Glossário | Fé Cega na Crença

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Há dois fatores impedindo o pleno desenvolvimento da direita brasileira. Obviamente, esses fatores não são exclusivos do Brasil, mas são manifestados mais fortemente por aqui do que, por exemplo, nos Estados Unidos e na Europa. Os fatores são:

  • negação da política
  • fé cega na crença

Não vou me estender na negação da política por aqui,  mas focar especificamente na fé cega na crença.

Fé cega na crença significa acreditar, sem a menor evidência, na alegação de crença de seu oponente. Preste bem atenção: não significa acreditar na crença dele, mas na alegação de crença.

Vamos a um exemplo já clássico para os leitores deste blog.

Imagine que estejamos julgando alguém por ter cometido a fraude de vender 30 falsos “bilhetes premiados” da loteria. Essa pessoa está riquíssima por ter fraudado tanta gente. Obviamente, todos os que compraram os falsos bilhetes premiados não receberam nenhuma pataca.

Aí surgem duas versões:

  • Versão realista: O sujeito é um fraudador, cujas péssimas intenções se materializaram em muita gente que perdeu dinheiro a troco de lada. Ele foi o espertão que levou vantagem.
  • Versão com base na fé cega na crença: O sujeito é um tonto, que veio com um plano absurdo para transformar 30 pessoas em milionários. Será que ele não percebe que este plano não funciona?

Observe a diferença radical entre as duas versões. Na primeira versão, realista, observamos a pessoa por suas ações, pois não há evidência alguma de que o sujeito realmente queria transformar todos em milionários. Ao contrário: ele é quem se tornou um milionário. Já no segundo caso, ele está sendo avaliado pelo seu discurso, pois se ele disse que tinha um bilhete premiado em mãos, é por ter certeza disso, não é?

Octávio Henrique fez um vídeo explicativo sobre este modelo mental:

Aliás, a explicação de Octávio nos permite um insight interessante. Precisamos questionar quais as razões para tanta gente ainda alimentar a fé cega na crença ao tratar os socialistas? (Os socialistas não são os únicos beneficiados pela fé cega na crença mantida por oponentes, mas com certeza são os que mais capitalizam com isso.)

Uma das razões pode ser a falta de coragem de reconhecer ter sido feito de besta por socialistas por tanto tempo. Assim, a mente criaria uma proteção ilusória para que a pessoa encarasse o socialismo como “um conjunto de pessoas enganadas na economia”, ao invés de reconhecer que no fundo os socialistas são espertíssimos e enganam os outros deliberadamente em nome de projetos de poder.

Outra razão pode ser o apego emocional à sensação de “possuir uma tese superior”. Assim, as narrativas do crente na crença sempre parecem querer “ensinar os outros a não serem tolos”. Logo, ele estaria sempre “ensinando” os socialistas a como conduzir a economia.

Estas duas facetas parecem explicar porque tanta gente inteligente no campo liberal ainda profere frases como estas abaixo:

  1. “O socialismo fracassou na condução da economia”
  2. “Esse modelo econômico de gente como Dilma não dá certo”
  3. “Quando será que eles vão aprender que isso não funciona?”

Todas essas três frases são instâncias claríssimas de fé cega na crença. No caso (1), a verdade é que o socialismo é a tecnologia de maior sucesso na implementação de sistemas totalitários, e este é o único objetivo real do socialismo. No caso (2), o modelo econômico de gente como Dilma dá muito certo para seu objetivo: construir estados inchados e totalitários, para serem saqueados e distribuir benesses aos sicários, que os manterão no poder em retorno. No caso (3), os socialistas já aprenderam certinho que seu método é o que melhor funciona para construir sistemas totalitários, e por isso eles não vão querer outro.

Como se vê, a fé cega na crença cria uma visão irrealista e infantilmente caridosa dos socialistas.

Como consequência, as críticas feitas pelos adeptos da fé cega na crença são frágeis e nada dizem respeito à realidade das implementações adversárias. Mas há um agravante ainda mais terrível: a mente dos adeptos da fé cega na crença se torna incapaz de avaliar as consequências das demandas socialistas. É por isso que tais pessoas dificilmente conseguem interpretar adequadamente um projeto de lei feito por um socialista que tenha por intenção acabar com a democracia. Se as intenções reais não são percebidas, basicamente o crente na crença começa uma discussão sobre superfícies de discurso, que no fundo não significa nada. Claro que as “críticas” dos adeptos da fé cega na crença causam algum dano ao socialista, mas sempre é um dano mínimo. O impacto das críticas ao oponente seria muito maior se adotássemos a versão realista.  É hora de reconhecer que a fé cega na crença é um colapso cognitivo, acometendo principalmente boa parte dos liberais e libertários.

Peço que ninguém se ofenda com essa observação, pois os “lapsos” da fé cega na crença podem acometer todos nós. Mas precisamos lutar contra isso e substituir esse tipo de visão infantil sobre as intenções do oponente por uma visão realista. Ao olharmos os oponentes de modo realista, podemos lutar contra o que eles realmente são, e não contra fantasias criadas por nossa mente em busca de conforto e anestesia psicológica.

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1 COMMENT

  1. Eu acrescento que essa crença de que os socialistas “erraram” economicamente possui mais uma razão de ser:

    isso acontece porque o sujeito simpatiza com o socialismo no sentido deste fornecer PODER ABSOLUTO ao governate, sendo o estado algo como um deus a ser adorado. Então os socialistas são apenas “INTERMEDIÁRIOS” equivocados da mística entidade. E eles, essas tão bondosas pessoas como os socialistas, é que sabem interceder com o Estado para criar o “bem comum” IMPONDO sua moral ideológica e mais racionalidade no trato econômico.

    É o tipo de gente que necessita de adorar entidades misticas, muito bem descritos na mitiologia bíblica do BEZERRO de OURO.

    Não conseguem viver sem estarem adorando e fazendo súplicas na esperança de serem atendidos. Assim o seu par ideal são aqueles maníacos que querem ser soberanos magnânimos e “salvar o povo através do Estado”. Um casamento perfeito de imbecis com maníacos.

    Os conservadores amam o Estado totalitário, mas advogam a economia com alguma liberdade a fim de propsperar. Contudo querem o “comunismo moral” segundo seus dogmas morais.

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