Pensar Hillary na Casa Branca é como entregar sua filha a zumbis assassinos

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Um texto de João Pereira Coutinho – intitulado “Pensar Trump na Casa Branca é como entregar uma filha a um marginal” – demonstra o quão distante de uma visão pragmática e racional da política boa parte da direita brasileira está.

Basicamente, o texto defende uma heurística engraçadíssima (e que poderia ser digna de pena): algo assim “se uma opção mais próxima a mim não é a ideal, então optarei pela opção mais danosa para mim”.

Funcionaria assim: imagine que durante um apocalipse zumbi você está se protegendo de centenas de zumbis na sede de uma fazenda que serve como refúgio. Mas enquanto há milhares de zumbis lá fora – e você não tem armas e nem um carro à disposição, para fuga -, há dentro da sede um colega cujas piadas você não suporta. Pela lógica de Coutinho, o ideal seria sair e abraçar os zumbis, que devorarão seu cérebro. Mas por uma ótica mais pragmática, podemos aturar o mané por algum tempo, até termos outra opção. É claro que as piadas imbecis e sem graça do colega não o deixam ser uma companhia agradável. Mas quando pensamos nos zumbis do lado de fora da sede da fazenda, a coisa muda de figura.

Agora, observe as razões para Coutinho rejeitar Trump e apoiar o voto em Hillary:

  1. Ele não é bem, digamos, um “conservador ideal” (assim como o piadista do meu exemplo não é a companhia ideal)
  2. Ele não se comporta de uma maneira adulta (assim como o piadista tem piadas bem infantis)
  3. Ele é boçal (o piadista também é)
  4. Ele não é preparado para debates (o piadista ruim também não é preparado para contar piadas agradáveis)

Em cima disso, ele crava: “o negócio é votar em Hillary”. Ou seja, correr para o abraço junto com os zumbis.

Agora, observe a defesa pobre feita por ele do voto em Hillary: “E Hillary? Conheço o bicho há muitos anos e não nego a natureza mendaz da senhora. Mas a política não é uma escolha maniqueísta; em certos casos, é uma opção pelo mal menor. Clinton é esse mal menor.”

A defesa acaba aí.

Como não tem argumentos coerentes, Coutinho parte para o ataque aos que optam por Trump. Veja dois desses frames de ataque:

  • “Só as pessoas frívolas não julgam os outros pelas aparências. A frase é de Oscar Wilde e, como normalmente acontece, acerta na mosca. A mosca em questão é Donald Trump.”
  • “Entendo o raciocínio das massas: se Trump é um “conservador” (ou, para não sujar a palavra, alguém que está à “direita”), então o dilema está resolvido. Os vícios do homem transformam-se em virtudes; e as virtudes são elevadas a um patamar insano, ao mesmo tempo que a adversária desce às profundezas da indignidade moral. Essa atitude só revela uma mentalidade fanática e um certo grau de subdesenvolvimento intelectual. Não vale a pena lembrar que nem os Republicanos se comportam assim com Trump –e muitos deles, cedo ou tarde, se distanciaram do candidato.”

Nos dois casos, ele inventou falsos motivos para a escolha de Hillary em oposição a de Trump. O detalhe é que eu concordo com os itens 1 a 4 para criticar Trump. E mesmo assim, eles não embasam a escolha por Hillary. Aliás, eu não sou conservador, e por isso nem me importaria com o fato de Trump “não ser o conservador ideal”.

No fundo, Coutinho ignorou a real causa: votar em Trump não necessariamente é votar nele, mas especialmente contra Hillary. Ou seja, dane-se o “despreparo”, “as piadas ruins”, “a ausência de um comportamento conservador perfeito” (ou seja lá que diabos Coutinho queira dizer com isso). O que importa é: quem vai eleger dois ou até três juízes da Suprema Corte?

Por birrinha – e aí sim uma frivolidade de julgar os outros pelas aparências, ou talvez até uma mentalidade fanática e certo grau de subdesenvolvimento intelectual -, algumas pessoas tem feito a escolha deliberada de dar dois ou três novos juízes da Suprema Corte aos esquerdistas. É curioso que Coutinho tem preparo intelectual para não cair nesse tipo de lógica bizarra, mas mesmo assim não consegue visualizar a real questão.

Ele poderia até contra-argumentar, dizendo: “Ah, mas eu nem pensei na questão da escolha dos dois ou três juízes da Suprema Corte”. Mas se você discute política e não se importa com os aspectos de conquista e manutenção de política, então se afastou da essência da discussão. Melhor trocar de assunto para discutir cinema, teatro ou música, pois quem não se importa com a luta real pelo poder está alheio às únicas discussões de fato sobre política.

Nada contra quem escolhe votar em Hillary a partir de uma argumentação racional. Por exemplo, se alguém apresentar um argumento coerente dizendo já haver considerado até a questão da eleição de dois ou três novos juízes da Suprema Corte pelos esquerdistas e mesmo assim sustenta a opinião, merece ser respeitado em sua escolha. Mas se o indivíduo é de direita e não dá qualquer tipo de tratamento à essa questão básica, então obviamente a escolha não merece respeito.

Aí sim, essa pessoa se encontra numa posição na qual pensar em Hillary no poder é igual entregar sua filha a zumbis assassinos. E esta é a maior beleza – um tanto sádica e cruel – da política: ela é quase toda baseada em escolhas.

Eu não queria estar na pele dos direitistas que estão fazendo propaganda por Hillary depois que a democracia estiver destruída nos Estados Unidos após a Suprema Corte estar toda dominada por esquerdistas. É quando pessoas como Coutinho serão lembrados por seu apoio a Hillary. E daí dizer que “Trump não era o conservador perfeito” de nada adiantará para exonerar alguém moralmente de sua responsabilidade.

A ver.

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9 COMMENTS

  1. Luciano, perfeita a sua análise! Dia desses eu estava discutindo na internet o fato de que existem “conservadores de esquerda”. João Pereira Coutinho é um digno exemplar da espécie. Aliás, Putin também pode ser definido como um “conservador de esquerda”, assim como toda a cúpula do Partido Comunista Chinês.

  2. Já aconteceu comigo… reneguei o Olavo por 20 longos anos… depois o raciocínio lógico e absurdamente coerente do cara me etingiu em cheio.
    Você é o melhor sniper da direita que eu conheço. Só te faltava a base histórica, cultural e política.
    Não é preciso ser amigo dele, bajulá-lo ou lamber-lhe as botas como muitos fazem… mas comentar os fatos atuais e passados sem tê-lo como referência é dizer que foi ao churrasco onde só tinha galeto.

  3. Eu acho você que cometeu alguns equívocos aqui:

    1 – A critica de Coutinho não é que Trump não seja um “conservador ideal”. Você disse que não é conservador, e isso parece ser sincero, pois se fosse saberia que os conservadores não ligam para ideais. A crítica de coutinho é que o Trump é uma ameaça àquilo que se vale a pena conservar nos EUA: a constituição, à liberdade e as instituições democráticas. As declarações de Trump diversas vezes sugerem que ele não tem apreço a essas instituições que foram tão vitais para o estabelecimento da grandesa dos Estados Unidos da América. Assim, se o Coutinho estiver certo e ele for uma ameaça real e concreta a estas instituições, então ele está correto em não gostar dele.

    2 – Segundo, todo o seu argumento, como o final deixa claro, partem do princípio que a política é a organização sistemática dos métodos de obtenção e manutenção do poder. Embora esta visão seja bem antiga, e Maquiavel tenha sido aquele que lhe deu contornos definitivos, ela é tremendamente questionável. Há muitos teóricos que discordam desta ideia; ademais, ela parece ter sido a visão política da esquerda durante toda a sua história. Assim, será que utilizar a tática política preferida das esquerdas seja o melhor método de vencê-la? Não que obter e manter o poder não seja importante, mas isto está longe de ser a essência da vida política.

    • Ricardo, vejamos.

      1 – O problema é que Coutinho não argumenta que a eleição de Trump causaria mais dano à “constituição, liberdade e instituições democráticas”. Ao contrário: é com a nomeação de mais três juízes da Suprema Corte que teríamos o fim disso tudo. Veja que quase viramos uma ditadura principalmente por isso no Brasil.

      2 – Isso não é apenas meu princípio. É a realidade. Se você quiser, por exemplo, nomear as melhores pessoas para uma equipe, precisará ter o PODER de nomeação. Mas se o PODER de nomeação estiver nas mãos de outro, então você não vai nomear ninguém. A visão de Maquiavel é apenas realista. Me explique como você pode fazer qualquer coisa na vida sem ter o PODER de fazer essa coisa?

  4. A minha avaliação é de que o maior perderdor destas eleições é o partido Republicano. Qualquer outro pré candidato seria uma melhor opção que o Trump e muito mais difícil de ser descontruído pela extrema esquerda. Na pré candidatura, o Trump que mais falou ao coração dos republicanos e os outros pré candidatos não o desconstruiram.
    O povo americano também pode-se dizer com um dos perdedores, mas a perda ainda pode ser muito maior com a eleição da Hillary.

  5. Eu consigo entender que conservadores critiquem fortemente o Trump, principalmente conservadores não americanos, que são observadores externos e não possuem nenhuma influência no processo eleitoral de lá. Um intelectual português não precisa fazer escolhas quanto a eleição americana, ele pode perfeitamente se limitar apenas a análise de Trump. Agora, a partir do momento em que se defende Hillary, a coisa muda completamente de figura. Ele está defendendo alguém que zombou de mulheres estupradas, que defende o aborto até 9 meses de gestação, que foi responsável pela morte direta de americanos em Bengazi, que é corrupta até o último fio de cabelo. Ou seja, ele se recusa a analisar a candidata democrata com o mesmo rigor que fez com o republicano. Isso é uma tremenda desonestidade intelectual e talvez indique certa covardia e vontade de ficar bem na fita com a patota esquerdista.

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