Sobre Trump, Hillary, a Suprema Corte, o poder, a realidade e o que alguns direitistas ainda não entenderam

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Preciso deixar clara a minha posição sobre Donald Trump para que cessem as confusões em relação a esse respeito. Por exemplo, alguém escreveu: “Mas por que você defende Donald Trump?”. A resposta: “Eu não defendo Donald Trump”. Na verdade, eu o repudio.

Para mim, a principal obrigação de um candidato de direita é vencer seus adversários. Trato os candidatos de direita dessa forma. Obviamente vou cobrar que atue em conformidade com alguns padrões morais que eu defenda, mas de nada adianta ele estar adequado se não for competitivo. É quase da mesma forma que avaliamos o técnico de futebol de nosso time. Não adianta nada irmos com a cara deste técnico de futebol se ele derruba o time para a segunda divisão. Nesse caso, pedimos a cabeça do técnico. Para políticos profissionais, vale a mesma coisa.

A obrigação dos políticos que apoiamos

Na mão do político profissional, geralmente existe um orçamento. Quando ele está em campanha, há um financiamento para suas atividades. O partido só financia este político se existir uma expectativa de aderência de um certo público às suas ideias ou propostas. Logo, a base de apoio justifica esse financiamento, tanto como a existência de torcedores justifica o investimento em jogadores e em um técnico. Sem os torcedores, não há jogadores e nem um técnico. Sem o público para um político, não há recursos para campanha. Assim, não somos nós que servimos a um político profissional. Ao contrário: ele é quem nos serve com uma atuação que deve ser digna, propositiva e principalmente competitiva.

Quando um candidato é ruim, ele faz um desserviço a nós. Mas isso não pode significa torcer para o time adversário. Por exemplo, um amigo é torcedor do São Paulo, que luta para não cair para a segunda divisão. Ao mesmo tempo, ele espinafra o técnico Ricardo Gomes o tempo todo. Chega até a ser chato. Mas o fato de ele não gostar do Ricardo Gomes, como técnico (e até achar que ele deveria ser trocado, assim que possível), não significa torcer para o time cair para a segunda divisão. Portanto, quando eu escrevo contra a candidatura de Hillary, isso não significa que eu “goste” do Sr. Donald Trump. Acho que meu amigo repudia tanto o técnico Ricardo Gomes, do São Paulo, quanto eu repudio Donald Trump como candidato republicano.

Os defeitos de Trump

Minhas principais críticas a Donald Trump se referem à sua teimosia política. Ele é daquele tipo turrão e que gosta de “falar o que vem à cabeça”. Depois, precisa ficar gastando um tempo considerável para se livrar dos problemas criados por sua língua solta. Aquilo que poderia fazer sucesso em um reality show (um ambiente controlável) se torna míssil político para ser utilizado contra ele. É quando o sujeito, metido a besta, precisa voltar atrás, com o rabinho entre as pernas. Isso é repugnante. Os tais “metidos a besta” na guerra política se tornam irritantes para quem gosta de avaliar a questão sob a ótica do jogo político.

Não é só isso.

O passado de Trump também não é lá essas coisas. Não apenas ele tinha alianças com os esquerdistas – como fazem os principais megaempresários dos Estados Unidos -, como também é vulnerável na guerra de vazamentos. Para quem quiser encontrar algo no passado de Trump (principalmente por ele ter sido conhecido por “dizer o que lhe dá na telha”), o jogo é fácil. Não seria tão fácil se a briga fosse contra Ted Cruz ou Marco Rubio.

A postura messiânica adotada pela campanha de Trump é igualmente incômoda. É algo bem parecido com a campanha dos Bolsonaro aqui no Brasil, que se baseia no ataque aos divergentes táticos. Isso é típico de mentalidades indispostas ao criticismo tático. Experimente dizer que um Bolsonaro se equivocou na postura durante um debate e será tratado como um “esquerdista infiltrado”. Eles agem assim porque é uma tática de campanha, mas isso não funciona para as conquistas mais importantes e que devem superar o nicho. A vantagem de Trump é que ele doou 100 milhões de dólares para a própria campanha. Os Bolsonaro não podem fazer isso.

Os motivos para meu repúdio a Donald Trump não se limitam a estes, mas podemos parar por aqui.

Como pragmático, aquilo que eu principalmente espero de um candidato de direita é isto: vencer. Donald Trump tem a obrigação moral de vencer Hillary Clinton, mas há grandes chances de que ele perca. E se perder, será por sua culpa.

Mas há uma diferença entre repudiar Donald Trump e optar por Hillary Clinton. Assim como há uma diferença entre repudiar o técnico Ricardo Gomes – e não me perguntem o motivo pelo qual meu amigo odeia o treinador, pois não assisto jogos de futebol – e torcer para seu time cair para a segunda divisão. Tenho certeza de que meu amigo torce fortemente para que seu time permaneça na primeira divisão.

O poder

Independentemente de você gostar ou não de Donald Trump, as questões relacionadas à política tem a ver com conquista e manutenção de poder tanto para o seu lado como para o adversário. Sua meta deveria ser restringir o poder de seu adversário e então conquistar mais poder para aqueles ao seu lado.

Algumas pessoas de direita “travam” exatamente ao abordar a questão do poder. Já vi gente dizendo que “política deveria ser mais do que disputa pelo poder”. Isso mostra o quanto discutir a realidade incomoda a alguns.

Sejamos adultos. Poder significa a capacidade de se fazer alguma coisa. Ter poder significa:

  • Ter permissão ou autorização para (x)
  • Ter a possibilidade de (x)
  • Ter a capacidade de (x)
  • Ter calma ou paciência para (x)
  • Ter oportunidade de (x)
  • Conseguir controlar ou dominar (x)
  • Ser suficientemente forte para (x)

Agora é só substituir (x) por “fazer alguma coisa”. Se alguém de direita tem medo de obter os atributos acima, então minha sugestão é que essa pessoa desista de pensar em política e passe a discutir apenas sobre cinema, culinária ou música, mas não sobre política. Para essas pessoas, discutir política só vai trazer sofrimento.

Se alguém quiser ter ideias de direita implementadas, precisará de ao menos um volume de poder na mão de direitistas, ou ao menos nas mãos de partidos e grupos que apoiem suas ideias. Se você defende um conjunto de ideias, precisa, antes de tudo, adquirir poder – e combater o poder de seus inimigos -, para que suas ideias sejam implementadas.

Imagine que você está inconformado ao ver que um gerente está prestes a demitir cinco funcionários que você considera não apenas excelentes como indispensáveis à organização. Agora considere que é possível que você assuma uma função, dando-lhe poder suficiente para reverter essas demissões e, com isso, ajudar a sua organização a tomar a melhor decisão. Se você considera estar no caminho certo, não há nada de moralmente errado em assumir a função e tomar a melhor decisão. Ao fazer isso, você adquiriu o poder de mudar o curso das ações. Em resumo, não faz sentido algum ter medo da palavra “poder”.

Se nosso interesse é evitar que a esquerda adquira poder excessivo nos Estados Unidos – e até progrida para um contexto onde a extrema-esquerda se torne uma alternativa viável por lá – é essencial vencer Hillary Clinton. Isso não tem nada a ver com gostar ou não de Donald Trump.

Você realmente optaria por dar poder totalitário à esquerda?

Há vários pontos preocupantes nessa eleição, mas o maior deles é a eleição de três juízes para a Suprema Corte. A eleição desses três juízes por esquerdistas poderá dar brecha para um semi-totalitarismo, e com certeza um nível de autoritarismo perigoso. As liberdades individuais tendem a ser violadas e o balanceamento de poderes correrá riscos. Leis proibindo a opinião direitista poderão ser implementadas e a Constituição deixará de fazer sentido. Isso acontecerá porque um nível excessivo de poder – e ter um número demasiado alto de juízes na Suprema Corte representando um dos lados é ponto central nisso – estará na mão de nossos adversários.

Um leitor comentou que “o discurso de Trump é problemático”. Mas na realidade, o discurso é o de menos. O discurso é quase irrelevante. O que importa é o resultado em termos de poder. Discurso é coisa que cada um faz de acordo com a conveniência. Quando Hillary, com sua Suprema Corte totalmente esquerdista, acabar com a voz de direita, impor censura e dar cabo tanto da primeira como da segunda emenda, como se posicionarão aqueles direitistas que optaram em favor de um projeto de poder para que essa Suprema Corte fizesse tudo isso em favor deles?

Aliás, para tornar a discussão mais tangível, poderíamos dizer que a eleição não é nem tanto entre Trump ou Hillary, mas entre “3 juízes novos fora das mãos da esquerda” versus “3 juízes novos nas mãos da esquerda”.

Então é muito simples. Há uma distância entre eu repudiar Donald Trump – talvez uma das piores escolhas do Partido Republicano em muito tempo – e apoiar a eleição de Hillary.

O detalhe é que neste momento a escolha é quase um posicionamento moral, visto que a batalha está quase perdida para Trump. Eu não digo que são favas contadas, mas reverter o quadro é muito difícil. Além dos pontos apontados, ele foi até frouxo durante quase toda a campanha, só assumindo uma postura mais assertiva a partir do segundo debate. E pode ter sido tarde demais.

Mas o posicionamento moral é esse: no momento em que uma semi-ditadura começar nos Estados Unidos, por causa do excesso de juízes da Suprema Corte nas mãos dos esquerdistas, como você, de direita, será lembrado? Por ter apoiado este projeto ditatorial – ao ficar do lado de Hillary Clinton – ou ter ficado contra ele? Creio que já está claro por que me oponho totalmente à eleição de Hillary Clinton, mesmo repudiando a figura de Donald Trump.

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10 COMMENTS

  1. Mas o jogo esá virando a favor do Trump. As pesquisas mostram que o Trump está liderando esta semana. O fato é que o Trump com seu estilo turrão que gosta de “falar o que vem à cabeça” deixou para trás todos os adversarios republicanos e ainda está muito competitivo e, ao contrário, com grandes chances de ganhar. Provavelmente, se Trump não ganhar, nenhum outro republicano ganharia. E a explicação é simples, o eleitor já cansou desses políticos tradicionais e a análise tradicional vai ficando defasada. Com a livre circulação de informações através da internet o eleitor está mais informado e não está sendo tão facilmente enganado. Por isso, o desespero dos políticos em censurar a internet. Esse fenêmeno está sendo menosprezado por muitos analistas. O que aconteceu no Brasil, por exemplo, foi uma catástrofe para a esquerda latinoamericana. O jornalista acha que pode publicar um artigo na Folha ou no blog escrevendo um monte de mentiras e fica por isso mesmo. Engano. O jornalista Augusto Nunes postou no seu blog: “Prometo a meus eleitores e apoiadores e a todo o povo dos Estados Unidos que aceitarei totalmente os resultados dessa grande e histórica eleição presidencial… se eu ganhar”. (Donald Trump, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, confirmando que tem tanto apreço pelo regime democrático quanto Fidel Castro, Vladimir Putin, Nicolás Maduro e a turma do Foro de São Paulo). Se foi isso mesmo e não foi tirada do contexto, foi uma brncadeira, o suficiente para um esquerdista tentar desqualificá-lo. O Augusto Nunes, crítico de primeira hora do PT, não esconde seu viés esquerdista. Outra Hillarista da Veja, a Vilma Gryzinski escreveu: “Mas nada o torna tão exótico quanto o apoio em Donald Trump. Thiel foi uma rara celebridade a discursar na convenção do Partido Republicano, quando Trump já era difícil de engolir por conservadores de variadas tendências.” Posto aquí e em mais meia dúzia de blogs. Não passarão.

    • É algo que eu tenho visto, de verdade. O Trump pode até não
      E mais, a narrativa Rigged parece estar rendendo resultados. De fato, se é fácil achar vazamentos sobre Trump, sobre a Hillary existem filmes inteiros, desde Benghazi até os atuais PodestaLeaks. E o caso dos PodestaLeaks foi tão mas tão sério, que o Julian Assange teve sua internet cortada e em represália houve um DDOS nos EUA.

      Além do mais, é bom mesmo que Trump vença, pois todo o Congresso estará na sua bota, esperando a primeira falha. Agora a vadiosa estupratriz da Hillary, ela terá free pass.

    • Concordo com o que o Carlos17 falou. E não entendo porque o Luciano não consegue ver qualidades no Trump. Ele é o cara certo para brigar com os Democratas. Assim como o Bolsonaro para brigar com a esquerda no Brasil. Make America Great Again resume tudo!

    • Augusto Nunes chega a ser indelicado e hostil com leitores que não conhece, quando manifestam preferência pelo Trump que, para ele, seria um primitivo, louco e por aí vai (quando quem diz preferir Trump é amigo dele ou velho leitor do seu blog, o tratamento é outro, mas continua emitindo sentenças contra Trump sem qualquer fundamentação). O colunista é a arrogância em pessoa e se julga um exemplo de civilidade e moderação, quando não passa de um pedante emplumado arbitrário. Embora ele não o declare, tenho certeza de que é tucano.

      Eu é que não perco mais o meu tempo indo ao blog daquele sujeitinho presunçoso.

      A eleição norte-americana está servindo para uma coisa no Brasil: retirar as máscaras dos esquerdistas enrustidos que só são contra o PT e demais partidos de extrema-esquerda.

  2. Olá Luciano, achei sua análise muito boa e acrescento um fator que está sendo negligenciado na avaliação das reais possibilidades de êxito de Trump. O fenômeno brexit. o grau de endemonizacao midiática do Trump é tão grande, que muitos dos que irão votar nele certamente não o assumem publicamente pois “queimaria o filme”. Basta olhar o texto do Constantino ou mesmo o seu pra perceber essa defesa quase envergonhada do candidato. Esse fenômeno fez com que nenhuma pesquisa de intencao de voto captasse a vitória do brexit…. E diante das pesquisas claramente distorcidas (descaradamente eu diria), acredito que a quantidade de trumpistas discretos pode ser bem maior do que muitos imaginam. Acho que ele tem.sim chances de vitória. Abraço

  3. Sobre os perigos de mais um democrata socialista no poder e a virada da suprema corte para o lado deles,vale mencionar o que Alexandre Borges citou:
    _ com 5 juízes progressistas de 15 a 30 milhões de ilegais se tornarão cidadãos dos EUA com direito a voto. Isso fará com que não vejamos nas próximas décadas nenhum republicano presidente, pois imigrantes votam maciçamente nos democratas.

  4. Essa crença de que todo e qualquer poder é intrinsecamente mau, que toda relação de poder é sempre coercitiva e abusiva e que desejar poder é ruim/errado é uma das mentiras de Foucault. Muitos liberais e conservadores ainda estão mais doutrinados do que conseguem imaginar.

    Será uma tragédia se o time americano for para a segunda divisão das nações. Em 2050 teremos um EUA latino [no pior sentido] e uma Europa islâmica.

    * * *

  5. Esses haters do Donald são muito estranhos… só fazem repetir tudo que a grande mídia esquerdista nos apresenta, mas nem conhecem as propostas do cara. Sabiam que entre as diversas propostas de Trump, ele estabeleceu uma meta de crescimento de 4% pra economia americana, por exemplo? ou que ele fala abertamente em redução de impostos? pois é…
    Não se deixem levar pela mídia, principalmente a nacional; sabe aquela pesquisa que mostra Clinton 12 pontos na frente? é puro contorcionismo estatístico da ABC, uma rede de TV americana descaradamente pró-Clinton, que entrevistou 10% a mais de democratas; Tem dezenas de pesquisas saindo, com Trump a frente ou empatado.
    Os vazamentos do wikileaks e os vídeos do projeto veritas atingiram pesado a campanha Clinton; não são sobre besteiras ditas a uma década atrás, mas crimes reais cometidos pela campanha democrata.

  6. A última bomba é que o “Affordable Care Act” não vai sair nada barato. Democratas, como o governador do Minnesota, já estão criticando abertamente.

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