Crivella ganhou porque soube jogar, e soube jogar porque não é de direita

3
108

Marcelo Crivella definitivamente não é de direita. Muito pelo contrário, aliás. O bispo faz parte da Igreja Universal, cujo fundador é assumidamente marxista, diz que a Bíblia é o livro mais comunista que já existiu, foi aliado do PT, chegou a ser até ministro de Dilma Rousseff. Obviamente, ainda assim, era uma opção muito mais razoável do que o totalitário e facínora Marcelo Freixo, mas isso não significa que ele fosse a opção ideal – até porque opções ideais raramente existem no mundo real.

Se analisarmos toda a trajetória eleitoral, desde o primeiro turno, fica fácil constatar como Crivella, mesmo com a enorme rejeição por ser membro da IURD, conseguiu se eleger com relativa tranquilidade. Como dito na análise que foi postada mais cedo, um dos acertos de sua campanha foi a utilização dos metaframes, algo que ficou em evidência na reta final. Uma postura também muito eficiente da parte de Crivella foi a de não ficar na defensiva, mesmo quando era atacado de inúmeras maneiras.

Pense bem. Crivella conseguiu se eleger mesmo enfrentando um adversário que foi ajudado pela Globo, pela Veja, por uma grande parte da classe artística, que tinha apoio de toda a elite carioca, dos acadêmicos e ainda, de quebra, o apoio do PMDB. Crivella soube jogar muito bem, ele se sobressaiu especialmente por ter entendido que a única maneira de anular a sua própria rejeição seria, de fato, trabalhar para aumentar a rejeição do seu adversário.

O bispo acertou em cheio quando trouxe à tona o assunto do pedreiro Amarildo, ou dos black blocs e a morte de Santiago Andrade, entre outras coisas. Ele acertou em cheio ao entrar com ação contra a revista Veja pela matéria caluniosa. Outra coisa na qual ele acertou foi em ter procurado, desde o início, se aproximar do povo, das pessoas comuns. Freixo é malandro, é esperto e é bem experiente, mas mesmo tudo isso não foi o bastante para toda a esperteza de Crivella e sua equipe. Eles jogaram bem, e jogaram bem porque não são de direita!

É pesado dizer isso, mas é a verdade. A direita brasileira ainda é muito pouco articulada e seus principais representantes, na melhor das hipóteses, recebem algum apoio pelo simples fato de existir um vácuo de liderança. No primeiro turno, o candidato da direita era Flávio Bolsonaro, mas a atuação dele foi fraquíssima, foi infantil. Ele jogou o jogo como uma criança jogaria xadrez com um jogador profissional experiente. Foi fácil, inclusive, para seus adversários o humilharem diversas vezes.

Flávio tinha muitas coisas a seu favor, sendo a principal delas o fato de que o Rio vive uma situação de extrema violência urbana. Ele, que por tradição tem a imagem de ser alguém que luta a favor dos policiais, contra os criminosos e contra a impunidade, poderia facilmente ter aproveitado isso em seu favor, mas não fez. Além disso, outra coisa que estava a favor de Flávio eram suas pautas. Praticamente todo o conjunto de ideias defendidas pela família Bolsonaro tem amplo apoio popular. A maioria das pessoas é contra as drogas, contra o aborto, contra a impunidade e contra o desarmamento civil. É claro que nenhuma dessas coisas é de alçada da prefeitura, mas ainda assim os benefícios que estas pautas trariam para sua imagem são inegáveis, só falou ele próprio ter explorado isso.

Seu principal algoz no primeiro turno foi, justamente, Marcelo Freixo. O psolista é bem mais experiente que Flávio, isso temos que admitir. Entretanto, revejam qual foi a atuação de Flávio na campanha, especialmente nos debates. Primeiro, um desmaio, que serviu para que seus oponentes tirassem sarro dele. Ok, é perfeitamente possível que ele tenha mesmo sofrido um mal estar, mas é muito mais provável que ele tenha ficado nervoso além da conta, o que lhe causou o piripaque e mostrou despreparo.

Depois, no segundo debate, ele teve a oportunidade de desmascarar Freixo quanto ao tema das drogas, que ele próprio escolheu. Contudo, em vez de mostrar ao público que seu opositor não respondeu devidamente a pergunta, ele gastou toda sua réplica para fazer uma piadinha boba e ainda cometeu um ato falho que, em seguida, foi corrigido ao vivo por Freixo. No terceiro debate ele teve uma atuação relativamente melhor, e só então é que resolveu trazer algumas questões realmente importantes à tona, quando já era tarde demais, quando já havia queimado o próprio filme.

Alguns até tentaram argumentar que Flávio, no fim, ainda “se saiu bem”, mas há uma forma objetiva de analisarmos isso.

Em 2014, quando Flávio Bolsonaro se elegeu deputado estadual pelo PP, ele fez mais de 160 mil votos. Foi, aliás, quase tão bem votado quanto Jean Wyllys. Seu pai, no mesmo ano, fez quase meio milhão de votos para deputado federal, sendo o mais bem votado de todo o Rio de Janeiro e um dos mais bem votados do país. Considerando que os dois concorreram na mesma eleição, e para cargos diferentes, fica difícil saber se todas as 160 mil pessoas que votaram em Flávio também votaram em Jair, mas, para efeitos práticos, vamos considerar que sim.

Jair Bolsonaro fez 464 mil votos como candidato a deputado federal, e isso indica uma altíssima popularidade. Flávio também foi muito bem votado, o que significa que a família em si tem alta representatividade no Rio de Janeiro. Considerando que eles concorreram a cargos do legislativo, havia muito mais gente na disputa, o que normalmente dispersa os votos. No caso de uma corrida pela prefeitura, há menos candidatos e, portanto, os votos são mais concentrados.

Em 2014, Freixo também se elegeu deputado estadual pelo Rio. Ele fez 347 mil votos. Mais do que Flávio, mas bem menos que Jair. Contudo, nesta eleição, como candidato a prefeito o mesmo Freixo conseguiu mais de 553 mil votos, enquanto Flávio conseguiu 424 mil. Ou seja, Flávio foi o terceiro deputado estadual mais bem votado no Rio, seu pai foi o deputado federal mais bem votado no estado e, de quebra, seu irmão Carlos Bolsonaro foi o vereador mais bem votado da cidade este ano. Não é estranho que toda a popularidade do pai não tenha sido o suficiente pra garantir a ele pelo menos uma votação igual ou maior?

Fato é que as pessoas perderam confiança nele. Quem votou em Flávio foram aqueles seguidores de fãs do Jair que, na falta de opção melhor, acabaram  escolhendo ele assim mesmo. O candidato não foi capaz de passar credibilidade, e ao mesmo tempo não soube aproveitar as oportunidades que teve para atacar seu adversário com a devida firmeza. Ele tinha, de fato, grandes possibilidades de chegar ao segundo turno, talvez até mesmo de ganhar de Marcelo Crivella, mas tudo o que conseguiu foi a quarta posição e uma votação aquém do possível e desejável.

No fim das contas, por ter servido como saco de pancadas, Flávio acabou ajudando Freixo a se destacar e certamente o ajudou a chegar ao segundo turno.

Anúncios

3 COMMENTS

  1. Depois de enfrentar a esquerda em 2006 e 2014 ao governo do Estado e à prefeitura da capital em 2004, 2008 há de se esperar que tenha aprendido para esta eleição 2016.

    Aprender a disputar uma eleição com esquerdistas não o torna esquerdista. Ou o resto da direita segue o exemplo ou a esquerda vence 2018.

  2. Parece até uma análise do Reinaldo Azevedo (torcedor do PMDB de Paes e Pedro Paulo), q pôs toda a culpa de ter havido um 2° turno entre Freixo e Crivella na família Bolsonaro – a extrema direita, segundo ele. Ele esquece q Eduardo Paes errou ao indicar um candidato fraco como Pedro Paulo e q houveram 2 candidatos q estiveram na base do governo (Índio e Osório).

    Uma grande falha dessa análise é desconsiderar q a eleição para o legislativo em 2014 foi a nível estadual. Ou seja, os 424 mil votos de Flávio Bolsonaro foram apenas na cidade do Rio. Acho q isso vale uma correção.

    Concordo q Flávio foi um candidato fraco nos debates. Mas houveram muitos outros fatores q levaram o mesmo a ser descartado por parte do eleitorado. Dentre eles temos o pouco tempo de TV, as pesquisas colocando o mesmo sempre abaixo do percentual real afim de forçar o eleitorado a dar o voto útil em Pedro Paulo, a estratégia dos outros candidatos de evitar fazer perguntas a ele no debate da Globo, a pouca ajuda do próprio partido, etc. Se com isso tudo ele ainda conseguiu 14%, sendo q desse total mais de 60% votaram em Crivella no 2° turno – o único candidato a transferir esse tanto de votos -, não dá para dizer que a campanha dele foi um fracasso. Tais dados mostram que a popularidade da família Bolsonaro é grande.

Deixe uma resposta