Campanha de Melo vai aos abismos da depravação e da contradição ao tentar capitalizar tragédia

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A polêmica do momento está relacionada à morte do coordenador da campanha de Sebastião Melo (PMDB), em Porto Alegre. O coordenador, Plínio Zalewski, foi encontrado morto. Não demorou para que alguns correligionários de Melo tentassem culpar “a campanha adversária”, o que não faz muito sentido, pois a investigação sobre o passado de oponentes é comum no jogo político.

Observe como os aliados de Melo, do Diretório Municipal PMDB-POA, desceram ao nível do esgoto. Comentemos alguns trechos dessa baixeza:

O que Plínio não contava era que a artilharia dos ofendidos seria acionada fora do teclado. Sequer supunha que advogados fossem convocados a resenhar e lhe arremeter três petardos judiciais no lombo (faz lembrar Paulo Francis, que explodiu o coração em N. York quando não suportava mais o processo milionário que a Petrobras lhe impôs).

Será que os aliados de Melo estariam insinuando que os processos judiciais são parte das razões que levaram ao suicídio de Plínio? Anote bem esse trecho acima, pois ele será importante depois que eu apresentar o comportamento do candidato situacionista durante interação no vídeo com Arthur, o que será visto daqui a pouco.

Sestroso, Plínio sabia que viria mais. E veio: invadiram a página noFace book, hackearam seus movimentos digitais, ameaçaram a família e não lhe deixaram mais em paz. Teve de fechar a página virtual, trocar de telefone, encerrar aplicativos de troca de mensagens. E se calar. E emudecer. E duvidar da própria sombra.

Quem invadiu? Qual o laudo da PF? Quem ameaçou a família? Alguma coisa não está batendo. Isso já está com cheiro de capitalização política. Coisa vergonhosa.

Não satisfeitos, os arrivistas, não se sabe quem, lançaram mão de dois dispositivos nada metafóricos. Alguém fez vir de avião um tomahawk paulistano, ou melhor, um jovem cool, tri-bacana, bombado, com olhar juvenil, divertido e hilário que percorreu as ruas da cidade de Mário Quintana ciceroneado por tribunos locais para curtir, dar um like, no já vacilante Plínio, que todos tinham como forte, bravo e rijo, capaz de dar conta da escaramuça.

Eles estão citando o Arthur, do canal “Mamãe, Falei”. Então vamos tratar desse caso mais a frente para demonstrar como a atitude de tentar trazer o caso à tona mais complica do que ajuda a campanha de Melo.

O desfecho foi requintado: decidiram, no décimo-sexto ano do século XXI, alocar civis (quem são?) para seguir e fotografar o velho militante pelas alamedas da Andrade Neves, Riachuelo e João Pessoa – espaços urbanos que tanto lhe animaram a trabalhar nas últimas décadas. Pronto! A paranoia, o silêncio, a mentira e a campana empalideceram a alma, embaralharam lhe a mente e conflagraram o espírito. A ninguém é dado o direito de estabelecer correlação direta e exclusiva entre esses fatos e a morte de Plínio. Porém, a ninguém que examine esses fatos será dado o direito de não olhar com atenção possíveis correlações dos fatos com o subtexto da última cena de Plínio.

Espere aí… eles disseram que “a ninguém é dado o direito de estabelecer correlação direta e exclusiva entre esses fatos e a morte de Plínio”, mas em seguida afirmaram: “A paranoia, o silêncio, a mentira e a campana empalideceram a alma, embaralharam lhe a mente e conflagraram o espírito”. Ora, ou eles tem como provar que “a paranoia, o silêncio, a mentira e a campana empalideceram a alma, embaralharam a mente e conflagraram o espírito” de Plínio ou não tem como provar. Aliás, quais foram as mentiras publicadas? A de que Plínio teria feito campanha em horário de trabalho?

Você realmente não acha que essa narrativa pró-Melo está bizarra e contraditória demais? Pois ainda há um trechinho estranho:

Se você acredita que Porto Alegre pode ter movimentos que batalham pela liberdade, compartilhe!

Como eles podem falar em liberdade se atacam até o direito de alguém fazer um vídeo de questionamento? É sério: raras vezes vi tantas contradições em tão poucos parágrafos.

E tem muito mais: o jornal Zero Hora resolveu pegar no pé de Arthur do Val, do canal “Mamãe, Falei”, tentando insinuar que o vídeo de denúncia feito por ele teria alguma responsabilidade no suicídio de Zalewski. É um tanto leviano, no mínimo.

Nada melhor que assistirmos o famoso vídeo que supostamente teria incomodado a Zalewski:

Preste atenção no que acontece a partir de 1:20, no vídeo.

Arthur questionou: “Quanto ao Plínio, ele possui um cargo comissionado e usa o tempo dele – o tempo que nós pagamos com impostos – para ir trabalhar pela Educação […] Ele usa o tempo dele para te acompanhar em diversos pontos da sua campanha.”

Melo tenta refutá-lo dizendo que é preciso respeitar o “direito de expressão” de Plínio. Porém, Arthur não havia feito nenhum questionamento sobre isso, mas sim sobre o uso do esforço de seu funcionário comissionado no horário de trabalho para fazer campanha.

Em resposta, Arthur disse que Plínio poderia manifestar sua expressão, “mas não em horário de trabalho”. Daí o vídeo mostra diversos print screens de supostas postagens feitas por Plínio durante o horário de trabalho. Não estou entrando no mérito da validação dessas evidências, mas é preciso narrar o que acontece no vídeo.

Melo retrucou: “O senhor está fazendo uma falsa afirmação”.

Arthur o questionou, então: “Então ele não trabalhou para você durante o horário de trabalho?”.

Foi quando Melo arrebatou: “O senhor já representou no Ministério Público sobre isso?”

Arthur disse que não.

Daí Melo disse: “Então recomendo que o senhor faça isso agora”.

Ficou de olho no que aconteceu?

Sebastião Melo poderia ter feito todos os esclarecimentos a respeito de Zalewski. Se ele tinha argumentos para comprovar a inocência de seu coordenador, então por que sugeriu a Arthur que fosse ao Ministério Público Estadual?

Pois o restante do vídeo é simplesmente isto: conforme orientação de Melo, Arthur vai ao Ministério Público protocolar uma queixa para investigar a atuação de Plínio, além de obter demais informações sobre o assunto.

Repito: Arthur seguiu simplesmente a orientação de Melo. Mas o candidato situacionista teria todo o poder de fazer os esclarecimentos necessários. Em vez disso, resolveu desafiar o interlocutor, dizendo: “Então recomendo que o senhor faça isso [representar no MP] agora”.

Se for necessário, assista o vídeo de novo e comprove: Sebastião Melo expôs seu coordenador de campanha, enquanto Arthur fez simplesmente seu papel de cidadão, indo investigar os fatos e comparecendo ao MPE exatamente conforme o candidato sugeriu.

Esta é uma pergunta importante para Melo: por que ele orientou Arthur a ir ao Ministério Público – o que aumentou a exposição do caso de seu coordenador – ao invés de prestar os esclarecimentos e tê-lo defendido naquele momento?

Em suma, a maior contradição está aqui:

  1. Para capitalizar sobre a tragédia que se abateu sobre Plínio, o texto do Diretório do PMDB-POA disse que “os processos judiciais” atrapalharam a cabeça de Plinio
  2. Mas o próprio Melo orientou Arthur, do Mamãe Falei, a ir ao MPE lançar uma ação contra seu coordenador de campanha

Será que os aliados de Melo não prestaram atenção nessa contradição imoral e vergonhosa? Aliás, se os opositores quiserem apontar essa contradição, acabam de uma vez por todas com a campanha de Melo, que já está indo ladeira abaixo mesmo. Se não foi o candidato que escreveu o texto vergonhoso do Diretório do PMDB-POA, ao menos está de acordo com ele (pois eles não lançariam aquilo sem a anuência do candidato).

Em tempo: precisamos ser solidários em relação à família de Plínio, pois o que aconteceu é uma tragédia. Difícil identificar culpados neste momento, e o objetivo não é esse. Mas é importante buscar esclarecimentos, até para que se evitem acusações levianas.

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