Sobre a fé cega na crença: seria um anestésico para obter sensação de conforto diante do mal?

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Eu não tinha nem 10 anos de idade quando, após assistir um programa na TV noticiando um crime bárbaro, praguejei e desejei a punição dos malfeitores. Reação mais do que normal. No crime, uma mulher havia sido estuprada e mutilada. Foi quando ouvi uma palavra de conforto “adulta”: “Ei, não pense isso dos sujeitos que fizeram esse crime. No fundo, eles também sofrem. Com certeza, eles não tinham oportunidades. No fundo eles são pessoas boas que foram obrigadas pela sua situação a fazerem isso. Eles no fundo tinham boas intenções”.

De imediato, senti uma sensação de conforto. Eu não precisava mais sentir indignação. Ver o mal de uma maneira compassiva pode ser uma forma de adquirir um anestésico em relação ao mundo. Não existe mais o “mal”, mas apenas um conjunto de “boas intenções que deram errado”. Trocamos a percepção do mundo como ele é para uma fantasia reconfortante. Nos tornamos absolutamente vulneráveis em troca de alguns segundos de conforto e prazer psicológico, provavelmente pela liberação de hormônios como endorfina, serotonina, dopamina e ocitonina pelo nosso cérebro. Praticamente um substituto para o Prozac, só que com muitos efeitos colaterais.

Por sorte, sempre gostei de ler sobre a natureza humana. Peguei apreço por Nietzsche quando não tinha nem 14 anos. Fui conhecer o material de Schopenhauer dois anos depois. A partir daí, se eu buscasse liberações de endorfina, serotonina, dopamina ou ocitonina pelo meu cérebro, o faria a partir de outros meios, não a partir de criação de percepções fantasiosas sobre os propagadores de atrocidades no mundo.

Um dos fenômenos mais recorrentes em boa parte da direita brasileira – podemos dizer que talvez metade dos liberais caiam nesse distúrbio – é a fé cega na crença. O fenômeno, que estudo há uns 2 ou 3 anos de modo mais detalhado, se manifesta em uma pessoa que não acredita no socialismo, por exemplo. Porém, mesmo não acreditando no socialismo, ela acredita na alegação de crença que o socialista diz ter. Isto é, ela se recusa a compreender a má intenção do socialista que, como todos sabem, quer ver as pessoas lançadas debaixo de um totalitarismo, com o único fito de atender ao interesse de seus líderes que adquirirão o poder tirânico. Mas a fé cega na crença faz com que o infeliz veja seu oponente de modo oposto: ele passa a ser visualizado como alguém que “tem boas intenções que dão errado” ou que “vive eternamente na busca pela perfeição”. É ridículo.

Algumas frases clássicas de quem está acometido pela fé cega na crença:

  • “Quando será que eles [os socialistas] vão aprender que o socialismo não funciona?”
  • “Boas intenções não são suficientes”
  • “Eles continuam não aprendendo que estatização dá errado”
  • “O socialista no fundo é um crente em projetos de ‘aperfeiçoamento do ser humano’ pela via do estado”
  • “Essa mania de controlar tudo para ‘fazer o bem’ nunca dá certo”
  • “O sistema (x) já fracassou na Venezuela. Por que tentam por aqui também?”

O termo fé cega na crença é adequado pois não há uma nesga de evidência que o socialismo seja “um conjunto de boas intenções que deu errado”. Logo, aquele com o distúrbio acredita na alegação de crença do oponente por um único motivo: fé cega. A pergunta que fica é: será que em troca de liberação de hormônios para conseguir sensação de prazer, vale criar uma vulnerabilidade diante do mal? Hoje em dia a ciência já mostrou que bons hábitos de vida, uma alimentação regrada e até um pouco de meditação podem ser úteis nesse sentido. As mesmas sensações de conforto e prazer psicológico também podem ser obtidas por diversos outros meios.

Em suma, não precisamos crer que os estupradores são “pessoas que querem fazer o bem, mas descuidam”, nem que o fraudador que vende bilhetes falsos “luta para ver você premiado”, nem que o hacker que invade redes “no fundo quer te ajudar a usar melhor sua conexão de Internet” e nem que o socialista “é apenas alguém querendo corrigir o mundo, mas se equivoca”. Podemos ver o ser humano como ele é. Se quisermos que nosso cérebro libere mais hormônios de prazer podemos buscar isso em outras fontes sem buscar criar vulnerabilidades patéticas em nossa mente e que só tendem a nos destruir.

Em suma, não precisamos da fé cega na crença. Não vá chorar agora, por favor.

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6 COMMENTS

  1. Luciano, procure ver o fenômeno por outro ângulo. Pergunto-lhe: vale a pena tentar mudar uma liderança esquerdista que só quer o poder? É óbvio que não, tenha ela a crença na possibilidade de sucesso econômico do socialismo ou não, e só queira o poder. Então, a quem devemos dirigir o discurso antissocialista? Parece-me claro que àqueles que são os idiotas úteis àquela liderança, àqueles que têm a crença nas “boas intenções” dos líderes e que constituem a maioria dos partidários da causa. Ora, qual você acha que é a melhor abordagem a se fazer do socialismo aos idiotas úteis, por você denominados “militantes funcionais”, que são a maioria? Dizer-lhes que a liderança que seguem é falsa e não acredita nas intenções por ela declaradas ou dizer-lhes que é o socialismo que não funciona como está na teoria? Para mim, é evidente que a segunda alternativa é a melhor, a mais eficaz. Dizer ao “militante funcional” que a liderança que segue é mentirosa seria o mesmo que dizer ao apaixonado que o objeto do seu amor não presta. Além disso, o idiota útil, supondo que acredite que seu líder é demagogo, muito provavelmente continuará a pensar que o problema seria a desonestidade do líder e não o próprio socialismo em si.

    Pense nisso.

  2. Caro Ayan, acho que já está na hora de tratar a direita negacionista nos mesmos termos. Eu estava vendo postagens do Alexandre Seltz, não acho que seja inocência. É malícia mesmo. Querem ser uma verdadeira caricatura para sacanear mesmo.

  3. O comentarista “otimista” tem um ponto válido, Luciano. O discurso para desmascarar a extrema esquerda deve se adaptar às diferentes audiências. Vamos supor que os destinatários possam ser divididos nas seguintes categorias: I- os direitistas e republicanos que percebem o embuste dos líderes da extrema esquerda; II- aqueles direitistas e republicanos que não percebem, por possuírem “fé cega na crença”; III- o público imparcial, que não possui preferências ideológicas; IV- os “militontos” ou esquerdistas funcionais. Excluo os líderes da extrema esquerda porque não há discurso que possa convencê-los de que estão “errados”.

    O discurso “desmarcarador”, que aponta as más intenções dos líderes da extrema esquerda, é voltado especialmente para a segunda audiência, composta por direitistas ingênuos. É um discurso que também pode ser eficaz junto à terceira audiência, constituída pelo público imparcial. É um discurso menos eficaz junto à quarta audiência, conforme apontado pelo comentário do “otimista”. Essa quarta audiência poderia, em minha opinião, ser subdividida em vários tipos. Existem aqueles funcionais totalmente enganados pelo discurso da extrema esquerda. Existem aqueles que “se deixam enganar” por vários motivos (afinidade emocional com o grupo no qual estão inseridos, preguiça de racionar, recebimento de alguma vantagem indireta ou a possibilidade de vir a recebê-la, etc). Esse segundo subtipo de militante funcional está no meio do caminho entre o funcional totalmente ingênuo e o líder esquerdista. Não é muito claro se algum tipo de discurso poderia demovê-los, seja apontando as más intenções dos líderes, seja apontando as falhas do socialismo. Eu sei que é difícil imaginar que possam estar agindo de boa-fé. E talvez não estejam, pelo menos não inteiramente… A psicologia evolucionista tem demonstrado que as pessoas podem ter diversos “sub-selves” e que podem ter dificuldade de integrar informações e crenças produzidas por diferentes módulos mentais ( http://press.princeton.edu/titles/9271.html ).

    Um desses módulos pode produzir alguma heurística moral, baseada em noções de igualdade, que levam a crenças e intuições morais equivocadas no nosso mundo atual ( http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&cd=1&ved=0ahUKEwidt-yotOLPAhWCHZAKHVcgCmQQFggbMAA&url=http%3A%2F%2Fwww.law.uchicago.edu%2Ffiles%2Ffiles%2F180.crs_.moral_.pdf&usg=AFQjCNGVRfEeDfk5wPimAll8YoaPHz0yyA ) ( http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&cd=1&ved=0ahUKEwiU3tTZtOLPAhVFIpAKHcSmDZsQFgggMAA&url=http%3A%2F%2Fwww.cep.ucsb.edu%2Fpapers%2FMoralHeuristicsLaw06.pdf&usg=AFQjCNHTmSs5ebuR5pciTH34sHApyhJBVw )

    Não estou inocentando os militantes funcionais. Estou dizendo apenas que a mente deles pode ser uma presa fácil para a atuação dos líderes esquerdistas, já que a propaganda esquerdista usa e abusa dessas intuições que ocorrem naturalmente nos seres humanos. No final, as pessoas podem exercer o seu livre arbítrio e se desfazer, com algum esforço, de crenças equivocadas originadas de tais intuições. A guerra política conduzida pela direita tem de ser multidisciplinar, tem de atacar em diversas frentes, tem de se valer de diversas táticas e deve se adaptar às diferentes circunstâncias e audiências.

    • Flávio,

      Aí é que está. Você diz que o discurso é ineficiente com o grupo IV. E ESTE É O OBJETIVO.

      Falar apenas aos que estão do seu laudo e aos NEUTROS. Os militantes funcionais não importam tanto.

      Ou você acha que quando o esquerdista te rotula como “inimigo dos pobres” ele está querendo TE convencer? Não. Ele quer te ABATER na guerra política.

      Abs,

      LH

      • Você tem razão. Os direitistas ingênuos, que estão do nosso lado, não precisam ser convencidos das falhas do socialismo, mas sim das más intenções dos líderes da extrema esquerda. Por outro lado, poderíamos tentar convencer os neutros tanto das más intenções dos líderes quanto das falhas do socialismo, com o devido peso para o primeiro tipo de argumentação que tem sido tradicionalmente negligenciada. Quanto aos militantes funcionais, o que vier em termos de convencimento é lucro. Em princípio, como você sugeriu, a nossa argumentação não deve ser voltada para convencê-los, mas para ganharmos deles na guerra política. Se tais militantes ficarem desiludidos com as más intenções dos líderes esquerdistas, isso poderá, em alguma medida, fazer com que tais líderes percam um pouco do seu apoio político. Ponto para nós. Se alguns dos militantes se convencerem das falhas do socialismo, haverá uma diminuição das chances de votarem em outro líder da extrema esquerda que pareça honesto. Ponto para nós. Porém, reitero, você tem razão. O nosso discurso não deveria, em princípio, ser confeccionado para tentar convencê-los. Se isso ocorrer, seria um efeito colateral bem vindo.

  4. Esse artigo me faz pensar na situação de Doria como prefeito de São Paulo.
    Fiquei preocupado com o convite dele para que Haddad, Marta, Erundina e todos os outros ex-prefeitos façam parte de um Conselho Superior da cidade. Haddad e Marta, espertos e pragmáticos que são, já aceitaram.

    Com isso, desconfio que Doria acredita na “boa intenção” dos esquerdopatas, acredita que eles tenham alguma contribuição positiva para a governança da cidade. Com isso, ele estará dando visibilidade a essas figuras, dando palco e voz política pra eles, e ainda, estabelecendo uma abertura que denota insegurança e ao mesmo tempo pode dar discurso a esses adversários, que se reunirão e tomarão café com ele e na próxima campanha eleitoral estarão atacando com eficiência e virulência como sempre fazem! Enquanto isso o Doria sai dizendo em tudo quanto é entrevista que “Haddad é um grande homem”. Acredita ele que isso será retribuido? Só rindo…

    Admais, as ideias, as propostas e o estilo deles PERDEU a eleição, enquanto as propostas e ideias de Doria GANHARAM a eleição. Porque cargas d´água tem que passar recibo de que está com medo de não saber o que fazer e precisa de ajuda dos experientes pra governar?

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