A goleada de Nando Moura sobre Arthur do Val em debate tem uma razão: só um lado jogou a guerra política

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Arthur do Val tem sido merecedor de muito respeito pelo seu ótimo trabalho no canal “Mamãe, Falei”, sendo elogiado por isso várias vezes neste blog. O youtuber Nando Moura também possui muitos méritos. O primeiro é liberal e o outro conservador.

Arthur ficou conhecido por deixar socialistas de calça curta em vários vídeos nos quais ele fazia questionamentos. Sua atuação nos levou a imaginar: está aí alguém que parece preparado para a guerra política. Pois a decepção não foi pequena. Arthur do Val tomou um 7×1 de Nando Moura por uma única razão: o conservador entrou para uma sessão de jogo político, enquanto o liberal adentrou ao “papo de amigo”. Deu até dó do último.

Como sou pragmático, optei por assistir para “ver no que isso vai dar”.

Arthur já começou errando ao aceitar debater sob a moderação de Allan dos Santos, que é aliado de Nando Moura. É como debater com o Marcelo Freixo, aceitando que Luciana Genro seja a moderadora. Foi um erro infantil.

Uma tática sensacional de Nando foi elogiar Arthur em outro vídeo, mas com a técnica da “adulação”. Basicamente é assim: “Você é um cara legal, sensacional, mas tem ideias tolas…”

Em suma, uma mistura de adulação com falsa condescendência, algo muito bem planejado. Dava para notar, pela expressão de Arthur, que isso serviu para ele abrir a guarda. (Aliás, se Nando ficar indignado com esse tipo de observação e dizer que “é uma vergonha achar que houve aplicação de falsa condescendência” será apenas outra instância de jogo. Aí já falamos de metajogo, um assunto para futuros posts.)

Outro erro de Arthur foi concordar com uma pauta claramente enviesada. Por exemplo, ao invés de falarem “sobre as drogas”, a questão foi modificada para “drogas sintéticas”. A questão do aborto foi mudada de apenas “aborto” para “aborto como método contraceptivo” – e Allan Santos marcou posição ao dizer que “isso é assassinato”, ou seja, agindo igual aos apresentadores da CNN agiam contra Trump, no debate com a Hillary. Independentemente de alguém concordar ou não com a rotulagem de aborto com assassinato, houve claramente uma jogada de reframing no início do debate a partir de um mediador. O engraçado é que Arthur não percebeu a jogada…

Os argumentos dos dois lados tinham seus problemas, especialmente políticos. Mas não é disso que tratarei aqui, pois prefiro focar nos aspectos da guerra política. (Mas vale dizer que os argumentos de Arthur contra a religião eram trágicos. E olhe que eu sou ateu, como ele. Mas eu não sou neo-ateu, enquanto Arthur parece sê-lo, pois usou o estratagema do “monstro espagueti voador”, que já é facilmente esmagável em debates políticos)

Nando Moura também venceu ao utilizar outras táticas que Arthur parecia não perceber, como usar o riso sarcástico a cada comentário sobre as opiniões do oponente. Note que não estou criticando Nando por fazer isso. Na verdade, toda a direita precisa aprender a jogar jogos assim. Até porque este é um blog de guerra política…

Nando também utilizou o recurso da indignação ao dizer que as ideias de Arthur eram abomináveis. Esse é outro componente essencial na guerra política – usar o poder da indignação -, bem como apelar ao coração e à emoção das pessoas. Histórias tristes de pessoas vitimadas por drogas e a crueldade de algumas práticas abortivas – o que é inegável, diga-se de passagem – deram o tom para clamar ao coração da plateia.

Enquanto Nando apelava ao coração, Arthur dizia “eu acho (x), por que eu tomo como princípio (y)”.

Arthur, aqui fica a dica: em debates políticos ninguém está interessado “no que você acha” mas sim quais em soluções você vai trazer para os sofrimentos do povo e dizer quais os culpados por este sofrimento. Nando fez isso o tempo todo. Em resposta a esses ataques certeiros, sair dizendo “eu acho (x)” não significa nada. Significa que ninguém precisa te ouvir…

Em resumo, Arthur saiu do debate personificado como uma mistura de monstro e idiota por Nando Moura, que ainda transmitiu a mensagem de que todos os argumentos do primeiro eram dignos de chacota.

É muito positivo notar que a direita tem mais alguém jogando sob as táticas da guerra política: Nando Moura. Eu não tenho como avaliar sua atuação em mais detalhes em outras questões e em outros embates, especialmente contra a extrema-esquerda. Mas nessa interação com Arthur, foi jogo político do início ao fim.

Roger Roberto, parceiro deste blog (e igualmente interessado na arte da guerra política), argumenta que muitos conservadores demonstram habilidade na guerra política, mas somente diante dos liberais que não estejam preparados para o jogo. Não apresentam igual desempenho diante da extrema-esquerda. Deixemos essa questão pendente por enquanto. O que importa é que neste debate Nando venceu com um pé nas costas.

E que fique para Arthur uma lição dolorida. Esse debate chegou a afetar sua reputação. Provavelmente deve afetar até sua confiança para futuras participações. Talvez ele precise de um tempo para se recuperar. Foi humilhado como o Brasil no jogo contra a Alemanha. Seus argumentos nem eram tão ruins, mas seu nível de jogo foi apavorante.

Ficamos até com a pergunta: “Que diabos aconteceu com aquele cara que colocava os outros em maus lençóis no canal Mamãe Falei? Era a mesma pessoa? Será que ele está ‘sob a influência’? Deu pane?”.

Guerra política é outra coisa. É rotular o oponente de desumano, é saber usar o sarcasmo na hora correta, é lutar pelo monopólio da moralidade, é apontar os vilões (seus oponentes) na luta contra os heróis (dos quais você faz parte), é esfregar as vítimas na cara do adversário, é usar a ridicularização, é atacar o caráter do adversário.

Em suma, é tudo que Nando Moura fez. E tudo que Arthur do Val não fez.

Em tempo: minha análise sobre Nando Moura foi elogiosa. Guerra política é isso que ele fez contra Arthur do Val. Agora cabe ao último aprender para tornar um próximo embate mais digno dele próprio. Até porque creio que Nando nem teve ter achado graça de ganhar de goleada um jogo que o adversário nem disputou.

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23 COMMENTS

    • Nando Moura tem feito um trabalho louvável na cura do esquerdismo entre os jovens e na divulgação de ideias da direita, levando ao conhecimento do público informações, ideias e autores sonegados pela extrema-esquerda na academia e na mídia. Agora, se você é um liberal pateta, um liberotário ou simplesmente um esquerdopata imundo, que se recusa a reconhecer isso somente pelo fato de o sujeito ser conservador e cristão, o problema é outro.

      • Juca,

        Este blog é pragmático e elogia conservadores que geram resultados, bem como liberais que geram resultados. Aqui já superamos a fase do “ainnn… não gosto pq é conservador”.

        Ademais, minha análise foi feita unicamente pela ótica da guerra política, e não dos perfis ideológicos de cada.

        Abs,

        LH

      • Tenho plena ciência disso. Não ataquei o texto, apenas respondi ao sujeito que despreza os frutos do trabalho do Nando por birrinha, ignorando o importante papel que ele desempenha na internet. Caso não tenha ficado claro, o insulto é dirigido aos patetas que se recusam a agir pragmaticamente, não aos liberais em geral.

  1. Quando digo que Luciano Ayan é o maior sniper da crítica política brasileira não o faço à toa.
    Mas Ayan, talvez inspirado em demasia pela antiga filosofia de guerra chinesa, hipertrofia a tática política e retórica fugindo à simples e intocável conclusão de que Nando Moura possa ter razão em muito donque diz. Somente isso.
    Venho assistido contínua evolução nos textos dele, contudo o Ayan cético, discípulo de mágicos desmistificadores, precisa encontrar mais conteúdo fora das quatro linhas onde vive o certeiro sniper.

  2. Luciano, posso estar sendo ingênua, mas o jogo fica mais fácil para o Nando a partir do momento em que ele tem convicção sobre seu posicionamento. A partir daí, estudar a guerra politica é fundamental para àqueles que nadam contra a corrente. No mundo contemporâneo ser conservador equivale a ser um mostro desumano. Pequenas doses de guerra politica são necessárias em quase todos os ambientes…

  3. Primeiro, obrigado pela análise, muito boa por sinal.

    Quem, como você, me conhece desde os tempos do blog anterior, sabe que estou totalmente longe de ser conservador, embora goste dos vídeos do Nando Moura.

    Nando é um cara necessário, mas tem posicionamentos complicados, como o apoio apaixonado ao Bolsonaro (que saiu-se péssimo na entrevista que Nando fez com ele, sem olhar nos olhos ao responder, dando voltas ao invés de responder o que o Nando perguntava), alguns discursos que parecem sair de um velho nascido nos anos 20, e todos esses temas que foram abordados no debate – embora não me simpatize com a barriga de aluguel, mas sou contra proibir.

    Concordo com o Arthur em absolutamente todos os pontos do debate, mas ele estava numa postura brother demais contra alguém que já havia até feito um vídeo num tom ameaçador dizendo para se preparar pois o debate seria pesado.

    Enquanto o Arthur encerrou o debate de braços abertos, Nando Moura não só encerrou dizendo que os argumentos de Arthur foram risíveis, como também FEZ UM VÍDEO posteriormente comentando o próprio debate, mais uma vez ridicularizando o Arthur. Está errado? Não. Está jogando.

    Gostaria, se possível, que você fizesse um post sobre metajogo, cujo qual cita nesse trecho abaixo:

    “(Aliás, se Nando ficar indignado com esse tipo de observação e dizer que “é uma vergonha achar que houve aplicação de falsa condescendência” será apenas outra instância de jogo. Aí já falamos de metajogo, um assunto para futuros posts.)”

    • Arthur defende “criminalização da homofobia”, aborto e Feminismo. Ele não é um genuíno liberal, ele só mais um left-lib moderninho.
      Nando Moura é outro que monta os argumentos falando que o capitalismo liberal é bom, mas fala que o livre mercado é ruim. Consegue se contradizer em dois vídeos feitos um perto do outro.

  4. Me lembrou o Trump no começo da campanha, que melhorou nos últimos debates mesmo em território inimigo, o Arthur também consegue melhorar, se ele quiser aprender algo com isso e estiver disposto a seguir esse caminho.

  5. Aproveitando o ensejo, esses popups do facebook são um pé no saco e aparecem em todas as páginas do blog. Não é suficiente deixar um banner na lateral, como no outro blog, ao invés de fazê-los surgir na home e em todas as postagens?

  6. Acho que o Arthur não abaixou a guarda. Ele já entrou de guarda baixa e deixou claro isso no primeiro minuto do debate. Foi para um debate como um visitante vai jantar na casa de um amigo pela primeira vez. Todo cheio de respeito e dedos. Para quem tenta ganhar espaço na política não é uma boa tática. Ele precisa mostrar mais convicção daquilo que defende. Tinha que encarar esse debate como um jogo amistoso. Não é para quebrar a canela mas perder nunca vai ser visto pela torcida como boa opção.

  7. Não é uma crítica, mas um desabafo.

    Eu só gostaria de saber o que nós, que fazemos oposição aos esquerdistas e à extrema-esquerda, ganhamos quando um liberal – no sentido tradicional e não sentido que os democratas americanos deram à palavra – e um conservador entram numa arena de guerra política e, como se não bastasse se posicionarem como lutadores em disputa por um título mundial, um se esforça para massacrar o outro publicamente, enquanto o outro, a mim me pareceu claramente, está entrando na “guerra” de peito aberto.

    Honestamente, ainda não consegui entender essa – me perdoem a expressão – “guerra de egos” da direita. Enquanto nós todos discutimos com nós todos, a esquerda, pelo menos aparentemente, se une e com a colaboração descarada da mídia e das autoridades que deveriam coibir as manifestações dá visibilidade às suas pautas e ainda por cima se mostram como vítimas da “truculência fascista” dos que a ela se opõem.

    • Você ainda está vendo a coisa toda com ares de inocência. Na guerra política, o objetivo é o poder. Para capitalizar poder, você precisa enfrentar adversários. Quanto mais forte é o adversário que você “tomba” com sucesso, mais “peso” ganham suas palavras.

      É por isso que a extrema esquerda tem vários partidos que disputam uns contra os outros. Cada um ali quer o poder para si.

      As uniões na extrema esquerda só acontecem quando é necessário derrubar alguém “de fora”.

  8. Arthur do Val é admirável e possui grande potencial.

    Claro, ele ainda precisa se desenvolver em conhecimentos e habilidades.

    Ele fez um vídeo que praticamente defendeu o feminismo e foi refutado pela dona da página Moça Não Sou Obrigada a Ser Feminista. Seria interessante você analisar também, Luciano.

    Infelizmente, esse debate foi quase (?) um “fogo amigo”, direita x direita.

    Estou me esforçando na medida do possível para absorver as estratégias de guerra política, mas ainda sinto dificuldade. Sugiro que elabore um curso em forma de postagens, mostrando explicitamente as estratégias, como contra-atacá-las e como utilizá-las ativamente.

    * * *

    • Prezado Emerson,

      Não foi um jogo direita x direita, até por que a direita conservadora não é a favor do assassinato de bebês e tão pouco da liberalização das drogas. O que os liberais e a direita conservadora possuem em comum está no âmbito econômico; todavia, até para existir a liberdade econômica (ou ordem econômica), antes deve existir uma ordem moral (como mesmo proposto por Adam Smith).

      Gostei da análise do Ayan, não por eu ir ao encontro às ideias do Nando, mas sim por este ser capaz de jogar bem a guerra política. Agora precisamos esperar que o Nando aceite um debate com alguém da extrema-esquerda.

      Abraços.

      • Urlan:

        Concordo e explico.

        Existem diversas vertentes entre os liberais, assim como há diversas entre os conservadores. Nem todos os liberais fazem apologia do aborto e da liberalização abrupta das drogas, da mesma forma que nem todos os conservadores defendem o regime militar com sua estatização crescente e pedem uma nova intervenção das forças armadas para impor sua visão de mundo a todos os brasileiros.

        Liberais amadurecidos entendem que a liberdade requer responsabilidade. E conservadores de boa estirpe sabem que há limites no que as leis podem impor, que é por definição impossível coagir pessoas a serem virtuosas, elas têm que ser persuadidas pelas palavras e pela própria experiência.

        Assim, a ordem moral só pode ser sólida se as pessoas tiverem liberdade de escolher e forem responsabilizadas por ela. Essas vertentes de liberalismo e conservadorismo são mais do que compatíveis, são complementares e interdependentes. Por isso a questão não é ser liberal ou conservador, mas como ser liberal e conservador.

        O Arthur é sincero e espero que amadureça, percebendo que ainda possui conceitos de esquerda em certos assuntos. O Nando também precisa mudar certos pontos, mas está mais avançado e sabe jogar. Porém, disse que não vai debater com um hipócrita.

  9. Entendo seu ponto de vista, mas achei que o Arthur foi muito melhor no debate justamente porque tentou mostrar seu ponto de vista sem descer o nível. Eu como eleitora não gosto de politicagem, frases de efeito e jogos emocionais, toda vez que vejo uma situação dessas lembro das aulas de filosofia sobre os sofistas e sinto repulsa pelo candidato. Esse tipo de discurso pode até colar com algumas pessoas, mas comigo não cola. Eu me considero direita conservadora, mas saí do debate com a sensação que deveria ser um mais liberal.

    • Tamires,

      O detalhe é que a postura de guerra política conquista o coração DA MAIORIA da audiência. Há uma minoria de pessoas que não se deixa influenciar, mas se focarmos apenas nessas pessoas perdemos todas as batalhas políticas.

      Abs,

      LH

  10. Eu não considero esse rapaz essa coca-cola toda. Ele pode muito bem colocar no canal dele apenas os videos onde tenha conseguido capitalizar sobre os oponentes – na grande maioria, idiotas úteis. Agora, nas situações que exijam um maior controle emocional e sagacidade, como nesse debate com um cara que não é lá essas coisas também, vai mal pakas.

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