As "pequenas" manipulações da mídia brasileira e como podemos lidar com elas

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Ok, todos já sabem que a imprensa é em grande parte manipuladora e que ela trabalha dentro de uma agenda política. Isso não é – ou não deveria ser – novidade para ninguém. Um exemplo disso ocorreu ontem, quando UOL e Folha de São Paulo, ambos pertencentes ao Grupo Folha, postaram duas notícias com intervalo de poucos minutos.

Os ataques a Donald Trump são recorrentes na mídia brasileira e isso acontece não porque eles achem que vá influenciar no resultado das eleições. Qualquer um sabe que uma notícia da Folha não dará um voto a mais ou a menos para qualquer candidato americano em corrida eleitoral. Só que há uma agenda política e a mídia faz o trabalho sujo de construir uma narrativa. Se Trump perder, será a “vitória da democracia”, mas se ele vencer terá sido a “vitória da intolerância, do preconceito”, entre outras bobagens.

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Quem leu a manchete acima – e sabemos que a maioria só lê manchetes – deve ter ficado confuso. Seria esta uma matéria elogiosa a Donald Trump? Afinal, Silvio Santos é um dos maiores ícones da TV brasileira, é um homem admirado por muitos e é, acima de tudo, ídolo do povo. Se o empresário se candidatasse politicamente a qualquer cargo ele venceria com as mãos amarradas nas costas.

Quem realmente se deu ao trabalho de abrir a matéria e lê-la, percebeu que o link leva a uma matéria de Sérgio Dávila, que havia sido publicada na madrugada de sexta para sábado. O título original do texto, aliás, que leva ao “perfil” de Donald Trump, é: Milionário desde o berço, Trump nasceu em reality show.

Ao postarem esta matéria na página do Facebook, a Folha modificou o título para colocar diretamente a associação com Silvio Santos. Esta associação é feita no artigo, mas ela é bem passageira, lá no final. No único parágrafo do artigo em que o nome de Silvio aparece, a comparação fica até evidentemente desconectada da realidade. Veja:

“Numa analogia possível com o Brasil, pelos negócios polêmicos, as declarações disparatadas, a fama televisiva e o protagonismo do cabelo, Donald Trump candidato é o que seria Silvio Santos se o apresentador tivesse batido os caciques Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra numa hipotética prévia tucana e fosse escolhido o nome do PSDB para concorrer à Presidência do Brasil.”

Primeiramente, o que tem a ver o PSDB com o Partido Republicano? O PSDB está muito mais próximo dos Democratas. Se você perguntar a qualquer tucano, certamente a maioria deles é até pró-Hillary. Outra questão que não bate nessa comparação é o fato de que Silvio Santos não nasceu em berço de ouro, como a matéria afirma ser o caso de Trump. O dono do SBT, muito pelo contrário, cresceu na pobreza, morava na Lapa e construiu um império começando como camelô e trabalhando em empregos de baixo rendimento até finalmente ter uma oportunidade na mídia.

A analogia simplesmente não bate. Nem mesmo a comparação com o fato de ambos trabalharem na TV é válida. Trump está muito mais para um Roberto Justus sem papas na língua e irreverente do que para Silvio Santos. O criador do SBT sempre teve sua vida muito mais voltada para o humor, sendo ele próprio apresentador de programas cuja única finalidade é o entretenimento. Silvio Santos é descontraído, não tem nada a ver com o chefe rude que Trump interpretava na versão americana de “O Aprendiz”. Até mesmo os funcionários do SBT, como o apresentador Danilo Gentili ou o apresentador Ratinho, sempre colocaram o “patrão”, como gostam de chamá-lo, como um homem tranquilo.

Dito isso, vemos que não há realmente muitas similaridades entre Silvio Santos e Donald Trump. Por que, então, a Folha fez a comparação direta entre um e outro, chegando a modificar o título da matéria para postá-la no Facebook e no Twitter?

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A chamada acima foi postada 9 minutos depois, na página do UOL, como podem ver. Não é curioso?

Alguns detalhes, portanto, devem ser observados. Um deles é que Silvio Santos não fez nenhum comentário racista, tanto é que a própria matéria não mostra isso em momento algum. A piada com a moça obesa, se você assistir ao vídeo, foi feita em tom bem humorado e as próprias moças que ali estavam acharam aquilo engraçado. Ademais, o caso ocorreu no programa Teleton, um programa cujo intuito é arrecadar doação para a AACD, e isso aconteceu no sábado à noite. A matéria, entretanto, só foi postada na página após aquela anterior sobre o Trump.

Tirando o fato de que estão dando enfoque para comentários brincalhões de Silvio Santos e ignorando o fato de que o homem ajuda pessoas de verdade, cedendo espaço em seu canal anualmente para fazer esse programa que serve para arrecadar fundos a uma instituição beneficente, há também o fato de ser uma matéria extremamente sensacionalista.

Basicamente, o Grupo Folha denegriu a imagem de Silvio intencionalmente só para fazer a associação com Trump e, automaticamente, com o racismo e o preconceito com as mulheres, dois rótulos que tentam colar no Republicano desde o ano passado quando ele ainda era apenas cogitado como candidato. Como foi dito antes, nada disso irá afetar o resultado das eleições americanas, já que brasileiros não votam lá. O objetivo é fortalecer ao máximo essa narrativa, para que seja qual for o resultado eles tenham um discurso preparado para repetir à exaustão.

Para lidar com tudo isso, além do desmascaramento que sempre deve ser feito, é preciso gerar narrativas contrárias. A direita precisa entender que a extrema-esquerda não entrou nas redações de jornal da noite para o dia, isso foi algo construído por anos. De imediato, o que está ao nosso alcance é gerar veículos independentes de mídia e, sempre que possível, trabalhar em conjunto para reforçar as nossas próprias narrativas. Não há outro caminho para o curto prazo. Já como uma medida de longo prazo, nós devemos começar desde já a ocupar estes espaços, devemos começar a formar jornalistas entre nossas fileiras, devemos dar um jeito de colocar pessoas nossas lá dentro.

Também devemos praticar o shaming, sempre buscando constranger jornalistas vendidos. Se esse tipo de coisa começar a acontecer, eles vão perceber que as pessoas já sacaram qual é a deles e, com isso, vão recuar, vão ter que rever suas táticas.

Isso aí vai demorar a dar frutos, mas um dia dará.

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