Trump: como a direita pode colher frutos tanto se ele ganhar como se perder?

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Republican presidential candidate, businessman Donald Trump speaks during the Fox Business Network Republican presidential debate at the North Charleston Coliseum, Thursday, Jan. 14, 2016, in North Charleston, S.C. (AP Photo/Chuck Burton)

A direita brasileira decerto amadureceu nos últimos anos. Mas, em alguns setores, ainda demonstra a maturidade de uma criança. Isso se vê principalmente na reação explosiva e irracional diante de críticas táticas.

Uma crítica tática não é focada em aspectos morais, mas em resultados. Queremos saber se algo vai funcionar ou não. Quase sempre quando fazemos uma crítica moral, uma parte da direita parece entrar em surto. Vale lembrar que alguns gurus não estão enganados, mas agem desonestamente.

Um exemplo vem à mente de imediato: critiquei duramente Marco Feliciano por sua reação lenta diante das acusações de Patrícia Lélis. Embora ele não fosse um de meus parlamentares favoritos, eu torcia por seus resultados na CPI da UNE. Por isso, era importante se preocupar com seu desempenho, assim como nos preocupamos com o desempenho do técnico de futebol do time para o qual torcemos. Mas teve gente que andou dizendo: “o que você tem contra Feliciano?”. Outro espertão bradou: “Você está tomando as afirmações de Lélis como verdadeiras”. Pura mentira. Mas o fato é que confundiam, como sempre, uma crítica tática como uma crítica moral. E, em alguns casos, teve gente que se fez de besta e agiu desonestamente.

Como resultado desse padrão comportamental, muitos grupos – especialmente alguns ligados mais fortemente ao conservadorismo e até ao neoconservadorismo – perderam a capacidade de avaliar criticamente suas táticas. Nesses grupos, as pessoas tem medo de dizer coisas como “esse discurso não vai funcionar” ou “essa tática não está indo no caminho certo”. Possuem medo de fazer correções de rota, uma vez que as críticas táticas são encaradas como ofensa.

Felizmente, eu escrevo para meus leitores, os quais costumam gostar de críticas táticas, pois tudo aqui é baseado na criação de conscientização sobre o jogo político. A maioria das críticas táticas não são feitas para os candidatos – até porque nesse ponto entramos quase sempre “tarde demais”, quando é difícil fazer correções de rota -, mas para que possamos aprender futuramente com os erros.

O fato é que há muita gente que confunde quase tudo que escrevo sobre Donald Trump.

Comecemos: é obviamente melhor para nós que ele vença seu embate com Hillary. Já tivemos a evidência da deleção dos 33.000 e-mails e de diversas outras ações que deveriam colocá-la na cadeia. Por mais que rejeitemos as ideias e comportamentos de Trump, não dá para compará-lo com Hillary. Para piorar, ela é autoritária e até totalitária. Ademais, poderá nomear mais três juízes da Suprema Corte. Em suma: a vitória de Hillary significa o inferno na Terra, não apenas para os Estados Unidos, como também para o mundo.

Creio que minha posição está bem clara aqui, não? Não é nem uma posição pró-Trump, mas uma posição anti-Hillary. Novamente ressalto o quanto deixo claro que é bem melhor que Trump vença, pelos motivos já apresentados.

Mas precisamos olhar para os fatos: Trump é um candidato ruim demais. O Partido Republicano merece um puxão de orelha por não ter feito um background check adequado de seu passado. Será que a divulgação de todos esses áudios não estava prevista? Ou o Partido Republicano se deixou seduzir tanto pelos 100 milhões de dólares doados pelo próprio candidato para a campanha que “deixou isso pra lá”? Seja lá como for, é claro que tratamos de um candidato fraco.

Ademais, Trump tem o costume de não moderar sua linguagem e nem mesmo de planejar seus discursos estrategicamente. Com exceção do segundo debate presidencial, ele também é frouxo e toma surras de rótulos a ponto de ficarmos com pena. A certo momento, parece até uma criança política tomando rótulo atrás de rótulo de um adulto que está morrendo de rir do outro lado.

A verdade nua e crua é que em termos de guerra política Donald Trump é uma negação. No fundo, é um Jair Bolsonaro com uma conta corrente muitíssimo mais recheada.

Vemos a todo momento pessoas reclamando “ah, mas a mídia favorece Hillary”. Ué, mas ele não estava contando com esse fator adverso antes? E quais foram seus planos para passar por cima desta barragem de propaganda? Pensando bem, para que planos se alguém está sempre com a razão, não é mesmo?

Esse é talvez o aspecto mais incômodo da postura de Donald Trump: ele está sempre certo em “suas táticas”. E se não der certo, ele culpará aqueles que não o apoiaram – como se não fosse sua obrigação, pela posição de candidato representante, conquistar esse apoio -, ou então transferir a responsabilidade para a mídia e, quem sabe, até para o “julgamento errado do povo”. Pessoas assim são incorrigíveis. Tudo pode funcionar bem em uma empresa onde ele pode controlar o que quase todos pensam. Mas no território aberto? Não funciona.

Assim, mesmo que o melhor mesmo para a direita seria que Trump vencesse, a realidade mostra que essa vitória é quase impossível. Pois é aí que deve ser tirado algo de útil dessa adversidade: a derrota de Trump pode servir como um símbolo dizendo que a frouxidão na guerra política – em suma, o “não jogo” – precisa ser enterrada.

No Brasil, já tivemos exemplos infinitos de que o “não jogo” só serve para criar desastres políticos. Vimos Aécio perder uma eleição ganha para Dilma, bem como Eduardo Cunha – se recusando a rotular o adversário – conseguindo se tornar até mais rejeitado que a ex-presidente cassada. Vimos Marco Feliciano sumir do cenário político, mesmo que ele tivesse toda a razão no caso contra Lélis. Mas se não jogou o jogo, perdeu e foi para o ostracismo. Jair Bolsonaro não cometeu nenhum crime de calúnia contra Maria do Rosário. Na realidade, ele foi vítima de um crime de difamação. Mas como só ela jogou o jogo, ele terminou denunciado pelo STF e ela está morrendo de rir até hoje.

Nos Estados Unidos, as derrotas de John McCain e Mitt Romney para Barack Obama já deveriam entrar para o catálogo de fracassos conquistados pelo “não jogo”. Mas se Trump perder essa eleição, será uma derrota ainda mais imperdoável, pois sua obrigação era vencer por no mínimo 20 pontos de diferença, dado existirem muitos aspectos negativos a serem explorados contra Hillary. Se ele não vencer, será em parte por não ser um bom candidato mesmo (ter um passado muito vulnerável), mas, principalmente, por não ter jogado o jogo.

As lições dadas por aqueles que se recusam a jogar o jogo se resumem a isso: lições dizendo “está vendo o resultado da escolha por não jogar o jogo?”. Se aprendermos com essa decisiva lição que pode ser dada pela teimosia de Trump (se ele perder), poderemos pensar em uma maior maturidade política.

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5 COMMENTS

  1. Se o Kasich tivesse ganho as primárias, com certeza iria bate a Hillary por uns 20 pontos. Ainda durante as primárias as pesquisas entre Kasich e Hillary já davam a ele quase 10 pontos de vantagem. Isso muito antes de explodir todos esses escândalos da Hillary (Sanders, wikileaks, etc). Ben Shapiro disse que isso é muito bem feito para os conservadores eleger um cara liberal como candidato republicano, vide os vídeos dele vazados.

  2. Luciano, eu não concordo com você. Você parece um engenheiro de obra pronta. E você ainda critica Olavo de Carvalho dizendo isso dele. Não importa o que Trump fizesse. Mesmo que ele fosse, segundo a sua avaliação, perfeito na estratrégia, ele seria destroçado pela imprensa americana. Assim como Bolsonaro o é pela imprensa brasileira. Toda a mídia americana está com a Hillary. E o Trump tem feito um bom papel, pois tem sido ele mesmo. Com seus defeitos. Com sua histrionice. Com sua pompa. Mas é alguém autêntico. É aí que mora sua qualidade. Se lá as urnas não forem fraudadas como aqui, Trump deverá ser o próximo presidente americano. Para sorte do Mundo livre.

  3. Wikileaks faz vazamento sobre a Venezuela

    São acusações de assassinatos a reveria, esquadrões da morte contra opositores, torturas, crimes contra a humanidade e tráfico de drogas, todos cometidos pelo Exército Bolivariano.

    https://file.wikileaks.org/file/bolivariana/

    Wikileaks faz vazamento sobre a China

    A repressão da China aos protestos do Tibet em Março de 2008 teve milhares de mortos, e foi similar ao evento da Praça da Paz Celestial
    https://file.wikileaks.org/file/tibet-protest-photos/

    Aqui mostra militares e tanques chineses entrando no Tibet para enfrentar o protesto.
    https://file.wikileaks.org/file/tibet-protest-photos/index2.html

    Mais imagens
    https://file.wikileaks.org/file/tibet-protest-photos/index3.html

  4. Ontem no debate Trump perdeu uma grande oportunidade de chamar Hillary de uma defensora de estupradores quando acusado de machista e misógino, um rótulo bem forte e que seria muito mais efetivo do que ficar se defendendo dizendo que “ninguém respeita mais as mulheres do que ele”.
    Apesar de achar que ele ganhou o debate por um 10 x 9, poderia ter ganho por 10 x 0. Hillary é muito vulnerável e ontem o mediador da FOX foi bem imparcial, colocando Hillary contra a parede ao falar do e-mail para o Banco Itaú (divulgado pelo Wikileaks), onde ela fala em “fronteiras abertas”. Num debate onde o terreno era mais favorável, Trump perdeu muitas oportunidades de ataque. Aceitou o rótulo imposto por Hillary de ser alguém que quer dividir a nação – sendo que é ela a praticar esse discurso -,não disse que ao aumentar impostos para os ricos ela tiraria emprego dos mais pobres, etc.

    Quanto a análise contida no texto, faria mais sentido se após o 2° debate, no qual Trump se saiu melhor, a diferença nas pesquisas tivesse caído. Mas, pelos dados q vem sendo divulgados, Hillary está ampliando a vantagem e podendo ganhar até no Texas (um estado majoritariamente republicano). Estou sem entender essas eleições americanas. Parece que o fato de Trump ter moderado o discurso fez com q ele caísse nas pesquisas. O povo parece gostar mesmo é da poha louquisse dele e não estão ligando muito para propostas.
    Outro fator que me parece ter prejudicado muito a candidatura Trump foi essa aliança informal com Putin. O ego do povo americano parece ser muito grande para aceitar ter um presidente que é elogiado pelo governante Russo. Preferem votar numa louca que claramente prega uma guerra contra aquele país.

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