzem resultados contraproducentes e não nos ajudam a reagir adequadamente aos eventos políticos do mundo.

Vamos a eles:

1. O modelo da fé cega na crença

É um modelo mental popularizado entre muitos liberais – não todos, evidentemente – onde alguém, mesmo não acreditando nas crenças de um oponente, passa a acreditar – por fé cega, uma vez que não há evidências para tal – que o oponente realmente acredita no que diz acreditar. Ou seja, ao invés de visualizar um socialista como alguém cujas intenções se limitam a criar um totalitarismo, o crente na crença diz que “o socialismo é um conjunto de boas intenções que não deu certo”. Quer dizer: mesmo não acreditando no socialismo, ele acredita que o socialista crê no que diz acreditar.

O dano maior deste modelo mental é que ele leva a mente uma espécie de colapso cognitivo tornando seu detentor incapaz de prever os próximos passos do inimigo. Outro dano terrível é que este modelo cria uma visão caridosa a respeito do adversário, e as críticas ao oponente não possuem, digamos, assertividade. No máximo, os crentes na crença ficam parecendo pais (liberais) dando conselhos aos filhos (socialistas). Estes últimos morrem de rir na cara deles.

2. O modelo da “pura eficiência”

Há muita gente inteligente no Partido Novo. Mas, curiosamente, há muitos que adotam este modelo. Estes parecem entender que a discussão sobre questões públicas tem a ver com “eficiência em primeiro lugar”. Na verdade, é uma discussão sobre o poder, e quanto menor a tirania no uso deste poder, mais obrigado alguém estará a ser eficiente.

É assim que a coisa funciona, na realidade: se um governante socialista usa excesso de verbas para comprar a mídia, ele se desobriga a ser “eficiente”. Logo, nossa principal discussão é tirar esse excesso de verbas dele. Isso automaticamente o fará tentar buscar a eficiência, o que ele não precisará fazer se continuar tendo o excesso de verbas.

O modelo da “pura eficiência” ignora esse aspecto da luta pelo poder e transforma todo o seu discurso em uma “busca de eficiência”. Logo, não há luta pelo poder e nem sequer percepção de como este poder funciona.

Imagine a seguinte situação: você está lutando em uma guerra. Ao comentar sobre o exército adversário, diz: “Será que eles serão eficientes no uso de suas armas? Seria importante”. Mas alguém lhe diz: “Essa deveria ser a última de suas preocupações”. Como se pode observar, o discurso da “pura eficiência” chega a ser tolo em alguns momentos.

Claro que deveremos lutar pela eficiência na administração da máquina pública, mas essa discussão nem faz sentido enquanto não tirarmos o poder de nosso adversário. Para ser eficiente é preciso, antes de tudo, adquirir poder.

3. O modelo do juiz político

A política é uma arena de interesses conflitantes. A partir do momento em que alguém identifica seu lado nesses conflitos, deve agir, como se fosse um advogado, em nome de seus interesses.

Porém, a partir do instante em que alguém se declara como um “juiz” da questão, ele pensa estar superando esses conflitos, buscando a “visão do todo”.

Um exemplo claro: sempre que a mídia de extrema-esquerda cita Gilmar Mendes, o aponta como partidário. Mas juízes como Lewandowski são definidos, por eles, como “isentos”. Estão agindo como advogados. Qual deveria ser a posição de um advogado adversário? Definir Lewandowski como partidário e Gilmar Mendes como isento. Pois, de repente, chega alguém e diz: “Não, aí não né? O Lewandowski é partidário para eles, e o Gilmar é partidário para a gente he he he…”. Ou seja, ele tentou ser um juiz da questão, e não um advogado.

O chororô pode até surgir: “Ei, Luciano, você quer dizer que devemos dizer mentiras?”. Não disse isso, até porque isso seria um desrespeito com todos os advogados do Brasil. A profissão de advogado é respeitabilíssima. Mas ela é focada em observar os interesses do cliente deste advogado. Precisamos disto para uma democracia.

Em suma, precisamos de mais advogados. E os juízes das questões política? Estes estão na plateia.

4. O modelo do idealismo bocó

Não é fácil sofrer derrotas políticas uma atrás da outra. Talvez por isso, a mente de algumas pessoas cria válvulas de escape para fugir destas lutas e imaginar realidades inexistentes, buscando viver nessas “realidades”.

Citei um exemplo em meu livro “Liberdade ou Morte”, que trago de novo aqui. Em 24 de outubro, a Revista Veja publicou uma capa dizendo que Lula e Dilma sabiam de tudo quanto ao Petrolão. Dias depois, o governo decidiu cortar verbas de anúncios para a publicação. Qual deveria ser a reação dos liberais? Ficar em peso em favor da Revista Veja e lutar para que o governo não utilizasse verbas de anúncios de modo discricionário. Pois alguns destes liberais apareceram e disseram: “Pensando bem, é até melhor, pois nós, liberais, não defendemos o uso de verbas estatais para anúncios”.

Mas espere um pouco. Embora a afirmação esteja correta, existem três mundos possíveis: (1) um mundo onde não existam verbas estatais para mídia, (2) um mundo onde existam verbas estatais de modo isonômico, (3) um mundo onde existam verbas estatais de modo discricionário. Evidentemente, um liberal pragmático deveria lutar pelo mundo (1), mas, enquanto estamos no mundo (3), ele deveria lutar pelo mundo (2). Isso é óbvio, pois as mudanças sociais são progressivas. Mas, ao fingir que já estava construindo o mundo (1), quando na verdade estava apenas favorecendo o mundo (3), ele se aliou, sem querer, aos totalitários que pensava combater.

Eis o idealismo bocó.

Não há nada contra o idealismo em si, desde que ele não apague sua percepção da realidade e o transforme numa besta quadrada na mão de seus oponentes.

5. O modelo da equivalência moral entre as esquerdas

Vários destes modelos mentais anteriores são principalmente adotados por alguns liberais, mas este, em específico, é adorado por parte dos conservadores.

Acontece que faz parte da propaganda conservadora tentar igualar o liberalismo ao esquerdismo. Outros preferem dizer que todos os tipos de propostas que atacam a religião são “coisa da esquerda”, e daí definem tudo como “coisa do comunismo”. Por isso, eles acabam muitas vezes nublando as diferenças entre o socialismo puro – ou seja, totalitário, como praticou o PT – e abordagens da social democracia ou do social liberalismo.

Enquanto isso é uma forma de “vender” um modelo de conservadorismo, também é uma forma de ignorarmos o aspecto totalitário dos sistemas de extrema-esquerda. Daí, a mente pode colapsar: “Ora, se o PT e o PSDB são exatamente a mesma coisa, então tanto faz, não é?”.

Várias consequências danosas surgem daí por diante: falta de disposição suficiente para atacar o totalitarismo, bem como ausência total do senso de urgência diante das implementações totalitárias e, também, plena inabilidade de perceber como o oponente totalitário adquire poder absoluto.

A mente humana trabalha por distinção. Esse mecanismo permite priorizar a fuga diante de um leão, em comparação à fuga diante de uma jaguatirica. Ou a fuga diante de um tornado ou diante de uma mera chuva. Infelizmente, a mente que equivale todas as esquerdas – mesmo sabendo que, como direita, é importante estar sempre em combate contra este modelo de pensamento – vive os mesmos dramas daqueles que não sabem se precaver do perigo maior.

6. O modelo do “não jogo”

A política é um jogo. É como se fosse uma guerra, com diversos detalhes, meandros, ardis e daí por diante. Nosso trabalho é – dentro dos parâmetros aceitáveis de moralidade – entender essa guerra e cair de cabeça nos jogos políticos.

Todavia, muitos na direita reagem à mera existência do jogo. É por isso que muitos hoje em dia criticam o “isentão” como se fosse a maior das abominações, quando na verdade é apenas a aplicação do método de distanciamento da propaganda da fonte. Qualquer um que tenha entendido que está em guerra, sabe que depende do uso deste recurso. Então, por que ele se tornou uma “abominação”? Na verdade, deveria se tornar tua obrigação, de acordo com o contexto.

Outro exemplo: direitistas que dizem que o esquerdista “luta pelo monopólio da virtude”. Certo. Mas a pergunta é: quando é que você vai disputar esse monopólio da virtude também? Ou pelo menos começar a lutar pela disputa dos símbolos da virtude? Ora, sendo uma obrigação lutar por ocupar “as mais altas planícies da moralidade”, por que apenas o seu adversário está fazendo?

Em suma, não é raro vermos na direita o comportamento do “não jogo”, ou, melhor, de negação ao jogo político. De todos os modelos mentais, este talvez seja o mais danoso de todos.

Enfim, estes são seis modelos mentais que precisamos superar, aos poucos.

Claro que muitos não conseguirão superá-los, mas a redução dos danos causados por esses modelos mentais só tem a trazer resultados para todos nós na luta contra o totalitarismo de esquerda.

A regra é clara: quanto menos influência esses modelos mentais tiverem em nossos discursos, melhores serão nossos resultados.

E aí, existe algum modelo mental a mais que você gostaria de sugerir? Possui objeções? Sinta-se livre para contribuir…

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Para adquirir o livro “Liberdade ou Morte”, você pode consultar o site da Livraria Cultura ou da Saraiva.

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2 COMMENTS

  1. Falta à direita entender que ela precisa dominar a sociedade. A sociedade é um campo de guerra e quem domina mais pontos estratégicos leva a melhor. Fazer como os idealistas toscos e reacionários “out-of-the-game” é em si mesmo, perda de tempo.

  2. Ola Luciano. Bola dentro! Juntar todas as deficiências num post é muito importante e extremamente didático para nós que lutamos contra a tirania. Minha contribuição para enriquecer o tema é chamar atenção para um dos mais importantes meios utilizados pela consolidar sua narrativa: Registrar seus feitos reais ou fictícios no mundo físico, com o máximo de projeção possível.

    Olhando para trás vemos um feito realmente incrível. A esquerda conseguiu consolidar-se como defensora da liberdade, mesmo agindo contra ela em toda a sua trajetória de atuação política. Grande parte disso a meu ver deve-se a disciplina em utilizar de todos os meios possíveis para “colar” sua narrativa na mente das pessoas, isso inclui mudança de nomes de logradouros públicos (principalmente escolas), produção de curtas e filmes, eventos, homenagens, enfim, utilizam tudo o que encontram pela frente.

    Na fase em que se encontra a direita hoje, consolidar as conquistas é a meu ver a mais urgente providência a ser tomada por um governante liberal, cujo efeito é duplo; Impedir que caiam no esquecimento e neutralizar a narrativa que já está sendo construída em torno dos novos futuros “heróis” da esquerda (Lula, Dilma e cia.). Alô Dória, que tal mudar o nome de meia dúzia de escolas, pontes, viadutos (estas mais importantes) e praças pela cidade hein? Nome de herói é o que não falta: Caseiro Francenildo, Celso Daniel, Romeu Tuma Jr, Sinara Policarpo, Raquel Sherazade e etc. E mais, que tal construir uma estátua na frente da FIESP em homenagem aos milhões que sairam às ruas, no maior feito da história recente brasileira?

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